domingo, 7 de fevereiro de 2010

ANGORÁS ALADOS



Vejo um tempo suspenso sobre flores. Alguma coisa que se sobrepõe e, ao mesmo tempo, tende a despencar. Algo que se mostra estável e sustenta-se no vácuo como uma iminência, desculpe-me a redundância (ou o paradoxo), insustentável. Há páginas e páginas de textos, palavras enfileiradas num desacordo sem fim, muita dissimulação, muitos gestos estudados e realizados com o maior rigor, tratados infindos.
Angorás alados em voos rasantes sobre os gravatás. Tantos sonos profundos pesam sobre seus pelos evanescentes, penugens de sol, virgens, dilacerantes.
O que se apresenta através das coisas como uma materialidade atemporal não tem face definida, mas tem corpo, o corpo escalavrado, recém-saído do emaranhado da vida. O caráter transitório de cada uma dessas esfinges amplia o existir da experiência do seu corpo, mas não goza do tempo de sua vitória, não participa do seu futuro. O equívoco de se constituir singularidades sustenta a farsa da festa e alimenta os conflitos em torno do que não existe a não ser como miragem.
Contam-se os dias no aguardo de uma data qualquer: aniversário, dia de pagamento, o dia em que alguém deve chegar, um evento que se deve realizar etc. Esperam-se e deparam-se com todos os sentimentos e cargas emocionais que o esperar traz, as ranhuras do tempo sobre a pele.
Os espasmos do corpo retesado em delírios de amor satisfeito. O sono seguido de sonhos, a boca seca seca ainda mais, os poros rasos exalam o odor do suor como um dilúvio tênue e encharca os lençóis.Afora os angorás, o céu liquefeito ampara um azul surpreendente e calmo como um estio prenunciado.
Flores ainda aguardam a brisa prometida enquanto vão-se desabrochando preguiçosas. O perfume preenche o espaço e suas cores matizam o dia em torno do templo. O movimento que executam reflete o avanço dos detalhes das pétalas rompendo o vazio e tomando lugar.
Enxames revoam em redor, colibris furta-cores embicam e rascunham no ar desenhos diversos em fios de vôos. Estancam nas acácias para, em seguida, refazerem rapidamente novas trajetórias.
Vejo o vento velando o um tempo de amores, um tempo suspenso com antes e as promessas que rolando sobre flores em dias e dias de esperar.

sábado, 30 de janeiro de 2010

URBANÂNIMA


Foto do autor

  A felicidade que anima a urbe não tem nada a ver com a felicidade de cada um dos personagens que lhe dão alma e vida. Cada um está só na luta pela conquista de seus projetos. E aí se é necessário que outros acudam, que lhes deem uma força é porque os fragmentos se completam como nos quebra-cabeças. Cada um desses também está envolto com seus próprios desejos.
Pela manhã, os ônibus transitam transbordantes de vazios. Olhos espiam o nada que traspassa as calçadas, de dentro para fora. A cidade fervilha o dia inteiro. Máquinas e papéis esbaldam-se às mãos de tanto trabalho. Depois é só verter a cerveja numa latrina, no intervalo da euforia embriagada. Dentes à mostra, um beijo após outro e o vômito seguido de gozo. Ninguém dá notícia do outro: o prazer é solitário e único. Anoitece e as gentes refugiam-se olhos pregados na TV. Cada um na sua. Os perfumes mesclam-se, mas não se misturam, findo o papo, acompanham seus corpos embevecidos em busca de outros leitos. É a regra: entornam-se e escorrem lentamente sem destino.
Os automóveis velozes e ferozes disputam corridas sozinhos, resguardam noturna solidão. Os rios fatiam a cidade. As pontes ultrapassam itinerários, alongam sinais para além das esquinas. No contorno das casas, as ruas desertam-se, ausentam-se como um tempo ido sem testemunha. No âmago, famílias desencontram-se no cotidiano hábito de dividir do pão.
Café da manhã. Deixam-se os quartos em busca da mesa no tempo marcado do dever, sob a orientação do cronômetro. O tempo da mesa é individual. Quando dois esbarram-se, sorriem como se compartilhassem o rompimento do planejado. Em seguida dão-se a vez ao outro. A roupa trocada após o banho, o tênis calçado sem meia e depois pés perseguem os rastos dos dias anteriores e somem para os lados de costume. As tarefas aguardam como assim fosse necessário, vital.
Almoço. Resvalam-se nos restaurantes sem perda de tempo. O descanso fica para as férias. É urgente que retornem ao trabalho. A cidade tem suas expectativas.
Jantar. Como ontem, uma parada num bar antes de retornar a casa. Como antes de ontem, corpos descontínuos e impessoais arremetem-se pelas vias todas em direções múltiplas, inconstantes e continuamente. A comida está no fogão.
Alguns hão de dormir, outros não. Pregar o olho é o desejo, mas a insônia não se vai nem sob a ingestão de soníferos. A memória teima em repassar o dia nos mínimos detalhes, e a ausência preenche a noite plenamente. Falta um corpo a mais, falta um cheiro, uma pele, falta uma palavra, uma boca. A cidade amanhece cantando.
Café da manhã. 

sábado, 23 de janeiro de 2010

DESCARRILADO



O mundo gira e oscila em derredor. Os pés não encontram a visão das calçadas, as formas todas se deformam sem parar. É tudo um delírio que o estômago projeta para fora em fluxos espasmódicos. E o que mantém a repetição destas sensações incômodas é a necessidade do esquecimento dos problemas, pelo menos por alguns momentos. Não há busca de causas nem dúvidas sobre qualquer coisa, o delírio se assenta na mais perfeita ordem do vazio.
O time ganhou, a aprovação no emprego é certa, o filho não tarda a nascer. É tudo uma festa só. Motivos não faltam. O ritmo e o som da noite repercutem forte dentro da cabeça, sob o comando de caminhar sempre para frente. Luzes multicoloridas acompanham na mesma batida. Gargalhadas femininas aproximam-se e afastam-se lentamente, em meio à confusão de pessoas sem rosto, numa dança frenética. Uma fumaça densa confunde as linhas e exala um cheiro forte.
Vez ou outra uma buzina sobressalta e um palavrão alivia o coração, sem mais sentido. Noutros instantes, vozes se misturam num alarido sem nexo. Por vezes, silêncio sepulcral. O exterior traspassa e esvai tropegamente.
Não há calor nem frio e ninguém mais parece estar junto. A boca seca não é sede exatamente. O amaro da língua empesta as coisas todas. Um incômodo nos lábios renova-se com a sensação de estar queimando. Um nó na garganta e no peito um vácuo sem fim.
Parar não é possível, não há razão. Não se dimensionam os passos para mais ou para menos, enquanto as pernas cambaleantes imaginam traçar paralelas: só se encontram no infinito. No entanto, os braços inertes e adormecidos abraçam paredes disformes. As mãos tocam a impenetrabilidade do depois. Alguém chama insistentemente por um nome que não encontra registro na memória. Parece que soluça um choro histérico e desesperançado. Por instantes, grilhões prendem os pés e as mãos e alçam o corpo em voo lento e rasteiro. Gritos de socorro vêm de todos os lugares.
A escuridão abafa todos os ruídos como se pusessem um tapa-ouvidos. Os sons abafados vêm de dentro e circulam nas veias num ir e vir acelerado. Medo e dúvida são agora os sentimentos predominantes: medo de quê? Dúvida de quê? Nada tem explicação. Embora não mais sinta que caminha, parece que o corpo projeta-se para frente de algum outro modo. Estremecimentos e impressões de paradas bruscas seguidas de arranque seguem-se após longo período de inércia. Pequenas réstias sucedem-se rapidamente como se quisessem arrancar os olhos. Não adianta cerrar, as lâminas de luz dissecam as retinas em dores agudas cada vez mais fortes.
Retorna a claridade e vozes indecifráveis. O corpo é novamente arremetido e esbarra sobre uma superfície irregular que também ganha movimento, sempre para frente. Bate um cansaço e um sono que aos poucos vai misturando as imagens chacoalhadas na cabeça. Um alívio profundo e uma alegria ímpar tomam conta. Não faltam motivos.

sábado, 16 de janeiro de 2010

NA SEXTA



Quando Regina vai morar no Rio de Janeiro imagina que o sofrimento provocado pela adaptação de viver sozinha será por pouco tempo. Pensa: “logo, logo me acostumo e tiro de letra”. Mas ela descobre que, à medida que o tempo passa, vai ficando mais só. Não entende como antes, quando não conhecia ninguém no prédio onde mora, nem no trabalho, nem no supermercado, nem em lugar algum, sofria menos. Hoje, Regina continua com medo de circular sozinha pelas ruas de Copacabana e até, de vez em quando, tem umas paranóias de se sentir seguida. Várias vezes tem sentido esta sensação. Mas agora, já conhece a família que mora no apartamento vizinho ao seu. Já chama os porteiros pelo nome e, vez ou outra, pede a um deles para ajuda-la a subir com as compras. Depois de muito resistir, até aceitou ir ao cinema com um colega de trabalho que vive dando em cima. Deixa-lo ir ao seu apartamento está fora de cogitação, mesmo se decidir namorá-lo um dia, pensa.
Para sua insatisfação, parece que quanto mais passa o tempo, mais se esgarça sua resistência. E isto porque, pelo menos duas vezes por semestre, viaja à sua terra para encontrar a família. Nessas viagens, já sente, curiosamente, que depois de dois dias começa a sentir falta do seu apartamento, do trabalho, em fim, do Rio de Janeiro. Isso a deixa ainda mais confusa. Agora é uma mulher dividida e tomada de saudade onde quer que esteja: se no Rio, sente falta da terra e da família. Se com a família, sente falta do Rio, inclusive, da companheiro de pano que arranjou para si e com quem mais conversa quando está em casa, especialmente, à noite.
Nesta sexta-feira, Regina acorda sentindo oco, um vazio impreenchível, difícil de suportar. Levanta-se meio sem disposição, estranhando o frio de agosto. A pele arrepiada incomoda de maneira incomum. Pega o fósforo sobre o fogão, em câmera lenta, e quase não consegue girar o botão que libera o gás do aquecedor. Espera a água esquentar. Testa com a ponta do pé, depois com a palma da mão. Nada. Continua fria demais. Decide, então, escovar os dentes enquanto a água do chuveiro aquece. Para não desperdiçar, deixa chuveiro fraquinho. Assim esquenta mais depressa.
Não se reconhece no espelho, os cabelos desgrenhados, os olhos cheios de saudades, a boca sem graça. Definitivamente, acordara a pessoa errada. Em meio a confusão de sentimentos, passa pela cabeça momentaneamente tratar-se do seu amigo de pano. Imagina ser um sonho, ridiculariza o pensamento anterior. Mas seu cabelo está de tal modo desalinhado que, ao abrir a porta do armário para apanhar, finalmente, a escova de dentes, apanha o pente ao invés da escova, retira-o e fecha o armário. Ao se dar conta daquela situação, irrompe uma vontade sem controle de chorar, ao mesmo tempo em que uma gargalhada arrebenta nervosa.
Depois de algum momento sem saber se ri ou chora, afinal, acalma-se. Devolve o pente ao seu lugar, apanha a escova e o creme dental. Olha para o espelho, faz caretas como se a zombar dele. Começa a escovação, lentamente. Aos poucos chega aos seus ouvidos o ruído da água do chuveiro que deixara ligado para aquecer a água. Junto com o ruído da água, o frio sobre pele. Sente como se estivera dormente aquele tempo todo. Sexta-feira, repete para si. Sente uma necessidade enorme de entender o que este dia pode significar dito daquele modo, de si para consigo.
Uma avalanche de lembranças recupera as sextas-feiras em sua vida. Desde a promessa do pai de levá-la ao circo no domingo, os encontros marcados e desencontros imprevistos, porém, marcantes. O café engolido as pressas, a visão antecipada do percurso dentro de um ônibus até o trabalho, as ruas, os prédios, Botafogo, Aterro, Flamengo etc. Sexta-feira repercute no inconsciente, ainda sem saber ao certo o significado deste dia naquele momento de sua vida. O onibus avança com o dia levando Regina consigo.

domingo, 10 de janeiro de 2010

FLAGELADO




O sol de concreto arde à pele da terra. Uma concha de azul desbotado, emborcada sobre o cinza da paisagem incinerada, delineia o horizonte distante. Uma estrada de piçarra que vai do sertão ao litoral, riscando a monotonia da caatinga, estremece a extremidade distante. O vento quente redemoinha a poeira do meio dia. Pendurada à estrada, uma casa de taipa refugia-se à sombra rala de um cajueiro. No interior da casa esgueiram-se os moradores.
No cenário de sol saturado, alguém se desloca na piçarra aproximando-se lentamente mais e mais. Chega à casa e, emoldurado em contra-luz, à meia porta, bate palmas. Uma mulher vem atender e refuga os traços. Os traços, trapos do homem esmolambado que pede água, assustam.
Em tempos secos circulam estórias de pessoas que, a pretexto de pedir água, invadem as casas para saquear. O terror se interpõe. Mas, sob a proteção da luz do dia, a mulher retorna à cozinha para apanhar a água. Entrega-lhe o copo de alumínio, machucado, ao pedinte. Ele estende a mão direita para apanhar o copo e, ao mesmo tempo, estende a esquerda como se tentasse pegar o braço da mulher. De supetão, ela empurra o copo e recolhe o braço. O homem toma a água e guarda num saco sujo o copo, sob os protestos da mulher. Ele se vira e, com a mesma lentidão com que chegou, se afasta e retoma a estrada.
O sol declina e a tarde esvai-se à boca da noite.
Por essas épocas é comum que apareçam seres estranhos que tentam escapar à escassez da seca ou, simplesmente, perambulam sem rumo pelas estradas. Transitam como cometas que só retornam sob as mesmas condições. Mas também surgem outras estórias, as mais diversas. Abordam enredos em que estas pessoas que esmolam são representadas como personagens envolvidas em violência e mistério.
A noite avança e o movimento da casa vai se encaminhando para a dormência após o jantar minguado. Luzes de lamparina estremecem sob a brisa suave ao som dos grilos e, vez em quando, o canto de uma coruja. Enquanto armam as redes nos lugares marcados, ouvem que batem à porta. A mulher achega-se receosa e olha pela fresta, vê que se trata do mesmo homem em trapos que passara anteriormente, a pretexto de pedir água para beber, e levou consigo o copo. Ele está em pé, diante da porta, aguardando que o atendam. Visto que naquele dia apenas ela e as crianças estão em casa, resolve não abrir. O marido saíra para trabalhar numa frente de serviço do governo e só retorna no final da semana. Sem abrir a porta, ela pergunta o que ele deseja. O homem não responde e como se não a ouvisse volta a bater na porta.
Tomada de medo a mulher decide não alarmar para não assustar as crianças, pede que ele vá embora e que não abrirá a porta àquela hora da noite. Informa que adiante há uma mercearia com grande alpendre onde, geralmente, se arrancham caminheiros.
O homem insiste nas batidas, elas vão encurtando ficando mais insistentes e em intervalos cada vez menores. Ela, percebendo que as crianças se aproximam, resolve acalma-las, mas sem sucesso. Choramingam e pedem que ela não abra.
A mulher sabe da fragilidade da porta, no momento que quiser aquele homem entrará na casa. Ele pára de bater a porta. Ela sente um breve alívio e milhares de pressentimentos lhes vêm. Pode estar-se preparando para novas investidas. Pode estar tramando outras ações... Enquanto medita vai juntando ao pé da porta o que pode empurrar para dificultar que o homem entre. Olhando pela fresta observa que ele caminha à frente da casa de um lado para o outro, lentamente. Vez ou outra ele volta a bater forte a porta. Cada toque é um susto.
De tão distante a casa está de outras casas que não adianta pedir por socorro. Naquela estrada, àquela hora, ninguém caminha. Só raramente. Sem alternativas, resolve trancar-se no quarto com as crianças e deitar-se com elas numa mesma rede. Ali, juntinhos, adormecem.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

MIMESE




O cenário em que me movo matiza-se dos meus gestos, das cores que gasto neste roçar cotidiano. E tudo toma feições de um personagem em que me reconheço. E me assusta verificar que o desgaste que se produz na vida estampa-se nos mínimos detalhes em tudo o que me rodeia. A experiência deixa fragmentos e se formam crostas invisíveis na superfície dos rostos à minha volta, no limbo dos dentes à mostra em risos cúmplices, nas vestes que vestem os corpos que circulam ao meu redor.
O tempo tem unhas e cardos que arranham e sulcam a minha pele marcando o rascunho dos dias repisados. Há gente que experimenta as minhas dores e sofre por coisas que não lhe pertencem como se fossem suas. Gente que me vela o sono sem que revele quaisquer intenções ou motivos. E no rosto e na alma de cada uma destas pessoas estampam-se resquícios de mim que resultam deste pegar-se, deste abraçar-se com unhas e dentes, na labuta. Ou, por outro lado, pela simples condição dos afagos e piscar de olhos que trocamos em nossas encenações diárias.
A camisa verde-musgo estendida no varal desbota-se ao sol verde-musgo que impregna a roupa dos meus. O muro esverdeado circunda a casa e, frio, resguarda a cor que, afinal, mimetiza. A grama prossegue esverdeando a camisa estendida no varal. Beija-flores estampam cores outras e dissimulam, simulam um verde gasto que contrasta com o vermelho vivo da Amapola recém beijada.
‘Enquanto se faz, o silêncio embaralha sons do seu fazer-se. Este é o meu silêncio aquele que silencio por mim e que se confunde comigo quando calo. Ou, quando falo, nos interstícios das palavras, no vazio da dúvida antes de pronunciar-me. Também este silêncio carrega sotaques em que me reconheço.
No mais, as ruas, as casas, o bairro perfazem o meu universo. Os monumentos erguidos em praça pública têm traços meus e sofrem o desgaste do tempo como eu. A sombra em que me deito quando cansado, quando busco os lastros amplos que devem amparar o meu corpo, ou a roda de amigos ao final da tarde, em conversas sobre amenidades, são a glória de minha história.
As calçadas guardam meus rastros no mais profundo de suas camadas, para além da superfície em cimento duro, por puro repetir-se. Os meus passos em trajeto de idas e vindas, no trançado das esquinas me conduzem a destinos diversos, cotidianamente. Cada fenda, cada falha, toda folha caída, os becos sem saída, tudo me tem na pele e nos sustos, sem muito custo. São espelhos em que, de tanto mirar-me, guardam imagens minhas sobrepostas e ofertam as opções em que devo escolher sobre como desejo me ver em cada um dos momentos.
O clima das estações que se vão e vêm, o início e o final dos dias: seus cheiros e cores. As datas comemorativas ou promocionais lembram-se de mim. O perfume que, mesmo depois de tanto tempo de esgotado o frasco, ainda anuncia minha presença. As narinas estão impregnadas destes odores e a boca, dos paladares que são meus.
A noite tem a minha cara caso atormente-se com o escuro e a solidão. Se a chuva encharca a noite e acarinha os lençóis, se o tempo frio pede alguém por perto. Se à mesa da sala de jantar põem um prato raso e sirvam peixe cozido. Se os jornais e as novelas da TV chamam atenção sobre si e exigem silêncio, atenção. Se, tarde ainda, se ouvir um riso que chama à vida que se apresente com bom humor. Traços que refaço como uma picada por onde transito a minha rotina, uma vereda longa, estreita e conhecida logamente.
Os livros carregam meu nome como marca de posse. Porém, mais do que isto, carregam minhas digitais, suas páginas embebem suores, lágrimas como mata-borrões de tempos vividos. Não são apenas meus, são eu. As mesas e cadeiras, além de cúmplices, conformam usos que outros não suportariam, apenas a mim se ajustam tão bem. As cenas que se apresentam neste cenário reconstituem o roteiro de uma experiência muito particular, cada vez se propondo nova. Apesar dos gestos gastos em se refazer, em guardar de mim o menor traço, de modo tão ostensivo e delineie comigo o percurso que faço, cada linha sua é minha em traço.

sábado, 26 de dezembro de 2009

EURICO FICOU RICO




Dizem que Eurico ficou rico sem mais nem menos, de uma hora para outra. Há quem diga que ele acertou na loteria, que ele recebeu uma herança ou, ainda, que ele arrancou uma botija com moedas de ouro. Só não falam que ele enricou trabalhando. O certo mesmo é que dizem que Eurico ficou rico.
Os que espalham que Eurico acertou na loteria juram de pés juntos que ele jogava a mesma série de números há bastante tempo. De tanto insistir, acabou por acertar e recebeu uma gorda bolada. Depois de assim se expressarem, riem com deboche: “Bem que uma gordinha destas vale a pena” — dizem. Não satisfeitos, dão nome e endereço da Loteca onde o jogo foi feito.
Os que divulgam que Eurico recebeu uma herança, dizem que, apesar de todos saberem que ele foi criado num orfanato e que nunca conheceu nenhum parente próximo, chegou para ele uma correspondência dando conta que alguém do estrangeiro, parece que um alemão, salvo engano, lhe havia deixado uma boa soma em conta bancária, conta aberta em seu nome. Comentam que o falecido se dizia pai de Eurico e deixou registrado em testamento que o resto de sua família não poderia tocar na parte da herança que cabia a cada um antes que encontrasse e entregasse, em mãos, o que cabia a Eurico. E assim foi feito. Até dizem saber nome e sobrenome do tal pai de Eurico, mas alegam que estes nomes em alemão são de difícil pronúncia e não conseguem falar assim, corretamente Franz alguma coisa... Nestes casos, é melhor evitar pronunciar errado — dizem.
Os que propagam que Eurico arrancou uma botija com moedas de ouro, contam uma estória um tanto fantástica. Aliás, arrancar botija já é um acontecimento fantástico. Mas, bom, contam que durante três noites seguidas Eurico recebeu a visita de uma visagem que lhe prometia entregar uma botija cheia de moedas de ouro enterrada sob uma raiz retorcida de uma gameleira, próximo de sua casa, sem precisar o local.
A primeira vez que a tal visagem apareceu foi logo prevenindo a Eurico que ele não poderia contar seu sonho a ninguém, sob pena de não encontrar mais o ouro na botija. Contou, inclusive, que outras pessoas já haviam recebido a mesma informação, mas acabaram desenterrando um pote velho cheio de casas de marimbondos-de-chapéu ao invés de ouro, porque não souberam guardar o segredo. Disse ainda que ele deveria aguardar o momento exato para arrancar a botija, que voltaria para dizer a ele quando.
A segunda vez, a visagem disse exatamente as mesmas coisas. A terceira vez acrescentou uma informação. Disse que, pela manhã, cedinho, ele deveria dirigir-se a uma vila conhecida como Vila do Arraial, procurar a Barbearia da vila e que, dentro da tal barbearia, observasse uma réstia de sol que , exatamente, às 10 horas estaria posta no chão da barbearia, em frente a ponta do sapato do barbeiro. Com o passar do tempo, a réstia de sol iria subindo até que coincidiria com a boca do barbeiro. Neste momento, ele ficaria sabendo onde e como arrancar o seu tesouro. Assim Eurico fez.
Chegou à Barbearia, ficou observando o chão. Durante algum tempo observando, não havia nenhuma réstia. Haviam algumas pessoas esperando a vez para cortar o cabelo ou fazer a barba. Eurico sentou-se no único lugar que estava vazio. Na hora marcada, percebeu a réstia no chão, exatamente em frente à ponta do sapato do barbeiro. Ficou quase olhando fixo, com receio de que ela sumisse. Havia um alarido de conversas dentro da barbearia, mas ele não se dava conta do que conversavam as pessoas. Aos poucos, a barbearia foi-se esvaziando e quando só restava ele, coincidiu que a réstia postou-se no rosto do barbeiro, iluminando a boca. Eurico estremeceu, sentiu as mãos suadas. No entanto, nada aconteceu que pudesse revelar algo sobre a botija.
Ele, um tanto desencantado, contou então a história para o barbeiro. Este riu e tentou consolá-lo. “É assim mesmo, estas coisas não existem. Uma época me aconteceu um caso parecido: uma pessoa, em sonho, dizendo que debaixo da gameleira, que fica na margem direita do riacho Pau D’óleo, na passagem do caminho que vai para a localidade da Cacimba de Beber, sob uma raiz retorcida, havia uma botija de ouro. Eu, embora não acreditando nestas coisas, fui lá e só encontrei um pote velho cheio de marimbondos-de-chapéu.”