terça-feira, 6 de abril de 2010

EU TE AMO AINDA


Luiz sai de casa, como de costume, na expectativa de encontrar-se com Joana naquela manhã. Porém, dado o hábito deste encontro, não há qualquer outro sentimento que o deixe excitado ou preocupado. Há, sim, um certo prazer de encontrar com a pessoa que naquele momento parece ser especial em sua vida. Afinal, Joana é muito carinhosa e com ela partilha os assuntos sobre os quatro filhos em comum.
Pensando assim, toma a condução que o levará ao seu destino. No percurso, vai repassando o que imagina ser a conversa deste dia, e definindo em quais ou tais pontos deve ceder ou não. Está tudo mais ou menos roteirizado, como sempre. Ao mesmo tempo em que organiza seus pensamentos numa espécie de agenda, observa com indiferença a paisagem que resvala ao seu redor.
Entretido em seus pensamentos, nem se dá conta de que puxara o sinalizador, quando dá por si já está descendo os degraus, à porta do coletivo. Cumprimenta alguém no ponto de parada e segue pela rua, quase que automaticamente. Chega à casa de Joana na hora que combinara, sem qualquer novidade.
Empurra a meia porta e entra, virando-se, em seguida para fechá-la. O silencio da casa, no entanto, não é o habitual. Em geral, quando chega, Joana está junto a pia, lavando louças ou ao fogão, preparando o almoço. Agora, não há movimento algum, parece que não há ninguém em casa. Logo percebe que Joana está no quarto, sentada na cama, arrumando os longos cabelos negros. Vai ao seu encontro e beijam-se brevemente.
Luiz sorri e pergunta, com zombaria, por que ela está se vestindo? Joana também sorri e responde que gosta que ele a dispa. Luiz senta-se na cama e ficam conversando, conforme ele vai puxando os temas que havia programado discutir com ela. Joana pergunta pela esposa de Luiz que, sem qualquer constrangimento, vai dissertando sua vida conjugal com Carmem.
Joana, então, fala dos filhos, das despesas da casa, da viagem que fizera à casa de seus pais e outros assuntos já esperados. As coisas todas vão ocorrendo dentro do previsto e do habitual. Assim, vão conversando e, devagarzinho, vão se aproximando um do outro. Um detalhe no cabelo dela, um botão desabotoado na blusa dele... as mãos frias dela na mãos quentes dele.
Desde que Luiz conhecera Joana, nunca sentira nela tanto ardor, tanta volúpia. E, claro, mesmo depois do amor, extasiado, ele não pode deixar de perguntar sobre o que está havendo. Quase que lhe pergunta por que não tem sido daquele jeito sempre. É certo que se dão maravilhosamente bem na cama, mas daquele modo, jamais ocorrera.
Joana, ainda com a expressão do prazer cintilando no rosto e no corpo inteiro, diz que tem uma coisa muito importante para dizer a ele. De imediato, ele imagina que ela pode estar grávida. E a interpela neste sentido. Joana nega sorrindo. O clima está ótimo e Luiz não se cansa de abraçá-la e beijar o seu corpo. Joana não resiste, mas também não retribui como das outras vezes.
Afinal, Luiz pergunta sobre o que mesmo ela quer falar com ele.
Joana se recompõe e, em silêncio, vai vestindo-se sob o olhar curioso de Luiz. Ela começa elogiando a esposa de dele: é uma mulher bonita que, mesmo sabendo que os dois vêm mantendo uma relação, inclusive, com quatro filhos, nunca criou problema. Até a recebe em sua casa, como recebe também os seus filhos. A ajuda quando precisa e está sempre disposta a compreender o seu lado. Joana diz, em fim, que pensou bastante e que apesar de o amar muito, a partir daquele momento, não o quer mais.

sábado, 27 de março de 2010

O PERCURSO DO PROFESSOR


Final de expediente, o professor Pedro, chefe do Depto. do Curso de Psicologia, busca em suas gavetas a pauta que preparara para a Assembléia Departamental do dia seguinte. Ergue a cabeça ao perceber que alguém entrara em sua sala. Trata-se do professor Josué, um colega de Departamento, catedrático da disciplina Psicologia Clínica.
Cumprimentam-se. O prof. Josué interpela então o chefe do Departamento acerca do resultado do concurso público recém concluído em que foi aprovado um egresso do curso, agora, prof. Orlando. Manifesta desagrado que este senhor tenha sido aprovado como professor, em regime de Dedicação Exclusiva, para o Curso de Psicologia. O prof. Josué tem uma formação militar, conservadora, e não admite que Orlando, que passou, segundo ele, 10 anos para concluir o curso seja agora seu colega de Departamento. Relata brevemente a trajetória do aluno Orlando no curso. Diz que ele até demorou mais que 10 anos para se formar em psicologia porque sua maior dedicação eram as atividades do partido político em que milita, inclusive, a de conquistar mais militantes e simpatizantes.
De princípio, o prof. Pedro ouve com bom humor aquelas reclamações que lhe parecem intempestivas. Explica que ele não pode fazer nada porque foi constituída uma Banca Examinadora reconhecidamente idônea e que uma vez submetido à tal banca e aprovado não lhe resta outra alternativa a não ser encaminhar os resultados setor competente da Universidade para que Orlando seja contratado.
Aos perceber que o processo era, então irreversível, o professor Josué começa a levantar o tom da voz, vai-se irritando e falando cada vez mais alto e em todos os seus argumentos, põe a culpa no Chefe do Departamento. O prof. Pedro, imaginando que vai conseguir acalmar o seu colega, sugere que ele compareça à Assembléia Departamental que será realizada no dia seguinte e tente convencer aos demais colegas que o resultado do concurso deve ser revisto por conta da história discente do prof. Aprovado.
Como o prof. Josué não simpatizava com os debates comuns às Assembléias Departamentais, quase nunca comparecia, entendeu que aquilo era uma indireta para forçá-lo a comparecer à próxima. Pensando deste modo, deu um soco na mesa e gritou que fosse respeitado. Citou toda a sua história de dedicação acadêmica e garantiu que de modo algum iria comparecer àquela Assembléia.
O prof. Pedro perdeu a paciência e, olhando fixo, para a cara do seu interlocutor, falou pausada e firmemente que não tinha autoridade para modificar o resultado do concurso, não era esta a sua atribuição, que não tinha culpa e que não iria mexer uma palha para contrariar a decisão da Banca Examinadora. E, completou, que se o prof. Josué insistisse naquela história e naquele tom, só lhe restaria lhe dar uns murros e quebrar a sua cara. Por fim, perguntou, ainda do mesmo modo, o que, então, o prof. Josué iria afazer?
O prof. Josué ficou lívido. Pensou um instante, fez menção de sair e, voltou-se de repente para o colega que o fixava já de pé. Então, procurou manter um ar de calma e, no mesmo tom, pausado e firme, retrucou que, já que era daquela maneira, pouca coisa lhe restaria fazer: iria para casa com a cara quebrada e quando, chegando em casa, a sua esposa lhe perguntasse quem teria feito aquilo ele diria simplesmente que fora o finado prof. Pedro.

sábado, 20 de março de 2010

AS OUTRAS COISAS



Regina lê Paulo Leminski neste sábado de primavera. Demora-se na apresentação de “Metaformose”, escrita por Alice Ruiz. Lê o trecho “Por isto não confundir com Ovídio, não é metamorfose, é metaformose, a outra forma transformada por uma leitura”. Retorna à leitura da frase “não é metamorfose, é metafor...” Toca o telefone. Resiste um pouco antes de decidir atender.
Reconhece pela voz um amigo um tanto distante com quem estivera numa roda de conversa, na noite anterior, num barzinho na Urca. Era aniversário de uma amiga comum e a comemoração fora naquele barzinho, com muito papo e muita risada. Antes que o amigo se apresente, ela o interpela: — Otávio, tudo bem? Ele, como se surpreendido, faz silêncio e em seguida confirma: — tudo bem.
Otávio pergunta o que ela fará à noite, ao que Regina responde, automaticamente, não ter nada programado. Diz que está lendo um livro, gosta de ler literatura, principalmente, nos finais de semana, mesmo quando tem muitas outras tarefas a cumprir. Sabendo que Regina não tem nada agendado para a noite, Otávio toma coragem e pergunta se ela não gostaria de comer uma pizza.
Quase ainda sem pensar direito, Regina toma a decisão de não aceitar o convite. Não gosta de sair de casa à noite. Pensa que isto dá margem a uma maior exposição às possibilidades de tornar-se vítima da violência urbana. Desde que chegou ao Rio, pouquíssimas vezes saiu para jantar fora ou para algum outro compromisso noturno. Explica, então, que está querendo continuar sua leitura, que outro dia poderá aceitar o convite. Diante da recusa, o amigo não insiste. Ela agradece, despedem-se.
Regina não mais consegue retomar a leitura com o gosto de antes. Passa os olhos pelo texto e não consegue absorver. Lê duas, três vezes o mesmo parágrafo sem compreender nada. Resolve parar, e refletir sobre os últimos acontecimentos. Esbarra nas palavras finais do convite: “comer uma pizza”.
E, sem qualquer malícia, se pergunta: o que Otávio estaria mesmo querendo dizer com isto? É certo que são duas pessoas maiores, livres e desimpedidas, poderiam sair sem problema para conversar, bater um papo e jantar qualquer coisa, até mesmo uma pizza. Regina estranha porque considera despropositado o convite para comer uma pizza, visto que não há entre os dois nenhuma aproximação mais estreita. O que poderia haver de errado nesta história? De repente começa a se dar conta que os motivos alegados para não aceitar o convite não eram, de fato, os reais motivos.
Comer uma pizza, dito daquele modo poderia ser, simplesmente, um motivo para que se entabulasse ali uma conversa. Ela poderia dizer que sairia com ele para conversar, mas que não estava a fim de comer pizza ou que poderia aceitar comer outra coisa. Poderia, inclusive, convidá-lo a vir ao seu apartamento e lhe prepararia algo enquanto conversassem.
Num dado momento, veio uma pergunta incômoda, será que Otávio estaria interessado nela, seria aquele convite uma cantada? Procurou vasculhar a memória da noite anterior, dos papos, dos olhares à mesa e não encontrou nada que pudesse concluir alguma coisa neste sentido. Pensou em retornar a ligação e esclarecer tudo, mas desconsiderou, não era uma boa decisão, poderia parecer oferecida. Enquanto fechava o livro e o depositava sobre a mesa de centro bateu os olhos no título: “Metaformose”.
Não deixou de passar por sua imaginação a associação do título com os sentidos possíveis daquele convite, “comer uma pizza”. Imaginou o quanto esta forma poderia ser alterada em seu sentido, numa conversa em que buscasse argumentar com alguém sobre o que se poderia dizer com isto. Antes de desligar as luzes da sala, concluiu que ela própria não poderia tirar outras conclusões, senão que um amigo não muito próximo ligou convidando-a para comer uma pizza.

sábado, 13 de março de 2010

ENTRE


Há um espaço de fronteira, zona de litígio, que, ao mesmo tempo, une e separa os corpos no mundo. Este espaço aparentemente vazio intercede nas relações de várias ordens e pode ser preenchido pelos aromas dos amantes, no antecipar do encontro da matéria corporal, pelo sentido das palavras que medeia os des/entendimentos, pelos olhares que se interceptam e se atravessam na simplicidade da contemplação ou no toque ríspido da interpelação. Muitos outros tipos e modos de preenchimento podem se apor a este espaço nas diversas possibilidades de troca que orbitam os corpos.
A aura, dizem, irradiada dos seres vivos e só percebida por pessoas especialmente sensíveis intersecta-se com outras e estabelece contatos de harmonia ou desarmonia conforme o clima e o estado de espírito de um e outro. A interseção das auras preenche o espaço entre as pessoas e atua segundo regras de aceitação ou rejeição. Olhamos e quase nunca nos damos conta deste entorno posto ao meio; como extensão de cada um, ali está e revela sentidos que muitas vezes desejam ocultar-se.
Mesmo entre abstrações de diferentes níveis como, por exemplo, intenção e gesto, em que a distância reconhecida pelo poeta tem seu próprio preenchimento no contraditório, no perder-se ou desviar-se do percurso. Diz ele, “se trago as mãos distantes do meu peito/ é que há distância entre intenção e gesto/ e se meu coração nas mãos estreito/ desencontrado, eu mesmo me contesto”. Este conflito que se materializa em belíssimo poema não é restrito ao poeta ou aos poetas, todos temos este sentimento e nos defrontamos com a angústia de não poder materializar desejos e intenções em gestos.
Ficamos a imaginar que a transitoriedade da nossa existência é fato, que a matéria dos corpos evanesce e desvanece num espaço que permanece entre antes e após. A percepção de tal coisa não altera nada em nossas vidas. Ou, quase nada. Certamente que devemos ficar mais atento a isto, desde o instante mesmo em que nos pomos a refletir sobre. Mas o que pode mudar não está à vista de outros, e, se não materializamos de algum modo esta pequeníssima mudança, ninguém haverá de perceber.
Numa quadrinha meio ingênua, de domínio público, há o registro disso tudo que estamos a pensar. Diz ela, “da minha casa para a tua/ tem um riacho no meio/ tu de lá dá um suspiro/ e eu de cá, suspiro e meio”. O riacho que se posta ao meio do caminho, como uma pedra, é algo que representa o que estamos tentando dizer até agora. O sentido é particular e se posta também ao meio, e para percebê-lo havemos de considerar o “ângulo e o cristal com que se mira”. O entre de que falamos não é meramente linear e dicotômico. Linca-se com múltiplas possibilidades ao mesmo tempo: da esquerda para a direita (e vice-versa), de cima para baixo (e vice-versa), de um ponto a outro em diagonal e, assim, infinitamente.
O tecido plasmático e etéreo do entre não se dá a ser escudo, pelo contrário, é condutor tanto dos propósitos amorosos quanto das vis ofensas, e atravessam e nos atingem com a mesma intensidade. Tanto nos serve para nos fazer entender quanto para produzir desentendidos ou mal-entendidos. Une e reprocessa o perfume dos amantes ou mistura leite e sangue numa aurora colorida em que o equívoco e a precipitação desfazem a vida dos leiteiros.
Tudo o que foi dito será repetido. Tudo o que foi dito será repetido, como o que ainda não foi dito. Porque estas extremidades se confundem, se negam e se confirmam antes e depois. E será repetido, como tudo o que foi dito
Nós I Nós 0+A

sábado, 6 de março de 2010

ONDE É MESMO O BEIJO?


Chego em casa, ligo o computador. Enquanto carregam os programas, vou cuidar de outras coisas: um banho para restaurar as energias, uma tal de falta de jeito com manuseio do fogão e o preparo de algo que possa ser considerado, de bom grado, uma refeição. Só para conferir, ligo a televisão. Fico de olho. Rapidinho, dou conta da minha última “arte culinária”.
Desligo a TV, imaginando religar quando estiver mais próximo o horário do jornal. Ligo o som e vou para o computador. Acesso a Internet, para variar. O dia quase que completo – no ambiente de trabalho, fiquei conectado. É o costume. Ao abrir minha caixa de e-mail, vejo a mensagem de uma amiga que finaliza com uma pergunta: Onde é mesmo o beijo?
Rio com gosto, uma provocação. Sei bem como é. Mas embarco na história e fico imaginando como responder do modo como a pergunta permite. Ora, onde?! Bom, bem poderia eu tratar do assunto, imaginando uma referência que deslocasse o sentido que primeiro acorre nestes casos: uma parte qualquer do corpo. Ou, pelo menos, considerasse a possibilidade de pensar numa outra topologia, uma casa, uma praia, um sítio etc.
É claro que também assim eu poderia conduzir o sentido para um efeito de contato, para um clima de envolvimento. O que me excita, nesse caso, é a possibilidade de conduzir o entendimento na fronteira de ambivalências que a pergunta permite.
A seguir, me dou conta de quantas formas de beijar existem, quantos ritos sociais incluem o ato de beijar como parte constituinte. Beijar a testa com certo disfarce do que queima por dentro, com certo pudor ou desvelo. Beijar a mão, com alguma insinuação; beija-se mais com o olhar que com os lábios que mal tocam a pele. Ainda, beijar a mão com respeito e reverência. Beijar o rosto, beijo em que o olfato aguça o gosto: beijo onde vários sentidos se mesclam.
Recentemente, falei sobre beijo neste espaço, inclusive, citando Edgar Morin. Não vou mais me referir ao mesmo ponto de vista. Desejo apenas ir-me deixando levar pelo tecido dos sentidos, que uma pergunta enreda. Ou, talvez, não seja bem a pergunta, quem sabe são outras motivações: a pessoa que pergunta, a malícia que a pergunta suscita, as ilações que faço, o imaginário que construo, por puro prazer, enfim, os contextos das relações em um e outro.
Por fim, penso em diferenças que existem nestes ritos e nos atos mesmo de beijar. Em certa idade, ou em certa época, muito se falou de beijo roubado, aquele em que a mocinha é beijada sem sua permissão, mas, segundo reza a lenda, com grande prazer. Hoje, com esta história de politicamente correto, este tipo de beijo está fora de cogitação. O cinema consagrou o beijo na boca, como cena final e apoteótica de uma relação a dois, num quadro de romantismo exacerbado. As novelas atuais ainda cultuam ou cultivam um pouco este sentido, só que a celebração do casamento tem maior peso de significação. O beijo, aquele do cinema, é quase que banalizado, além de ter adquirido certo tom de vulgaridade na maior parte das vezes.
Ainda envolto no clima da pergunta e nas tais diferenças, percebo como o beijo, em certas circunstâncias, pode conter sentidos de um ato solitário. Mesmo considerando que quem beija deve, presumivelmente, beijar outro alguém. Mesmo que esta outra pessoa seja a si própria. Se tivesse que escolher, eu certamente escolheria um beijo compartilhado, daqueles em que não se pode dizer, com certeza, quem está beijando quem, simplesmente, se beijam. O beijo, assim, parece uma oração que a boca apenas usa para exprimir ou expressar o que vai pelo espírito, pelo coração, pelo corpo inteiro.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

SEU COIÓ DE CALÇA CURTA




Seu Coió todo dia, pela manhã, põe sua cadeira à sombra do pé de Oiti e lá fica até o meio-dia, contemplando a paisagem. Avista, sincronicamente, os fiéis retirando-se da igreja após a missa, as vizinhas que chegam em seguida e o cumprimentam. De um e de outro, as mesmas palavras, os mesmos sorrisos, os mesmos gestos. Daqui a pouco, a pelada no pátio em frente à igreja: garotos desnudos disputam uma bola de meia numa partida de futebol, em geral, com placar elástico.
Do outro lado da rua, o casario multicolorido, com casas baixinhas, empareda a visada para mais adiante. Janelinhas escuras por onde, de instante em instante, alguém pousa para conferir seu Coió sentado à sombra do Oiti. Na mercearia da esquina, D. Nadir varre a calçada há horas. Entre um rosário e outro de casas, um beco donde se entra e sai em desassossego.
Mesmo quando o peso da idade e os males que daí derivam levam seu Coió a cochilar, as cenas se repetem como que ensaiadas à exaustão, na recorrência dos dias vividos, observadas desde o início da aposentadoria. O tempo marcado do fim da missa ao momento em que o sacristão vem fechar as portas da igreja; o instante em que Lourdes, a filha mais velha de Vicência, sai de casa para o trabalho, atravessa a rua, e passa por ali espalhando um perfume embriagador. Cheiro que impregna as narinas de seu Coió até muito depois de dormir à noite. Por vezes, levanta no meio da noite sentindo aquele cheiro dentro de casa. No início, ficava a se perguntar por qual razão isto ocorreria. Com o tempo, mesmo sem uma explicação evidente, deixou de se incomodar e até gosta de ficar revendo a beleza de Lourdes pelo seu cheiro noturno.
Hora do almoço, seu Coió pega a cadeira e retorna a sua casa, cabisbaixo. Depois, a sesta. Já é tardinha, quando retoma a vida, a televisão oferece muitas outras paisagens para ver. Diante da TV, prostra-se até a hora de jantar e, depois, dormir. Uma conversinha com um ou outro neto que o visita, como beija-flor: bica, bibica e desaparece em seguida. Uma olhada no quintal, de passagem pela cozinha. Algumas palavras trocadas com a filha no almoço e no jantar, nada mais.
Dia destes, seu Coió sente uma vontade nova, ir à bodega, do outro lado da rua e conhecê-la por dentro. Deixara de beber muito novo, não se dava bem com a bebida. Virava valente, não reconhecia os amigos nem os parentes. Esquecia de tudo no dia seguinte. De tanto lhe contarem as suas façanhas, seu Coió parou de beber, por via das dúvidas.
Conhece bem o moço da bodega, o Toinho da Zica. Zica, a mãe de Toinho, até tivera um namoro com ela quando jovens. Chega ao pé do Balcão, Toinho vem recebê-lo, com ar de espanto. Pergunta-lhe em que pode servir, sorri e manifesta sua surpresa na pronúncia alongada do seu nome: Coióóóo!  com entonação marcada, neste sentido. Como quem diz, “o senhor aqui, há quanto tempo!”. Seu Coió não fala nada, olha tudo com admiração: a mercadoria arrumada nas prateleiras, o alumínio pendurado ao lado de salsichas, linguiças e carnes de sol. O colorido dos maços de fósforos, das embalagens de maisena, dos biscoitos. O balcão convida-o a encostar os cotovelos. Embasbacado, olha para o outro lado da rua e vê o pé de Oiti, frondoso, sombra negra e larga sobre a areia branca e uma cadeira vazia.
Assim, ainda sob o efeito da novidade, pede mecanicamente que lhe ponha uma branquinha, daquela que matou o guarda, diz, lembrando-se de um tempo muito distante, mas sem qualquer nível de consciência do que dissera. Toinho redobra sua cara de surpresa e, sob a mesma ordem, apanha a garrafa de cachaça, um copo e despeja uma dose bem medida. Seu Coió cheira a bebida longamente, pigarreia, faz careta e a engole devagarzinho, como quem mata uma saudade de séculos.
Toinho recusa o dinheiro, diz que é por conta da casa. Não há dinheiro que pague aquela visita. Seu Coió agradece, e sai dali num vagar ainda mais puxado. Há tanto tempo não via daquele ângulo o outro lado da rua que não o reconhece mais: o pé de Oiti, frondoso, sombra negra e larga sobre a areia branca e uma cadeira vazia.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

FELIZ ANIVERSÁRIO


Regina pensa num modo de se aproximar mais das pessoas e fazer amigos agora que está mais confiante e um pouco mais ambientada na cidade. Aproveita que vai fazer aniversário na sexta-feira e começa a curtir a idéia de uma reunião em sua casa, no sábado. Sábado tem sempre uma alegria diferente, tem luminosidade festiva, alto astral, justifica-se. Descarta as referências que aproximem sua “reunião de aniversário”, prefere chamar assim, de uma festa com balões, velinhas, canto dos parabéns. É só uma reunião entre amigos, em sua casa, por ocasião da passagem de seu aniversário.
Conversa com suas colegas de trabalho mais próximas, recebe apoio com carinho. No decorrer da semana, compra o que lhe vem à cabeça, para os comes e bebes: vinho, refrigerante, cerveja, sucos, iogurtes, e salgados; não quer que ninguém saia sem se servir. Decide comprar o bolo numa dessas lojas que já vendem bolos prontos; em geral, são muito gostosos e bem ornamentados. O resto é muita conversa na companhia dos amigos.
Aproxima-se a data e, sem que saiba direito a razão, começa a ficar ansiosa preocupada com a possibilidade de não vir ninguém à sua reunião de aniversário. Embora procure pensar noutras coisas e até mesmo nos preparativos para a recepção aos convidados, de vez em quando corre um frio na barriga que a assusta. Pergunta-se o porquê desta sensação, mas não encontra motivos. Quase todas as pessoas a quem convidou confirmaram presença. Um ou outro não pôde comparecer, mas, assim mesmo, fizeram questão de se explicar.
Sexta-feira, a noite custa a passar, surge uma insônia que há tempo não experimentava. Sábado, mal amanhece, Regina salta da cama e vai consultar a sua lista de tarefas agendadas para os últimos ajustes. A faxineira que combinara chegar cedinho não aparece até as nove da manhã. Chega de cara amarrada. Regina acha melhor não reclamar e até tentar alegrá-la, puxa conversa, mas não encontra espaço para nenhum progresso. Procura saber o que está acontecendo, não recebe resposta. Regina percebe que em alguns momentos pinta uma cara de choro. Melhor mesmo não insistir: está fazendo o trabalho direitinho, não quer conversar, então, tudo bem.
A lavanderia entrega as toalhas de mesa e a roupa de cama no horário marcado. A floricultura, também, atende com pontualidade. O apartamento florido, limpo, brilhando para receber os convidados. Regina confere cada detalhe, o bufê só fará sua entrega um pouco antes das 20 horas, quando começam a chegar os primeiros convidados. Passa e repassa todos os detalhes. Tudo em ordem. A faxineira faz seu serviço, recebe o pagamento combinado e se vai sem dizer palavra.
Se antes Regina contava os dias da semana, numa contagem regressiva, agora, conta os minutos, no relógio da sala de jantar. Aproveita a tarde para ir ao cabeleireiro e apanhar a roupa encomendada numa loja, próximo de casa. Retorna ao seu apartamento por volta de 17 horas. O tal frio na barriga continua a incomodar.
Precisamente às 19h15 toca o telefone. Regina para um instante até ter certeza de que não é o interfone que está chamando. Ri um riso nervoso ao se dar conta que não haveria como confundir as duas chamadas tão diferentes. Atende, um de seus convidados pede desculpas, mas por conta de um destes imprevistos de última hora não poderá ir à sua reunião de aniversário. Depois outro, mais outros. Cada um tem um motivo diferente, uma explicação de última hora. Enfim, toca o interfone: a única vizinha do prédio, com quem se dá e que havia convidado, também não poderá comparecer.
20 horas, chegam os salgados, os doces e tudo o mais que havia encomendado ao bufê. Regina recebe e indica o lugar onde devem por cada coisa. Efetua o pagamento e não dá mostra de apreensão, embora já não acredite mais que venha alguém à sua reunião de aniversário.
Às 21:30h, diante da mesa posta, o apartamento vazio, move-se ao som baixinho da voz de Gal Costa cantando uma música do Djavan: “hoje eu não ligo a TV nem mesmo para ver o Jô, não vou sair, se ligarem não estou...”, Regina percebe que sua reunião de aniversário está prejudicada. Abre uma garrafa de espumante, põe um pouco na taça, vai sentar-se no sofá da sala, toma o espumante e fixa a parede em frente, sem a menor vontade de qualquer coisa. Rompe a sua desatenção uma libélula assustada, que entra pela janela, esbarra na parede, vai de encontro à luz acesa e faz um barulho seco e incômodo com suas asas inquietas.