domingo, 20 de junho de 2010

LUGARES TROCADOS


A cada ano é lançado no mercado um automóvel que tem algum tipo de apelo rural: jipes, pick-ups e utilitários outros com tração nas quatro rodas, pneus abiscoitados, estepes na tampa traseira, estribos laterais, quebra-mato, potentes e resistentes, enfim, os chamados off-road. Esta tendência poderia ser atribuída a certo crescimento econômico do campo e ao aumento do poder de compra de produtores rurais; no entanto, para além deste fato até visível, há alguns dados que não podem deixar de ser observados: o esvaziamento das grandes cidades em períodos de feriados prolongados ou mesmo nos períodos de férias de trabalho e escolares – os meses de janeiro, fevereiro e julho.
Os citadinos vão à busca de sítios, fazendas e do litoral, de preferência praias pouco movimentadas, para experimentar a vida calma de lugares ainda não urbanizados. Pelo menos, por alguns dias, podem-se respirar os ares do campo e vivenciar as noites cobertas de estrelas e luar. Nestes casos, a comida caseira toma o lugar dos fast-foods e as mesas de escritórios são substituídas por uma boa rede e espreguiçadeiras em alpendres, debaixo de árvores ou entre coqueiros. A presença de um violão anima cantores e cantoras resguardados a soltar a voz e a realizar sonhos acalentados há anos.
Mas há também um detalhe que não pode ficar de fora deste texto, um lugar bucólico será tanto mais procurado quanto mais nele houver infraestrutura urbana: acesso pavimentado, energia elétrica, telefones fixos, antenas de TV (parabólicas ou por assinatura), computadores, acesso a intgernet etc. Em muitos casos, a fuga para o campo não significa uma liberação das obrigações e os laptops estão aí mesmo para que se aproveite o descanso e se realizem tarefas inadiáveis.
Os novos campesinos contaminam o espaço rural com suas manias de urbanidades, estabelecem fronteiras não muito claras de costumes entrelaçados. Cercam-se de auxiliares nativos que observam e experimentam os hábitos tecnologizados, e com a continuidade desejam para si, misturando-os aos seus de origem.
Por outro lado, nativos do campo fazem o percurso inverso. Uma vez migrados para os espaços urbanos, tratam de buscar, adquirir e usufruir o que podem. Os migrantes camponeses instalados nas cidades buscam amplos quintais com árvores frutíferas e onde possam criar galinhas, perus, capotes, bodes, porcos; buscam âncoras que os mantenham de algum modo presos à origem campesina. A alma cheia de sensações confusas e indeterminadas não consegue estreitar o espaço fronteiriço entre os ritos originais e os novos rituais urbanos. É comum que alguns instalem objetos urbanos dentro de casa como modo de reduzir as diferenças e identificar-se com aqueles que já estavam lá como habitantes urbanizados quando chegaram: estantes com coleções de livros que nunca serão lidos, televisão, geladeira, aparelho de som, computadores. Os benefícios da tecnologia impregnam o espírito e depois de algum tempo sentir-se-á estranho no campo e saudoso na cidade. Experimenta um esgarçamento em que não se sentirá mais campesino e nem urbano porque será uma mescla dos dois.
          As pessoas que fogem para sítios e fazendas nos feriados prolongados e outros períodos de descanso têm a vantagem de retornarem à cidade, seu lugar de moradia, no fim do período; enquanto que o migrado dificilmente retorna para morar no campo. Os que conseguem um nível de vida melhor passam a retornar de vez em quando, para matar a saudade em momentos em que o trabalho e os compromissos permitam, compram seu lugar de lazer. Retornam como urbanizados, cheios de sotaques e manias adquiridos. Os que se instalam na periferia nunca serão urbanos nem jamais voltarão a ser camponeses.

domingo, 13 de junho de 2010

UM LUGAR NO PASSADO


Itarema-Ce. Cidadezinha litorânea, pouco mais de 20 mil habitantes, sem grandes benefícios de infraestrutura. Período de férias, fim de tarde. Conversam-se em grupos coisas próprias da infância do lugar: passeios, pescarias, banhos no lagamar, caça de preás, colheita de pipoca-do-rio e outras frutas silvestres entre tantas outras estripulias. Os passeios, em geral, passam pela praia de Almofala, distrito próximo onde se encontra uma igreja pequenina que, dizem, foi construída por índios escravizados a mando da princesa Izabel. Paredes de pedras, essa igreja passou 50 anos embaixo de uma dessas dunas movediças, comuns no litoral nordestino, que mudam de lugar ao sabor do vento.
As pescarias em riacho exigem a preparação de anzóis e iscas. Na maioria das vezes as iscas são minhocas escavadas no brechó dos baixios. Mas dizem que a isca de rã é a melhor delas. Contam até que os peixes mandam antes verificar qual o tipo de isca que oferecem os pescadores. Se for rã, despedem-se dizendo: “traga lá minha roupa nova, meus tamancos e até dia de juízo”. Cada pescador, com seu vasilhame fervilhando de minhocas, se posta à margem dos riachos e lança à água o anzol. O peixe belisca e, num leve puxão, é fisgado, é só erguer, então, o caniço e trazê-lo para si.
Os banhos no lagamar incluem navegação em canoas a remo, donde se salta em acrobacias variadas. Disputar travessias e tempo de imersão também faz parte. O lagamar enche com a maré. Somente com a maré alta é que se pode tomar banho. Por isto mesmo a programação tem que levar em conta o tempo certo.
A caça de preás em meio ao junco ou no plantio de coqueiros é feita com cachorro. Apenas os de focinho escuro são bons caçadores. Identificam-se as veredas por onde os preás caminham pela grama afastada e pelas fezes deles espalhadas nas trilhas. Põem-se os cães a farejar e eles buscam os preás embaixo dos balseiros ou no oco de árvores caídas e apodrecidas. Cercam-se o lugar e quando o preá “espirra” é pego. O cachorro bom de caça pega e não machuca a caça.
Muitas são as frutas silvestres que existem em épocas chuvosas na região litorânea: muricis a batipuçás, manipuçás, araçás, pipocas-do-rio, murtas, guabirabas etc.
As pipocas-do-rio são pequeninas, sabor agridoce e são colhidas em alagadiços. Dão em grande quantidade, e, para colhê-las, sobe-se nos finos galhos da árvore. Em geral, não há risco, porque as quedas na água não machucam, salvo os arranhões que se produzem na vã tentativa de evitar a queda.
Ficar conversando aos magotes também é parte da programação. Contam-se histórias e vantagens no relato do que se aprontou durante o dia. Neste fim de tarde e início de noite, em meio a conversas, ouve-se um assovio longo e fino ao longe. Depois, outro mais próximo. Olham-se entre surpresos e receosos, mas não há comentário. Segue a conversa. Dado que não se ouve mais nenhum assovio, alguém toma coragem e comenta que se uma pessoa repete tal assovio outros serão dados tão próximos e tão forte que a pessoa fica surda ou louca. Alguns completam dizendo tratar-se de um assobiador, figura conhecida na região. As histórias enveredam por esta temática. Muitas são as versões e os acontecimentos narrados. Todos, dizem, testemunhados. Alguém do grupo resolve, então, para surpresa geral, desafiar o medo e imitar o assovio. Todos riem um riso nervoso. No vácuo do silêncio que se segue, como que a esperar que algo ocorra, outro repete o feito: assovia mais forte ainda. Um longo silêncio se estabelece e parece que o medo desvanece.
Quando já se iniciam novas conversas, um forte assovio soa tão próximo que joga areia sobre a calçada. Uma indiscutível sensação da presença de algo desconhecido e invisível toca o grupo. A seguir, choro e reza balbuciada ocupam o lugar das histórias.

domingo, 6 de junho de 2010

ENTRETANTOS


Entre! Eu esperava ouvir esta palavra como um convite, mas a entonação pareceu-me uma ordem. Olhei em volta e não encontrei apoio para levar adiante o intento de penetrar. Girei sobre os calcanhares e fui me afastando. Não houve protesto ou insistência, ficou só aquela palavra “entre” repetindo-se como um eco que se intensifica. Caminhei lento e pensativo em direção à minha casa, entretanto, tinha a sensação de estar entrando em um lugar para onde não havia sido convidado. Não ouvia mais nada a não ser aquela palavra que ia mudando de entonação e de sentido; entretido, dei por mim parado diante da porta entreaberta. Embora estranhasse estar ali, não me incomodava perceber que não havia saído do lugar. Surpreendia-me que não houvesse alguém à porta que me convidasse a entrar. Entrementes, sentia-me impelido a dar meia volta e retirar-me dali. A porta, que noutras ocasiões poderia ser um acesso, parecia-me um entrave, não sei exatamente a razão. O certo que é me afastei caminhando, devagar. Entristecia-me por alguma coisa, o mais provável é que eu esperasse ser convidado a entrar e, embora tendo ouvido alguém pronunciar a palavra, o sentido não era o esperado. Provavelmente, era este o motivo. Não admitia ser tratado daquele modo, não havia motivo.
O espaço retalhado das ruas entremeava-se de silêncios sólidos, entraves sem consequências para o caminhar cuidadoso, absorto em meditar sobre o eco recalcitrante da palavra “entre”. Entre automóveis em brasa, segui para casa. Uma fila diante do cinema chamou a atenção para uma comédia que tinha como título “Between”; lembrei de uma anedota boba a este respeito. Sorri, entretido.
Atravessei por entre as alamedas e praças sem pensar noutra coisa, não me absorvia a ponto de descuidar do trânsito ou de desguiar do destino, apenas não conseguia desviar o pensamento e questionava-me sobre os sentidos que uma palavra como aquela pode produzir, se dita de um ou outro modo, num ou noutro tempo e/ou lugar. Entretanto, nada concluía em definitivo. A cada momento todos os sentidos se embaralhavam e repercutia apenas a palavra “entre”. Em meio ao redemoinho de sentimentos e sensações que daí derivam, sentia-me, paradoxalmente, confortável.
Já quase alcançava a esquina da rua de casa quando ouvi, nitidamente, a voz de uma pessoa conhecida, embora, de momento, não reconhecesse quem fosse, a me interrogar, com ironia: “você veio?!”. Parei, senti um frio na espinha, ergui a cabeça e percebi a porta entreaberta à minha frente, sem ninguém à vista. Estava eu lá, no mesmo lugar. Esperei um pouco e ouvi a ordem: “entre!”. Perguntei-me se estaria andando em círculo ou se, em algum momento, houvera saído dali. Permaneci em pé, parado, por um bom tempo. A dúvida era se adiantaria afastar-me, se depois eu constatasse que continuava no mesmo ponto. Entre ir e ficar, fiquei. Pensei: algum momento isto tem paradeiro.
Amanhecia, eu continuava em pé, diante da porta. Ninguém entrava ou saía. Uma leve garoa umedecia a manhã, como prenúncio de chuva. O tempo fechado rondava-me. Girei o corpo, sem sair do lugar, olhei em torno e não percebi nada de estranho. Pessoas agasalhadas se entrecruzavam em busca de seus destinos. Ia aos poucos aumentando o número de transeuntes e ninguém dava conta de mim.
Ao longe, soa uma campainha. O som repetido vai se aproximando até incomodar. Dou por mim caminhando em direção à porta, giro a chave com dificuldade. Abro um pouco, é a faxineira, “hoje é sexta-feira”, diz ela sorrindo para mim. Sem entender mais nada, abro mais a porta e, quase mecanicamente, peço-lhe que entre.

domingo, 30 de maio de 2010

HÁ MUITOS CARNAVAIS


A orquestra enfatiza os agudos nos metais de “Viva o Zé Pereira”, foliões eletrizam-se e transpiram fantasias. De repente, corre, corre para os lados dos sanitários masculinos. Gritam pelo Sr. Waldemar, o fotógrafo da festa que, às pressas, apanha seu equipamento sobre a mesa, quase derrubando as garrafas de cerveja. Acompanho aquela gente toda sem saber o que acontece. Um bom número de brincantes forma um semicírculo diante de uma cena hilária: Candinho, visivelmente embriagado, escanchado sobre o muro do Clube Social Imperatriz, dormindo, aparentemente, pendula. A [muito] custo, seu Waldemar aponta a objetiva em direção ao Candinho que, quase ao mesmo tempo, se inclina primeiro para frente e depois para o lado e despenca. Pior, cai para fora do Clube. Pular o muro é uma prática até certo ponto comum, quando a rapaziada não tem o suficiente para pagar o ingresso. Ou, mesmo, por folia.
Vendo aquela cena, lembro de um ocorrido com o dito Candinho em uma festa passada, naquele mesmo clube. Diz que Candinho tirou Telewa para dançar. De má vontade, Telewa demorou muito até chegar ao salão onde Candinho já a esperava. Mal começaram a dançar, Candinho tropeçou nas próprias pernas e, de tão embriagado, saiu aos tropicões, buscando se equilibrar no meio dos casais. Depois de algum tempo, Candinho retorna e quando estende a mão para recomeçar a dança, Telewa avisa que não vai mais dançar. Candinho olha para ela e, com surpresa e a língua embolada, pergunta, desencantado:  “Ué, já cansou?”
Voltamos todos ao salão, e com a mesma alegria, esquecemos o Candinho e continuamos a nos embriagar, ao ritmo frenético das marchinhas de carnaval. Índios, senhoras grávidas e barbadas, árabes com imensos turbantes, monstros de máscara de papel estão por toda parte.
Depois das quatro da madrugada, o clube vai ficando mais espaçoso. Poucos ainda se mantêm pulando. Mas a orquestra não para: “Mamãe, eu vou ser soldado de Israel/ Não tem água no cantil/ mas tem mulher no quartel/ além disto, guerra é guerra, mamãe/ e vai ser sopa no mel”.
Ando por ali observando, um pouco fora de foco, casais inebriados, que antes sorriam no salão, agora se estendem na grama por trás do palco. Impossível entrar no mictório, um aguaceiro malcheiroso se alastra. Mesmo assim, não há remédio, a cerveja incha a bexiga com incômodo incomum.
Não dá para sentar à mesa, a cabeça gira e pesa muito. O remédio é andar e, de vez em quando, ensaiar uns passos sem muita segurança, mas feliz. E com esta felicidade, dirijo-me com meus amigos de festa para a casa onde estamos hospedados. Toinho da Nica é o nosso anfitrião. É ele quem conta o resto da história que, aliás, não confirmo.
Diz Toinho que, ao chegar a casa, eu tento por três vezes seguidas pôr o punho no lugar errado. Coloco o punho da rede na chave da porta, deito e caio... Levanto-me e, sem dizer nada, tento novamente... Assim, pela terceira vez. Os colegas discutem se me deixam ir em frente ou alguém irá e botar o punho da rede no armador. Bom, felizmente, decidem pela segunda opção, mas só depois de rirem muito da situação.

domingo, 23 de maio de 2010

O JOGO DA CONVIVÊNCIA


No campo das chamadas relações entre casais há espaços de negociação e dissimulação que sustentam muitas vezes convivências longevas. Vamos acompanhar detalhes da rotina de um casal que se diz amar para sempre.
1. Manhã, o casal apronta-se para ir ao trabalho. O marido depende da carona da mulher e seu horário de chegar ao trabalho é às 8h e o tempo de percurso são 15 minutos, aproximadamente, quando não há engarrafamento. Ele termina de se trocar às 07h30, já faltam 30 para as 8h e a esposa ainda experimenta vestidos. Veste um após outro, depois de alguns tantos retorna ao primeiro: vai combinando com o sapato, o cinto, o brinco, a pulseira do relógio etc. E a cada experimento, confirma com o marido se aquele está bem ao que ele responde com um hanran meio chocho, igualzinho para todos. Os sentimentos de desencanto e dúvida crescem nela.
Se a mulher gasta tempo e exige paciência enquanto se produz, sob a alegação de que o marido deve ficar feliz, porque afinal vai sair com alguém que zela pela beleza etc. etc., colocam-se outras nuances que nem sempre ficam muito claras: por exemplo, a quem de fato ela deseja chamar a atenção, ao marido e por isto quer ficar mais bonita para ele? Às outras mulheres com quem certamente cruzará nos mesmos pontos a que se destinam, a quem lançará cabelos, muxoxos e olhares enviesados? Ou, desculpem-me a grosseria, a certos marmanjos que lhes lançarão olhares inconfessáveis à revelia da boa fé do maridão?
Ela sempre se chateia, acha que o marido tá nem aí. Não presta atenção e está ficando indiferente, que isto é sintoma da rotina etc. etc. O que não observa é que a rotina desgasta pela repetição. Se a cena é esperada, a encenação e todos os textos também.
E ai daquele que simplesmente achar de ajudá-la a escolher os vestidos e transparecer felicidade e compreensão, concordando com tudo, sendo educado e gentil e... Homem certinho é um horror, dizem. Dá até para pensar que o que vem de encontro ao tempo e à paciência do homem não é exatamente para irritá-lo, é apenas para que não se torne muito compreensivo e chato.
Depois, se a cena é recorrente e ela sabe que irrita um pouco o companheiro, a ponto de ele confirmar sem mais refletir, sobre as perguntas se este ou aquele vestido fica melhor? A seguir vem sempre a pergunta: você ouviu mesmo o que eu perguntei? Você prestou atenção no que eu lhe mostrei?


2. Volta um pouco a cena e vamos encontrar o marido saindo do banho, enxuga-se e, mecanicamente, joga a toalha molhada em cima da cama. A esposa sai do banho e, ao sentar na cama para passar o hidratante nas pernas, senta-se sobre a toalha. Dá um pulo e reclama com o marido pela enésima vez, segundo ela. Ele, de bom humor, aproxima-se dela e dá um selinho, pedindo desculpas a seguir. Jura, como das vezes anteriores, que aquilo não mais se repetirá.
3. Volta ainda mais um pouco a cena: a esposa ao entrar no banheiro dá de cara com o assento do vazo respingado, e de imediato identifica o motivo: o marido que acabara de deixar o banheiro simplesmente não levantara o acento no momento de urinar. Ela engole o dtalhe em seco e entra para o banho.
4. Ao chegar à cozinha para o café – marido lá, sentado, vendo as notícias do futebol na televisão enquanto espera –, a esposa vê cascas de banana dentro da pia. Sabe exatamente quem costuma confundir a pia com a lixeira. Olha meio atravessado para o marido que nem percebe enquanto espera vendo televisão.
5. São 10 para 8 da manhã, quando a esposa finalmente entra no carro faz menção de sair novamente porque esqueceu de fechar a caixa do filme plástico com que embalara um pedaço do mamão do café. O marido protesta e a convence que o mais importante era o mamão que poderia estragar, mas a caixa pode esperar até o meio dia, quando estarão de volta para o almoço. O carro arranca, sob a recomendação da mulher de que o marido vá devagar, não carece aquela pressa.
6. Voltando a cena mais uma vez, bem para o começo: uma das coisas que o marido detesta e que todos os dias acontece exatamente igual é ela deixar o creme dental sem a tampa e espremê-lo no meio. Naquele dia não foi diferente, ao retornar ao banheiro para uma última penteada, está lá a bisnaga do creme dental mais baixa no meio e sem a tampa. Um fiozinho de mau humor percorre-lhe o corpo e ele tampa a bisnaga pela última vez, mais uma vez.
7. Combinam, no carro, de sair à noite para jantar. Aquela cena dos vestidos se repete com pequenas diferenças: os vestidos são outros e o tempo para decidir é mais elástico. A cena da televisão também. Só que desta vez é a novela que ele assiste enquanto espera. Aliás, a cena da toalha, da pasta de dentes também. Tudo se duplica. Mas a noite é uma criança e os espíritos estão desarmados. Beijam-se e abraçam-se sob declarações e juras de amor eterno. Alguém que acompanhasse, desde o início, tantos modos diferentes de perceber o outro numa vida comum, poderia muito bem se perguntar: como é possível?
Ah, antes que esqueça: no retorno ao lar, a altas horas, embriagados da madrugada e de tesão, vivem uma noite de amor como nunca.
O nível de satisfação e prazer que alimenta cada um é pessoal e intransferível, meio mórbido, talvez.

sábado, 15 de maio de 2010

SEMEADURA




Imagem do autor


A areia fina e branca acarinha os pés que quase se escondem no caminhar ritmado, cedinho da manhã. À frente, as sandálias do avô espalham pó e barulham no mesmo ritmo. O roçado fica logo depois da cerca, depois de um caminho puxado e percorrido com prazer. No percurso, calangos espiam os passantes e confirmam com a cabeça num gesto de aprovação. Lagartixas e outros rastejantes não têm a mesma opinião, fogem apressados para o refúgio da mata que comprime o caminho.
Hoje é um destes dias de plantio. O solo cinza respinga negrume de tocos queimados na pele toda do roçado. Terreno comprido, largo no meio da mata verde. Gaviões espiam de cima e anunciam-se com sua cantilena insistentemente monótona. Outras aves vez em quando abrem o bico no vazio do tempo.
Traspassada a cerca, o avô organiza seus apetrechos: cuias de cabaças para as sementes, água de beber à sombra, enxadas para cavarem-se as covas e, em fim, as sementes de feijão retiradas de um saco que deita ao chão. É quase um ritual, ele vai à frente, abrindo as covas com a enxada, e vamos atrás, pondo as sementes e enterrando-as com os pés. Vão-se desse modo longas horas. Sem conversa. Não há necessidade.
O sol desloca-se e esquenta tudo. A areia, depois de algum tempo, já não tem mais a mesma sensação gelada da manhãzinha. O suor percorre o rosto e o fio da espinha, abundantemente. Uma parada para descanso aqui outra ali, no final de cada leira. Pouco tempo, bebe-se um pouco d’água e puxa-se mais a respiração. Olhar o quanto falta é aflitivo e constrangedor.
À hora do almoço, para-se por tempo maior. Hora de pegar o soim: um pouco de carne frita, farinha, rapadura e água. Dizem que água de beber não tem sabor, só quem não conhece esta experiência. É um sabor de corpo e alma, não apenas na boca. O friozinho da água desce pela garganta e resfria a brisa e o sol na pele. Um pouquinho, sentados à sombra, algumas palavras, e retomamos de onde paramos, na mesma pegada. O sol descamba e ameniza.
Final de tarde, muito ainda há o que percorrer naquela arrumação, mas amanhã será outro dia e a noite já se avizinha. Hora de inverter os gestos da chegada e iniciar o caminho de volta. As aves emudecidas por certo se aninham em seus leitos. Os outros animais também se ausentam. Só o murmúrio da noite chegando e o barulho das sandálias do avô argumentam.
O corpo cansado, mas feliz se enternece com o cenário e a possibilidade de daqui a pouco entregar-se à rede espichada e ao lençol envolventemente cheiroso. Aos poucos, as estrelas vão surgindo aos montes, no firmamento. O escuro da noite infiltra-se em todos os lugares. Caminhar mais próximo do avô é melhor, por via das dúvidas. A decisão exige passos mais apressados. O avô percebendo os motivos estende a mão. O gesto esperado oferece um prazer a mais e uma segurança inquestionável.
A casa se anuncia primeiro por pequenos pontos de luz que estremecem ao sabor da brisa. Depois, vai crescendo, crescendo até que o alpendre e suas linhas de definição se configurem completamente. Cachorros latem e vêm ao encontro. Ao se aproximarem, vão substituindo os latidos por ganidos suaves e abanos de calda. Enroscam-se nas pernas do avô, pulam sobre ele, que ralha com carinho. Os cachorros nos escoltam até que cheguemos ao batente da casa.
As lamparinas quebram o negrume da noite. A avó vem ao encontro e pergunta alguma coisa. Os dois penetram casa adentro. Os apetrechos do trabalho do dia são postos de lado. Sinal de que o trabalho adormece, dando vez ao relaxamento das conversas amenas e às histórias do dia. Contam-se tantas coisas que pequenos olhos não dão notícia nem há ouvidos suficientes para tanto. À mesa nos aguarda o jantar.

sábado, 8 de maio de 2010

VAGO ENSAIO SOBRE O VAZIO


“Nós somos nada, temos nenhum valor, nenhum significado. Nada é o que somos”. O poeta embora não reconheça num desabafo assim a voz de Nietzsche, toca-lhe o niilismo que por aí se vai. No vácuo dessa compreensão, fita sua interlocutora e estranha que seja ela quem diz o que diz: o que justificaria estar ali uma pessoa que tem a bravura de enfrentar a vida como se acreditasse nas vitórias, como se vislumbrasse um futuro, uma realização pessoal prometida para um dia, nos planos que expõe?
Fecha Plano. Os lábios estremecem com as palavras proferidas, reafirmam a certeza do dizer, e se oferecem ou simulam se oferecer aos beijos mais ardentes. Flashback de outras histórias marcadas na boca. O sorriso leve presume malícias e mais ainda aciona novas interrogações. Como nada? E os desejos que emanam dos gestos, e os motivos que a trouxeram até ali naquela noite? Há muita materialidade na escolha da roupa, no combustível gasto, na decisão de vir ao encontro. Nem a cena, nem o cenário parecem ter a ver com o niilismo extemporâneo, pronunciado de modo tão enfático.
Nós somos algo um para o outro, do contrário não nos arremessaríamos ao mesmo lugar, para um encontro em que nos damos tempo longo de contemplação. Aguçamos as narinas para apreciar o perfume que emana da pele, do tecido, do corpo um do outro. Ficamos presos a detalhes do olhar, dos olhares, do sentar-se e ela pedir uma água no lugar do chope, jogar os cabelos para trás e sorrir como que percebendo que o poeta está a olhá-la.
Escolhemos as brincadeiras de entrada: crie uma personagem completa, diz ela, com todos os detalhes do corpo. Ponha no balão, à sua direita, algo em que ela não consegue deixar de pensar, uma frase que ela disse e depois se arrependeu profundamente. Num balão à esquerda...
Em uma história deste tipo, há tal concretude que não combina com nada. Isto é muito. É tudo. É a condução da situação, é a ocupação do lugar de regente: fala quem dirige a cena, dá as cartas, se impõe, domina naquele momento a relação. Bom, é evidente que a percepção do que ocorre incomoda, mas o desejo de que tudo corra bem exige concessões até que, num outro momento, os lugares sejam trocados, o poeta passa então a formular as regras da mesa. Você vai fazer uma viagem, diz ele. Pense num lugar para onde você está indo. Pensou? Ocorre que, logo de partida, surge um problema que faz você parar e sem resolvê-lo não pode prosseguir com a viagem. Que problema é este?...
O mundo mobiliza-se nas proximidades. Um garçom se aproxima para trazer uma nova tulipa com chope, ela decide trocar a água por um suco de fruta, escolhe limão. Um casal, ao lado, pede a conta e retira-se em seguida. A música em background acende a noite. É possível tocar cada momento, experimentar cada sensação com a certeza de que tudo tem significado real para cada um de nós e todos que ali estão. O texto do princípio não consegue eco a não ser por instantes.
Bom, pode ser que, por um feitiço qualquer, por um sonho, talvez, tudo isto não esteja de fato ocorrendo. Que uma feiticeira ou, talvez, uma fada os tenha feito delirar, e cada um, do seu lugar de inexistência, imagine o tal encontro como uma coincidência que se efetiva sob vários pontos de vista: o mesmo casal, o mesmo lugar, os mesmos textos por onde os dois entrecruzam olhares, o reconhecimento das histórias particulares de cada um, para os dois, enfim, a mesma ilusão do encontro que nunca houve.
O vazio do nada que somos se refaz na expectativa do seu esvaziamento sobre a plenitude do mundo vazio. Os desejos derramados, os encantamentos enunciados, os prazeres que, por acaso, possam se ter experimentado em nada se constituem. O que mais assombra são as impossibilidades de uma conquista que se projeta para o vazio. A casa, o quarto, a cama, a boca, tudo estará vazio. Ou, como diz a música de Gilberto Gil e Chico Buarque: “É sempre bom lembrar /Guardar de cor /Que o ar vazio de um rosto sombrio /Está cheio de dor /É sempre bom lembrar /Que um copo vazio /Está cheio de ar”. Todo poderoso amor.