sábado, 1 de outubro de 2011

URBANOPATIAS

Foto do autor

A cidade é, por excelência, o lugar do excesso. Tudo é ofertado em demasia, inclusive a escassez. Recorrentemente se ouve falar em comportamentos compulsivos: consumo de bens materiais (roupas, perfumes, chocolate etc.), de bens simbólicos (novelas, notícias, Internet etc.) e até mesmo de sexo. As síndromes e os transtornos obsessivos compulsivos fazem parte das patologias modernas, mas, principalmente, urbanas.
Uma das lógicas que alimenta o sistema capitalista é exatamente a produção em larga escala: vários produtos, inclusive remédios, com finalidade e conteúdo semelhantes são ofertados em massa sob o pretexto de estimular a livre escolha. Mas, ao mesmo tempo, são criados filtros severos que definem quem pode ou não acessar os produtos em oferta. Sem dúvida, o mais forte destes filtros é o poder de compra; se de um ladoprodutos em excesso à mostra para consumo, por outroemprego e salário de menos, o que cria uma bruta contradição. Daí decorrem filtros como a falta de educação e de saber que afunilam mais ainda o acesso aos bens urbanos.
Diz-se que cada um é livre para dar destino à sua vida. Porém, para cada um, as oportunidades são bastante diferenciadas. Enquanto uns têm acesso à boa alimentação, educação, saúde, moradia, entretenimento, emprego e renda, aos outros são negadas estas garantias básicas de uma vida digna. Nega-se, assim, um dos fundamentos principais para o acesso as oportunidades de mobilidade social.
É claro que ao acessar as tecnologias e seus produtos, as elites garantem a manutenção desta realidade indefinidamente, e isso não ocorre de modo pacífico. Primeiro, porque as indústrias que produzem em excesso precisam de consumidores para as suas produções ― quanto maior o número de pessoas consumindo mais disputas são possíveis. Segundo, a ostentação da riqueza gera o desejo e a revolta entre aqueles que não têm acesso a nada, abrindo possibilidades de ações violentas.
O excesso é tanto maior quanto mais houver modernização tecnológica. As tecnologias facilitam o aumento da produtividade e substituem mão-de-obra, produzindo, contraditoriamente, mais oferta e desemprego. De outro lado, impõem a velocidade contra o tempo e o espaço, esgarçando fronteiras e desestabilizando referências que anteriormente pareciam estáveis: as comunidades disseminam-se no tecido social sob novas configurações, reinstauram-se tribos, exacerbam-se disputas e comportamentos violentos. Contra o conforto e as facilidades que atraem migrantes para os centros urbanos surgem a insegurança e o medo, provocados pela violência extremada. Vive-se um tempo em que, parece, o gestor urbano perdeu o controle sobre a ordem e a dimensão de suas medidas e escalas.
Neste cenário, ressurge o desejo do indivíduo sobre o da coletividade, é a reafirmação necessária da identidade que explode em fragmentos tantos quantos sejam possíveis. Cada um detém uma nova maneira de se apresentar e se identificar. Os conglomerados humanos, de qualquer tamanho, espelham-se e identificam-se nos comportamentos de massa superdimensionados pela mídia, sintomas de contágio dos corpos urbanos, através de epidemias de informações deformadas. As urbanopatias que poderiam ser características das grandes metrópoles espalham-se e contaminam pequenas cidades com a velocidade de viroses incontroláveis. O despertar para um retorno ao mundo rural, a migração às avessas, é um dado novo e contém em si o risco da disseminação dos espaços saudáveis do campo pelas patologias comportamentais que fizeram disparar nas cidades a violência, a solidão, o consumismo, o medo.

sábado, 24 de setembro de 2011

A ROSA DO POVO


Noitinha, a luz tênue mescla o verde-escuro das salsas com o branco da areia do terreiro da casa. As conversas, após o jantar, estão ainda no seu início e todos nos damos conta de que alguém se aproxima. Olhamos uns para os outros como a nos perguntarmos quem seja. Os cachorros levantam-se, se espreguiçam e se agitam, mas não rosnam ou latem, como se conhecessem o tal cavaleiro.
Encosta-se ao parapeito do alpendre, retira o chapéu com reverência e dá boa noite. Um coro meio desanimado e desafinado responde com “outro boa noite”. O rapaz explica que soube de estarmos de posse de uma mala encontrada na estrada. Explica que a referida mala é sua e que a deixou cair, quando a transportava na garupa do cavalo, na manhã anterior Diz que percorreu léguas e léguas beirando a estrada e tomando informação até saber que a havíamos encontrado.
Confirmamos ter encontrado a referida mala e já alguém se ergue para ir buscá-la, quando tenho a ideia de verificar se realmente ele é o dono, visto que os pertences encontrados no interior da tal mala são femininos. E o rapaz não parece nem um pouco afeminado. Perguntamos, então, se ele poderia nos dizer o que contém a mala. Ele, a princípio, faz silêncio, como se pensasse. E a seguir, começa a reclamar que estaríamos desconfiando de sua honestidade e coisa e tal.
À medida que resiste a responder o que perguntamos, vou ficando mais convencido de que ele não conhece o que tem a mala e, portanto, não pode ser o dono, como diz ser. O rapaz mostra-se bastante irritado e até insinua algumas ameaças, sugere portar armas, mas, em nenhum momento, apresenta qualquer ameaça ostensiva.
Resolvo, então, revelar genericamente o que tem na mala, digo que na verdade as coisas não podem ser dele porque se tratam de pertences femininos. Ao ouvir isto, ele começa a sorrir, a gargalhar como se houvéssemos contado uma piada muito engraçada. Ri que quase cai do cavalo. E sem dizer uma palavra, toca as esporas no cavalo e sai dali em disparada.
Alguém reclama, então, que eu entreguei a informação, e que, dali por diante, outras pessoas poderão vir buscá-la, pois, desta vez, já saberão o que a mala contém. Eu explico, então, que não é bem assim, porque a informação que eu dei foi muito imprecisa; em “pertences femininos” podem se incluir muitas coisas. Naquela noite mesmo não houve outro assunto. Também não apareceu mais ninguém.
No dia seguinte, cedinho, quando abrimos a porta, havia uma mulher sentada em um dos parapeitos, como se lesse um livro. Com todo o barulho de abrir a porta e o movimento que daí decorre, ela não ergueu a vista. Fui até onde ela estava e a cumprimentei com um bom dia, ao que ela responde olhando para mim e sorrindo. Diz que veio pegar sua mala. Olho ao redor e não vejo nenhum animal, nenhum veículo. Pergunto, então, como chegou até ali, e ela responde que alguém virá pegá-la depois.
Ela sorrindo me diz que nem precisa perguntar sobre o conteúdo da mala porque ela mesma dirá. E vai dizendo aos poucos, conferindo com o que de fato está lá. Por fim, fala do livro do Carlos Drummond de Andrade. Contamos a ela o ocorrido da noite anterior, ao que ela nos diz não saber quem seja o tal rapaz. Diz que soube que a mala estava conosco por alguém que a teria contado, mas não teria sido, certamente, o tal rapaz.
A respeito do livro, ela nos diz que sua mãe teria estudado em Belo Horizonte, quando jovem, e recebido o livro de presente do próprio poeta. Insinua ser filha dele, alguém de quem ele nunca teve notícia. E que ela também nunca teve como conhecê-lo pessoalmente. Sempre sorrindo, com ar de intimidade, se vai, e, antes de sair, diz que se chama Rosa.

sábado, 17 de setembro de 2011

BOCA DA NOITE



Desliga a luz, hora de tentar dormir. O corpo se espreguiça na cama fria e o lençol cheirando a amaciante promete agradável noite de sono. Mas o dia passado espelha a alma com os seus senões. A promessa de emprego frustrada, o sol abrasador queimando a pele nas idas e vindas inúteis, a bronca suportada, a comida com cheiro de queimado, a angústia de ter de silenciar para não desagradar a família que, de algum modo, o acolhe...
Vira para um lado, mantém os olhos fechados. Vira para o outro, ainda de olhos fechados. Não consegue adormecer. Ergue-se e vai à geladeira para tomar um copo d’água. Não tem sede, é apenas um pretexto para levantar-se e caminhar pela casa. Teme que alguém acorde ou que o descubra abrindo a geladeira e imagine que está aproveitando o escuro da noite alta para fazer uma boquinha. Mas vai adiante.
Ouve um murmúrio vindo do quarto de casal. Resolve bisbilhotar. Pisa macio, tomando cuidado para não topar em nada e vai à busca de ouvir o que conversam. À medida que se aproxima, o tom da conversa torna-se melhor audível e, aos poucos, vai pescando algumas palavras. Estranha que a luz não esteja acesa, o quarto todo escuro, mas mesmo assim põe-se a uma distância que dê para ouvir sem se arriscar muito.
Apenas uma voz feminina não encontra resposta de outra, parece que fala sozinha. Sabe que algumas pessoas têm o costume de falar enquanto dormem, até aquele momento nunca percebera que alguém naquela casa tivesse tal hábito. Apesar de não soar baixo, a voz parece cheia de línguas, não dá para ouvir muito bem tudo o que é dito. Somente alguns trechos e, em alguns instantes, palavras soltas em meio a grunhidos.
Entre muitas coisas ouvidas, sem muita clareza, a mulher conta que na casa de fazenda, que fica no baixio, guardam uma mala que foi encontrada na estrada. A mala, diz, está cheia de dinheiro em cédulas graúdas. Nunca apareceu ninguém para reclamar a posse. Diz que dona Sara, uma lavadeira que trabalha por lá também, foi quem contou tal história numa festa de casamento, para todo mundo ouvir.
Por uma nesguinha só da fresta da porta entreaberta, ele percebe que a pessoa que fala se movimenta como se fosse levantar da cama. Depressa, ele retorna ao quarto e, por descuido, esbarra numa cadeira que faz um barulho razoável. Deita-se e põe-se a pensar naquela história. Ouve passos dentro de casa, finge ressonar. A pessoa chega-se e fica próxima à porta do quarto, como se o observasse. Não se move. Dali a instantes, a pessoa se afasta, na mesma pisada.
Ele vai juntando as palavras e lembrando que já ouvira tal história, mas nunca nada a respeito do conteúdo da mala, por isso não deu importância. Agora, com a informação de que a mala guarda tanto dinheiro, a coisa muda de figura, principalmente, porque ninguém ainda apareceu para recamá-la. A ideia de se apresentar como dono da mala vai ganhando força em sua mente. Talvez aquela seja a oportunidade de conseguir reparar muitas coisas que andam mal em sua vida.
Uma voz distante chama galinhas enquanto joga milho no terreiro, ele estranha que os caroços de milho brilhem ao sol feito ouro. Ele se aproxima e verifica que, de fato, é ouro em pequenos caroços que a pessoa joga para as galinhas. Ele fica aborrecido com aquilo e resolve partir para cima e tomar-lhe a vasilha donde tira os caroços que arremessa ao terreiro. Dá um grito bravo.
Acorda assustado e continua ouvindo o som peculiar de alguém que chama as galinhas para alimentar. Ergue-se da cama um tanto destreinado, se espreguiça, enquanto boceja e emite um berro de raiva e decepção. Imediatamente, a história que ouvira à noite lhe vem à mente. Senta-se de novo na cama e, desta vez, para elaborar um plano com o objetivo ir buscar a mala. 

domingo, 11 de setembro de 2011

MALA NA ESTRADA


Foto do autor

Levantara-nos há pouco tempo, estávamos ainda à mesa do café quando ouvimos uma voz feminina gritando, quase histérica, como se houvesse descoberto ouro. Depois de algum tempo, entendíamos que falava de estrada e de mala. Fomos às pressas ao alpendre, para ver do que se tratava. Sara, uma senhora que lava roupas para nós, enfrenta a areia do terreiro arrastando uma mala. Entra em casa e larga a mala ao chão como se quisesse desfazer-se do peso. Alegre e esbaforida, demora para conseguir esclarecer a cena.
Conta que encontrou a tal mala na estrada, quando vinha de sua casa. Lógico, alguém a deixara cair de algum carro. De princípio, ficamos sem saber ao certo o que fazer. Era uma mala simples, sem tranca ou cadeado. Pensamos em abrir para ver se encontraríamos alguma indicação de quem pudesse ser, mas pensamos melhor: era provável que quem a perdera estivesse a sua busca na estrada, e a demora em remexer as coisas poderia deixar passar a oportunidade de devolvê-la ao seu dono ou a sua dona.  Deste modo, achamos mais prudente pedir que alguém de casa a levasse à estrada e ficasse por lá até que aparecesse quem a procurasse. Claro, que não se iria oferecer ou perguntar por ali se alguém sabia de quem poderia ser, porque logo haveria de aparecer donos aos montes.
Até a hora do almoço ninguém reclamara a mala, assim também ao pôr do sol. Neste caso, achamos por bem abrir e ver se encontrávamos algo que pudesse indicar a quem pertencia. Todos em casa concordaram. Nada de surpreendente revelou o conteúdo, a simplicidade das coisas que continha já estava mais ou menos prenunciada na sua apresentação exterior.
Aquela tarefa nos despertou sentimentos contraditórios, mas somente daquele modo podíamos encontrar informações que nos permitissem saber a quem devolver. Mas, ao mesmo tempo, incomodava-nos a sensação de estar invadindo a privacidade de alguém que sequer sabíamos quem era. No entanto, distraia-nos aquele exercício exploratório: retiramos as peças de roupa e outros itens pessoais agrupando-os conforme nos pareciam pertencer a um ou outro grupo de objetos.
A dona daquelas peças e, provavelmente, da mala, é uma mulher jovem. Os vestidos demasiadamente curtos, as roupas íntimas ousadas revelavam também tratar-se de alguém da capital, com gosto bastante sensualizado. A simplicidade, no entanto, expressa no conjunto de coisas, inclusive, pelo tipo de mala, o gosto de alguém humilde, economicamente. Nada de sofisticação ou etiquetas de moda.
Também não parece se tratar de alguém de grande estatura. Uma mulher de 1,60m, talvez magra, jovem. Pela cor das roupas, predominantemente claras, pode indicar que seja também de pele morena ou mais escura. Não dá para ter certeza. Apenas uma hipótese. Uma caixa de sabonetes glicerinados, um estojo de maquiagem em cores discretas, ainda sem uso. Um perfume suave e um espelho com cabo, em formato elíptico. Nada de fotografias, agendas ou qualquer documento que revele alguma identidade.
No fundo da mala, o livro A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1945, quando de sua primeira edição, tinha uma dedicatória que não revelava muita coisa, até porque, aparentemente, se não fora escrita no mesmo ano de publicação do livro foi próximo, e isto não batia com as impressões até ali acumuladas. Os outros indícios não remetiam para alguém com essa idade. Dizia a dedicatória, “Para o amor da minha vida, com a paixão que há de nos incendiar sempre que nos toquemos”.  Era assinada por um tal Hermano Carrasco. A data, borrada, aparentava ter-se borrado por efeito de algum líquido: água, perfume, lágrimas. Quem sabe?

sábado, 3 de setembro de 2011

DIA COMUM


Foto do autor

O dia amanhece com o mesmo sol dos dias anteriores. Algo de menos no tecido da esperança. É assim que se vislumbra adiante pelas frestas dos olhos incrédulos: a rede cerzida, o lençol puído e o chão batido sob as sandálias pela metade. Gentis inocentes esbaldam-se em ressaca moral. Uma nação inteira engana-se de lado a lado nas explicações amarelecidas sem explicação.
De resto, erguer o corpo no torpor do antes como um nada e vestir as vestes remendadas e comer o pão dormido há dias. Que não se atrevessem à sua frente quaisquer slogans ou mensagens de paz. É duro arrastar o tempo esticado e ainda aguentar os sorrisos e as bandeiras desfraldadas a custa de tanta insensatez. É difícil pensar nos mortos, nos vivos sem memória e no quanto uns e outros têm em comum. Nada mais a fazer, enganos ditos e repetidos como um eco sem paradeiro. Afora os sem sentidos, os dentes em falta, tudo o mais é promessa, como esses prometidos que nos sustentam e sobre os quais não se dá notícia.
Consciências carcomidas, bandas podres erguem-se arma em punho contra sombras em debandada e perseguem uma a uma como parte obrigatória do entretenimento. Multidões aplaudem torturadores confessos e vangloriam-se de ganhos insubsistentes. Solo fraturado, rasgos estonteantes sob a negação do viés vesgo e desnorteado.
O sol desloca-se lento e ardido. A pele esfumaça a última esperança sepultada, narinas dilatadas absorvem o calor corrente enquanto a sola dos pés incrusta vagos rastros no asfalto. É um dia comum, como outro qualquer. A diferença é que antes caminhavam ao lado de mais da metade dos que agora soslaiam-se pelas esquinas. Uma manhã comum certamente conduz a uma tarde comum, que, por sua vez, deve levar a uma noite comum e a uma madrugada igualmente comum. Tudo numa lógica de cavilação que não leva em conta a razão despida e alojada noutro extremo.
Ninguém muda, a cena irrequieta acena muda. O silêncio vergonhoso perde-se no alarido dos festejos sem graça alguma. Todos se admiram, miram-se e retornam ao estado letárgico do sono profundo. Espera-se que outros dias possam vir com sóis novos e luzes novas. O tecido esgarçado da esperança é o único pano, encardido, desbotado, a se erguer em bandeira. Apelo de senhas resguardadas a pelo.
O vento morno sopra sobre a tarde afeita ao vazio de ninguém mais. Grama esmaecida salta o fio vermelho do caminho por trás das grades. Olhar é longe, sombrio. Rios escorrem esquálidos, esgueiram-se fragilmente sobre os bancos de areia e ameaçam com a sequidão de verões cada vez mais longos. Não há como retornar ao terreno firme do passado. Barcos assombrados e recostam-se fincados no abandono enquanto lastreiam ratos a bordo.
Falta imensa no espaço, falta convicção e fé. Armam-se de argumentos até os dentes na comuna dos senhores da razão. A noite esconde os larápios e acalenta os corpos no descanso da fadiga. Mais um dia há de vir, Deus sabe a que preço. Farta e imersa no laço do lodaçal, a marca da ação litigante, em pele de cordeiro. Homens e mulheres consomem as últimas ofertas mostradas na televisão. Crianças esforçam-se para abrir os olhos, esticam o corpo e os braços e as pernas e bocejam.
Ao longe, canta o galo uma manhã sem sol e o canto ecoa no espelho preso à parede do quarto, fervilha no coador do café quentinho. Um dia comum como outros de antes, sem tirar nem por.

sábado, 27 de agosto de 2011

DIA APÓS DIA


Foto do autor

Há momentos em que histórias gravitam no espaço em que se vive. Parece que são épocas em que as antenas estão melhor conectadas com o entorno, na ânsia de aprender e apreender todos os movimentos e informações.
Pela manhã, desperta-se com o canto agudo da graúna, que, presumivelmente, projeta seu cantar do alto do maior coqueiro do quintal. O dia ainda é sombra e os cheiros da luz do amanhecer timidamente esgueiram-se nas telhas. Ao canto da graúna vêm-se somar outros alaridos: galinhas, perus, capotes, bem-te-vis, rouxinóis, sanhaços etc. Dentre os aromas do amanhecer, o do café é o mais forte e irresistível.
O cuscuz fumegante imerso no café com leite anima as primeiras histórias do dia. Diz que Ana Benta, garotinha de 8 a 10 anos saiu para pegar guabiraba e perdeu-se no capoeiral ouve-se na cozinha. Há dias, já não acreditam que ainda esteja viva. Comentam que encontraram suas roupas debaixo de um pé de pau-ferro. Mais nada. Os pais aflitos não perdem a esperança e continuam a procurá-la.
Cavalo de talo, sombra das mangueiras, o dia aquieta-se. Diz que há um cachorro louco solto nas redondezas, melhor voltar para casa. Diz que já mordeu muitos meninos que não souberam dar conta dos riscos e aproximaram-se demais. Primeiro morde os outros cachorros e depois o que encontrar pela frente. Melhor voltar para casa. De esquecido o tempo, esquece-se o assunto. À sombra da mangueira, a areia fresquinha e branca acaricia o corpo e fertiliza a imaginação.
Gritam que é hora do almoço. Fica-se mais um pouco e outros gritos ecoam até que alguém vem esbaforido e com ameaças. Se não for almoçar agora fica sem comer. Vai-se assim, em desembalada carreira. A cozinha mais parece uma feira. Gente de todo lugar. Uns comem em volta da mesa, outros sentados ao chão. Alguns ainda de pé experimentam a comida. Os mais velhos ralham: tem que comer direito, e respeitar a mesa. Deus está na mesa. Comer sem sossegar dá indigestão. Diz que seu Manuel teve uma congestão porque se aperreou na hora do almoço. Foi-se desta, não teve como salvar-se. Seu Manuel, aquele que contava histórias. Diz que esteve no Amazonas e foi encantado por uma cobra. Era seringueiro experimentado, mas neste dia ficou andando em círculos, atraído pelo feitiço da cobra. Só escapou porque se apegou à imagem de Nossa Senhora e rezou forte. Foi por pouquinho que a cobra não o engoliu.
Tem horas do dia que o sol esquenta até a sombra da mangueira, melhor ficar como todo mundo, espiando o nascente, sentado no alpendre, sem perceber nada. Só os que pitam cachimbo esmorecem naquele espiar agudo, o sol sobre a areia e a salsa a perder de vista. O caminho estreito, como se esperasse por quem não ficou de vir. Sonolência danada.
Diz que nestas horas os caiporas descasam debaixo das moitas e não toleram que ninguém atrapalhe seu descanso. Deve ser por isto que todos se ensombreiam no alpendre, sem se mexer nem dar um pio. Só o olhar alongado que silencia no avistar sem fim.
A tarde corre ligeiro, e depressinha já anoitece. O sol descamba feito doido até se pôr por trás da casa. Diz que de manhã até meio dia quem conduz o sol é um senhor de idade, com muito cuidado e responsabilidade. É por isto que as horas se arrastam e as manhãs são longas. Do meio dia para a noite, é um garoto peralta que desanda a brincar, a correr e rapidinho chega ao seu destino.
À noite caminham sacis, estrelas cambiam e vozes e silêncios enchem o mundo de histórias. Diz que, ao se adormecer, outras tantas povoam também os sonhos. O Coaxar do sapo, o pio da coruja, o piscar do vaga-lume carecem de imaginação para encenar as suas.

domingo, 21 de agosto de 2011

UM ASSUNTO PUXA OUTRO


Foto do autor

Regina levanta-se de sua mesa de trabalho e se dirige à lanchonete que serve aos empregados da empresa. Pede um suco de goiaba com laranja e vai se sentar com outras colegas de trabalho, ao redor de uma mesa, em descoberto, um pouco distante donde se concentra o maior número de pessoas naquele horário. Senta-se a tempo de ouvir alguém que fala das contradições que estão presentes na vida atual, no cotidiano de todos. Ouve dizer, por exemplo, que um carro, dos mais simples, tem potência no motor para desenvolver velocidade de até 180 km por hora, no entanto, a legislação limita a velocidade nas estradas entre 80 e 100 km.
Outra pessoa argumenta que, recentemente, passando pelo centro da cidade, presenciou a apreensão, por agentes federais, de CDs e DVDs vendidos nas calçadas por agentes federais. Ora, a própria tecnologia facilita a reprodução de CDs e DVDs em série. Certamente existem aí outros aspectos, como, por exemplo, a questão dos direitos autorais, a pirataria etc. Mas é contraditório. Fabricam-se produtos que não podem executar boa parte das funções que potencializam.
Alguém aproveita para reclamar do modo como se organizam a distribuição e o consumo de produtos e serviços derivados do uso de computadores. Além de toda uma gama de acessórios, periféricos, softwares e mais não sei o quê, o usuário tem que pagar a um técnico que cobra em média 50 reais a hora, se não quiser ou não puder levar o computador à assistência técnica. Existe uma rede de entrelaçamentos que movimenta muito dinheiro, por conta de cada um que se aventura a ingressar no mundo da informática, ao adquirir um PC.
Argumentam que, do mesmo modo como quem dirige carro não tem, necessariamente, de aprender mecânica, quem usa um computador também não tem que saber mexer na parte física da máquina. Enquanto isto, o dinheiro vai saindo pelo ralo.
E essa história de antivírus?! A cada dia infestam a rede dezenas ou centenas de vírus. Alguns deles são espiões que, uma vez instalados em sua máquina, podem enviar informações suas para um computador ou para vários, que controlam e utilizam tais informações para acessar contas, números e senhas de cartões de crédito e por aí afora.
Regina, já terminando de tomar o suco, comenta por comentar: ah, mas com um bom antivírus instalado não tem problema. As colegas se entreolham e riem, zombando do comentário. Ah, não me diga que você acredita nisto. Tenha dó, Regina!
Alguém entra na conversa e completa: há quem diga que as próprias companhias que desenvolvem antivírus alimentam esta situação. Se criarem um sistema de proteção com garantia total, não haverá mais necessidade de desenvolver novos antivírus e, rapidinho, todo mundo, de um modo ou de outro, estará com o seu na máquina. Elas teriam que fechar. Não há sistema completamente seguro.
A mesma coisa acontece, dizem, com as empresas de segurança. Nenhuma delas tem interesse em que se acabe com a violência. Se a sociedade conseguir adotar um sistema completamente sem chance de assalto ou ameaça ao patrimônio, elas perdem a razão de existir. Vocês já pensaram sobre o que sustenta tantas guerras no mundo?! A indústria bélica, claro. Se não houver guerra, como vão desovar seus estoques de armas? É triste que precisemos do emprego que tem por finalidade garantir que as sociedades continuem violentas. Mas não dizem que é o desemprego que gera violência?
Por falar nisto, um destes órgãos de combate ao uso de drogas fez veicular recentemente uma campanha cujo slogan dizia mais ou menos assim: “Quem usa droga alimenta a violência”. Ora, claro, se ninguém usar droga, a quem os traficantes vão vender? De onde vão tirar dinheiro para comprar armamento pesado e carrões? É verdade, concluem, em coro.
Já saindo da mesa, para retornar ao trabalho, alguém comenta: mas vcs já perceberam o que estamos consumindo no mundo da informação e do entretenimento? A verdade mesmo é que a própria programação dos meios de comunicação, em especial das TVs, principalmente, nos finais de semana, é uma verdadeira droga. E depois querem uma sociedade sadia. Por falar em drogas...