segunda-feira, 16 de maio de 2011

OS SEIS SENTIDOS


O primeiro não consegue se fixar num mesmo lugar, por período superior a três minutos. A roupa incomoda, as pernas cansam, os braços não encontram lugar. É como alguém que não define seu espaço. Atribui sua insatisfação ao fato de que a pessoa com quem namora não lhe dá ouvidos. Quando está com ele parece sempre ausente, distante de tudo, alheia ao que lhe é importante. Às vezes, responde com murmúrios incompreensíveis a perguntas que exigiriam reflexão e alguma argumentação. Outras vezes sequer responde. É como se, simplesmente, não o ouvisse. Este abismo parece não ter início nem paradeiro.
O segundo experimenta sua insatisfação numa dolência que dá dó. Não tem vontade para nada, não consegue dormir bem, mas também não se sente inteiramente acordado para a vida. Sente falta do calor da pele de sua amada. Há meses, ela viajou e não disse nada, nem para onde ia, muito menos quando voltará. A paixão entre os dois está de tal modo ardente que ele desenvolveu uma dependência física do contato com o corpo da namorada. Não deixa de fazer quase nada. Vai ao trabalho, embora não consiga trabalhar. Alimenta-se, mesmo que fora dos horários e em quantidade insuficiente. Vive sua carência de contato com o corpo amado, com dificuldades.
O terceiro, dantes uma pessoa saudável, praticante de futebol de salão, com dotes atléticos, agora anda amofinado. Diz que não consegue comer nada porque em tudo deseja sentir o gosto do beijo de sua ex-amada, e como ele não encontra correspondência, acaba ele também perdendo o gosto. Enquanto não sentir o tal sabor, nas coisas que o alimentam, não interessa mais nada. Ocorre que a boca da qual sente falta do sabor não mais está com ele, foi embora com um artista de circo.
O quarto sofreu uma isquemia e, no decorrer dos procedimentos médicos, acabou ficando sem o olfato. Não sente nenhum cheiro. Imagine que ele agora parece bem, forte e corado, melhor afeiçoado do que antes. No entanto, é de uma tristeza que dá pena. Alegria para quê, se não consegue sentir o cheiro dos alimentos, das coisas à sua volta, o cheiro do mundo. Sonha e tem pesadelos porque as situações que se lhe aparecem em imagem de sonho trazem sempre a expectativa de sentir o cheiro de algo ou de alguém e, no momento seguinte, esta expectativa é frustrada. Acorda desesperado. Vive fazendo tratamentos, dos mais convencionais aos mais exóticos. Remédios homeopáticos, alopáticos, passes em casas espíritas, rezas em benzedeiras, chás de todo tipo. Se, por um lado, não tem conseguido recuperar a capacidade de sentir aromas, por outro, está vendendo saúde. Mas, para ele, isto não é conforto.
O quinto desenvolveu uma neurose obsessiva porque, em sua última visita ao médico oftalmologista, apareceu a suspeita de que sofre de uma doença degenerativa incurável que acabará resultando em cegueira. Ainda não há um diagnóstico conclusivo, mas as reações do médico lhe têm trazido preocupações. O tempo inteiro fica a observar as aranhas que surgem em sua visão. Os médicos têm dito que estas pequenas aranhas são comuns depois de certa idade, mas ele não se conforma. O que mais o angustia é que as tais aranhas parecem invadir o rosto de sua mulher, no momento mesmo em que se olham com desejo.
O sexto meteu-se com práticas esotéricas e deu para pressentir acontecimentos. A morte de alguém próximo. Acidentes de toda ordem: desde o rompimento de um cano na casa do vizinho até o abalroamento de trens e carros, em quase tudo quanto é parte do mundo. No princípio, nunca havia pensado em enveredar por esta área em sua vida. Mas, de tanto assistir a programas de televisão sobre rituais esotéricos, acabou ficando fascinado e descobrindo-se um médium com nível elevado de percepções sensoriais pouco explicáveis, a não ser pelo caminho da mediunidade. Mas o que ele não entende é por que isto não lhe traz felicidade.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

REMISSIVA


Teresina, 14 de julho de 2007
Estimado senhor,
Espero que, quando esta chegar às suas mãos, o encontre gozando de perfeita saúde, juntamente com os seus. Este desejo singelo me serve apenas para iniciar esta nossa conversa, embora, garanto, eu não esteja sendo falsa. Se alguém me perguntasse os motivos por que escrevo “estas mal traçadas linhas”, eu não saberia explicar. No entanto, penso que estou agindo apenas movida pelo sentimento de amizade que lhe tenho, apesar de reconhecer que não temos relações de proximidade.
Sei que, neste momento, anda sozinho e cheio de preocupações. É justamente neste ponto que eu entendo poder lhe contar algumas coisas, das quais imagino que ainda não se deu conta. Sei bem que a vida nos prega muitas peças e, muitas vezes, foge ao nosso controle. Mas sei também que o senhor não se tem dado o devido cuidado e se acompanhado de pessoas que não merecem sua companhia.
Imagine que uma destas pessoas com as quais se tem acompanhado vive a falar mal de sua pessoa. Imagine que se finge de amiga, para ficar mais próxima e conhecer seus hábitos e segredos, para contá-los aos quatro cantos do mundo, como isso lhe desse prazer.
Mas não só isto, o senhor também tem buscado com muito empenho um novo relacionamento, só que tem batido em portas erradas. É óbvio que aquela garota, aquela lá, daquele bairro afastado da zona Leste, não quer nada com o senhor. Diz-se inexperiente e se faz de santa, mas não passa de uma dissimulada. Aquela outra, daquele bairro que tem nome de santa, não é bem uma garota. Não me diga que foi capaz de confundir alhos com bugalhos. Não me diga que não percebeu aspereza na pele do seu rosto. Fiquei um tanto confusa e, ao mesmo tempo, desapontada, ou o senhor é ingênuo, está com excesso de carência afetiva, ou, pior ainda, é chegado. Olhe, para uma pessoa do seu gabarito não fica bem ficar dando em cima de domésticas. Não que não sejam mulheres iguais às outras ou que seja pelo simples fato de serem domésticas, mas porque o que fica parecendo é que o senhor está achando que todas estão à sua disposição, são presas fáceis. Isto não lhe parece preconceituoso, machista e, enfim, desrespeitoso demais?
Estou sabendo que estas viagens inventadas de uma hora para outra é para ir à caça noutras paragens. Nem precisaria se dar a esse trabalho já que por aqui mesmo, pertinho, sem que o senhor se dê conta, há pessoas interessadas num relacionamento seguro, duradouro, sem a necessidade de correr os riscos que o senhor está correndo. E olhe, estou usando a indicação no plural para que o senhor não fique pensando que eu estou me insinuando. Só lhe tenho amizade, nada mais do que isto. A questão é que eu estou atenta e sei das coisas. Se o senhor também atentar melhor para o que acontece ao seu redor, vai perceber sem dificuldades: tem gente de olho. Mas, também, tem gente de olho grande, tenha cuidado com isto.
Bom, não vou ficar aqui listando as suas investidas em conquistas desastradas, o senhor, melhor do que ninguém, deve saber por onde e com quem tem andado. De qualquer modo, gostaria que soubesse que estou por perto e, como já disse, lhe tenho grande amizade. Mas, só isto.
Outra coisa, tem aquela história de que o jardineiro tem que cuidar melhor do seu jardim. Pelo que tenho visto, o senhor se veste e se comporta como um homem casado. Ainda anda um tanto quanto largadão. Precisa se cuidar melhor. Tá certo que, quando tem alguém na alça de mira, se arruma direitinho, fica todo perfumado, mas por que tem de relaxar em outros momentos? O senhor há de pensar que esta história de falar de perfume me revela como alguém que está muito próximo. Eu lhe diria que nem tanto ao mar e nem tanto à terra. Por vezes, as pessoas mais próximas comentam e a gente vai capturando informações entre as amigas, e os amigos também. Homens também prestam atenção e falam bastante. Ah, como falam!
Bom, por enquanto é só isto. Mas, caso eu tenha novidade, breve o senhor estará recebendo outra cartinha minha.
Com afeto,
Uma amiga.

domingo, 24 de abril de 2011

GUERRA DE NERVOS


Foto do autor

A lâmpada acesa atenua a luminosidade advinda da tela do computador. A alma interconectada se alarga e se contrai à medida que vou acessando parceiros do MSN e outros se vão desconectando. Cada parceiro puxa um assunto diferente, e converso, simultaneamente, com vários deles, e alternam-se alegrias, ironias, contrariedades. Nem todo mundo está ali para os mesmos fins. Mas tenho que concluir o texto para a disciplina de amanhã. O Word aberto oferta uma página com dois parágrafos apenas, já há algum tempo. A angústia de não concordar completamente com o que ali está escrito e a urgência de ter que concluir o texto embaralham as sensações à medida que a noite avança.
Vez ou outra vem à lembrança as pressões que irão me constranger toda a manhã, no estágio. Estas lembranças vêm misturar-se e agravar o meu mal-estar. A Internet não alivia, mas, como obrigação, não dá para abrir mão do hábito e do papo nem das companhias que transitam e se fazem presentes na travessia da noite. Há pouco tempo para dormir, e mesmo assim este é o tempo que resta para as tarefas do curso universitário.
As leituras pela metade, o estágio, os compromissos com o grupo com o qual tenho de elaborar um seminário, a visita ao médico por conta de uma gastrite, o namoro que cobra mais presença, o dinheiro pouco e os atrasos do coletivo... coisas que fazem parte deste momento da minha vida. Uma passada na banca de revista, a caminho do ponto de ônibus, dá para ler as manchetes do dia, nada mais do que isto. Todas elas, sem exceção, já foram lidas na Internet, mas vale a pena confirmar. Há certo prazer de antecipação que, afinal, é um gosto, embora passageiro e sem consequência. Os títulos das matérias não informam muito, mas fazer o que se este é o tempo que eu tenho?
Há muito, a vitrina mostra coisas que atraem a minha atenção e despertam meus desejos, e não há como parar para ver com calma, muito menos adquirir alguma coisa. Melhor mudar de assunto para não pintar frustração ou, pior, a depressão. Na noite anterior, enquanto eu teclava com meus parceiros, deu para ouvir vozes alteradas vindas do quarto de casal. Alguma coisa a respeito de dificuldades com educação, problemas financeiros e desentendimentos no modo de conduzir a família. Estas discussões em tom elevado têm-se tornado cada vez mais frequentes.
O clima no lugar de trabalho também anda pesado. Os mandatários alegam dificuldades para manter as atividades da empresa por causa da falta de entendimento com fornecedores. Os colegas, apreensivos, comentam pelos corredores que a coisa não anda nada fácil. Há risco de cortes por contenção de despesas. Todo mundo está uma pilha, com os nervos à flor da pele. Mas enquanto não é anunciado nada oficialmente, vão-se tocando as tarefas como se nada estivesse ocorrendo.
A turma articula a ida a um show de uma destas bandas do momento, que estará na cidade por estes dias. Marcamos de ir, mas nada é certo ainda. De outras vezes, houve muita bebida, muito amasso e até que foi proveitoso. Atrasa a vida de todo mundo, porque é à noite e nos finais de semana que se fazem os trabalhos das disciplinas, mas o lazer é necessário. Há muito não vejo um filme sequer. Viajar, nem pensar. Só nas férias, caso não precise cobrir a falta de alguém, no trabalho, que está doente, de folga ou foi demitido.
Ultimamente, tem-se comentado acerca de problemas com professores do curso que não comparecem as aulas. É verdade que não é agradável que nos desloquemos de tão longe para chegar à universidade e não haver aula, mas as aulas vagas representam um tempo livre que, afinal, aparece e nos dá a oportunidade de atualizarmos a conversa de há muito deixada de lado. Falam também do aumento de alunos por entrada, dizem que o espaço das salas de aula e, especialmente, os laboratórios, já restritos, não conseguirão abrigar a turma toda.
Não dá para saber como, exatamente, tais coisas poderão afetar o percurso da minha vida, mas a cada vez falam coisas diferentes e que logo são trocadas, na conversa, por outras ondas de comentários. Assim, não deve haver motivo para preocupações. Na aula anterior, o professor falou alguma coisa como não haver material de consumo para as aulas de laboratório. Isto rendeu alguma indignação na sala de aula, mas na aula seguinte já não se falava mais disto. Não vejo a hora de concluir o meu curso e poder tocar a minha vida.

domingo, 17 de abril de 2011

OLHO NO OLHO


Foto do autor

Regina anda cismada com um vizinho cuja área de serviço dá para a de seu apartamento. Percebeu que, sempre que ela vai ao quarto de empregada, à lavanderia ou estender a roupa lavada, ele está lavando alguma coisa e olhando para ela. Não é má pessoa, várias vezes ela tem cruzado com ele nos corredores ou no elevador e sempre a cumprimenta, com simpatia. Mas não pode ser coincidência, foi, por experiência, algumas vezes, à lavanderia, sem qualquer necessidade, e lá está ele, aparentemente lavando algo.
A situação a está incomodando tanto, que, por outras ocasiões, Regina tem evitado ficar muito tempo ou procurado ir menos à área de serviço. Apartamento tem dessas coisas, você precisa ir aos poucos se adaptando às regras de morar em condomínios e às regras próprias daquele prédio em que você vive.
Vez ou outra alguém liga o som mais alto, num momento em que você está precisando de silêncio para estudar, descansar ou, simplesmente, não está a fim de barulho. Há, ainda, os cães que ladram, insistentemente, na madrugada, acordando quem precisa dormir bem, para acordar cedinho e pegar no batente. Criar cães em apartamento já é uma estupidez, imagine deixá-los sozinhos, muitas vezes, sem alimentação, fazendo com que incomodem o prédio inteiro.
Sem falar naqueles que vão à praia e, na volta, não têm paciência para aguardar o elevador de serviço e sobem cheios de areia, pelo elevador social. Isto, em qualquer dia da semana. Sequer se dão ao trabalho de, pelo menos, limpar o corpo da areia, antes de pegar o elevador.
Quem está habituado a morar em casa e precisa viver num prédio de apartamento, de uma hora para outra, carece de algum tempo para se adequar a uma realidade tão cheia de nuances, de particularidades. Outro dia mesmo, o síndico estava reclamando do porteiro que deixou uma moradora invadir a portaria e utilizar o interfone, na maior intimidade. Parece até que estava no sofá de sua casa. Algumas pessoas comentam nos elevadores que porteiro A ou B é cheio de liberdades, com certas moradoras do prédio, no entanto, elas mesmas invadem áreas que não deveriam; não se dão ao respeito.
Regina se mantém na “ponta dos cascos”, como se diz. Não “dá mole”, e, por isto mesmo, não consegue entender nem aceitar a invasão do olhar do vizinho. Por via das dúvidas, deixa as persianas das janelas baixadas o tempo inteiro. Não que tenha percebido qualquer invasão a outras áreas do apartamento, mas é melhor prevenir. Se ali, na área de serviço, onde é tudo tão à mostra aquele olhar é tão invasivo, imagine em lugares e momentos em que ela não está atenta.
Por falar nisto, Regina lembra que nunca viu mais ninguém naquele apartamento, além daquele homem que a incomoda com seu olhar direto. Já o encontrou no elevador com outras duas senhoras de meia idade, mas não se lembra de tê-las visto na área interna do apartamento dele. Ele também já não é jovem, deve ter lá seus sessenta ou setenta anos, mas é bem conservado, tem a pele curtida do sol praieiro.
Embora deixe seu apartamento um pouco mais escuro e com maior dificuldade para secar a roupa, principalmente, no período do inverno, Regina está pensando seriamente em pôr uma cortina que lhe garanta maior privacidade. Como boa nordestina, ela ainda não se acostumou à ideia de achar que o calorão e a claridade do verão carioca sejam, exatamente, tempo bom ou bonito, como dizem. É certo que o brilho do céu tem certo encanto em dias de sol, em especial, à beira-mar, mas os dias chuvosos ou frios também têm o seu charme. A chuva liga aquele lugar ao seu, quando chove é quando mais sente saudade.

sábado, 9 de abril de 2011

UMA AUSÊNCIA PRESENTE


Lidamos no cotidiano com coisas sobre as quais, raramente, refletimos. Diariamente, muitas vezes por dia, transito pelo corredor que medeia as salas de professor. É mais comum que as portas estejam fechadas, quer pela ausência de seus ocupantes, quer pela necessidade de preservar o clima refrigerado dos condicionadores de ar. O hábito de encontrá-las, deste modo, nos retira o incômodo das questões que preenchem tais lugares.
Uma destas salas está vazia, ou como diz a música, está cheia de ar. A amiga que a ocuparia está de viagem pela Espanha. O hábito de procurá-la, naquela sala, para conversar, faz com que sua ausência incomode. Passar por ali, observar as lâmpadas desligadas, o escuro que se deixa mostrar pelo vidro acima da porta e o silêncio que vem do interior da sala, me provoca algumas perguntas: quando retornará? O que estará fazendo por terras estrangeiras? O que haverá de si em sua ausência, além das lembranças que nos visitam? Que sentidos existirão numa sala vazia? O que será que o tempo alimenta para além do pó que se assenta sobre os móveis? Enfim, um rosário de questões vai se desfiando a não ter mais fim.
Depois, o que se apresenta como reconfortante é o fato de que aquela sala é ocupada por minha amiga. Então, de alguma maneira, ela está ali. E, pensando deste modo, vou-me indo pelo corredor estreito, fronteiriço às salas de professor do meu Departamento.
Então, eu escuto sua voz, com sotaque da Paraíba, e vejo a porta de sua sala abrir e fechar com a constância de quando atendia ali, com atenção, os que aflitos buscavam seu apoio, sua amizade ou seus conhecimentos e seus préstimos.
Pode ser que sua necessidade de conhecer e de compartilhar suas descobertas esteja sendo remontada, nesse exato instante, lá por onde ela anda agora. Certamente, sua presença e suas inquietações farão instalar outras salas e, do mesmo modo, outros lugares de atendimento, para quem lhe busque. Este fio que nos liga fende-se em vários para ligar muitas outras pessoas que, como eu, descobriram, nesta minha amiga, a graça de sua generosidade.
Este fio que nos une aponta seu lugar e apresenta sua presença, estando ela presente ou não. Tem pessoas que são assim, sempre estão conosco onde quer que estejam. O que percebemos disto tudo é que o silêncio, o escuro, a porta fechada e a sala calada dizem muito de uma presença que preenche o vazio. Dizendo de outra forma, ainda para referir a música de Gil, uma sala vazia não apenas está cheia de ar, está também cheia de lembranças, daquilo que guardamos ao recordar alguém, naquele lugar. Ou, de outra maneira, está cheia de detalhes nossos, que investimos ou que imaginamos ser de outra pessoa.
A cada sala corresponde um número, o número é um operador de referências. É com ele que remetemos o que quer que seja para algum lugar. O número é o indicador de um lugar vazio que se apresenta como espaço de uma presença que está em cada um de nós. A sala guarda suas coisas como se cuidados tivesse, por afinidade ou por recomendação. E não há modo diferente de pensá-la, a não ser que abriga impressões de ausência com a mesma delicadeza de que presença fosse.
O corredor é apenas o caminho por onde logo há de chegar, a qualquer momento, uma amiga que está de viagem. É o espaço por onde transito inúmeras vezes ao dia, todos os dias, e onde dou de cara com a porta fechada. A sala fechada. A sala vazia, escura e silenciosa.

domingo, 3 de abril de 2011

O QUE FICA E O QUE SE VAI



Quando lhe fugira a celeste visão, o mancebo foi seguindo com o passo e com os olhos o carro que levava sua alma presa àquele rosto encantador. O passo era rápido e o olhar ardente; um ansiava por chegar; o outro quisera atrair pela força da paixão, pelo ímã das centelhas magnéticas que desferia a alma

(A Pata da Gazela).

José de Alencar

A inteireza das coisas é tecida de equívocos e de impressões. Na verdade cada unidade é constituída de inícios, reinícios, finais e transcendências. Um dia, iniciado depois de outro que findou, carrega consigo, na fronteira entre um e outro, os interstícios das passagens que não se consolidam em extremidades, nunca. Um amor que termina vai ainda, por muito tempo, esmaecer. Outro que inicia, transcenderá em fios ralos de princípios, em simultaneidade com os restos do ainda é.
Assim é a vida. O nascimento aciona o destino iniciado e outros inícios, que lhe estão conjugados: a experiência da maternidade e da paternidade, a irmandade e outros laços afetivos que daí derivam. Algumas vezes, podem até deslanchar rompimentos traumáticos. Os planos para o futuro se ajustam, desde o começo, em momentos conclusivos e reinícios inseguros. E a conclusão de um projeto exige, de imediato, o começar de outro.
Uma flor abre suas pétalas, pacientemente, como se aguardasse a desatenção de quem a observa, para se apresentar, de repente, em todo o seu esplendor. Entre condição de botão e o seu estágio final de flor, a transcendência de instantes, em medidas de tempo mínimas e, no entanto, absolutamente seculares.
Uma rocha, observada demoradamente por alguém, não revela o seu processo de deixar-se de ser, de ser de outro modo, de acumular novos resíduos e largar outros em fragmentos que parecem se constituir em elementos diferentes do seu ser anterior, desiguais em tudo do seu estado recém-passado. A fotografia, que consegue paralisar a imagem de um instante, é o único meio de mostrar tal estágio de algo. A rigor, não percebemos o movimento por que passam as coisas em suas transmutações.
As trocas constituem mudanças de situações e provocam impressões de muitas naturezas. A roupa trocada pode ser entendida como a possibilidade de apresentação do mesmo, de outro modo. Pode servir ao interesse de constituir um corpo novo, renovado, melhor apresentado. A própria roupa a ficar no cabide ou a revestir o corpo tem suas relações de sentido alteradas, conforme a ocasião e o seu estado.
A troca, no sentido mercadológico, estabelece uma espécie de pacto de equivalência. Desde o escambo é assim, quem dispõe de um bem e carece de outro deseja trocar algo que tem para adquirir aquilo de que tem necessidade. Uma vez efetuada a troca, com acréscimo de retorno para um dos lados ou, sem acréscimo algum, produz a impressão de equivalência, embora cada um dos negociantes possa, particularmente, ficar com a impressão de ganho ou perda. Mas, ao final, realizada a troca, deve restar a exata compreensão de que algo que faltava foi adquirido e algo que sobrava já não sobra mais do mesmo jeito.
As trocas de carinho entre pessoas que se relacionam afetivamente têm significados diferentes conforme os interesses recíprocos. Aqui não serão enumeradas as diversas situações e os interesses correspondentes. Desejamos apenas ressaltar que estas trocas se dão também com possibilidade de níveis de satisfação diferenciados, o que pode deixar um dos parceiros mais ou menos satisfeito.
Por fim, todos os tipos de troca são marcados por aquilo que, desde o início deste texto, temos buscado tratar. As impressões de completude e as faltas que se produzem no transcurso de uma compreensão sobre algo e, ainda, como a mobilidade modifica as coisas no mundo, às vezes, sob a impressão de imobilidade. Que a plenitude é uma ideia sobre a qual se interpõem muitos outros aspectos de vazios, lacunas, ausências, particularidades etc.
Ao deslocar algo de um lugar para outro estamos preenchendo um vazio num local e esvaziando outro. Produzimos, portanto, uma nova realidade, e nesse deslocamento, o atrito ou a resistência produz desgaste, por vezes, imperceptível. Ao abandonar um projeto, uma ideia ou alguém, deixamos de ter aquilo que abandonamos. E tal abandono cria a possibilidade de buscarmos preencher o lugar vago por outra coisa e, ao mesmo tempo, aquilo que foi abandonado há de ser apropriado por outra pessoa ou ligado a outra coisa, outra situação. O olhar de agora se depara com a surpresa do que, no passado, foi visto de outro modo. Na memória, a imagem guardada daquilo que já não é mais.

sábado, 26 de março de 2011

O FIM DE TUDO O QUE SE BUSCA


A livraria, a porta aberta, os livros enfileirados nas prateleiras. Cada um deles a dizer-se mudo enquanto alguém não se achegue e ponha-se a ver-lhes as páginas abertas, perscrutando a intimidade das palavras. Estimulando os sentidos a fazerem-se sentir-se, no mais das vezes, ao roçar da visão. O jovem, tendo à mão um vinho tinto, passa os olhos em busca de algo: um título, um autor, um sem saber que busca sempre quando se dá conta de estar numa livraria.

Mas esta é uma situação especial, antes de decidir comprar o vinho, deu-se a confirmar, pelo celular, o encontro muitas vezes marcado e adiado sempre, com uma pessoa, há muito desejado. De vez em quando, carece trocar a garrafa de mão para enxugar o suor que friamente umedece a palma das mãos. De livro a livro visto, percorrendo as prateleiras, para em Florbela Espanca. Lê uns dois sonetos e, a seguir, trechos de sua vida atribulada. Maria Toscano, a esposa do João Maria Espanca, não podia ter filhos. João Maria, valendo-se, então, de uma antiga regra medieval que lhe dava direito a ter filhos com outra mulher quando a esposa não pudesse ter filhos, procurou Antônia da Conceição Lobo, com quem teve Flor Bela Lobo e mais outro filho.
“Florbela D’Alma da Conceição Espanca casa-se três vezes, publica em vida dois livros, apresenta sinais sérios de neurose. E, às duas horas do dia 8 de dezembro – no dia do seu aniversário, suicida-se”.
Repõe o livro na prateleira, pensa em filosofia, dá-se conta que tem às mãos um livro de Voltaire: François-Marie Arouet – escritor, ensaísta e filósofo iluminista francês –, mais conhecido pelo pseudônimo Voltaire. Fica a ler trechos e vai tomando conhecimento da voracidade de um escritor pela escrita, da diversidade de temas tratados e como produzia feito uma máquina. Mas ainda não é esta abordagem filosófica que deseja associar ao vinho que tem em mãos. Continua sua busca e, ao tentar repor o livro de Voltaire na prateleira, cai-lhe na cabeça outro livro, sem qualquer explicação aparente.
Agacha-se para apanhar o livro ao chão, ainda zonzo. É um livro de Fernando Pessoa, “Toda Poesia”. Conhece bem o poeta, mas naquele momento não imaginava nada assim, não tinha pensamento em Fernando Pessoa. Mas, aproveitando para paginar o livro, vai-se dando conta que bem poderá ser aquele o que procura. Passa pelos heterônimos: Alberto Caeiro (Sinto-me nascido a cada momento/Para a eterna novidade do Mundo...); Ricardo Reis (Assim em cada lago a lua toda/Brilha, porque alta vive); e Álvaro de Campos (Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã... /Sim, talvez só depois de amanhã...).
Certificou-se, é mesmo este livro que deseja. Busca com os olhos alguém que venha atendê-lo. Não tendo ninguém por perto, vai à procura do caixa. No percurso, uma vendedora lhe pergunta se encontrou o que buscava, ao que ele confirma. Ela pede o livro, retira qualquer coisa da última pagina, põe-lhe uns marcadores de leitura e o acompanha ao caixa.
O trânsito daquela tarde está leve e logo se vê chegando em casa. Ao chegar à portaria do prédio, o porteiro lhe avisa que alguém pegou a chave e o espera no apartamento. Ele sabe exatamente quem é. Toca a campainha e a porta se abre quase que por magia. Um abraço demorado, um beijo idem.
Naquela noite, se realizará, a cada momento, um dos encontros adiados até que se cumpram e se atualizem todos eles. Em cada um, conversarão sobre coisas sem importância como a seguir um rito de paciência e prazer. Muitos abraços, muitos beijos, muitos toques. E sentar-se-ão à beira da cama, ouvindo “La mer” e muito mais Debussy. Mas, antes de qualquer coisa, será Fernando Pessoa quem declamará seus versos e os servirá na bandeja, com vinho: “Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as/No colo, e que o seu perfume suavize o momento/Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,/Pagãos inocentes da decadência”.