sábado, 31 de outubro de 2009

REGINA & CIA


Regina prestou concurso para a Petrobrás e vem cumprir estágio no Rio de Janeiro. Nordestina, estremece de medo com as notícias de violência. Aluga um apartamento no décimo andar de um edifício da zona sul e lá, sozinha, com saudades dos seus, verte suas lágrimas e penitencia-se, franciscanamente. Aos poucos, vai aprendendo como se mover na cidade e como se abastecer de mantimentos semanalmente, num supermercado próximo.
Detesta a solidão. Com o primeiro salário, compra uma TV e liga numa extensão, sobre um carrinho com rodas metálicas. Deste modo, a qualquer parte do apartamento que vá, lá vai também a televisão. Ah, sim, Regina não é apenas nordestina, vem do interior, de arejados espaços: casa alta, de cômodos grandes, com lugares para armar várias redes e abrigar muita gente, quando necessário. Talvez por isto, sem qualquer outra explicação, mesmo morando sozinha aluga um apartamento de três quartos.
Quando Regina entrava no apartamento a primeira coisa que fazia era ligar a TV. Ia para a cozinha e para lá empurrava o carrinho, com a TV ligada. Ia tomar banho, deixava a porta do banheiro aberta para ouvir a TV.
Mas, mesmo com esta presença tagarela, Regina sentia-se sozinha. Não tinha empregada por que, alegava, tinha pouca coisa para fazer e ainda mais distraia-se lavando roupas e as louças, arrumando a casa e preparando ela mesma a comida com cardápio típico de sua terra. Reclamava que a carne de criação nos supermercados da cidade era muito cara, mas fazer o quê? Era assim ou teria que aumentar ainda mais as faltas que sentia. Na verdade, não queria empregada porque não confiava ainda deixar suas coisas com alguém desconhecido. Vivia sob tensão. Na rua, cumprimentava as pessoas e procurava ser gentil. No prédio, falava com um ou outro quando havia oportunidade, mas em casa, não abria a porta para ninguém, sem o pega-ladrão.
Um dia, enquanto aprontava-se, tomou um susto, enxugava o cabelo, de cabeça baixa, e quando levantou e abriu os olhos percebeu como que um corpo sobre sua cama. Esfriou por dentro. Mas logo deu por si e viu que ela mesma tinha posto a roupa de sair sobre a cama: uma calça comprida com a blusa, um conjunto combinado. Riu, ainda trêmula e foi a cozinha tomar água. Teve então uma idéia: pegou uma calça e uma camisa de mangas compridas, costurou uma na outra e encheu com o recheio de alguns travesseiros que comprou para este serviço. Depois costurou algo como que fosse uma cabeça, pintou olhos e boca e pôs peruca.
Alguém, no seu local de trabalho havia comentado sobre um filme em que um náufrago dava nome a uma bola e conversava com ela como se fosse gente, enquanto permaneceu naufragado. Não conseguia lembrar o nome do filme. Pensou: se uma bola pode fazer companhia para alguém, por que não um boneco bem feito?
Assim, Regina nunca mais almoçou sozinha. A partir de então, depois de ligar a TV, pegava no guarda-roupa o Hermano, sentava-o numa cadeira e ia contando para ele as novidades do dia. Só conseguia almoçar conversando com o Hermano. Comprou-lhe roupas novas, chapéus e outros enfeites. Uma vez, observou no ônibus, de volta do trabalho, um rapaz que tinha um peircing na orelha, imediatamente pensou se também não ficaria legal comprar um para o seu novo companheiro.
Muitas vezes, quando a insônia mais a incomodava, pensava em convidar Hermano para dormir com ela, mas a seguir concluía que não ficava bem uma moça sozinha chamar um homem para a sua cama, mesmo sendo um grande amigo: a única pessoa em quem confiava plenamente naquela cidade.

sábado, 24 de outubro de 2009

CORRESPONDÊNCIAS




A natureza é um templo onde vivos pilares deixam filtrar não raro insólitos enredos. Pequenos casos em que se contam as ocorrências tantas que o semeador expande seus sonhos e, tresloucado, abate os troncos fixos, os caules firmes e os deita a folhagem vencidos, à terra incinerada, pele cinza: templo denso e fértil. Era uma vez.
O homem o cruza em meio a um bosque de segredos que ali o espreitam com seus olhos familiares. E desde então atravessado, alargam-se expiações antevistas e visadas no olhar vesgo desapercebido. Templos e tempos como fardos desde há muito e penosamente suportados nos intervalos imensuráveis da alma ao corpo. Para além do que já não mais se aguarda o ouvido atento ausculta o chão, a terra fria.
Como ecos longes que à distância se matizam numa vertiginosa e lúgubre unidade. Sons que reverberam na defasagem dos espaços cavalgados. Assimilam tensões e cavilações das gentes outras confundidas no âmbar da iluminância eterna. Das bocas sem palavras, de mãos sem amor. Não alcançam os olhos o horizonte alongado para longe, só o palmilhar da areia fina enrijecendo os músculos da panturrilha define bem a determinação do abraço. Longos, intermináveis braços. Matizes emanam odores em tênue e ampla pradaria.
Tão vasta quanto a noite e quanto a claridade, os sons, as cores e os perfumes se harmonizam. Ambivalências e contraditos erguem-se e apresentam novas cobiças. A imperfeição da única matriz esfacela-se em múltiplas miragens pela simples ameaça da proximidade. Baudelaire corre a pena em vão. Sudoreses em bicas estremecem em versos de festim e espasmos. Uma música deixa-se estar o tempo inteiro nos sentidos. Ora parece ouvidos da infância como saudade perdida, ora uma sinfonia que se deve compor na imensa e necessária falta que denuncia. Ora o estremecer do contato com a pele, como um frenesi, um frisson de olhares a desnudar a alma.
Há aromas frescos como a carne dos infames, doces como o oboé, verdes como a campina. A madrugada, enfim, tece a manhã no canto harmônico de todos os galos e a poesia refaz a sinfonia por todo o dia os dias todos. Olhar a natureza e degustar os frutos frescos postos sobre a mesa significa mais do que absorver os aromas maturados dos enredos sob o templo. Alguns passantes vasculham veredas como a querer transpor desejos e decretar modos mais estáveis de sentir. São poucos mais se consideram, por assim dizer, aqueles ainda duvidosos que têm esta missão, uma tarefa a cumprir por destino.
E outros, já dissolutos, ricos e triunfantes, como a fluidez daquilo que jamais termina. O rio acautela-se entre as margens e se compraz inteiro no seu ir-se. Toca-lhe o contato dos que à distância observam seu jamais voltar absoluto. Ao que está determinado quem há de contrariar? O eixo desnivela o leito e empurra-o para o mar. Este é o itinerário que não finda e que pertence aos rios. Aos ricos, a impressão dissimulada das posses contra a dor no estômago vazio dos famintos.
Como o almíscar, o incenso e as resinas do oriente, que a glória exala dos sentidos e da mente. Resta ao poeta pensar e devolver ao mundo seu contributo à poesia. De tal modo que o tecido das palavras a acoberte e a dissimule. O mundo, para além das aguçadas mentes criativas, permanece sob sol nos desnivelados matizes que colorem as planícies e as cordilheiras. A mente centrífuga adormece em meio aos aplausos e aos encantos que os sentidos aguçam. Muitos outros poemas florescem, certamente, por entre as trepadeiras. Em nenhuma delas se instala a determinação de estancar a florescência ou o canto que o pássaro repercute no silêncio das tardes, no limo das paredes de pé sobre o tempo. Os sonetos alardeiam timidamente seus versos e nós os colhemos como se donos fôssemos. A natureza é um templo sob o qual recitam-se preces e poemas.

sábado, 10 de outubro de 2009

UMA HISTÓRIA DE AMOR




O casal apronta-se para ir à festa, cada um em quarto diferente. Uma festa de família, um casamento entre amigos, numa localidade próxima. Ele, em sua magreza, tem que ficar subindo as calças porque o cinto não aperta a cintura e deixa a calça folgada, insistentemente. A blusa branca, a calça preta em pano passado.
Ela veste uma saia pregueada na cintura e solta na barra, pano fino feito cetim. Blusa de manga, com botões abundantemente enfileirados de cima a baixo. Batom leve e mais nada no rosto. Olha-se no espelho, pela última vez, mais uma vez. Um respingo de perfume na articulação de braço e antebraço, no avesso da mão e na ponta da orelha. Ergue o nariz e tenta colher no ar se não se deixou exagerar. Confirma seu gosto e dirige-se à sala onde ele a espera com impaciência. Ao perceber que se demorara além do devido, baixa a cabeça e comenta alguma coisa sem que se possa ouvir claramente o que seja. Ele se esquece que está aborrecido e pergunta o que ela teria dito ao que ela responde com um “nada não”, já risonho.
Ao chegarem ao local da festa, casa de sítio com amplos alpendres e o espaço invadido com a música alta e luzes enfileiradas até depois dos limites do terreiro. As mesas espalhadas parecem todas ocupadas. Ela suspira fundo a olhar para um grupo de rapazes postos logo adiante. Num olhar, ele a censura e, ao mesmo tempo, indaga onde poderiam se instalar. Ela, embora sentindo aquele olhar, minimiza, diz que não veio à festa para ficar sentada, quer dançar. Puxa-o para o salão onde o sanfoneiro rasga o fole e os dançantes gastam os sapatos no piso encerado.
Dançam até cansarem-se. Saem do salão e buscam algum lugar aonde possam conversar e ficar à vontade. Sentam-se num tronco de árvore afastado do burburinho e põem-se a conversar. Logo, ela percebe que o lugar ganha movimento e, mais ainda, movimento de mulheres. Observa que as moças que por ali passam voltam a agruparem-se adiante e ficam rindo, conversando e a olhar para onde está o casal. Sem mais nem menos, ela pede a ele a aliança. Ele, a princípio, não entende. Ela diz que quer, simplesmente, que ele entregue a aliança e vá conversar com as moças que não fazem questão de esconder o interesse nele. Afinal, diz ela, elas o estão paquerando desde que saíram do salão de dança.
Ele entrega a aliança, beija as mãos da mulher e vai ao encontro das moças que estão logo ali, em pé, falando e sorrindo, ao tempo em que olham para onde o casal está.
Ela sai caminhando devagarzinho em direção a casa aonde a festa vai animada. Encontra-se com alguns conhecidos que perguntam pelo marido. Ela responde que ele foi a algum lugar e prossegue seu destino. Mais adiante encontra umas amigas, cumprimentam-se, trocam algumas palavras e aos poucos um grupo maior está formado. Passam a botar o papo em dia, há muito não se vêem.
Sem que se dêem conta, as primeiras luzes do dia começam a surgir. Ela olha para onde havia vindo e não vê o marido e nem as moças que estavam com ele. Resolve então, ir a busca dele com o objetivo de irem para casa, a festa está quase terminando e ela não se agüenta mais de sono. Percorre quase todo o espaço aos arredores da casa e não o encontra. Resolve procurar dentro de casa e nada.
Quando já estava quase decidida a tomar o caminho de casa sozinha, vê um casal afastado, bem afastado da casa. Ao se aproximar ela o identifica. Caminha, então, na direção do casal e chegando ao local, percebe que os dois estão bastante à vontade em afagos e carícias. Ela para junto e eles nem percebem. Ela, sem alarme, pega na mão do marido e o puxa para si. Ele também não reage. Com calma, ela mostra para o dia que está nascendo e diz que está na hora de irem para casa.
A moça adota uma expressão de surpresa e desapontamento. Sem entender nada, vê como ele cede ao convite da mulher que acabara de chegar ali. Olha para as suas mãos no momento em que ela repõe a aliança no dedo do marido. Desesperada, corre aos prantos em direção a casa. O casal vira-se de costas e se vai impassível.

sábado, 3 de outubro de 2009

O PASSADO É O QUE CONTA




Emília é uma mulher muito interessante. Diz que seu gosto na vida é conhecer pessoas, lidar com gente é seu passatempo favorito. Conversa com desenvoltura e dá conta de suas tarefas no atendimento a clientes de uma clínica onde trabalha, sem problemas. Apesar de gostar de conversar, não perde tempo ao usar o telefone. Explica que, neste caso, o importante é atender a um número maior de pessoas e não falar além do necessário com uma única pessoa. Mas é atenciosa, educada e extremamente hábil ao lidar com isto que faz o seu gosto.
Mas Emília tem uma característica, no mínimo, curiosa: o passado exerce um fascínio muito forte sobre ela. Perde-se nas horas ao contar qualquer acontecimento do passado, especialmente, suas histórias de amor. De vez em quando ela pergunta ao atual namorado: — Você lembra-se de quando nos conhecemos? Ai, mesmo que ele não estimule, ela desfia todos os detalhes do primeiro encontro: a cor da roupa que ela e ele vestiam, as palavras trocadas, o lugar e a hora certa... tudo tim, tim por tim, tim.
Outra pergunta freqüente é: — Você se lembra do nosso primeiro beijo? Do mesmo modo, não sossega enquanto toda a cena e o cenário não são recuperados. As sensações que sentiu, o conflito que a deixou em desespero etc. etc. Bom, esta história de conflito, então, é típica de outras coisas igualmente recorrentes e que estão ligadas ao seu passado.
A começar por um casamento desfeito. Diz que o seu ex-marido a maltratava, a deixava sozinha e ia a passeios em lugares distantes, só com os amigos. Finais de semana ele só queria saber de jogar bola. Só retornava pra casa tarde da noite, bêbado. Sem contar que nestas situações, algumas vezes ele chegou mesmo a espancá-la. No entanto, ela conta tais agruras com certo tom de permissão. Diz que o entende e que não tem raiva dele, pelo contrário, é um amigo necessário, tanto que às vezes fica a conversar com ele horas e horas lembrando os bons momentos em que viveram juntos. Não declara, mas dá a entender que têm ficado juntos e se amado loucamente.
Outras vezes, lembra passagens do passado com sua família. A infância com os pais, os irmãos, os passeios e os lugares onde morou. O passado é, certamente, o lugar em que ela mais fica à vontade. É como se o presente só servisse virar passado e, por isto, tema preferido de suas conversas pessoais. Como se todas as suas experiências do presente fossem planejadas para se transformar em lembranças.
Além das histórias da sua vida de casada, conta também a história que aconteceu depois com um namorado de quem gostava muito. Aliás, demonstra que gosta até hoje. Diz que este foi seu primeiro namorado, após a separação. Diz que apesar de estarem namorando firme, ele saiu com uma amiga dela. Esta amiga armou uma situação da qual Emília nunca esquece: ligou pra ela e deixou o celular ligado enquanto transava com o tal namorado. Emília não teve reação, sua única saída foi chorar. Apesar disto, não guarda mágoa dele. Até tem saído com ele algumas vezes só para lembrar as coisas boas que passaram juntos e, também, para alimentar coisas novas para lembrar com ele, futuramente. Ela se delicia contando suas histórias do passado.
Ultimamente, diz que namorava um cara casado e que viveu com ele momentos inesquecíveis: muitas vezes iam para um Motel e não faziam amor, ficavam lá só conversando e brincando como se crianças fossem. O cara, um figurão da política local, prometia e jurava que iria descasar para ficar com ela.
Ele tinha tanto ciúme dela que às vezes a seguia pelas ruas. Quando ela menos esperava ele aparecia para abordá-la, sob qualquer pretexto. Outras vezes, não aparecia, mas ela o percebia estacionado numa rua próxima como se a observasse. Ao mesmo tempo em que isto lhe provocava riso de convencimento, a incomodava pela desconfiança demonstrada. Mas, também, não reclamava com ele.
Num certo dia, o rapaz apareceu com uma história de lhe pedir um tempo, um ano exato. Precisava tomar umas decisões na vida dele e o tal tempo seria fundamental. Nunca voltou, mas faz questão de deixar sinais de que está vivo e muito próximo, como se alimentasse alguma esperança. É um fantasma que a alimenta e é por ela alimentado. Ela sofreu muito, conta, mas não pode fazer nada. Diz ela que, dada a sua decepção, jurou que, desde aquele dia, nunca mais aceitaria a corte de homem algum. Fala isto com um sorriso malicioso, como quem diz: quem quiser que acredite.
A clínica, onde trabalha, é um lugar por onde passa muita gente com as mais diversas histórias, inclusive, algumas delas, dolorosas. Emília faz amizades com médicos, outras atendentes e sabe de cor a data de aniversário de cada um, endereço, telefone e a constituição familiar. Mas o que mais a deixa feliz é contar como, onde e quando, conheceu cada uma dessas pessoas.

sábado, 26 de setembro de 2009

O BRILHO DA FESTA





Hoje é dia de festa. Daqui a pouco, a empresa em que Antonio trabalha vai oferecer uma festa para todos os seus funcionários, parentes, amigos e fornecedores. Todas as providências estão sendo adotadas e está quase tudo pronto. A cidade é cruzada por centenas de ligações telefônicas onde cada um dos convidados quer saber informações, as mais diversas, do outro. Desde sugestão de salão para fazer o cabelo, comentário sobre expectativas para logo mais, até a necessidade de saber se há quem tenha um convite sobrando. Sempre chega alguém de última hora e a cidade inteira desejaria ir a tal festa. Comida e bebida garantida, e de graça.
A festa é oferecida a pretexto do aniversário da empresa que coincide com as fastas de final de ano. Mas, na verdade, ela serve de palco para a satisfação pessoal do dono da empresa que conduz as atrações contratadas, realiza os sorteios de prêmios e as efetivas premiações aos seus funcionários mais destacados, com presentes até de carros. Todas as decisões, todos os acontecimentos passam pelo dono da empresa e, consequentemente, o dono da festa.
Tudo, antes, fica a cargo de um organizador que goza da confiança do dono da empresa. A ele é entregue a responsabilidade de controlar o acesso, distribuir senhas para ocupação dos espaços e até para comprar a bebida e o churrasco. Para cada item um número com uma cor que informa a que cada um dos convidados tem direito naquele momento. Um batalhão de segurança controla o acesso ao estacionamento e a distribuição das categorias de convidados: políticos e empresários vão pelo corredor A, ficam sentados nas mesas próximas ao palco; os funcionários e suas famílias pelo corredor B e ficam nas mesas mais afastadas.
O roteiro de apresentações é conferido e os artistas são alojados em hotéis da cidade com traslado garantido pelo organizador. Agora, sim: tudo checado, tudo pronto.
Antonio olha no espelho seu porte avantajado naquela roupa comprada especialmente para a festa. Um detalhe no perfume aqui, uma penteada de leve. Um último olhar e a conclusão de que está melhor do que o planejado. Põe os sapatos e, pela última vez, vai ao espelho confirmar sua impressão. Confirmado, ganha o destino do local de realização da festa, um sítio na saída da cidade.
Segue para lá na maior felicidade. Ao chegar ao local, quase todos os convidados já estão devidamente acomodados. Sente-se como se estivessem todos a esperar por ele. Ergue o queixo, olha o horizonte das mesas estendidas e caminha a pessos largos, porém lentos, pelo corredor do meio. De longe, o seu chefe que, não por acaso, é o responsável pela organização da festa o avista: aquele homenzarrão imenso, vindo por entre as mesas, avançando com o silencio dos que o observam enquanto passa, vestido de camisa social branca, de mangas compridas, gravata vermelha e calça de listas verticais, meio largas, em preto e branco.
Ao chegar próximo ao chefe cumprimenta-o com um sorriso como se não houvesse observado ainda seu semblante contrariado. Percebe que naquele momento as luzes do palco se apagam como a anunciar que serão iniciadas as atrações da festa. Ele está sob o efeito dos olhares nada discretos que lhes são lançados experimenta uma sensação bastante particular. É a mais pura satisfação pessoal que sequer consegue dissimular.
O chefe, de cara amarrada, retribui ao cumprimento e o convida a um lugar um pouco afastado dali, meio na penumbra, onde não há mais ninguém. Ele concorda e, ainda sem se dar conta da situação, desloca-se ao lado do chefe para o tal lugar. Sem olhar no rosto do chefe, conduz o semblante de felicidade motivada pela visível manifestação do público que, na verdade, tinha como expectativa. O chefe quebra o seu encanto com um pedido, no mínimo, inesperado: — Antonio, quero que você vá para casa trocar esta roupa. E Complementa: Nesta festa ninguém pode chamar mais a atenção do que o dono dela.
Antonio perdeu o chão, perdeu o prazer, perdeu a graça. Saiu dali desolado pra nunca mais retornar. A única coisa que ainda o alimentava era que, ninguém que o viu chegar, o viu ir embora.

sábado, 19 de setembro de 2009

AMPARO E DESAMPARO




O coveiro Antonio Gaspar recebeu a ordem para que desocupe o túmulo que era da família Ferreira. Aquele túmulo que ele cuida com muito cuidado e que lhe traz tantas lembranças. Foi ali que ele conheceu Amparo. Várias e várias vezes ela contou para ele a história que acabou, como conseqüência, unindo os dois, ao menos, por uns tempos.
Amparo chegou a sua casa naquele dia, após o trabalho, e soube que o marido havia saído com o filho para dar um passeio, de bicicleta. Era hábito de Teobaldo, o marido, fazer aquele passeio à tardinha. Mas, justo naquele dia ela havia saído do trabalho mais tarde e esperava encontrá-los em casa, naquele horário já haveriam de ter retornado, como faziam sempre. Vendo que não haviam ainda chegado, passou-lhe um mau pressentimento. O tempo foi passando e ela ficando cada vez mais aflita. De repente, lembrou que no caminho do trabalho para casa, ali próximo, viu que havia um movimento como se algum acidente houvesse ocorrido. Todos que vinham no coletivo viram. E, de relance, lembrou que alguém comentou alguma coisa sobre um ciclista. Na hora, não ligou. Mas agora imagina que pode ter sido seu marido quem estava lá, acidentado.
Decidiu procurar então nos hospitais próximos e acabou encontrando o marido e o filho, mortos, no hospital municipal de atendimento de urgência.
Ela sofreu muito, como é natural. E, para aliviar o sofrimento, começou a ir ao cemitério todos os dias para visitar o túmulo do marido e do filho. Foi, então, que Antonio Gaspar a conheceu.
Em sua recordação, ele reconstitui o dia em que logo ao chegar para trabalhar viu aquela mulher se desmanchando em lágrimas por causa da morte do marido. Uma cena muito comum, não fosse pelo exagero com que a mulher chorava e lamentava o falecimento do esposo e do filho de sete anos.
Ele não entendia por que depois de tanto tempo presenciando cenas iguaiszinhas àquela, se comoveu tanto a ponto de se aproximar da mulher para oferecer ajuda. Sua oferta era, a princípio, desinteressada, apenas para acalmá-la e para ver a retirava daquele lugar e daquela situação. Mas as cenas foram se repetindo todos os dias dali por diante e o tempo em que ele passava com ela foi se alongando dia após dia.
Ficaram amigos, passaram a sair juntos nos finais de semana. Num certo dia, depois de um final de sábado repleto de festinhas e comemorações, ele acordou e percebeu que havia dormido na casa dela. Não lembrava como chegara até ali. Dormira fora de casa pela primeira vez na vida. A esposa deveria estar muito preocupada. Saiu dali, procurou um telefone e inventou uma história qualquer como desculpa.
Depois disto, foram ficando juntos dias, semanas e, como era de se esperar, ela engravidou. Não era para engravidar, mas engravidou. De modo algum ela quis tirar o menino. Gaspar também não insistiu. Tinha outra família com três filhos, mas Amparo não lhe cobrava nada, disse que assumiria a gravidez até sozinha se fosse necessário, ele ficou descansado.
Mas as coisas complicaram quando a esposa soube do que estava ocorrendo. E para piorar, Amparo foi reclamando mais tempo para os dois e, depois, os três. Com o nascimento do filho, não deu mais para conciliar as duas casas porque as cobranças se multiplicaram de ambos os lados. A esposa ameaçava sair de casa com os filhos. Ficou de tal modo insuportável que Gaspar e Amparo tiveram que se separar.
Ele soube depois, pela boca dos outros, que Amparo havia tomado a decisão de vender o túmulo da família. Dizia que era para poder juntar o dinheiro da venda com a parte de outra venda, a da casa em que morava, desejava comprar uma casa melhor. Mas Gaspar sempre achou que, na verdade, ela não queria mais o túmulo porque sempre que fosse lá teria de encontrá-lo. Não considera correto que ela tenha deixado que os restos mortais do filho e do marido ficassem sem abrigo, pelo simples capricho de um amor desfeito. No entanto, nada pode fazer, não tem onde guardá-los.
Agora está ali, com aquela ordem na mão. Terá que cumprir, afinal é o seu trabalho, mas entende que aquela tarefa é para ele como se estivesse desenterrando a si próprio e o seu passado.

sábado, 12 de setembro de 2009

ÓCULOS E DISCURSOS PERDIDOS.


Foto do autor

Tenho que viajar amanhã cedinho e, apesar das altas horas da madrugada, ainda estou aqui revisando um discurso que acabei de redigir. Os olhos parecem trocados e, vez em quando, fico um pouco confuso, as letras mexendo-se no teclado do computador. Na verdade, não é amanhã cedinho que eu devo viajar, é daqui a pouco, às 6:30h da manhã.
O dia desfaz a noite e eu tento imprimir o discurso enquanto a impressora encrenca. Não imagino por qual motivo. Começa a me bater certo sentimento de que talvez não consiga imprimir o texto e depois tomar banho, tomar café, trocar de roupa e depois de tudo, chegar a tempo de tomar o avião para a Bahia. Acho que eu esqueci de por nesta ordem de tarefas a mala que ainda tenho de fazer. Isto se a impressora resolver colaborar. Ah, finalmente. O texto impresso, sem problema.
O que é mesmo agora que eu tenho que fazer? Volto ao parágrafo anterior, bom, tenho que tomar banho. Ligo o chuveiro e deixo a água ir esfriando o cérebro (ou quase isto). A sensação do banho me reanima e as coisas parecem menos problemáticas. Confira a lista acima e veja as outras coisas que eu vou fazendo. Claro, ponha antes de tudo a mala.
          Desço arrastando a mala pelas escadas porque não tenho tempo para ficar esperando o elevador que, por desconto de pecado, acaba de passar reto no andar que estou agora, não atendendo ao meu chamado. Chego, finalmente, à portaria, comigo, os passageiros do elevador que ignorou o meu chamado, que chegam junto.
Tomo o táxi e comunico ao motorista para baixar o pé, sem dó. Ele me olha desafiador e segue em marcha lenta. Peço para ele parar, quero apanhar um táxi que respeite a minha pressa. Resmunga algumas coisas indecifráveis e vai adiante. Protesto, mando que pare, ele não escuta. Acelera um pouco mais e vai adiante, calado. Percebo que me observa pelo retrovisor, com cara de poucos amigos. Xingo, comigo, ele e várias gerações dele.
          No aeroporto, nenhum aviso de atraso de vôo. Pelo menos isto me alivia. Em pouco tempo, estou acomodado olhando, sem escutar, o discurso cheio de gestos que uma comissária de bordo faz diante de mim. Depois disto, a aeronave já está pousando no aeroporto de Salvador. Dormi pesadamente, concluo.
Vou para o Centro de Convenções e lá encontro o grupo de recepcionistas que estavam me aguardando. Falam dos procedimentos, me comunicam que a minha participação é a primeira. Entre eles, uma jovem que me convida para sentar num quiosque enquanto não inicia. Sentamos numa mesa afastada, ela pede uma cerveja. Conversamos amenidades, não quero retirar a surpresa da fala que está no meu discurso depois de ter atravessado a noite em claro pensando e escrevendo cada palavra, caprichosamente.
Retiro os óculos para limpar a lente e, como que por hábito, guardo no envelope que está sobre a mesa, junto com o texto do improviso. Bate uma chuva repentina e nos retiramos da mesa às pressas. A garota tem um papo interessante e a cerveja a deixa cada vez mais atraente. Ou seria a carência? Discutir isto agora não faz o menor sentido. O que é certo é estamos nos dando muito bem. Vejo que nos chamam, é um dos caras que me recebeu quando cheguei ao Centro de Convenções. Avisa que temos que ir para o Auditório, serão iniciadas as atividades do evento e eu serei o primeiro a falar.
          Chamam-me para a mesa e a garota senta-se ao meu lado. Sinceramente, não ouvi ninguém anunciando seu nome, mas também não vou polemizar, não me cabe. Até gosto que ela esteja ali, ao meu lado. O presidente da mesa me anuncia e me passa a palavra. Acho estranho que eu não consiga distinguir com clareza as pessoas á minha frente, sentadas naquele auditório. Param de aplaudir, procuro o envelope que deve estar comigo e que tem o texto do discurso. E os meus óculos, também. Entendo porque tenho dificuldades para distinguir as pessoas. Não encontro o tal envelope.
Resmungo uns impropérios, enquanto um silêncio pesado cai sobre o tempo. Sem o discurso e sem os óculos, agradeço o convite, a presença de todos, cumprimento os ocupantes da mesa e fico sem saber mais o que dizer. Passa pela minha cabeça uma solução estapafúrdia e, sem que eu mesmo me controle, passo a palavra à jovem ao meu lado alegando que ela é baiana e que, certamente, tem mais o que dizer do que eu. Para o meu espanto, a garota se levanta, toma o microfone e dana-se a falar asneiras, coisas sem sentido. Surge um ensaio de vaia, mas não prospera. Não sei o que faço aqui, sem meu discurso e sem meus óculos.