sábado, 9 de abril de 2011

UMA AUSÊNCIA PRESENTE


Lidamos no cotidiano com coisas sobre as quais, raramente, refletimos. Diariamente, muitas vezes por dia, transito pelo corredor que medeia as salas de professor. É mais comum que as portas estejam fechadas, quer pela ausência de seus ocupantes, quer pela necessidade de preservar o clima refrigerado dos condicionadores de ar. O hábito de encontrá-las, deste modo, nos retira o incômodo das questões que preenchem tais lugares.
Uma destas salas está vazia, ou como diz a música, está cheia de ar. A amiga que a ocuparia está de viagem pela Espanha. O hábito de procurá-la, naquela sala, para conversar, faz com que sua ausência incomode. Passar por ali, observar as lâmpadas desligadas, o escuro que se deixa mostrar pelo vidro acima da porta e o silêncio que vem do interior da sala, me provoca algumas perguntas: quando retornará? O que estará fazendo por terras estrangeiras? O que haverá de si em sua ausência, além das lembranças que nos visitam? Que sentidos existirão numa sala vazia? O que será que o tempo alimenta para além do pó que se assenta sobre os móveis? Enfim, um rosário de questões vai se desfiando a não ter mais fim.
Depois, o que se apresenta como reconfortante é o fato de que aquela sala é ocupada por minha amiga. Então, de alguma maneira, ela está ali. E, pensando deste modo, vou-me indo pelo corredor estreito, fronteiriço às salas de professor do meu Departamento.
Então, eu escuto sua voz, com sotaque da Paraíba, e vejo a porta de sua sala abrir e fechar com a constância de quando atendia ali, com atenção, os que aflitos buscavam seu apoio, sua amizade ou seus conhecimentos e seus préstimos.
Pode ser que sua necessidade de conhecer e de compartilhar suas descobertas esteja sendo remontada, nesse exato instante, lá por onde ela anda agora. Certamente, sua presença e suas inquietações farão instalar outras salas e, do mesmo modo, outros lugares de atendimento, para quem lhe busque. Este fio que nos liga fende-se em vários para ligar muitas outras pessoas que, como eu, descobriram, nesta minha amiga, a graça de sua generosidade.
Este fio que nos une aponta seu lugar e apresenta sua presença, estando ela presente ou não. Tem pessoas que são assim, sempre estão conosco onde quer que estejam. O que percebemos disto tudo é que o silêncio, o escuro, a porta fechada e a sala calada dizem muito de uma presença que preenche o vazio. Dizendo de outra forma, ainda para referir a música de Gil, uma sala vazia não apenas está cheia de ar, está também cheia de lembranças, daquilo que guardamos ao recordar alguém, naquele lugar. Ou, de outra maneira, está cheia de detalhes nossos, que investimos ou que imaginamos ser de outra pessoa.
A cada sala corresponde um número, o número é um operador de referências. É com ele que remetemos o que quer que seja para algum lugar. O número é o indicador de um lugar vazio que se apresenta como espaço de uma presença que está em cada um de nós. A sala guarda suas coisas como se cuidados tivesse, por afinidade ou por recomendação. E não há modo diferente de pensá-la, a não ser que abriga impressões de ausência com a mesma delicadeza de que presença fosse.
O corredor é apenas o caminho por onde logo há de chegar, a qualquer momento, uma amiga que está de viagem. É o espaço por onde transito inúmeras vezes ao dia, todos os dias, e onde dou de cara com a porta fechada. A sala fechada. A sala vazia, escura e silenciosa.

domingo, 3 de abril de 2011

O QUE FICA E O QUE SE VAI



Quando lhe fugira a celeste visão, o mancebo foi seguindo com o passo e com os olhos o carro que levava sua alma presa àquele rosto encantador. O passo era rápido e o olhar ardente; um ansiava por chegar; o outro quisera atrair pela força da paixão, pelo ímã das centelhas magnéticas que desferia a alma

(A Pata da Gazela).

José de Alencar

A inteireza das coisas é tecida de equívocos e de impressões. Na verdade cada unidade é constituída de inícios, reinícios, finais e transcendências. Um dia, iniciado depois de outro que findou, carrega consigo, na fronteira entre um e outro, os interstícios das passagens que não se consolidam em extremidades, nunca. Um amor que termina vai ainda, por muito tempo, esmaecer. Outro que inicia, transcenderá em fios ralos de princípios, em simultaneidade com os restos do ainda é.
Assim é a vida. O nascimento aciona o destino iniciado e outros inícios, que lhe estão conjugados: a experiência da maternidade e da paternidade, a irmandade e outros laços afetivos que daí derivam. Algumas vezes, podem até deslanchar rompimentos traumáticos. Os planos para o futuro se ajustam, desde o começo, em momentos conclusivos e reinícios inseguros. E a conclusão de um projeto exige, de imediato, o começar de outro.
Uma flor abre suas pétalas, pacientemente, como se aguardasse a desatenção de quem a observa, para se apresentar, de repente, em todo o seu esplendor. Entre condição de botão e o seu estágio final de flor, a transcendência de instantes, em medidas de tempo mínimas e, no entanto, absolutamente seculares.
Uma rocha, observada demoradamente por alguém, não revela o seu processo de deixar-se de ser, de ser de outro modo, de acumular novos resíduos e largar outros em fragmentos que parecem se constituir em elementos diferentes do seu ser anterior, desiguais em tudo do seu estado recém-passado. A fotografia, que consegue paralisar a imagem de um instante, é o único meio de mostrar tal estágio de algo. A rigor, não percebemos o movimento por que passam as coisas em suas transmutações.
As trocas constituem mudanças de situações e provocam impressões de muitas naturezas. A roupa trocada pode ser entendida como a possibilidade de apresentação do mesmo, de outro modo. Pode servir ao interesse de constituir um corpo novo, renovado, melhor apresentado. A própria roupa a ficar no cabide ou a revestir o corpo tem suas relações de sentido alteradas, conforme a ocasião e o seu estado.
A troca, no sentido mercadológico, estabelece uma espécie de pacto de equivalência. Desde o escambo é assim, quem dispõe de um bem e carece de outro deseja trocar algo que tem para adquirir aquilo de que tem necessidade. Uma vez efetuada a troca, com acréscimo de retorno para um dos lados ou, sem acréscimo algum, produz a impressão de equivalência, embora cada um dos negociantes possa, particularmente, ficar com a impressão de ganho ou perda. Mas, ao final, realizada a troca, deve restar a exata compreensão de que algo que faltava foi adquirido e algo que sobrava já não sobra mais do mesmo jeito.
As trocas de carinho entre pessoas que se relacionam afetivamente têm significados diferentes conforme os interesses recíprocos. Aqui não serão enumeradas as diversas situações e os interesses correspondentes. Desejamos apenas ressaltar que estas trocas se dão também com possibilidade de níveis de satisfação diferenciados, o que pode deixar um dos parceiros mais ou menos satisfeito.
Por fim, todos os tipos de troca são marcados por aquilo que, desde o início deste texto, temos buscado tratar. As impressões de completude e as faltas que se produzem no transcurso de uma compreensão sobre algo e, ainda, como a mobilidade modifica as coisas no mundo, às vezes, sob a impressão de imobilidade. Que a plenitude é uma ideia sobre a qual se interpõem muitos outros aspectos de vazios, lacunas, ausências, particularidades etc.
Ao deslocar algo de um lugar para outro estamos preenchendo um vazio num local e esvaziando outro. Produzimos, portanto, uma nova realidade, e nesse deslocamento, o atrito ou a resistência produz desgaste, por vezes, imperceptível. Ao abandonar um projeto, uma ideia ou alguém, deixamos de ter aquilo que abandonamos. E tal abandono cria a possibilidade de buscarmos preencher o lugar vago por outra coisa e, ao mesmo tempo, aquilo que foi abandonado há de ser apropriado por outra pessoa ou ligado a outra coisa, outra situação. O olhar de agora se depara com a surpresa do que, no passado, foi visto de outro modo. Na memória, a imagem guardada daquilo que já não é mais.

sábado, 26 de março de 2011

O FIM DE TUDO O QUE SE BUSCA


A livraria, a porta aberta, os livros enfileirados nas prateleiras. Cada um deles a dizer-se mudo enquanto alguém não se achegue e ponha-se a ver-lhes as páginas abertas, perscrutando a intimidade das palavras. Estimulando os sentidos a fazerem-se sentir-se, no mais das vezes, ao roçar da visão. O jovem, tendo à mão um vinho tinto, passa os olhos em busca de algo: um título, um autor, um sem saber que busca sempre quando se dá conta de estar numa livraria.

Mas esta é uma situação especial, antes de decidir comprar o vinho, deu-se a confirmar, pelo celular, o encontro muitas vezes marcado e adiado sempre, com uma pessoa, há muito desejado. De vez em quando, carece trocar a garrafa de mão para enxugar o suor que friamente umedece a palma das mãos. De livro a livro visto, percorrendo as prateleiras, para em Florbela Espanca. Lê uns dois sonetos e, a seguir, trechos de sua vida atribulada. Maria Toscano, a esposa do João Maria Espanca, não podia ter filhos. João Maria, valendo-se, então, de uma antiga regra medieval que lhe dava direito a ter filhos com outra mulher quando a esposa não pudesse ter filhos, procurou Antônia da Conceição Lobo, com quem teve Flor Bela Lobo e mais outro filho.
“Florbela D’Alma da Conceição Espanca casa-se três vezes, publica em vida dois livros, apresenta sinais sérios de neurose. E, às duas horas do dia 8 de dezembro – no dia do seu aniversário, suicida-se”.
Repõe o livro na prateleira, pensa em filosofia, dá-se conta que tem às mãos um livro de Voltaire: François-Marie Arouet – escritor, ensaísta e filósofo iluminista francês –, mais conhecido pelo pseudônimo Voltaire. Fica a ler trechos e vai tomando conhecimento da voracidade de um escritor pela escrita, da diversidade de temas tratados e como produzia feito uma máquina. Mas ainda não é esta abordagem filosófica que deseja associar ao vinho que tem em mãos. Continua sua busca e, ao tentar repor o livro de Voltaire na prateleira, cai-lhe na cabeça outro livro, sem qualquer explicação aparente.
Agacha-se para apanhar o livro ao chão, ainda zonzo. É um livro de Fernando Pessoa, “Toda Poesia”. Conhece bem o poeta, mas naquele momento não imaginava nada assim, não tinha pensamento em Fernando Pessoa. Mas, aproveitando para paginar o livro, vai-se dando conta que bem poderá ser aquele o que procura. Passa pelos heterônimos: Alberto Caeiro (Sinto-me nascido a cada momento/Para a eterna novidade do Mundo...); Ricardo Reis (Assim em cada lago a lua toda/Brilha, porque alta vive); e Álvaro de Campos (Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã... /Sim, talvez só depois de amanhã...).
Certificou-se, é mesmo este livro que deseja. Busca com os olhos alguém que venha atendê-lo. Não tendo ninguém por perto, vai à procura do caixa. No percurso, uma vendedora lhe pergunta se encontrou o que buscava, ao que ele confirma. Ela pede o livro, retira qualquer coisa da última pagina, põe-lhe uns marcadores de leitura e o acompanha ao caixa.
O trânsito daquela tarde está leve e logo se vê chegando em casa. Ao chegar à portaria do prédio, o porteiro lhe avisa que alguém pegou a chave e o espera no apartamento. Ele sabe exatamente quem é. Toca a campainha e a porta se abre quase que por magia. Um abraço demorado, um beijo idem.
Naquela noite, se realizará, a cada momento, um dos encontros adiados até que se cumpram e se atualizem todos eles. Em cada um, conversarão sobre coisas sem importância como a seguir um rito de paciência e prazer. Muitos abraços, muitos beijos, muitos toques. E sentar-se-ão à beira da cama, ouvindo “La mer” e muito mais Debussy. Mas, antes de qualquer coisa, será Fernando Pessoa quem declamará seus versos e os servirá na bandeja, com vinho: “Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as/No colo, e que o seu perfume suavize o momento/Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,/Pagãos inocentes da decadência”.

domingo, 20 de março de 2011

O ACASO, O PREVISÍVEL E O DESTINO


Foto do autor

O acaso se apresenta como de susto, à revelia do traçado. Pode ser que assim nos faça cruzar com alguém que não esperamos, num lugar improvável. Pode ser que este alguém nos traga alegria, recordações, abraços, beijos (talvez). Pode ser que não, que nos traga tristeza, lembranças que desejamos esquecer, ameaças de toda ordem. Pode ser que seja alguém que nunca vimos e que, por acaso, se torne uma pessoa frequente em nossa vida, dali por diante. Pode ser que não, pode ser que apenas passe por ali, no mesmo momento, em que passamos e nunca mais nos vejamos de novo. O acaso nos surpreende com suas incertezas estáveis. As coisas no mundo podem ser explicadas pela previsibilidade de ocorrência a partir de um número mensurável de dados, de certo grau de incertezas e indeterminações.
Ao virar uma esquina, ao erguer a cabeça, ao entrar ou sair de um bar, uma igreja, uma loja, uma escola, uma praia... A qualquer momento podemos dar de cara com o acaso: um sorriso, uma indiferença, uma tristeza, por acaso.
Há quem não goste de surpresa: sai de casa de caso pensado, lista na mão ou o roteiro na memória, a cumprir o traçado igualzinho ao que foi imaginado. Todos os dias percorre os mesmos caminhos, encontra as mesmas pessoas, enfrenta problemas semelhantes e alegra-se, porque vivendo assim se sente mais seguro de si, vive sem sustos.
Há quem alimente as mesmas dúvidas por anos a fio. Na hora de decidir, adota as mesmas decisões como se as tomasse pela primeira vez. Marca o livro de leitura nas mesmas páginas, recorre ao fim de cada capítulo para verificar o que virá, após ter lido o mesmo número de páginas. Espera que algo ocorra a partir de determinadas ocorrências que, em geral, precedem tal possibilidade.
Existe um desejo matemático de assegurar-se, de ter nas mãos as rédeas de sua vida, de seu destino. Cada um é responsável por si e dono de suas ações. A não ser que, vez ou outra, se permita deixar umas doses a mais desguiarem de seu trilho. Aí é outra história. Uma pessoa assim tem a impressão de ter o controle da situação, de ditar as regras que regulam atos e fatos sobre si. Mesmo nos momentos em que a situação foge ao seu controle e se impõe provocando reformulações de planos e trajetos.
Mas há os que entregam nas mãos de Deus a sua sorte. Fazem e acontecem, mas não se reconhecem como guias de suas condutas. Deus tem todos os méritos e todas as culpas. Se bem que não se deve falar em culpa, porque quando acontece de algo sair diferente de sua crença, aqueles imaginam que Deus os está penitenciando por alguma coisa que não sabem exatamente qual. Ou, por outra, está testando sua fé.
Há também quem chame Deus de destino. E neste ponto se estabelece uma polêmica. Pode ser que exista, de fato, o destino: tudo está escrito, caminhamos inexoravelmente em direção ao que nos está reservado. Por mais que façamos para desviar o rumo, até isto está previsto. Pode ser que destino não exista e caiba a cada um traçar sua rota com cautela e responsabilidade. Imagine se alguém que tem consciência de seus atos vai entregar sua vida nas incertezas de um destino. Nem pensar.
O destino é apenas aquele ponto para onde nos direcionamos: a pé, a cavalo, de carro ou de avião. É representado por aquele texto à frente dos transportes de massa que faz com que cada um, ao final do expediente, tente identificar, no luminoso o lugar a que se destina. O abrigo a que nos devem conduzir ao conforto do lar, ao ponto marcado para o encontro, enfim.
No entanto, sobra a dúvida persistente:  Será que existe destino? Será mesmo que tudo o que fazemos é para cumprir as determinações do tal destino? Por via das dúvidas, é bom que a gente saiba que o destino, embora não existindo, consegue nos levar aonde é de sua vontade.

sábado, 12 de março de 2011

NON ULTRA


Fim de tarde, a artista pinta sua obra mais perfeita. Trêmula, empunha grosso pincel. Os pelos embebidos chicoteiam em fúria a pele calma da tela. A tinta impregna-se em lanhos, ganhos de alma e cor. A obra rascunhada se transforma, arrisca-se, revela com habilidade o dom da criação. A imaginação dá a senha, e o resto se desenha no toque de suas mãos mágicas. De tal modo executa seu trabalho, que nem se dá conta do quanto de si já migrou para as cores das tintas.
O corpo se contorce e se debate, ora para um lado, ora para o outro. Boca seca, pele seca, tempo úmido. Coisas ditas entre os dentes, sussurros desconexos. Pela segunda ou décima vez, repete o movimento com o mesmo ímpeto incontrolável. É assim que surpreende e parece óbvia demais.
A tarde queima. Um soluço intermitente. O desejo pulsa dentro da escuridão, eriçado, hirto. Cala a vez do próximo e as mãos deslizam pelo corpo em pelo. A pele hirsuta ilha-se em meio ao mundo posto ao alcance. A boca fria ofega em delírios.
Divino, maravilhoso, estado de grande excitação. Cada gesto é novo, é inesperado, mas enche o mundo de grandeza. Parece que canta enquanto pinta a tarde, parece que chora em seu murmúrio de êxtase. Parece que tem anos de ensaios, porque cada gesto é preciso, embora perturbador.
Às vezes é fúria, por outras, é simples e suave como se regesse uma sinfonia. E sua alma transparece no movimento do corpo como um frenesi de um prazer extremo. Afetos afeitos ao ríspido açoite vão se impregnando de tensão, pela frequência com que ocupam espaço e tempo, inexoravelmente. O que parece brusco se converte em delicadeza. Seu talento renova a arte em tudo àquilo que parece conhecido de há muito.
Resplandece um jardim formoso como um lugar pleno de felicidade. O centro dos olhares, o gozo iluminado em que se contemplam todos os detalhes do trabalho até ali empreendido. A aparência do instante materializado traz também uma dualidade contraditória ou paradoxal: conforta e desestabiliza. Conforta porque atende as expectativas e demonstra segurança, mas desestabiliza porque é única e irreversível.
No meio da tarde, uma pergunta se põe como inevitável: depois de tudo, então, o que será das outras tardes que se enfileiram em sua necessária trajetória, mas que não contam com o mesmo furor criativo? Nem bem se delineiam os traços conclusivos e já se há de perguntar pelo que virá depois. Como se o acontecer acontecendo nos fizesse vislumbrar uma saudade, uma ausência. Ou, talvez melhor, uma falta.
A artista não se dá conta deste ponto de fuga que se interpõe ante seu furor de perfeição. Subjaz ao tempo um lugar como cenário e suas cenas, a despeito do que nos damos conta. O início, que principia o fim (em toda a sua ambivalência), ainda é expectativa, mas o final em curso já manifesta sua falta. Pode até ser que tal falta, logo depois, nem seja tão importante assim. É, ainda, no correr do término que esta defasagem se manifesta com maior força.
A tarde em tela se concretizará como narrativa para quem tiver a oportunidade de contemplar a pintura. Mas, de verdade, jamais será a mesma tarde. No momento mesmo em que arde o dia, a pintora faz parte de um detalhe a mais, compõe o cenário com sua cena de pintura. Isto a obra não recupera. Também esta ausência estará sempre presente. Mas talvez a obra mais viva e forte seja aquela que a memória guarda. Esta, junto com todas as emoções de vida, prescindirá da tela porque é outra obra.
O pintar reacende o desejo da pintura para a pintora, porque ela mesma é a realização da sua obra, única e admirável. Aperta o pincel entre os dentes como a senti-lo lâmina sem retorno.

sábado, 5 de março de 2011

ECO DE NARCISO



Atualmente cultuamos tanto a beleza física, voltados para nós mesmos, que não enxergarmos quem está em volta. Mas quem está em volta também está olhando para si. Neste cenário, a imagem no espelho se constitui na alteridade. É na fronteira entre aquilo que somos essencialmente e aquilo que desejamos ser e que o espelho denuncia, que se constitui a imagem do outro a quem buscamos pertencer, desejamos ser. A encruzilhada auto-reflexiva revela e resvala o narcisismo.
Diz o mito que Narciso, filho do deus Céfiso e da ninfa Liríope, fora sentenciado a viver sem se comtemplar. Tirésias previu, no dia do seu nascimento, que Narciso teria vida longa, desde que jamais contemplasse a própria imagem.
O dilema da contemporaneidade é não enxergarmos o outro, justo porque estamos voltadas para nós mesmos. Talvez seja este aspecto um dos motivos do sentimento de solidão que marca a atualidade. É como se cada um de nós, apesar de se encontrar num coletivo, estivesse voltado para si, sem conseguir ver o outro, tendo que perguntar, como Narciso, na floresta: “Há alguém aqui?”
Embora sozinhos, estamos condenados a ouvir apenas detalhes do apelo do outro, deste modo, é como se a fala do outro soasse como a voz de Eco, a ninfa que se apaixona por Narciso, que, num diálogo no interior de uma floresta, só consegue ecoar o que sobra, o final do que é dito. E, respondendo a Narciso, Eco repete “Aqui”.
É evidente que se desenrola, a partir de então, um diálogo entre desconhecidos, como uma espécie de situação muito semelhante ao que ocorre nos dias de hoje. Eco vê Narciso e está encantada por ele, mas Narciso não a vê. Não a vê, mas insiste em interpelá-la, convidando-a a aproximar-se: “Vem!”
Cada um aciona seu desejo de se comunicar sob uma perspectiva particular: Narciso, que se encontra sozinho, e Eco, que deseja o seu amor. Quando Eco ecoa a fala de Narciso, o faz como uma resposta e, portanto, como se seu desejo anulasse a condição de Narciso não saber de si. Deste modo é que repete “Vem!”
A interpelação que faz Narciso, a seguir, é ainda mais propícia a quem deseja, porque no seu desejo desconhece a distância ou as impossibilidades. “Por que foges de mim?” É, então, a vez de Eco, repetir o final desta pergunta: “Foges de mim”. Há aí o equívoco em que ambos, no processo de diálogo, se dirigem a pessoas diferentes daquela com quem, de fato, dialogam.
Conforme a determinação do sentimento de solidão, Narciso manifesta seu desejo de companhia, e convida, então, a quem lhe responde para juntar-se a ele: “Vamos nos juntar”.
Claro, quem quer que estivesse já predisposto a querer outra pessoa, ouvindo um convite, nestes termos, tomaria a decisão de aceitar, sem pestanejar. Assim procede Eco, sem contar que sua aproximação pudesse ser repelida.
Só que Narciso recusa sua aproximação, quando percebe que Eco o deseja. E a repele com veemência:  Afasta-te!  exclama, recuando. E declara, para tristeza de Eco: “Prefiro morrer a te deixar possuir-me”.
Finalmente, Eco se dá conta do equívoco, mas como não lhe é dado dizer nada além de repetir o final dos enunciados, cumpre sua obrigação e repete apenas “Possuir”.
Tantas coisas podem ser ditas com relação a este mito. Aqui, por enquanto, queremos apenas falar deste diálogo entre nós, em que parecemos estar voltados para nosso próprio umbigo, ou, noutro momento, não conseguimos falar tudo o que sentimos porque não temos tempo ou porque temos limitações na capacidade de expressão ou, ainda, porque sequer sabemos o que desejamos dizer.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

NA OUTRA LINHA, PARÁGRAFO


CIGARRO

Olho a noite pela
vidraça. Um beijo, que passa,
acende uma estrela.

Guilherme de Almeida

O ruído da chuva me desperta, mas retira a disposição de me levantar. É contra a vontade que saio da cama em direção ao banheiro. Ligo o chuveiro e a água fria dói na pele da alma. A preguiça aos poucos vai embora e o sono resistente apazigua o corpo molhado. Após o ritual do banho e do banheiro, sento à mesa para tomar café. O café quentinho reanima a manhã chuvosa. Olho a chuva intensa que lava a cidade inteira. Novamente sinto vontade de voltar à cama.
Empurro-me para o carro, ligo o motor e o rádio, que chora uma canção encharcada. O carro em marcha lenta sabe bem o caminho. Tomo a avenida enevoada e vou adiante. Muitos outros carros vão devagarzinho numa procissão metálica. Ninguém parece ter pressa, nenhuma pressa. De vez em quando o locutor da emissora de rádio gagueja umas notícias sem importância.
Primeira marcha, segunda, freio. Primeira marcha, segunda, freio. Assim vão-se arrastando por um longo tempo as filas paralelas de carros. Eu sempre escolho a faixa mais lenta. Angustia-me que as outras consigam ir adiante enquanto a fila em que estou amorrinha-se. O limpador de parabrisa inquieta-se num vai e vem frenético. Em dias de chuva, as músicas no rádio não têm a menor graça. Nem a gagueira do locutor do noticiário. É tudo aborrecido, entediante.
Primeira marcha, segunda. Freio. Primeira marcha, segunda, freio. Ligo o desembaçador e estranho, porque não parece fazer qualquer efeito. O vidro embaçado acinzenta ainda mais a paisagem.
Faz tempo que percorro a casa ao lado. Tudo se alonga além das medidas. O locutor gagoconta que a chuva que molhou a noite e encharca a cidade desabrigou famílias na zona norte, na região das olarias. Vem à memória o drama recente em que autoridades governamentais discutiam nas TVs, com repercussão nos jornais da cidade, sobre de quem seria a responsabilidade de restituir a tranquilidade de famílias desabrigadas no inverno passado. Não sou eu quem repete esta história, é a história que adora uma repetição, diz a canção popular.
Primeira marcha, segunda, freio. Primeira marcha, segunda, freio. Eu sempre escolho a faixa mais lenta. Ouço que os rios que atravessam a cidade ameaçam transbordar. A água busca os céus e não mais em forma de vapor, mas em estado líquido. O rio de carros se arrasta há horas. A chuva aumenta e o limpador de parabrisa agita-se ainda mais. Os semáforos apagados denunciam a falta de energia. Os cruzamentos ficam confusos e o caos se instala de vez. Paciência e muito cuidado. Segunda marcha, primeira. Freio.