sábado, 12 de dezembro de 2009

VISAGENS




O jogo de cartas adormece a atenção ao tempo. De susto percebe-se que a noite avança pela madrugada. Um cuidado alfineta os sentidos e a lembrança de casa finaliza a última mão do relancinho.

A lua cheia reluz no caminho estreito de areia branca, madrugada alta. O passo largo avança rápido roçando o embainhado da calça nas ramagens de salsa que estreita a picada. Ruído marcado da respiração ofegante e do atrito da roupa no mato. A lua baixa alonga a sombra para trás.

Erguendo a cabeça com o olhar à frente percebe alguém que caminha adiante, pouco mais de duzentos metros. Acelera o passo, imaginando tratar-se de alguém conhecido. Chapéu de aba e roupa branca repercute o luar. No entanto, ao alcançar o cume do alto, a pessoa desvia-se e penetra a mata alta, à esquerda. Nenhuma suposição. Ignora o fato motivado pela preocupação com o avançado da noite.

Pouco mais adiante, ouve o ruído de algo que se projeta no ar indo, em seguida, chocar-se contra o chão, jogando poeira às margens do caminho. É um pedaço de galho de gameleira, de uns setenta centímetros, cortado em bico de gaita nas extremidades, num golpe só por vez. O comum é que houvesse escutado o barulho, mas nada foi ouvido. O estranho é que não há sentido aparente para o acontecimento.

Não há muito o que pensar. É continuar seguindo e apressar ainda mais a marcha.

Aos poucos começa a ouvir um choro angustiado e inteiriço. Vem a lembrança da esposa que está só em casa. Encontra-se grávida do primeiro filho e pode estar sentindo dores. Andar apressado, agora, já não basta. É necessário correr, pode ser que esteja precisando de ajuda. Marinheiro de primeira viagem, não consegue imaginar o que possa fazer ou, antes, o que possa estar havendo.

De relance, sente um remorso por estar jogando baralho enquanto a mulher, gestante, ficara só em casa. Em seguida, imagina que não há de ser nada, conforma-se. O choro vai ficando mais alto à medida que se aproxima de casa.

A roupa encharcada de suor parece limitar os movimentos. De vez em quando é necessário parar para respirar. O percurso parece que se espicha. Ao chegar, o choro para e o silêncio incomoda até mais. Salta a cerca do quintal e busca a porta da cozinha num movimento automático. Ela sempre está só, encostada, à sua espera. Entra em casa e com alívio percebe que a esposa dorme serenamente.

Suado e cansado, senta-se e se deixa ficar por bom tempo com os braços estendidos, o corpo recostado na cadeira. Recomeça o choro, mas desta vez parece distante.

Pela manhã, acorda com a voz de alguém que chama seu nome. Levanta-se, sente o cheiro do café novinho. A esposa, em sua atividade diária, parece desconhecer qualquer coisa a respeito do que aconteceu à noite passada, e, como se acostumada, nem pergunta mais onde esteve. Não parece aborrecida. Prepara a mesa do café no ritmo do esperado.

Continuam a chamar seu nome para além do cercado. Abre a porta e manda que se aproximem três pessoas, após identificá-las: são vizinhos que ficaram de acertar trabalho na roça.

Na mesa de café, ele conta o ocorrido e ninguém dá notícia de ter ouvido qualquer coisa estranha na noite anterior, muito menos choro. Mas um dos vizinhos relata que outras pessoas por ali já se referiram a algo parecido. Diz que se trata de recém-nascido, falecido e enterrado na porteira do curral, sem o devido batismo. Alguém tem que desenterrar e batizar para que o caso não volte a acontecer.

sábado, 5 de dezembro de 2009

ETERNO RETORNO




Destinos. Cada cubículo, entre os cubículos todos sobrepostos em que se abrigam as pessoas numa grande cidade, sobram destinos. Cada pessoa é um fragmento que se destina a um lugar diferente, por motivos também diferentes. Portas fechadas dão de cara para o muro do corredor estático, há tempos. É próprio de uns ir à feira, outros ao banho. Há quem fique em casa e os ganhem a rua. Os que nunca mais retornem por opção própria ou de outros. Há os que recebem: visitas de entes há muito não vistos, do cobrador, do leiteiro, do médico, do vizinho, do amante ou da amante, por aí afora.
Conflitos. Ninguém que se saiba concorda com os cães do apartamento de cima que ladram durante a madrugada. Mas eles se mantêm impassíveis: ladram, simplesmente. Um mundo de gente mora em condomínios, experimentando viver em harmonia — uns contra os outros. Enfrentam os mesmos conflitos: separar elevador social de elevador de serviço – em qual deles pode-se descer ou subir com os cachorros que dividem o espaço minguado dos apartamentos? Até que horas pode-se ficar com o som ligado a todo volume? Nos elevadores, baixa-se ou ergue-se a cabeça? E conversar com vizinhos e visitas, pode? Jogar bola nos corredores tem problema?
Máquinas e humanos. O desenho dos espaços urbanos foi definido pela tecnologia dos automóveis, que funcionam como extensões das pernas humanas, no dizer de McLuhan. Mas a verdade é que, embora sejam conduzidos por pessoas, os rituais todos e as marcações de reverência esquecem este detalhe. Todos os traços e faixas nas ruas e avenidas comunicam que se deve dar a preferência aos seus usuários. Quando o poder público institui a faixa de pedestre como observação obrigatória para os motoristas, eleva a importância da pessoa contra as máquinas, dá uma alguma racionalidade e desperta um certo espírito de civilidade. O problema é que a exacerbação do sistema acaba pondo em risco pessoas e máquinas: instalar faixas em vias expressas, sem sinal luminoso, por exemplo, é uma temeridade.
Tempo dos sinais. A pressa das pessoas antes e após a jornada de trabalho destoa do tempo dos semáforos nos cruzamentos das avenidas. Os sinais piscam para as filas que crescem, sem solução. Os humanos que administram as máquinas de controle hibernam faz tempo, não percebem que há urgência em se atualizar esta relação defasada. O ruído do caixa e das moedas abafa as lamúrias de descontentamento e o ranger de dentes de indignação.
Janela de fora. Os olhos enquadrados na tela da TV vêem a paisagem se afastar ou se aproximar em zoom, pela janela do automóvel. As cores e os movimentos assemelham-se. Até mesmo o encanto e o deslumbramento diante dos acontecimentos e dos personagens que pontuam em fragmentos de segundos a composição enquadrada. Há uma estética audiovisual que contamina as paisagens, impregnada que está pelas tecnologias do ver. As dimensões se achatam contra o vidro da janela e não perturbam o viajante em sua dormência demente.
Coração vazio. Falam-se em revitalização dos centros urbanos. É uma tristeza caminhar pelos centros das velhas cidades, o que prevalece é imagem do abandono. Estacionamentos multiplicam-se no lugar de prédios demolidos. Prédios de pintura carcomida e envelhecida denunciam os cuidados que lhes faltam. Os shoppings deslocaram os centros para outros centros instalando o clima de vazio. Transeuntes perambulam em cores desbotadas. Autoridades planejam dar vida novamente aos centros urbanos, estabelecer novos horizontes. Horizontes encarcerados em pequenos cubículos, em cada um deles sobram destinos.

sábado, 28 de novembro de 2009

PROVISÓRIO, PARA SEMPRE



Acompanha-me desde sempre um sentimento de que preciso buscar algo que me falta. Este sentimento me conduz a estar sempre em movimento de um lugar para o outro. Uma amiga me observou certa vez de que eu pareço estar sempre de partida mesmo quando acabo de chegar. Ainda assim, dou comigo há anos vivendo no mesmo lugar. Há uma espécie de contradição, a inquietação move-me para longas viagens e me arremete de volta ao lugar de origem onde permaneço.
       Ainda que entre partir e retornar signifique alguns poucos anos, a certeza de que retornarei me põe outro tipo de sensação, a de provisoriedade. Nenhum traço do que pode ser definitivo, por isto mesmo não finco raízes, não estabeleço vínculos permanentes. Nada deve ter marca do ficar. A saudade “de casa” é então aliviada por esta impressão de que logo estarei de volta. Os dias contados, os compromissos parcelados até a data do retorno. O que é provisório não ata laços.
A provisoriedade é real, estamos, como se diz, de passagem na vida. E a sua sensação em mim é uma espécie de equívoco porque pressupõe a idéia de permanência. Cada estada breve só se justifica porque hei de estar sempre onde estou: em lugares diversos e, ao mesmo tempo, definitivamente, no mesmo lugar. Pode ser que este ir e voltar se faça em função do sentimento de falta, da busca de preencher esta incompletude. Pode ser que este retornar ao mesmo ponto de partida se dê porque os pontos de busca apontam para o mesmo destino. Pode ser tanta coisa.
Quem está em busca de algo e não sabe exatamente o que é não sabe também quando ou se encontrará. Pode ser que este não saber traga junto a surpresa como atrativo, pode ser que também seja acionado para não produzir decepções. Mas, ao mesmo tempo, produz uma espécie de cegueira que nos leva a lugares em que nada há para se buscar, ou, pelo menos, onde nada se encontra.
          Há quem diga que este sentimento deve ser preenchido pela presença de Deus, que quem tem Deus ou uma religiosidade firme não precisa andar em busca de outras coisas que tragam felicidade. Mas é também o caso de se perguntar se já não é a fé que nos remete ao mundo e nos impõe a tal busca.
O crescimento de uma pessoa se processa, basicamente em duas direções: a primeira é o crescimento físico acompanhado pelos hábitos sociais. Este crescimento conduz a que cada um se projete do seio da família onde goza de segurança para a constituição de sua própria realização, o que quase sempre leva à constituição de novas famílias que esta pessoa passa a prover, assumindo responsabilidades que mais a fragilizam que lhes dão estabilidade.
A segunda direção é produzida pelo desenvolvimento do conhecimento e a ampliação do nível de consciência sobre si e a sua condição no mundo. Esta nova perspectiva arremessa o ser num emaranhado de dúvidas e descobertas que também produz incerteza e instabilidade, embora possa produzir sentimento de prazer e satisfação.
O que traz novamente a impressão de solo firme nas duas situações pode ser realmente a religiosidade. Mas é por crer em algo que nos arremessamos ao mundo e nos consideramos capazes de vencer desafios e superar limites. Novamente, se impõe a necessidade de ir à busca de objetivos e metas e de se chegar a destinos que não parecem se efetivar nunca. Tenho trabalhado, neste sentido, a idéia de que todo lugar de chegada é, antes, um ponto de partida.
Outro aspecto desafiador é que os percursos se bifurcam e os destinos se multiplicam, o que nos leva a ter que fazer escolhas, a optar. Escolher é necessário, mas nem sempre é fácil. Consideramos que temos direito a escolher, no entanto, quanto mais opções mais difícil é a escolha. Escolher um destino é excluir outros. Estes podem depois nos faltar.

sábado, 21 de novembro de 2009

TERCEIRO MOVIMENTO




O apartamento é um cenário bastante confuso: objetos pessoais e roupas se espalham por todos os lugares. Esta situação provoca inquietação, principalmente, pela obrigação que daí advém de por aquilo tudo em ordem. Esta obrigação é contrariada pela indisposição para iniciar esta tarefa. A aflição provocada por estes dois pontos em contrariedade tem a força de provocar uma ação que parece fora de qualquer controle, uma vontade desmedida de sair dali imediatamente. Olha ao redor, apanha uma camisa e uma calça, entre as que estão espalhadas por sobre os móveis, põe um tênis sem cadarço e sai batendo a porta. De primeiro instante, não reflete aonde deseja mesmo ir naquele momento.
De repente, vem à lembrança de onde esteve na noite anterior. Não consegue lembrar com clareza de muita coisa, bebera além da conta. Mas uma imagem é recorrente em suas lembranças: a casa de Gina, sua ex-namorada. Estivera por lá algumas vezes com a intenção de falar com ela, mas sem sucesso.
Pensando nisto, toma a mesma direção. Apanha um ônibus e senta-se próximo a uma das janelas. Por longo tempo, fica olhando as casas que passam, as pessoas paradas nos pontos, os outros ônibus e os carros em sentido contrário. Aproxima-se o seu ponto, dá sinal, o ônibus pára e ele desce sem muita pressa.
De pé, parado, fica imaginando se deve mesmo ir, já recebera algumas reclamações da ex-namorada, pedidos para que não fique rondando sua casa.
Começa a chuviscar e, por falta de uma decisão, acha melhor passar num bar que sabe estar próximo para beber alguma coisa e poder clarear as idéias. Até que chegue ao bar a chuva torna-se mais intensa. Corre, tentando proteger a cabeça com a camisa.
Entra de uma vez, fica a limpar a água da roupa como se pudesse com isto enxugar-se. Embora chova, o tempo está abafado e quente. Pede uma cerveja para retirar o amargor da língua. Entorna o primeiro copo e o engole quase de um fôlego só. O balconista olha-o fixamente, mas sem qualquer expressão. O restante daquela garrafa ele vai espaçando, encostado no balcão, com o olhar dirigido para fora como se esperasse alguém.
A chuva pára, o tempo refresca um pouco. O balconista sai de detrás do balcão e vai enxugar as mesas e as cadeiras postas na calçada. Ele observa tudo sem interesse. Enquanto isto, vai ingerindo outras garrafas de cerveja sem se decidir se vai ou não à casa de Gina. Enquanto pensa isto, vê com incredulidade que Gina vem na direção do bar. Completa o copo, toma-o de uma vez. Enche outro, olha atentamente e o repõe sobre o balcão.
Quase não acredita quando vê que ela se aproxima do bar, por impulso vai ao seu encontro. Cumprimenta com um sorriso, mas ela parece contrariada. Rosto fechado, quase não fala com ele. De repente, ela passa a reclamar porque ele anda rondado sua casa. Ele vai mudando de humor e passa a retrucar com raiva e a falar cada vez mais alto. Gina pede que ele se acalme, mas isto o deixa ainda mais irritado. De repente, apanha a garrafa de cerveja e a joga no chão com violência. Depois disto, sai dali colérico.
Mais adiante, pára e volta-se para olhar o bar, lembra que não pagou as cervejas, mas não quer voltar com Gina ainda lá. Pensa que pode ser mal interpretado, depois, não está mesmo a fim de vê-la novamente tão cedo. Tem sido desprezado, humilhado mesmo, não deseja mais continuar se sentindo assim.
Mas, ao voltar-se vê que ela está sentada em uma das mesas dispostas na calçada do bar e um homem se aproxima dela. Toma interesse e fica observando a cena. Logo em seguida, o homem senta-se também à mesa. De longe, não dá para saber o que conversam. Daí, pensa que deve voltar para pagar a conta e, quem sabe, poder observar de mais próximo. Neste instante, os dois levantam-se e saem dali devagarzinho.

sábado, 14 de novembro de 2009

SEGUNDO MOVIMENTO




Nos finais de semana, ela costuma sentar-se próximo à porta que dá para a rua, mas nem presta atenção ao que ocorre lá fora. Fica um tempão com a serrinha aparando os cantos das unhas. Aqui e acolá, pára e estende o braço: olha as costas da mão espalmada, de longe, com os dedos fechados. Inclina a cabeça para um lado e para o outro, depois recomeça friccionando a serrinha contra os cantos das unhas. Primeiro, as mãos e, depois, os pés. Algumas vezes, mesmo percebendo que o trabalho está concluído, reinicia como se não soubesse. Fica assim um tempão. É um gosto que não tem nenhuma explicação a não ser que não gosta de ficar na frente da televisão e nem sem fazer nada, prefere cuidar de si.
Levanta-se para ir à cozinha, ajeita uma almofada no sofá, apanha o copo no chão e sai murmurando uma canção destas da moda. Enquanto está na cozinha, verifica a geladeira para ver se tem algum refrigerante. Na falta, toma um copo d’água e retorna ao seu lugar próximo à porta. Olha a rua sem se deter em qualquer detalhe. Hoje, no entanto, percebe que chovera recentemente. Há ainda fios correntes de água da chuva.
Agora, já finalizando mais uma vez o trabalho com as unhas, alguém vem avisá-la de que há uma ligação para ela no telefone da esquina. Nem imagina de início, quem poderia ser. Mas, sem surpresa, levanta-se e sai apressada para atender ao chamado. Quando atende escuta a voz de um homem que reclama de sua demora. Ela lembra que havia combinado com um alguém, um caso recente, para saírem. Na verdade, ela havia concordado muito mais para não encompridar o papo. Não estava a fim de ficar com ninguém. Dissera a ele algumas vezes que gostava dele, mas sem muito entusiasmo. Anda tão cheia de trabalho que nem se anima a namorar. Homem é o que não lhe falta.
Ela, então, para não deixar barato pergunta pelo dinheiro. Isto o irrita ainda mais. Mesmo assim ela insiste e faz voz de ofendida. Percebendo que aquela discussão não adianta nada, ela, simplesmente, deixa o telefone pendurado e vai conversar com a pessoa que a foi chamar. Agradece e pede para que após 15 minutos ela reponha o telefone no gancho. As duas sorriem. Ela retorna para casa.
Apanha dinheiro sobre a mesa de centro e resolve ir à esquina do outro lado da quadra para comprar um refrigerante, sente vontade de beber algo gelado. Caminha pela rua molhada e vai desviando das poças, como se fosse divertido. Ao chegar à esquina, entra no bar e dá de cara com um ex-namorado que ultimamente vive rondando a sua casa.
Assim que a vê ele vai ao seu encontro. Entram no bar e ela não parece nem um pouco feliz com o encontro. Reclama da atitude dele de ficar rodeando a casa dela, feito peru, de asa baixa. Ele, já com algumas cervejas na cabeça, começa a falar alto e vai-se alterando cada vez mais. Ela percebe que está chamando a atenção das poucas pessoas que estão no bar naquele momento. Pede que ele se acalme, tenta contemporizar, mas não consegue de modo algum acalmar o homem. Ele, colérico, joga uma garrafa de cerveja próximo aos pés dela e, em seguida, retira-se do bar, arrebatado.
Ela pede o refrigerante e sai para uma mesa que está afastada. Senta-se e fica tomando o refrigerante devagarzinho. Sem mais por que, dá uma vontade enorme de chorar. Deita a cabeça sobre os dois braços e deixa-se ficar assim e desfaz em lágrimas. Enquanto chora, vai lembrando da noite anterior e do telefonema que acabara de atender. As imagens vão-se sucedendo em sua imaginação até lhe vir à mente o rosto do homem que lhe propusera sair.
Semelhante a um sonho, começa a ouvi-lo perguntando se ela não lhe quer fazer companhia, conversar um pouco. Ela ergue a cabeça lentamente, como se sob efeito de sonolência. Não sabe ao certo se está mesmo vivendo aquilo ou se é apenas um sonho. Mas se surpreende quando vê diante de si, em pé, estático e boquiaberto o tal homem.
Nem pensa direito, sua reação é quase que automática, a pergunta lhe escapa quase que contra a sua vontade: — Trouxe a grana?

sábado, 7 de novembro de 2009

PRIMEIRO MOVIMENTO





Ele meteu a mão no bolso lentamente, como se diz, como se dentro houvesse um escorpião. Puxou sem muita vontade um pequeno bolo de cédulas amarrotadas. Pôs uma por uma em cima da mesa, uma sobre a outra. Olhou demoradamente e, depois de algum tempo, resolveu somar a quantia que tinha ali. Fez uma expressão de insatisfação, olhou para o teto longamente depois e pegou as cédulas e, num bolo só, meteu no bolso novamente.
Antes de sair de casa, ruminou a frase que não lhe descia bem: “não custo caro para você, só vou cobrar porque não é correto trabalhar de graça”. Ele, em seguida, murmurou como se respondesse: “mas você diz que me ama, nunca ouvi falar que se pagasse pelo amor de alguém”. Não ouvindo qualquer tipo de réplica, meteu mão esquerda no bolso e assim saiu, batendo a porta.
Caminhou pela rua molhada até a pracinha. Não havia ninguém no orelhão. Dirigiu-se para lá. Retirou o telefone do gancho, botou o cartão e discou o número olhando a caligrafia dela no papel. Não demorou muito alguém atendeu. Ele disse que queria falar com a Gina, a outra pessoa pediu que esperasse, ia chamar.
Demorou um tempão. Várias vezes pensou em desligar e ligar pouco depois, mas desistiu com receio de que ela chegasse para atender e encontrasse o telefone desligado, retornasse para casa sem esperar que ele ligasse novamente. Lembrou que não havia se identificado pra quem atendeu – a pessoa não perguntou e nem ele se lembrou de falar. Também, não era necessário.
Mas quando ela chegou e atendeu, ele estremeceu. A primeira reação foi meter a mão no bolso e se certificar de que ainda estava lá o dinheiro. Reclamou da demora só para não começar a conversa falando da inconveniência de pagar a ela para saírem. Ela fez de conta que não era com ela e foi direto ao assunto: “Trouxe a grana?”.
Ele também não quis responder que sim ou que não, voltou a reclamar da demora e a conversa foi ficando meio torta. Cada um falava ao mesmo tempo de uma coisa diferente. Ele começou a tomar como questão fechada a história da demora, da perda de tempo. Ela começou a questionar por que ele havia se preocupado em telefonar para ela se não estava disposto a arcar com os custos que sabia existirem.
Depois de algum tempo, só ele falava e do outro lado silêncio completo. Nem mesmo um pequeno ruído. Ele não se importou porque lhe veio uma vontade de falar e disse coisas que não tinham nada a ver com aquela história. Coisas de outros momentos que estavam ainda atravessadas, como repetira várias vezes. Falou, falou, falou. Nada em resposta. Como o telefone não emitiu nenhum toque de desligado, imaginou que ela o houvesse deixado fora do gancho. Botou o aparelho no gancho e saiu dali caminhando sem direção.
Puxou as cédulas do bolso, contou novamente. Dividiu ao meio sem se preocupar se isto importava dividir o valor em metades. Contou as cédulas, botou metade no bolso da camisa e a outra metade voltou a por no bolso direito da calça. Não havia nenhuma explicação racional para tal feito, não estava conseguindo raciocinar. Deu vontade, só isto. Ainda sem vontade de tomar qualquer decisão, dirigiu-se ao bar mais próximo, na direção que apontava o nariz.
Não havia quase ninguém àquela hora, umas poucas mesas ocupadas com uma ou duas pessoas em cada uma delas. No balcão, um casal discutia alto. Ele ficou ali, olhando, mas sem juntar as palavras que soavam daquela discussão. Depois de alguns minutos, o barulho de uma garrafa atirada ao chão o trouxe a si. Olhou aquele lugar com estranheza, mas mesmo assim pediu uma cerveja enquanto puxava a cadeira para sentar-se. Do casal que estava discutindo, apenas a mulher continuou no bar – ficou sentada, com a cabeça sobre os braços numa mesa mais afastada.
Ele aproximou-se dela e perguntou se ela não queria fazer-lhe companhia, conversar um pouco. Ela ergueu a cabeça e os dois entreolharam-se surpresos. Ela não conseguiu se segurar, a pergunta saiu mecanicamente: — Trouxe a grana?.

sábado, 31 de outubro de 2009

REGINA & CIA


Regina prestou concurso para a Petrobrás e vem cumprir estágio no Rio de Janeiro. Nordestina, estremece de medo com as notícias de violência. Aluga um apartamento no décimo andar de um edifício da zona sul e lá, sozinha, com saudades dos seus, verte suas lágrimas e penitencia-se, franciscanamente. Aos poucos, vai aprendendo como se mover na cidade e como se abastecer de mantimentos semanalmente, num supermercado próximo.
Detesta a solidão. Com o primeiro salário, compra uma TV e liga numa extensão, sobre um carrinho com rodas metálicas. Deste modo, a qualquer parte do apartamento que vá, lá vai também a televisão. Ah, sim, Regina não é apenas nordestina, vem do interior, de arejados espaços: casa alta, de cômodos grandes, com lugares para armar várias redes e abrigar muita gente, quando necessário. Talvez por isto, sem qualquer outra explicação, mesmo morando sozinha aluga um apartamento de três quartos.
Quando Regina entrava no apartamento a primeira coisa que fazia era ligar a TV. Ia para a cozinha e para lá empurrava o carrinho, com a TV ligada. Ia tomar banho, deixava a porta do banheiro aberta para ouvir a TV.
Mas, mesmo com esta presença tagarela, Regina sentia-se sozinha. Não tinha empregada por que, alegava, tinha pouca coisa para fazer e ainda mais distraia-se lavando roupas e as louças, arrumando a casa e preparando ela mesma a comida com cardápio típico de sua terra. Reclamava que a carne de criação nos supermercados da cidade era muito cara, mas fazer o quê? Era assim ou teria que aumentar ainda mais as faltas que sentia. Na verdade, não queria empregada porque não confiava ainda deixar suas coisas com alguém desconhecido. Vivia sob tensão. Na rua, cumprimentava as pessoas e procurava ser gentil. No prédio, falava com um ou outro quando havia oportunidade, mas em casa, não abria a porta para ninguém, sem o pega-ladrão.
Um dia, enquanto aprontava-se, tomou um susto, enxugava o cabelo, de cabeça baixa, e quando levantou e abriu os olhos percebeu como que um corpo sobre sua cama. Esfriou por dentro. Mas logo deu por si e viu que ela mesma tinha posto a roupa de sair sobre a cama: uma calça comprida com a blusa, um conjunto combinado. Riu, ainda trêmula e foi a cozinha tomar água. Teve então uma idéia: pegou uma calça e uma camisa de mangas compridas, costurou uma na outra e encheu com o recheio de alguns travesseiros que comprou para este serviço. Depois costurou algo como que fosse uma cabeça, pintou olhos e boca e pôs peruca.
Alguém, no seu local de trabalho havia comentado sobre um filme em que um náufrago dava nome a uma bola e conversava com ela como se fosse gente, enquanto permaneceu naufragado. Não conseguia lembrar o nome do filme. Pensou: se uma bola pode fazer companhia para alguém, por que não um boneco bem feito?
Assim, Regina nunca mais almoçou sozinha. A partir de então, depois de ligar a TV, pegava no guarda-roupa o Hermano, sentava-o numa cadeira e ia contando para ele as novidades do dia. Só conseguia almoçar conversando com o Hermano. Comprou-lhe roupas novas, chapéus e outros enfeites. Uma vez, observou no ônibus, de volta do trabalho, um rapaz que tinha um peircing na orelha, imediatamente pensou se também não ficaria legal comprar um para o seu novo companheiro.
Muitas vezes, quando a insônia mais a incomodava, pensava em convidar Hermano para dormir com ela, mas a seguir concluía que não ficava bem uma moça sozinha chamar um homem para a sua cama, mesmo sendo um grande amigo: a única pessoa em quem confiava plenamente naquela cidade.