sábado, 25 de junho de 2011

FEMININO, SINGULAR

Olha só, que mulher! Claro, você não está vendo, mas eu estou. Aliás, eu a vejo sempre. Vou tentar descrevê-la para você, talvez assim você consiga ver também. Ela está de vestido preto, curtíssimo. Tem pele bronzeada e macia, cheirosa. Sorri com inteligência e sabe dizer palavras amáveis como ninguém.

Tem cabelos longos. Bom, algumas pessoas dizem que os cabelos não são dela, mas quem se importa com isto? O importante é que ela fica bem assim, de cabelos longos. Mas fica bem também de cabelos curtos. Fica bem com qualquer tipo de cabelo. Está certo que ainda não a vi com a cabeça raspada, no zero, mas imagino que mesmo assim ela mantenha sua beleza inabalável.

Tem pernas longas, e que pernas. Destas pernas que parecem ter azougue para olhos masculinos e femininos. Por onde passa, neste vestidinho preto, vão-se enfileirando olhos semicerrados, bocas abertas, queixos caídos num turbilhão de desejos. Pernas longas e passo macio feito felina.

Olha só, que mulher! Ah, havia esquecido que você não pode vê-la. A pele bronzeada parece que acabou de chegar da praia, o dia inteiro com o corpo exposto ao sol. Parece que saiu do banho agora, os pelos ruivos eriçados. Vê-la é correr os olhos e discorrer palavras impronunciáveis como quem cochicha murmúrios pausados.

Um aroma de romã enche o ar e esvazia os corações em suspiros e desejos. Ah, quem me dera. Cheiro feminino, legítimo. Nem precisa de muita coisa, para que se vire a cabeça, cheinha de bobagens perfumadas. E não é um perfume desses que se vai com facilidade, impregna a imaginação. Depois, é só imaginá-la que o ar emana o seu cheiro.

O sorriso é terno, doce e desafiador. A boca resplandece e os olhos serpenteiam com graça, desnorteando a gente. Tonalidades de cores cambiantes que se alteram conforme a densidade do riso, como se fossem furta-cores. Mas a sensação é de tranquilidade, de confiança plena, que até dá vontade de nos entregarmos por completo, sem qualquer resistência.

Olha só, que mulher. Ah, bom. Ainda bem que agora você entende. Desta vez posso falar assim porque você já pode vê-la também. Bem, tendo em vista que você agora consegue visualizá-la, entendo direitinho por que não dá para ficar indiferente a tanta beleza. Ou você ainda acha que preciso falar mais, apresentar mais detalhes?

Ah, então vamos buscar mais informações, mais motivações para aguçar a imaginação e trazer à tona o ideal de mulher perfeita que cada um guarda consigo. Eu diria, para continuar esta apresentação, que sua personalidade é um dos seus maiores atrativos: é simples, precisa no que faz e no que diz. Não sobra nada, cada detalhe tem apenas a exata dimensão do gosto mais apurado, mais exigente.

É madura, tem uma história de vida marcada por grandes alegrias e dores profundas. Tem a curiosidade da descoberta permanente e o espírito corajoso que a faz arremeter-se aos desafios de vida mais arriscados, como se se lançasse em trapézios em voos ousados, sem qualquer proteção de rede. É responsável e segura em seus compromissos.

Neste momento, você poderá estar-se perguntando, se tal mulher existe mesmo ou se será fruto de minha imaginação. Ao mesmo tempo, você mesmo, na dúvida, pensará que esta, de quem eu falo, poderá ser alguém que você conhece, sobre quem você tem estas mesmas impressões.

Não se trata apenas de uma mulher atraente aos desejos de homens, mas de alguém que inspira e faz suspirar, como modelo, outras mulheres.

sábado, 18 de junho de 2011

PERDÃO

Perdão. Perdi mais uma vez. Não me olhes com este olhar. Não silencies deste modo. Não sejas assim tão abundante. Juro, eu mesmo nem gostaria de te olhar, fico sem fôlego, nervoso por demais, mas é inevitável: és muito exuberante. E se te percorro o corpo o tempo inteiro é porque ostentas tanto teus traços provocantes, que nem dormindo eu ficaria indiferente, tampouco ausente.

Tens-me sob a língua e com ela sobejas meus quereres, é com ela que me reténs e me manténs refém. Contenho-me ante teus desejos ainda tão surpreendentes. Sob o corte dos teus dentes que esplendem e sangram a golpes de amor. Marcas de metais que os prendem a sorrisos suspensos e bambos, em todo o seu esplendor. O céu aberto nos convida a outros sonhos sobre as colchas rendadas em dias de lavores e dedicação. Nada mais a fazer senão nos dar assim um ao outro: eu te proponho...

O que fazer, se, dentre outros modos de pensar neste momento, um só se impõe irredutível como o pôr do sol. O chão perde-se em fé às promessas que deixamos rolar. As tramas insinuam dramas encenados sob displicências esquecidas, presas a desfechos prometidos, sem sequer nos falarmos. Infinidades de estrelas luzindo e sequer as vemos. Perco-me nas asas de tuas saias, vendo-te distanciar-se radiante no encalço de destinos longínquos.

Olhas a praça em que brincantes dançam frevo, feito loucos, e desguias este olhar de mim; assim me recomponho e faço de conta que não vejo. Gostas que finjam ignorar-te, enquanto exibes maneirismos, personagens retiradas de novelas de tevê. O cabelo posto sobre o ombro direito, donde observas fio a fio, com leve sorriso. Os pés descalços, as pernas cruzadas, a cabeça pendida para a direita e o olhar atento, se te olham. Respiras devagar, quase a não se perceber. Se a porta se abre, voltas-te, recurvando o corpo para trás. Se perguntam alguma coisa, respondes com indiferença aparente. Se não perguntam nada, és tu quem pergunta com falsa alegria: “o que desejas?” Depois de ouvir a indagação sobre o que quer que seja, respondes baixinho, com zombaria. Queres apenas que lhe repitam o que foi dito algumas poucas vezes.

Fico daqui supondo coisas que se vão sobre tua pele. As vestes íntimas, os pelos enfileirados e eriçados, com o frio do condicionador de ar. Ah, tantas coisas mais. Não fiques assim, não fiques aqui. O mundo te chama a ir-te e me deixar em paz. Só tu não vês o quanto me incomoda que me olhes, que me fales, que me sorrias, que me chames pelo nome. E eu que não desprego daqui. E eu que não me vou faz tempo. De salto, me toco com uma frase que certamente dirias, se eu te falasse o que tenho dito: “os incomodados que se retirem”.

Uma música ressoa nas caixas de som, Gal Costa interpreta “Meu bem, meu mal”: “Você é meu caminho, meu vinho, meu vício, desde o início estava você...” Fico acompanhando baixinho a canção, como a recitá-la para ti: “meu bem, meu zen, meu mal”. Fazes de conta que não percebes. Eu levanto um pouco a voz e viras de costas, para que eu não perceba que sorris. Levantas-te e mexes em algumas coisas como a procurar por algo. Percebo que baixas o volume do som enquanto me observas com zombaria. Dou-me conta que todos na sala me olham porque agora só a minha voz ressoa aquela canção.

Na verdade, desejo ser apenas aquilo que desejas. Alguma coisa como poder adivinhar teus pensamentos e poder me antecipar, só para agradar-te. Nestes momentos em que me parece que ris do mundo e, junto com ele, ris de mim, renego esta minha devoção. Mas, logo a seguir, volto a te desejar com mais força. “Teu corpo, teus pelos, teu rosto, tudo o que não me deixa em paz”. Imagino como posso prender-te e, ao mesmo tempo, questiono se o que mais admiro em ti não seja exatamente esta tua irreverência, aquilo que ninguém pode encarcerar, ninguém pode pôr cabresto... Perdão.

terça-feira, 14 de junho de 2011

PELA ÚLTIMA VEZ, MAIS UMA VEZ.


A repetição é uma técnica de fixação de ideias. As campanhas publicitárias trabalham com processos de repetição da mensagem em duas grandes linhas: 1) A multiplicidade de peças, que veiculam a mesma mensagem distribuída em diversos veículos de comunicação de massa, amplia as possibilidades de alcançar o consumidor em vários momentos do seu dia – ouvindo o rádio; enquanto se desloca para o trabalho; observando as placas de outdoor nos trajetos dentro da cidade; na televisão, nos horários de almoço ou antes de dormir; na leitura de malas diretas enviadas pelos correios; nos banners das páginas da Internet etc. 2) Na elaboração das mensagens em que a ideia principal é repetida algumas vezes no corpo do texto. Quer dizer, o consumidor e, principalmente, a consumidora são cercados por vários modos de ser, alcançados pelos anúncios e consomem antes do produto, as idéias publicitárias pela repetição.
A repetição é uma técnica de fixação de ideias e aprimoramento profissional. Algumas profissões lidam com a necessidade de repetir a mesma atividade em níveis diversos, inúmeras vezes, como modo de aperfeiçoar detalhes e conseguir melhores resultados. É assim, por exemplo, com a profissão de ator. Desde as primeiras leituras do texto, passando pelo tempo de ensaios e até mesmo durante a temporada em que uma peça fica em cartaz. Nas leituras iniciais do texto vão se definindo características dos personagens, e observando-se os focos de abordagem com ênfase numa ou noutra fala, numa ou noutra cena. Durante os ensaios, são feitos os ajustes de direção, marcações de palco, laboratórios etc. E durante o período em que a peça fica em cartaz, todas as noites, durante todo o tempo, repetem-se no mesmo horário e a mesma encenação para públicos presumivelmente diferentes. Há até alguma teoria que afirma que nunca um dia é igual ao outro, que cada plateia reage de modo diferenciado etc. e tal. Este argumento, apesar de pouco convincente, é repetido à exaustão como alguém a querer convencer a si, antes que aos outros.
A repetição é uma técnica de fixação de ideias e correção de falhas para o melhor rendimento da equipe. As práticas esportivas, principalmente as coletivas, carecem treinar horas e horas, repetindo os mesmos exercícios, incontáveis vezes. Romário, dizem, recusava-se a treinar alegando que já sabia o que fazer. Mas outros atletas obrigam-se a treinar sem descanso, até que adquiram o condicionamento técnico necessário ao melhor rendimento no exercício da profissão.
A repetição é uma técnica de fixação de ideias e apagamento da própria técnica. Os motoristas de coletivos e profissionais outros que diuturnamente repetem suas atividades, mas não o fazem para adquirir condicionamento técnico ou físico, como no caso dos praticantes de esporte, simplesmente assimilam a rotina do trabalho e meio que se anestesiam. De tanto que passam pelos mesmos lugares, as mesmas ruas e praticam os mesmos atos, nem se dão contam que estão se repetindo o tempo inteiro.
A repetição é uma técnica de fixação de ideias e produção da repetição. Muitos casais chegam a se separar pelo desgaste da rotina. Um reclama que o outro é muito previsível, que todo dia faz tudo sempre igual e a repetição das reclamações e dos desentendimentos leva em geral a que cada um busque seu próprio caminho, o que não é novidade também. Um poeta amigo nosso costumava dizer que não há nada mais antigo do que se buscar ser original. É então esta repetitiva manifestação de insatisfação que produz a fixação da necessidade de estranhamento com o diferente. Contra a repetição da mesmice se impõe a repetição da busca de novidade. Do mesmo modo que o movimento repetido, por atrito de uma superfície contra a outra, produz o desgaste e a carência de reposição em sistemas mecânicos, a fixação de ideias também nas relações familiares produz desgastes irrecuperáveis e nem sempre se pode repor.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

EM CADA LEITOR UM AUTOR DIFERENTE



A história das reputações é uma crônica de maiores ou menores discrepâncias. Há sempre uma brecha entre aquilo que alguém faz e aquilo que o mundo percebe que a pessoa fez. Algumas discrepâncias são temporais [...], outras são espaciais [...], mas poucas são tão grandes quanto os anacronismos e as ironias que caracterizam a carreira e a reputação de Mikhail Milakhalóvitch Bakhtin (1895-1975).
K. Clark e M. Holquist

O pensador reúne-se em torno de uma mesa com o seu grupo de interlocutores: amigos, igualmente, pensadores acerca das coisas humanas que, finalmente, são despejadas ao mundo como sentimento e reflexões, e que passam, então, a fazer parte do mundo também. Materializam-se e são discutidas, repartidas, esgarçadas, apropriadas e, por fim, disputadas em todos os seus aspectos, conceptuais originários.
Em torno daquela mesa, sob a luz de candeeiros, fica-se a noite toda a discutir acerca da alma, das dores, das vergonhas e dos dizeres. Um vinho aquece o corpo e alimenta as ideias. A fumaça entremeia aquelas figuras e provoca crises de tosse. Um deles, no entanto, concentra as atenções e, para ele, os outros se voltam ao simples gesto de pronunciar algo.
Noites e noites vão se passando com poucas alterações no cenário. Dali, pessoas, aparentemente simples, entram e saem, comem, fazem suas necessidades e retornam. Vivenciam naquele recinto as pressões dos tempos difíceis e ameaçadores que o País atravessa. As conversas sobre arte, literatura, filosofia da linguagem e outros temas, igualmente áridos, por vezes, são restringidos por conta do que poderão acarretar para o grupo ou para um de seus componentes, dado que tudo está vinculado ao contexto político e histórico.
Pouca coisa destas conversas tomou o destino das páginas e das edições de livros. Muito ficou restrito ao cenário das longas e cansativas discussões. Mas o pouco que foi publicado modificou e modifica, ainda hoje, o modo de pensar, o conhecimento, a literatura, a constituição de subjetividade e as relações identitárias, autoritárias e as teorias da linguagem.
Várias áreas do conhecimento, através de pesquisadores, estudiosos e outros autores, no mundo inteiro, tomam contato com os poucos produtos que conseguiram se materializar daquelas discussões. E em nenhuma destas áreas alguém consegue ficar indiferente. Os atuais métodos de pesquisa histórica, as modernas metodologias de pesquisa em comunicação, os mais avançados estudos de legislação apropriam-se de visadas bem particulares, recriam outras e lhe atribuem referência autoral.
Fundam-se núcleos de pesquisa e de discussão sobre todos os olhares. Em cada um deles é carimbada a marca confiável de sua autoria. Deste ponto de vista, exagera-se a ponto de parecer que alguém extremamente humano tenha adquirido a condição de um semideus, um gênio sem parâmetros de comparação.
A simplicidade de seus pensamentos e reflexões ganha em complexidade, e suas derivações são de tal ordem que ele próprio não se reconheceria nas citações que tentam dar legitimidade aos textos resultantes de pesquisas e observações científicas, com o mais exigente rigor. Daí as discrepâncias referidas na epígrafe deste texto.
O pensamento do autor, sua obra e sua imagem ganham uma elasticidade e uma diversidade que o fazem pairar sobre o tempo de lugares tão distantes e tão díspares, que mais se assemelha a uma rede de inter-relações infinitas. Ele já não se pertence. Não é mais como um homem simples, posto ao redor de uma mesa a beber, comer e a discutir, inclusive, amenidades, com seus pares.
O autor multiplica-se em títulos nas livrarias, alimenta a sanha produtiva da academia, a sanha comercial das editoras e dos livreiros a ponto de provocar cada vez mais leituras pelo mundo afora. O seu nome é uma garantia de interesse de leitores em número crescente. As ideias, que agora dizem que são suas, se multiplicam sem qualquer controle. No seu país, pesquisadores estrangeiros buscam aquelas páginas esquecidas no fundo de alguma gaveta, e tradutores empenham-se em lançar no mercado as últimas descobertas, textos inéditos. Daqui a pouco haverá necessidade de que tudo seja contraditado ou esquecido, e outros autores, saídos de lugares mais distantes, haverão de ocupar o seu lugar.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

LIMITES DA EXPERIÊNCIA URBANA


Tenho um fascínio pelo universo das cidades. Quando escuto esta palavra em algum lugar, paro para ouvir do que se trata. Entendo que uma cidade é sempre descrita a partir de impressões pessoais bastante localizadas, por mais que quem a descreva busque referir-se a diversidades, apontando bairros e situações. Comparo uma cidade com aquela cena dos cinco pânditas cegos que, apalpando pontos diferentes de um elefante, tentam descrevê-lo. Cada um deles descreve o elefante segundo o lugar que apalpa.
E as particularidades não são apenas físicas; a experiência não se constitui apenas das visualidades. Os prédios, os logradouros públicos etc. estão em tudo o que se experimenta, até mesmo o sabor de um sorvete de fruta típica ou o banho em um rio ou lagoa. As impressões produzidas pela experiência são, por assim dizer, essencialmente sinestésicas. Cada sensação será tanto mais particular quanto mais a visita for motivada por interesses de especialização profissional. Quero dizer, se o visitante for, digamos, um publicitário, vai conhecer em Teresina, por exemplo, além das agências e do hotel ou residência em que esteja hospedado, claro, alguns bares, produtoras e, talvez, veículos de comunicação. A impressão que alguém assim leva da cidade é a mais restrita possível. Alguém pode argumentar que não é bem assim porque a cidade é pequena, e, entre um lugar e outro o visitante passará por ruas e avenidas que lhe darão uma visão mais abrangente. Eu digo que os lugares de trânsito e as paisagens enquadradas pelas janelas dos automóveis parecerão mais postais deformados que em quase nada correspondem à realidade do lugar.
Tenho visto pessoas se referirem a lugares que nos são comuns, que, para mim, em nada correspondem à descrição que ouço. Ambos apalpamos pontos diferentes e nos sensibilizamos por outros sentidos. Lembro de um amigo que se referia à cidade de São Luis com um certo tom de deboche, porque, segundo ele, em todos os lugares que conheceu na cidade viu gays. Disse isto e acrescentou que até o guia de sua excursão era gay. Pode ser que esteja a explicação, experienciou um lugar com características bastante marcadas. Eu, pessoalmente, tenho outra impressão de São Luis. Nem me detenho no lado preconceituoso, o que desejo é discutir os limites da experiência e daquilo que uma cidade se deixa revelar a cada um que a experimenta.
Penso que mesmo as pessoas têm um pouco esta complexidade, revelam-se a cada um de modo diferente. Quantas vezes conhecemos alguém e temos uma impressão que depois vai se modificando para melhor ou para pior. Ou mesmo, noutros momentos, ouvimos declarações acerca de pessoas que conhecemos e que em nada combinam com aquelas impressões que temos. Se uma pessoa pode ser assim multifacetada, imagine-se uma cidade com todas as suas interfaces, em toda sua complexidade. Muitas ofertas nos tentam seduzir por motivos tantos que nem imaginamos. Isto que ocorre com pessoas também experimentamos com poemas, pois cada vez que os lemos descobrimos novos sentidos. Outros sequer gostamos à primeira leitura, depois, aos poucos, vamos aprendendo a gostar mais e mais.
As contradições e as peculiaridades todas das pessoas, dos poemas, das músicas se entrelaçam no tecido citadino num emaranhado de sensações e sentidos que não cessam nunca de se transformar, embora se mantendo os mesmos o tempo todo. O olhar, a visada é que se impregna de desejos, contaminada que está pela memória de cada um que as situações, assim como as expectativas que têm de si e do que está em seu entorno.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

OLHOS PRESOS AO LIVRO: LIVREMENTE


Muitas vezes, a companhia da televisão não é suficiente para que você se sinta, de fato, acompanhado. Uma boa literatura, as personagens e suas histórias têm o poder de remeter você ao abrigo de emoções que anulam o tempo e recuperam a segurança de estar bem acomodados nos sofás, no interior dos apartamentos. Umas das saídas que Regina tem encontrado, para afugentar a sensação de estar sozinha no mundo, tem sido a leitura de bons livros.
Regina sempre foi uma boa leitora, lê tudo o que lhe cai às mãos. Mas, ultimamente, vem recorrendo à leitura para escapar da mesmice dos canais de TV e para se refugiar da solidão, no seu apartamento. Ao sair do trabalho, passa na biblioteca pública, loca um livro, e, tão logo cumpra seus ritos de banhos, jantares e louças etc., busca dentro de casa, cada vez um lugar diferente, onde possa se acomodar, numa cadeira confortável, com boa luminosidade, para entregar-se à leitura.
Dia desses, ao entrar na biblioteca, Regina observou que, numa das mesas de leitura, um jovem parecia deliciar-se com o livro que lia. Ficou ali, olhando a expressão daquele moço com um riso desenhado e uma expressão de imensa satisfação. Regina, então, passou a vista pelas outras mesas e deu-se a observar vagarosamente cada um dos leitores, que estavam ali. Em geral, as mesas de leitura acomodam 4 pessoas, uma de frente para a outra, duas a duas.
Um dos primeiros pontos que observou foi que cada um dos leitores ou leitoras dedicava-se a ler uma obra diferente. Uns tinham às mãos livros mais de conhecimento técnico: anatomia, softwares, matemática, jornalismo etc. Outros liam literatura ficcional: romance, contos, crônicas etc. Mas ninguém parecia aborrecido ou preocupado. Protegidos pelo silêncio, mergulhavam nas páginas que iam passando com uma lentidão quase eterna.
No balcão, outros chegam com suas pressas, entregam ou pegam livros e se vão. Neste entreter-se, observando o seu entorno, Regina começou a viajar nos sentidos que estão postos numa biblioteca. Cada pessoa que ali chega para apanhar um livro está buscando conhecer mais sobre algo. Do mesmo modo que os que ali estão, lendo, gastando um bom tempo de suas vidas, sentados ao redor de uma mesa, sem sequer perceber quem está à sua frente.
Regina lembrou, então, uma cena que viu recentemente e que achou interessante: um grupo de pessoas numa mesa de bar, como se fossem amigas, como se estivessem ali para uma conversa entre si, mas, na verdade, cada uma delas falava ao celular e não percebia umas as outras, naquela mesa. Há certa semelhança na cena da biblioteca, só que as pessoas com quem cada um conversa não estão do outro lado de uma linha telefônica, mas em lugares muitos distantes e vivenciando histórias em que o leitor parece se envolver como um observador privilegiado: vê a todos e a tudo e não é visto. Este leitor está ausente, enquanto lê, do que ocorre naquela mesa em que se encontra.
Aos poucos, Regina foi se dando conta que também ela abstraiu, por instantes, enquanto observava outras pessoas, e enquanto tomava consciência de si, percebia que agarrava fortemente o livro que acabara de receber, como se ele pudesse escapulir de suas mãos. Olhou para o balconista para ver se ele havia percebido sua displicência, mas o rapaz estava entretido em atender outras pessoas e não se dava conta de que ela o estava observando. Depois, olhou para os lados e em nenhum momento percebeu se alguém a observava também.
Com algum alívio, Regina foi-se afastando dali, meditando sobre aquela situação de quase transe. Tomou o caminho de casa, com um leve sorriso de satisfação, enquanto ruminava a imagem do jovem que expressava prazer enquanto lia. Esta imagem permaneceu consigo por um bom tempo.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

OS SEIS SENTIDOS


O primeiro não consegue se fixar num mesmo lugar, por período superior a três minutos. A roupa incomoda, as pernas cansam, os braços não encontram lugar. É como alguém que não define seu espaço. Atribui sua insatisfação ao fato de que a pessoa com quem namora não lhe dá ouvidos. Quando está com ele parece sempre ausente, distante de tudo, alheia ao que lhe é importante. Às vezes, responde com murmúrios incompreensíveis a perguntas que exigiriam reflexão e alguma argumentação. Outras vezes sequer responde. É como se, simplesmente, não o ouvisse. Este abismo parece não ter início nem paradeiro.
O segundo experimenta sua insatisfação numa dolência que dá dó. Não tem vontade para nada, não consegue dormir bem, mas também não se sente inteiramente acordado para a vida. Sente falta do calor da pele de sua amada. Há meses, ela viajou e não disse nada, nem para onde ia, muito menos quando voltará. A paixão entre os dois está de tal modo ardente que ele desenvolveu uma dependência física do contato com o corpo da namorada. Não deixa de fazer quase nada. Vai ao trabalho, embora não consiga trabalhar. Alimenta-se, mesmo que fora dos horários e em quantidade insuficiente. Vive sua carência de contato com o corpo amado, com dificuldades.
O terceiro, dantes uma pessoa saudável, praticante de futebol de salão, com dotes atléticos, agora anda amofinado. Diz que não consegue comer nada porque em tudo deseja sentir o gosto do beijo de sua ex-amada, e como ele não encontra correspondência, acaba ele também perdendo o gosto. Enquanto não sentir o tal sabor, nas coisas que o alimentam, não interessa mais nada. Ocorre que a boca da qual sente falta do sabor não mais está com ele, foi embora com um artista de circo.
O quarto sofreu uma isquemia e, no decorrer dos procedimentos médicos, acabou ficando sem o olfato. Não sente nenhum cheiro. Imagine que ele agora parece bem, forte e corado, melhor afeiçoado do que antes. No entanto, é de uma tristeza que dá pena. Alegria para quê, se não consegue sentir o cheiro dos alimentos, das coisas à sua volta, o cheiro do mundo. Sonha e tem pesadelos porque as situações que se lhe aparecem em imagem de sonho trazem sempre a expectativa de sentir o cheiro de algo ou de alguém e, no momento seguinte, esta expectativa é frustrada. Acorda desesperado. Vive fazendo tratamentos, dos mais convencionais aos mais exóticos. Remédios homeopáticos, alopáticos, passes em casas espíritas, rezas em benzedeiras, chás de todo tipo. Se, por um lado, não tem conseguido recuperar a capacidade de sentir aromas, por outro, está vendendo saúde. Mas, para ele, isto não é conforto.
O quinto desenvolveu uma neurose obsessiva porque, em sua última visita ao médico oftalmologista, apareceu a suspeita de que sofre de uma doença degenerativa incurável que acabará resultando em cegueira. Ainda não há um diagnóstico conclusivo, mas as reações do médico lhe têm trazido preocupações. O tempo inteiro fica a observar as aranhas que surgem em sua visão. Os médicos têm dito que estas pequenas aranhas são comuns depois de certa idade, mas ele não se conforma. O que mais o angustia é que as tais aranhas parecem invadir o rosto de sua mulher, no momento mesmo em que se olham com desejo.
O sexto meteu-se com práticas esotéricas e deu para pressentir acontecimentos. A morte de alguém próximo. Acidentes de toda ordem: desde o rompimento de um cano na casa do vizinho até o abalroamento de trens e carros, em quase tudo quanto é parte do mundo. No princípio, nunca havia pensado em enveredar por esta área em sua vida. Mas, de tanto assistir a programas de televisão sobre rituais esotéricos, acabou ficando fascinado e descobrindo-se um médium com nível elevado de percepções sensoriais pouco explicáveis, a não ser pelo caminho da mediunidade. Mas o que ele não entende é por que isto não lhe traz felicidade.