domingo, 6 de junho de 2010

ENTRETANTOS


Entre! Eu esperava ouvir esta palavra como um convite, mas a entonação pareceu-me uma ordem. Olhei em volta e não encontrei apoio para levar adiante o intento de penetrar. Girei sobre os calcanhares e fui me afastando. Não houve protesto ou insistência, ficou só aquela palavra “entre” repetindo-se como um eco que se intensifica. Caminhei lento e pensativo em direção à minha casa, entretanto, tinha a sensação de estar entrando em um lugar para onde não havia sido convidado. Não ouvia mais nada a não ser aquela palavra que ia mudando de entonação e de sentido; entretido, dei por mim parado diante da porta entreaberta. Embora estranhasse estar ali, não me incomodava perceber que não havia saído do lugar. Surpreendia-me que não houvesse alguém à porta que me convidasse a entrar. Entrementes, sentia-me impelido a dar meia volta e retirar-me dali. A porta, que noutras ocasiões poderia ser um acesso, parecia-me um entrave, não sei exatamente a razão. O certo que é me afastei caminhando, devagar. Entristecia-me por alguma coisa, o mais provável é que eu esperasse ser convidado a entrar e, embora tendo ouvido alguém pronunciar a palavra, o sentido não era o esperado. Provavelmente, era este o motivo. Não admitia ser tratado daquele modo, não havia motivo.
O espaço retalhado das ruas entremeava-se de silêncios sólidos, entraves sem consequências para o caminhar cuidadoso, absorto em meditar sobre o eco recalcitrante da palavra “entre”. Entre automóveis em brasa, segui para casa. Uma fila diante do cinema chamou a atenção para uma comédia que tinha como título “Between”; lembrei de uma anedota boba a este respeito. Sorri, entretido.
Atravessei por entre as alamedas e praças sem pensar noutra coisa, não me absorvia a ponto de descuidar do trânsito ou de desguiar do destino, apenas não conseguia desviar o pensamento e questionava-me sobre os sentidos que uma palavra como aquela pode produzir, se dita de um ou outro modo, num ou noutro tempo e/ou lugar. Entretanto, nada concluía em definitivo. A cada momento todos os sentidos se embaralhavam e repercutia apenas a palavra “entre”. Em meio ao redemoinho de sentimentos e sensações que daí derivam, sentia-me, paradoxalmente, confortável.
Já quase alcançava a esquina da rua de casa quando ouvi, nitidamente, a voz de uma pessoa conhecida, embora, de momento, não reconhecesse quem fosse, a me interrogar, com ironia: “você veio?!”. Parei, senti um frio na espinha, ergui a cabeça e percebi a porta entreaberta à minha frente, sem ninguém à vista. Estava eu lá, no mesmo lugar. Esperei um pouco e ouvi a ordem: “entre!”. Perguntei-me se estaria andando em círculo ou se, em algum momento, houvera saído dali. Permaneci em pé, parado, por um bom tempo. A dúvida era se adiantaria afastar-me, se depois eu constatasse que continuava no mesmo ponto. Entre ir e ficar, fiquei. Pensei: algum momento isto tem paradeiro.
Amanhecia, eu continuava em pé, diante da porta. Ninguém entrava ou saía. Uma leve garoa umedecia a manhã, como prenúncio de chuva. O tempo fechado rondava-me. Girei o corpo, sem sair do lugar, olhei em torno e não percebi nada de estranho. Pessoas agasalhadas se entrecruzavam em busca de seus destinos. Ia aos poucos aumentando o número de transeuntes e ninguém dava conta de mim.
Ao longe, soa uma campainha. O som repetido vai se aproximando até incomodar. Dou por mim caminhando em direção à porta, giro a chave com dificuldade. Abro um pouco, é a faxineira, “hoje é sexta-feira”, diz ela sorrindo para mim. Sem entender mais nada, abro mais a porta e, quase mecanicamente, peço-lhe que entre.

domingo, 30 de maio de 2010

HÁ MUITOS CARNAVAIS


A orquestra enfatiza os agudos nos metais de “Viva o Zé Pereira”, foliões eletrizam-se e transpiram fantasias. De repente, corre, corre para os lados dos sanitários masculinos. Gritam pelo Sr. Waldemar, o fotógrafo da festa que, às pressas, apanha seu equipamento sobre a mesa, quase derrubando as garrafas de cerveja. Acompanho aquela gente toda sem saber o que acontece. Um bom número de brincantes forma um semicírculo diante de uma cena hilária: Candinho, visivelmente embriagado, escanchado sobre o muro do Clube Social Imperatriz, dormindo, aparentemente, pendula. A [muito] custo, seu Waldemar aponta a objetiva em direção ao Candinho que, quase ao mesmo tempo, se inclina primeiro para frente e depois para o lado e despenca. Pior, cai para fora do Clube. Pular o muro é uma prática até certo ponto comum, quando a rapaziada não tem o suficiente para pagar o ingresso. Ou, mesmo, por folia.
Vendo aquela cena, lembro de um ocorrido com o dito Candinho em uma festa passada, naquele mesmo clube. Diz que Candinho tirou Telewa para dançar. De má vontade, Telewa demorou muito até chegar ao salão onde Candinho já a esperava. Mal começaram a dançar, Candinho tropeçou nas próprias pernas e, de tão embriagado, saiu aos tropicões, buscando se equilibrar no meio dos casais. Depois de algum tempo, Candinho retorna e quando estende a mão para recomeçar a dança, Telewa avisa que não vai mais dançar. Candinho olha para ela e, com surpresa e a língua embolada, pergunta, desencantado:  “Ué, já cansou?”
Voltamos todos ao salão, e com a mesma alegria, esquecemos o Candinho e continuamos a nos embriagar, ao ritmo frenético das marchinhas de carnaval. Índios, senhoras grávidas e barbadas, árabes com imensos turbantes, monstros de máscara de papel estão por toda parte.
Depois das quatro da madrugada, o clube vai ficando mais espaçoso. Poucos ainda se mantêm pulando. Mas a orquestra não para: “Mamãe, eu vou ser soldado de Israel/ Não tem água no cantil/ mas tem mulher no quartel/ além disto, guerra é guerra, mamãe/ e vai ser sopa no mel”.
Ando por ali observando, um pouco fora de foco, casais inebriados, que antes sorriam no salão, agora se estendem na grama por trás do palco. Impossível entrar no mictório, um aguaceiro malcheiroso se alastra. Mesmo assim, não há remédio, a cerveja incha a bexiga com incômodo incomum.
Não dá para sentar à mesa, a cabeça gira e pesa muito. O remédio é andar e, de vez em quando, ensaiar uns passos sem muita segurança, mas feliz. E com esta felicidade, dirijo-me com meus amigos de festa para a casa onde estamos hospedados. Toinho da Nica é o nosso anfitrião. É ele quem conta o resto da história que, aliás, não confirmo.
Diz Toinho que, ao chegar a casa, eu tento por três vezes seguidas pôr o punho no lugar errado. Coloco o punho da rede na chave da porta, deito e caio... Levanto-me e, sem dizer nada, tento novamente... Assim, pela terceira vez. Os colegas discutem se me deixam ir em frente ou alguém irá e botar o punho da rede no armador. Bom, felizmente, decidem pela segunda opção, mas só depois de rirem muito da situação.

domingo, 23 de maio de 2010

O JOGO DA CONVIVÊNCIA


No campo das chamadas relações entre casais há espaços de negociação e dissimulação que sustentam muitas vezes convivências longevas. Vamos acompanhar detalhes da rotina de um casal que se diz amar para sempre.
1. Manhã, o casal apronta-se para ir ao trabalho. O marido depende da carona da mulher e seu horário de chegar ao trabalho é às 8h e o tempo de percurso são 15 minutos, aproximadamente, quando não há engarrafamento. Ele termina de se trocar às 07h30, já faltam 30 para as 8h e a esposa ainda experimenta vestidos. Veste um após outro, depois de alguns tantos retorna ao primeiro: vai combinando com o sapato, o cinto, o brinco, a pulseira do relógio etc. E a cada experimento, confirma com o marido se aquele está bem ao que ele responde com um hanran meio chocho, igualzinho para todos. Os sentimentos de desencanto e dúvida crescem nela.
Se a mulher gasta tempo e exige paciência enquanto se produz, sob a alegação de que o marido deve ficar feliz, porque afinal vai sair com alguém que zela pela beleza etc. etc., colocam-se outras nuances que nem sempre ficam muito claras: por exemplo, a quem de fato ela deseja chamar a atenção, ao marido e por isto quer ficar mais bonita para ele? Às outras mulheres com quem certamente cruzará nos mesmos pontos a que se destinam, a quem lançará cabelos, muxoxos e olhares enviesados? Ou, desculpem-me a grosseria, a certos marmanjos que lhes lançarão olhares inconfessáveis à revelia da boa fé do maridão?
Ela sempre se chateia, acha que o marido tá nem aí. Não presta atenção e está ficando indiferente, que isto é sintoma da rotina etc. etc. O que não observa é que a rotina desgasta pela repetição. Se a cena é esperada, a encenação e todos os textos também.
E ai daquele que simplesmente achar de ajudá-la a escolher os vestidos e transparecer felicidade e compreensão, concordando com tudo, sendo educado e gentil e... Homem certinho é um horror, dizem. Dá até para pensar que o que vem de encontro ao tempo e à paciência do homem não é exatamente para irritá-lo, é apenas para que não se torne muito compreensivo e chato.
Depois, se a cena é recorrente e ela sabe que irrita um pouco o companheiro, a ponto de ele confirmar sem mais refletir, sobre as perguntas se este ou aquele vestido fica melhor? A seguir vem sempre a pergunta: você ouviu mesmo o que eu perguntei? Você prestou atenção no que eu lhe mostrei?


2. Volta um pouco a cena e vamos encontrar o marido saindo do banho, enxuga-se e, mecanicamente, joga a toalha molhada em cima da cama. A esposa sai do banho e, ao sentar na cama para passar o hidratante nas pernas, senta-se sobre a toalha. Dá um pulo e reclama com o marido pela enésima vez, segundo ela. Ele, de bom humor, aproxima-se dela e dá um selinho, pedindo desculpas a seguir. Jura, como das vezes anteriores, que aquilo não mais se repetirá.
3. Volta ainda mais um pouco a cena: a esposa ao entrar no banheiro dá de cara com o assento do vazo respingado, e de imediato identifica o motivo: o marido que acabara de deixar o banheiro simplesmente não levantara o acento no momento de urinar. Ela engole o dtalhe em seco e entra para o banho.
4. Ao chegar à cozinha para o café – marido lá, sentado, vendo as notícias do futebol na televisão enquanto espera –, a esposa vê cascas de banana dentro da pia. Sabe exatamente quem costuma confundir a pia com a lixeira. Olha meio atravessado para o marido que nem percebe enquanto espera vendo televisão.
5. São 10 para 8 da manhã, quando a esposa finalmente entra no carro faz menção de sair novamente porque esqueceu de fechar a caixa do filme plástico com que embalara um pedaço do mamão do café. O marido protesta e a convence que o mais importante era o mamão que poderia estragar, mas a caixa pode esperar até o meio dia, quando estarão de volta para o almoço. O carro arranca, sob a recomendação da mulher de que o marido vá devagar, não carece aquela pressa.
6. Voltando a cena mais uma vez, bem para o começo: uma das coisas que o marido detesta e que todos os dias acontece exatamente igual é ela deixar o creme dental sem a tampa e espremê-lo no meio. Naquele dia não foi diferente, ao retornar ao banheiro para uma última penteada, está lá a bisnaga do creme dental mais baixa no meio e sem a tampa. Um fiozinho de mau humor percorre-lhe o corpo e ele tampa a bisnaga pela última vez, mais uma vez.
7. Combinam, no carro, de sair à noite para jantar. Aquela cena dos vestidos se repete com pequenas diferenças: os vestidos são outros e o tempo para decidir é mais elástico. A cena da televisão também. Só que desta vez é a novela que ele assiste enquanto espera. Aliás, a cena da toalha, da pasta de dentes também. Tudo se duplica. Mas a noite é uma criança e os espíritos estão desarmados. Beijam-se e abraçam-se sob declarações e juras de amor eterno. Alguém que acompanhasse, desde o início, tantos modos diferentes de perceber o outro numa vida comum, poderia muito bem se perguntar: como é possível?
Ah, antes que esqueça: no retorno ao lar, a altas horas, embriagados da madrugada e de tesão, vivem uma noite de amor como nunca.
O nível de satisfação e prazer que alimenta cada um é pessoal e intransferível, meio mórbido, talvez.

sábado, 15 de maio de 2010

SEMEADURA




Imagem do autor


A areia fina e branca acarinha os pés que quase se escondem no caminhar ritmado, cedinho da manhã. À frente, as sandálias do avô espalham pó e barulham no mesmo ritmo. O roçado fica logo depois da cerca, depois de um caminho puxado e percorrido com prazer. No percurso, calangos espiam os passantes e confirmam com a cabeça num gesto de aprovação. Lagartixas e outros rastejantes não têm a mesma opinião, fogem apressados para o refúgio da mata que comprime o caminho.
Hoje é um destes dias de plantio. O solo cinza respinga negrume de tocos queimados na pele toda do roçado. Terreno comprido, largo no meio da mata verde. Gaviões espiam de cima e anunciam-se com sua cantilena insistentemente monótona. Outras aves vez em quando abrem o bico no vazio do tempo.
Traspassada a cerca, o avô organiza seus apetrechos: cuias de cabaças para as sementes, água de beber à sombra, enxadas para cavarem-se as covas e, em fim, as sementes de feijão retiradas de um saco que deita ao chão. É quase um ritual, ele vai à frente, abrindo as covas com a enxada, e vamos atrás, pondo as sementes e enterrando-as com os pés. Vão-se desse modo longas horas. Sem conversa. Não há necessidade.
O sol desloca-se e esquenta tudo. A areia, depois de algum tempo, já não tem mais a mesma sensação gelada da manhãzinha. O suor percorre o rosto e o fio da espinha, abundantemente. Uma parada para descanso aqui outra ali, no final de cada leira. Pouco tempo, bebe-se um pouco d’água e puxa-se mais a respiração. Olhar o quanto falta é aflitivo e constrangedor.
À hora do almoço, para-se por tempo maior. Hora de pegar o soim: um pouco de carne frita, farinha, rapadura e água. Dizem que água de beber não tem sabor, só quem não conhece esta experiência. É um sabor de corpo e alma, não apenas na boca. O friozinho da água desce pela garganta e resfria a brisa e o sol na pele. Um pouquinho, sentados à sombra, algumas palavras, e retomamos de onde paramos, na mesma pegada. O sol descamba e ameniza.
Final de tarde, muito ainda há o que percorrer naquela arrumação, mas amanhã será outro dia e a noite já se avizinha. Hora de inverter os gestos da chegada e iniciar o caminho de volta. As aves emudecidas por certo se aninham em seus leitos. Os outros animais também se ausentam. Só o murmúrio da noite chegando e o barulho das sandálias do avô argumentam.
O corpo cansado, mas feliz se enternece com o cenário e a possibilidade de daqui a pouco entregar-se à rede espichada e ao lençol envolventemente cheiroso. Aos poucos, as estrelas vão surgindo aos montes, no firmamento. O escuro da noite infiltra-se em todos os lugares. Caminhar mais próximo do avô é melhor, por via das dúvidas. A decisão exige passos mais apressados. O avô percebendo os motivos estende a mão. O gesto esperado oferece um prazer a mais e uma segurança inquestionável.
A casa se anuncia primeiro por pequenos pontos de luz que estremecem ao sabor da brisa. Depois, vai crescendo, crescendo até que o alpendre e suas linhas de definição se configurem completamente. Cachorros latem e vêm ao encontro. Ao se aproximarem, vão substituindo os latidos por ganidos suaves e abanos de calda. Enroscam-se nas pernas do avô, pulam sobre ele, que ralha com carinho. Os cachorros nos escoltam até que cheguemos ao batente da casa.
As lamparinas quebram o negrume da noite. A avó vem ao encontro e pergunta alguma coisa. Os dois penetram casa adentro. Os apetrechos do trabalho do dia são postos de lado. Sinal de que o trabalho adormece, dando vez ao relaxamento das conversas amenas e às histórias do dia. Contam-se tantas coisas que pequenos olhos não dão notícia nem há ouvidos suficientes para tanto. À mesa nos aguarda o jantar.

sábado, 8 de maio de 2010

VAGO ENSAIO SOBRE O VAZIO


“Nós somos nada, temos nenhum valor, nenhum significado. Nada é o que somos”. O poeta embora não reconheça num desabafo assim a voz de Nietzsche, toca-lhe o niilismo que por aí se vai. No vácuo dessa compreensão, fita sua interlocutora e estranha que seja ela quem diz o que diz: o que justificaria estar ali uma pessoa que tem a bravura de enfrentar a vida como se acreditasse nas vitórias, como se vislumbrasse um futuro, uma realização pessoal prometida para um dia, nos planos que expõe?
Fecha Plano. Os lábios estremecem com as palavras proferidas, reafirmam a certeza do dizer, e se oferecem ou simulam se oferecer aos beijos mais ardentes. Flashback de outras histórias marcadas na boca. O sorriso leve presume malícias e mais ainda aciona novas interrogações. Como nada? E os desejos que emanam dos gestos, e os motivos que a trouxeram até ali naquela noite? Há muita materialidade na escolha da roupa, no combustível gasto, na decisão de vir ao encontro. Nem a cena, nem o cenário parecem ter a ver com o niilismo extemporâneo, pronunciado de modo tão enfático.
Nós somos algo um para o outro, do contrário não nos arremessaríamos ao mesmo lugar, para um encontro em que nos damos tempo longo de contemplação. Aguçamos as narinas para apreciar o perfume que emana da pele, do tecido, do corpo um do outro. Ficamos presos a detalhes do olhar, dos olhares, do sentar-se e ela pedir uma água no lugar do chope, jogar os cabelos para trás e sorrir como que percebendo que o poeta está a olhá-la.
Escolhemos as brincadeiras de entrada: crie uma personagem completa, diz ela, com todos os detalhes do corpo. Ponha no balão, à sua direita, algo em que ela não consegue deixar de pensar, uma frase que ela disse e depois se arrependeu profundamente. Num balão à esquerda...
Em uma história deste tipo, há tal concretude que não combina com nada. Isto é muito. É tudo. É a condução da situação, é a ocupação do lugar de regente: fala quem dirige a cena, dá as cartas, se impõe, domina naquele momento a relação. Bom, é evidente que a percepção do que ocorre incomoda, mas o desejo de que tudo corra bem exige concessões até que, num outro momento, os lugares sejam trocados, o poeta passa então a formular as regras da mesa. Você vai fazer uma viagem, diz ele. Pense num lugar para onde você está indo. Pensou? Ocorre que, logo de partida, surge um problema que faz você parar e sem resolvê-lo não pode prosseguir com a viagem. Que problema é este?...
O mundo mobiliza-se nas proximidades. Um garçom se aproxima para trazer uma nova tulipa com chope, ela decide trocar a água por um suco de fruta, escolhe limão. Um casal, ao lado, pede a conta e retira-se em seguida. A música em background acende a noite. É possível tocar cada momento, experimentar cada sensação com a certeza de que tudo tem significado real para cada um de nós e todos que ali estão. O texto do princípio não consegue eco a não ser por instantes.
Bom, pode ser que, por um feitiço qualquer, por um sonho, talvez, tudo isto não esteja de fato ocorrendo. Que uma feiticeira ou, talvez, uma fada os tenha feito delirar, e cada um, do seu lugar de inexistência, imagine o tal encontro como uma coincidência que se efetiva sob vários pontos de vista: o mesmo casal, o mesmo lugar, os mesmos textos por onde os dois entrecruzam olhares, o reconhecimento das histórias particulares de cada um, para os dois, enfim, a mesma ilusão do encontro que nunca houve.
O vazio do nada que somos se refaz na expectativa do seu esvaziamento sobre a plenitude do mundo vazio. Os desejos derramados, os encantamentos enunciados, os prazeres que, por acaso, possam se ter experimentado em nada se constituem. O que mais assombra são as impossibilidades de uma conquista que se projeta para o vazio. A casa, o quarto, a cama, a boca, tudo estará vazio. Ou, como diz a música de Gilberto Gil e Chico Buarque: “É sempre bom lembrar /Guardar de cor /Que o ar vazio de um rosto sombrio /Está cheio de dor /É sempre bom lembrar /Que um copo vazio /Está cheio de ar”. Todo poderoso amor.

sábado, 1 de maio de 2010

UM AMIGO, POR FAVOR


Dou por mim despertando, como se saísse de um sono sem referência, num primeiro momento. Apesar de manter os olhos despertos, não há nitidez nas coisas ao meu redor. Sinto no corpo uma trepidação que varia entre o quase imperceptível e os solavancos bastante bruscos. Vez por outra meu corpo é arremetido para um lado ou para o outro. Aos poucos, percebo que estou em movimento, no interior de um veículo. O som constante, embora distante, de uma sirene contribui para que eu conclua ser este veículo uma ambulância. Neste caso, tanto posso estar sendo conduzido a alguma unidade de saúde (clínica, hospital ou pronto socorro), ou, já de retorno, indo para casa.
Não sinto dores – talvez sob o efeito de algum sedativo – e não sinto o meu braço esquerdo do mesmo modo como sinto o braço direito. Um frio rápido e agudo percorre toda a espinha e um medo se instala repentinamente. Uma lembrança ridícula me vem de sobressalto: uso a mão esquerda para conduzir a comida à boca. Aumenta o medo e sinto uma forte sensação de vômito, mas não consigo provocar.
Uma pressão mais forte no meu braço direito faz com que eu me detenha a olhar mais detidamente para este lado, vislumbro alguém que parece estar segurando o meu braço. Pelos traços, parece tratar-se de Antonio, um amigo de longo tempo e a quem há muito não vejo. Isto, de certo modo, me traz uma leve sensação de segurança, embora seu silêncio alimente a impressão de que não deseja ser identificado.
Mas desvio o meu pensamento para tentar recuperar a memória e entender por que estou aqui, o que houve antes? Não consigo lembrar de nada que explique. A não ser pelo desconforto do lado esquerdo “esquecido”, nenhuma outra sensação física denuncia qualquer estado de mal estar.
Em meio à tempestade de pensamentos desordenados, restauro a imagem de Antônio, ao meu lado. Tonico, como o chamo costumeiramente, se mantém em silêncio e segurando o meu braço direito. A lembrança de quando estivemos mais próximos e dos momentos em que vivemos nossa amizade desde a infância, vai-se remontando como uma história de alegrias.
O seu silêncio pode significar a gravidade da situação. Talvez não queira revelar em sua voz algo que me desagradaria. Tonico é uma pessoa pouco discreta tanto pelo seu tamanho pelo modo exagerado de falar alto e gesticular enquanto fala. Ali, calado, não explica a sua presença a não ser pela adoção de precauções que eu desconheço, embora possa imaginar os motivos.
A ambulância para bruscamente. A sirene não para de soar. Abre-se a porta traseira e a luminosidade aumenta a opacidade da visão pelo ofuscamento. Estranho que Tonico reclame com aspereza a alguém que lhe chama pelo nome. Neste momento, aquela sensação de segurança que me transmitia, desvanece. Em seu lugar, o medo pelo que possa estar tentando esconder. Uma grande confusão me conduz a tentar lembrança do percurso, desde que me dei conta de minha condição.
Reflito sobre o trajeto e observo que em nenhum momento Antonio foi cuidadoso comigo como era de esperar. E, desse modo, outros pequenos detalhes ajudam a reconstituir o comportamento adverso de Antonio.
Nesse instante, vejo que uma mulher vem falar com ele. A visão embaçada não me permite identificar quem seja ela. A silueta parece-me familiar, mas não consigo associar a uma memória que me permita o reconhecimento. Lembro da voz que chamou por Antônio e confirmo ter-se tratado de uma voz feminina que, àquela altura não me pareceu relevante.
A sirene vai esmaecendo até sumir completamente. Meu copor é posto numa maca, sem qualquer cuidado. Neste movimento, sinto o meu braço esquerdo porque tento usar para me amparar na superfície da maca. Um alívio atenua o medo e as más impressões de ultimamente.
Fora da ambulância, a maca é empurrada por um corredor estreito. Antõnio vai à frente, como se fosse um enfermeiro. A mulher vem logo atrás, segurando o soro que me injetam na veia. Caminham calados. Escuto, porém, a respiração ofegante da mulher e vozes que ecoam no corredor sem definição da direção de onde procedem.
O casal me conduz como se carregasse um peso na consciência.

domingo, 25 de abril de 2010

DEUS NOS LIVROS





Já ouvi falar de muitos lugares onde Deus está. O Céu é, certamente, aquele lugar em que, digamos, não resta dúvida. Mas ninguém sabe exatamente onde fica o Céu. Há quem diga que o Céu é a própria Terra e que o alcançamos quando conseguimos ser felizes. Outros dizem que a felicidade está dentro de cada um de nós; portanto, neste caso, o Céu seria uma espécie de estado de espírito. Em cada uma destas possibilidades existe um número bastante grande de detalhes, de penduricalhos que se ajustam como explicação ou justificativa para uma tese complexa.
Como quem mais prega a existência de Deus num Céu são as ordens religiosas, é comum que se escute falar que uma igreja é a casa de Deus, a casa do Senhor. Neste caso, poderíamos pensar que uma igreja é o Céu. No entanto, os religiosos explicam que a igreja é a casa de Deus, qualquer um pode falar com ele indo à igreja, pode encontrá-lo lá, mas poucas ou nenhuma pessoa, em sã consciência, chega a confirmar, com segurança, qualquer experiência neste sentido.
É muito comum também que ouçamos falar que Deus está no Céu, na Terra e em toda parte. Bom, se Deus está em toda parte, parece meio desnecessário que eu fique aqui buscando escrever sobre os lugares onde dizem que Deus está. Como este argumento parece ser daqueles que buscam ganhar uma discussão ou encerrar uma conversa definitivamente, eu vou, a princípio, desconsiderá-lo. Está certo, Deus é onipresente, onisciente etc. etc. Mas se formos por este argumento vamos ter que parar de conversar.
Lembro que, quando criança, à hora das refeições, ninguém podia brincar ou falar desaforo, palavrão. Se alguém se arriscava a desconhecer a lei, a mãe, o pai ou os avós ralhavam. Botavam uma cara feia e repetiam enfaticamente para nos aquietarmos, porque Deus estaria à mesa. Olhávamo-nos, olhávamos os arredores e nunca víamos. Mas ninguém ousava dizer que não via. Apenas obedecíamos, sem discussão. Pensava sempre comigo mesmo, o lugar em que Deus está é à mesa. Algumas vezes nem havia mesmo uma mesa, era apenas uma esteira de palha estendida ao chão, ao redor da qual todos se sentavam para comer.
Em entrevista que o escritor Paulo Coelho deu à revista Veja, perguntaram-lhe porque seus livros têm tantos erros bobos, às vezes até parecem erros de digitação. Ele disse que é porque não faz nenhum esforço para retirar os erros de seus textos. E não os tira porque, segundo ele, Deus está nos detalhes e retirando os erros do texto poderia estar tirando Deus de sua obra.
O padre celebra a missa, a partir da leitura de um livro, donde diz extrair a palavra de Deus. Os pastores e os evangélicos, de modo geral, andam com a sua bíblia para cima e para baixo. Beijam, oram e cantam com os olhos pregados nesses livros. Mesmo os estudiosos, os pesquisadores buscam o conhecimento, com os quais se armam para conquistar o mundo, nas páginas dos livros. Embora alguns até usem este conhecimento para negar a Deus, é nos livros que encontram sua sapiência.
As gerações de sábios que se vão deixam, para as gerações futuras, muitos conhecimentos. Muito deste conhecimento é praticado e posto em rotação sem que haja necessariamente nenhuma palavra escrita a respeito. Contudo, é nos livros que vamos buscar o conhecimento com mais substância, aquele que resiste ao tempo e que serve de fonte de consulta a quem queira tirar dúvidas acerca de algo existente no mundo. Existência que pode ser até como ideia, pensamento, algo imaterial.
Já ouvi dizer que um bom livro sempre leva aos céus pelo prazer da leitura, das descobertas, das histórias que oferta. Esta relação entre Deus, céus e livros é muito humana. Isto pode não explicar nada, nem precisa, mas pode apontar para um lugar onde Deus pode estar e quase ninguém se dá conta. Deus está nos livros.