sábado, 26 de fevereiro de 2011

NA OUTRA LINHA, PARÁGRAFO


CIGARRO

Olho a noite pela
vidraça. Um beijo, que passa,
acende uma estrela.

Guilherme de Almeida

O ruído da chuva me desperta, mas retira a disposição de me levantar. É contra a vontade que saio da cama em direção ao banheiro. Ligo o chuveiro e a água fria dói na pele da alma. A preguiça aos poucos vai embora e o sono resistente apazigua o corpo molhado. Após o ritual do banho e do banheiro, sento à mesa para tomar café. O café quentinho reanima a manhã chuvosa. Olho a chuva intensa que lava a cidade inteira. Novamente sinto vontade de voltar à cama.
Empurro-me para o carro, ligo o motor e o rádio, que chora uma canção encharcada. O carro em marcha lenta sabe bem o caminho. Tomo a avenida enevoada e vou adiante. Muitos outros carros vão devagarzinho numa procissão metálica. Ninguém parece ter pressa, nenhuma pressa. De vez em quando o locutor da emissora de rádio gagueja umas notícias sem importância.
Primeira marcha, segunda, freio. Primeira marcha, segunda, freio. Assim vão-se arrastando por um longo tempo as filas paralelas de carros. Eu sempre escolho a faixa mais lenta. Angustia-me que as outras consigam ir adiante enquanto a fila em que estou amorrinha-se. O limpador de parabrisa inquieta-se num vai e vem frenético. Em dias de chuva, as músicas no rádio não têm a menor graça. Nem a gagueira do locutor do noticiário. É tudo aborrecido, entediante.
Primeira marcha, segunda. Freio. Primeira marcha, segunda, freio. Ligo o desembaçador e estranho, porque não parece fazer qualquer efeito. O vidro embaçado acinzenta ainda mais a paisagem.
Faz tempo que percorro a casa ao lado. Tudo se alonga além das medidas. O locutor gagoconta que a chuva que molhou a noite e encharca a cidade desabrigou famílias na zona norte, na região das olarias. Vem à memória o drama recente em que autoridades governamentais discutiam nas TVs, com repercussão nos jornais da cidade, sobre de quem seria a responsabilidade de restituir a tranquilidade de famílias desabrigadas no inverno passado. Não sou eu quem repete esta história, é a história que adora uma repetição, diz a canção popular.
Primeira marcha, segunda, freio. Primeira marcha, segunda, freio. Eu sempre escolho a faixa mais lenta. Ouço que os rios que atravessam a cidade ameaçam transbordar. A água busca os céus e não mais em forma de vapor, mas em estado líquido. O rio de carros se arrasta há horas. A chuva aumenta e o limpador de parabrisa agita-se ainda mais. Os semáforos apagados denunciam a falta de energia. Os cruzamentos ficam confusos e o caos se instala de vez. Paciência e muito cuidado. Segunda marcha, primeira. Freio.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

O IMPÉRIO DA INSENSATEZ


Uma bala disparada a esmo não escolhe alvo, tanto pode atingir uma criança no inesperado do tempo quanto o usuário de drogas que financia a arma que a dispara. O pavor da violência se detém na barreira da irracionalidade. Ninguém nunca explica quem, em última instância, financia o tráfico e suas ações violentas. Não houvesse consumo não haveria produção e muito menos distribuição. Pior ainda, se a droga custa caro, consome quem tem dinheiro. A chamada elite, apodrecida, ergue muros ao redor de si, instala câmeras em cada esquina, mas refugia-se nos guetos, nas orgias privadas, para consumir sua encomenda de primeira ordem. Não importa o quanto custe. Não interessa a que preço.
Rebeldes nem tão poderosos assim imitam alegremente a cena deprimente da fuga sem sentidos. Pó e fumaça alimentam almas assombradas, a caretice dos uniformes e paramentos ostenta a moral e o racionalismo, da boca para fora. É muito larga a zona fronteiriça em que se separam e intersectam-se as linhas de interesses opostos ou divergentes. Batinas, fraques, fardões, sobretudos, longos, togas e galões esbarram-se em corpos dopados nos sombrios sobrados dos negócios escusos.
Mundos diferentes, cores adversas, destinos invertidos estabelecem tréguas e firmam pactos de não agressão; por instantes, deleitam-se em seus motivos. Uns escancaram risos, limpam as narinas fedorentas, outros contam o apurado do dia e riem o riso incomum da insensatez.
Morrem jovens na guerra do tráfico. Morre a polícia de inanição. Morre a autoridade do Estado de estupefação. A droga adquire vida própria, mobiliza exércitos de traficantes, de todas as idades. A criança na lida do tráfico sinaliza sua perseverança, sua resistência. Mobiliza procissões de consumidores, como sonâmbulos que obedecem a uma ordem superior a que não conseguem resistir.
Ninguém nunca explica quem, em última instância, financia o tráfico e suas ações violentas. Como querer que os donos das armas abram mão do direito de continuar empunhando-as livremente? Como querer que o crime criativo, que a cada momento oferece uma droga nova, um produto mais atraente no mercado, desarme-se? A arma ostentada nos meios de comunicação a cada momento é um troféu que se exibe em vitória da irracionalidade sobre a vida.
O usuário de drogas coloca cada um de nós numa roleta russa, com o cano da arma apontado direto para a cabeça. Ninguém sabe ao certo a direção do próximo disparo. O traficante é uma invenção do consumidor de drogas. Sem consumo não há produção e muito menos circulação. Se não há procura, não há oferta.
Não há vencedores nessa história, apenas sobreviventes. E nada garante que seja por muito tempo. Quem ingressa no mundo do crime livra a cara enquanto pode, mas sabe que o pior gira em torno de si, cada vez mais próximo. Não teme a morte porque não dá valor à vida de ninguém nem mesmo a sua. São as regras de quem está no front, está de pé enquanto não é o alvo do adversário. Uma arma na mão dá a sensação de poder tudo. Este engodo alimenta a gana do fabricante de arma que não se vê na mira da trama que produz. Vive sob a miragem do lucro, não sabe e não quer saber o que é razão. Não entra em nenhum dos componentes do instrumento de morte que fabrica. Quem compra a arma reafirma os seus propósitos.
Ninguém nunca explica quem, em última instância, quem financia o tráfico e suas ações violentas. Um poder abstrato comanda as mentes apodrecidas das elites e dos que orbitam em sua periferia, estes que servem de soldados e guardiões da insensatez, que se armam até os dentes para que aqueles fabriquem armas e se consumam no vício e na violência que daí deriva. As armas, o pó, a erva e os chás alucinógenos são distribuídos como alimento para o que de pior existe no obscuro da irracionalidade humana.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

A IMAGEM NOSSA DE CADA DIA


Eu pretendo falar sobre um tema que gosto muito, que é a imagem. Este conceito é bastante presente e também multifacetado – imagem pode ser uma escultura. Esculturas de valor estético, nas galerias, nos logradouros públicos ou nos museus têm sentidos mais ou menos comuns; outras, de valor religioso ou de homenagem a algum vulto histórico, têm outros sentidos com diferenças mais marcadas.

Imagem pode também significar algo fluido que se produz na imaginação: os sonhos e os delírios são desta ordem. As imagens que resultam de construções literárias passam um pouco pelo viés da imaginação, mas se consolidam nas leituras sustentadas nas experiências comuns, fazendo-se cristalizar no contato com os textos. Em qualquer lugar do mundo, imaginamos, concretizam-se do mesmo modo, por isto consideramos que seus níveis de abstração são menores.

Imagem pode ainda significar, no campo visual, uma sombra, uma mancha, um desenho, uma pintura ou uma fotografia. Na fotografia, então, as possibilidades de afeto e, portanto, de sentidos se ampliam imensamente. É a esta imagem do cotidiano das pessoas, que existe desde os primórdios, que nos referimos, e que nem sempre nos damos conta. Diante da imagem no interior das cavernas, das igrejas, das salas de projeção ou no interior dos lares, onde a televisão se apresenta, estabelece-se todo um clima de ritos próprios, que se diferenciam muito mais segundo os lugares e os períodos, do que mesmo em função das diferenciações de elaboração técnica da imagem. Vamos ao cinema como vamos à missa. Preparamo-nos, arrumamo-nos e programamos afazeres para antes ou depois – demarcando e respeitando os rituais de cada um dos momentos em que estaremos diante das imagens, em tempo e condições adequados. Do mesmo modo que se imaginam os rituais dos grupos em torno da imagem no interior das cavernas, vemos se reproduzirem também em torno da televisão, por exemplo.
A imagem transcende em seu significado, independente de suas técnicas ou de seus materiais, porque permanece o seu sentido e a sua origem. A imagem existe primeiro dentro do homem, quer como forma de percepção de fatos do real, quer como imaginação mítica. É ela que lança âncora à esperança de salvação do homem. Salvação de sua condição de desamparo, de corpo solitário arremessado ao mundo, diante do qual não compreende porque não conhece a sua origem. "O debate sobre a natureza das imagens internas movimenta hoje vastos setores do pensamento científico, num espectro que vai da neurobiologia à psicanálise" (MACHADO, 1994).
O tempo marcado é a ilusão da superação. A cada dia ocorre a farsa da novidade, porque, de fato, é o retorno, o eterno retorno que repete o ciclo dos dias, semanas, meses anos... como um impasse e não como uma superação. “É como se a contemporaneidade trouxesse consigo todas as eras do passado no seu âmago. A visão do homem contemporâneo permanece em larga escala determinada por modelos formativos do passado e as imagens técnicas jogam um papel fundamental na manutenção desse impasse" (Idem, 1994). A consciência da imagem nos dias atuais e a consciência perceptiva correspondente, embora se diferenciando radicalmente quanto à intenção, têm uma matéria impressional idêntica em outras épocas.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

MISSIVA


Toca a campainha com insistência. Ergo-me cambaleante ante o sono pesado. Ziguezagueando, entramelo as pernas finas por entre cadeiras, sofás, cantos de parede no corredor. Chego à porta e, ao abrir, cerro os olhos, por causa do sol que invade a casa, àquela hora da manhã. O carteiro, diante de mim, estende um envelope em minha direção e pede para eu assinar um papel. Rabisco qualquer coisa e fecho a porta quase raspando a mão do carteiro.
O carteiro finda ali. O sol tenta entrar pela janela. Jogo o envelope sobre uma mesa, fecho as cortinas e volto a deitar-me. O sono que me incomodava a ponto de deixar-me trôpego parece que desistiu de mim. Rolo para um lado, rolo para o outro, nada. Levanto-me e vou dar com aquilo que me tira o sono, o tal do envelope. Nem olhei direito sobre o que ele trata. Como hoje em dia me correspondo por e-mail, não levei em conta a possibilidade de se tratar de uma carta. Ainda mais, quem me enviaria uma carta a esta altura das coisas? Penso mais tratar-se de uma destas malas diretas de cartão de crédito. Conta não deve ser, não é data para isto.
Pego o envelope e, sem abri-lo, abro as cortinas e as janelas, deixo que entre o sol e tome conta da casa. É uma carta com envelope aéreo e tudo. Tem destinatário, mas não tem remetente. Neste momento, lembro de uns versos de uma canção, que dizem “Quanta verdade tristonha ou mentira risonha uma carta nos traz (composição de Aldo Cabral e Cícero Nunes e interpretada por Isaura Garcia, Vanusa e Maria Bethânia, entre outras).” De repente me bate uma dúvida: eu devo abrir ou não aquela carta? O que poderia eu precisar saber que tivesse de ser através de uma carta anônima?
Mas a curiosidade bate mais forte e decido abrir o tal envelope. Começo observando que tem um estilo formal, com todas as marcações de uma carta pessoal: nome da cidade de origem e a data de sua escritura. Interpelação respeitosa ao destinatário e leitor. Inclusive, o início do texto, “Espero que quando esta chegue às suas mãos o encontre gozando de perfeita saúde, juntamente com os seus...”
Concluo a leitura da carta e fico um tempão tomado pelo que acabo de ler. Aquele modo antigo de escritura revela um autor (ou seria uma autora?), com boa experiência de vida. Talvez, por isto mesmo, tenha preferido me escrever uma carta ao invés de me enviar um e-mail, como seria mais adequado aos dias atuais. Bom, pode ser também que quem a escreveu receie a característica que um e-mail tem de se espalhar em rede, independentemente do cuidado que se tenha ao remetê-lo a apenas um destinatário. Informações tão sérias e graves não interessam, mesmo que se espalhem irresponsavelmente pela rede. Mais do que isto, informações de caráter tão íntimo e pessoal. Corre-me pela espinha um calafrio.
Aquela carta, definitivamente, me desperta para a vida naquela manhã ensolarada. Ainda zonzo, preparo o meu banho e lavo a cabeça como se quisesse limpá-la dos pensamentos que me azucrinam. É impensável que alguém se dê ao trabalho de escrever uma carta com tantas minúcias, dirija-se a uma agência dos correios e ainda pague pela remissão de uma carta que sabe poderá mudar completamente a vida de uma pessoa, gratuitamente.
O desejo de entender os motivos do remetente, ou da remetente, mistura-se com o peso das informações que a carta traz. Parece que quanto mais eu me lavo, mais me sinto contaminado com a sujeira que as palavras, as letras, o texto da carta impregna. Não sei por que, mas à medida que lia o texto, vinha a minha mente uma pessoa, de cuja boca aquelas palavras pareciam estar sendo pronunciadas, de modo bastante apropriado.
Não sei por que aquele estilo circunspeto e incisivo me parece masculino.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

QUEIRA DEUS


Que amanhã seja um lindo dia. Vou-me pôr de pé para abrir as janelas do apartamento e convidar o sol a entrar, amanhecido. Mas só depois que os bem-te-vis cessarem sua sinfonia matinal. Depois, embeber-me na chuvinha gostosa que cai dentro do meu banheiro. Ofertar as narinas ao aroma do café, cheiro que, desde muito tempo, compõe a ambientação das minhas manhãs, ainda mais gostoso quando os dias amanhecem lindos.

Que eu receba um telefonema de alguém prometendo vir me visitar. É certo que esta pessoa não cumpre nunca suas promessas, mas só a promessa de vir já me basta para criar expectativa e animar o dia. Quem sabe não será amanhã que poderemos tomar aquele Cappuccino ou aquelas cervejas em latinhas, guardadas desde a última promessa, ou, ainda, deitar na rede da varanda e esquecer todas as distâncias e mal-entendidos.
Que todos os meus amigos e minhas amigas lembrem-se de mim. Nem precisam me ligar, muito menos enviar e-mails dando conta que se lembraram. Basta lembrarem. Eu, certamente, lembrarei de cada um e de cada uma, com o sorriso especial que gostam de ver no meu rosto. Por isto, são meus amigos e minhas amigas. A lembrança de situações felizes, alegres ou, simplesmente, engraçadas, nos alegra.
Que tudo dê certo, desde a coincidência de acordar ao mesmo tempo em que cantam os bem-te-vis até o momento em que eu e o sol nos retiramos para findar o dia. Não vale, como algumas vezes acontece, de o sono me fazer passar batido e acordar no meio da manhã, depois que a natureza toda já se espreguiçou e os pássaros cantaram, inutilmente.
Que a TV só ofereça bons programas. Depois do café, ver um pouco de TV espichado no sofá é bastante agradável. Mas, só um pouco. Mais do que isto ninguém aguenta. Depois, pegar um dos livros com leitura iniciada e dar prosseguimento, sem nenhum compromisso que não seja o de concluir a leitura, ou ao menos de passar de uma ou duas páginas. Botar um bom mp3 para rodar e nem me preocupar com o tempo ou outra coisa qualquer.
Que o tempo se esqueça de passar e me deixe assim, sem nenhuma expectativa com marcas ou marcos de sua passagem. Pode ser que alguém me convide para almoçar em algum lugar interessante. Também, se ninguém me convidar, eu mesmo ligo para alguém e faço o convite. Almoçar acompanhado é muito mais interessante. Uma conversa e uma boa companhia, num lugar agradável, com boa comida deixam a gente besta.
Que a gente tenha uma tarde igualmente bela com as praças cheias de pessoas, canteiros com flores, cantos e risos em todos os lugares. Nas ruas, o sossego e o silêncio do repouso, principalmente, para os que descansam das jornadas do dia anterior. Ou, por que não, dos que descansam das fadigas físicas do amor. Que se estendam sinfonias sobre o mundo e se repercutam suas melodias no fundo dos corações.
Que se disputem boas partidas de futebol. Os estádios lotados de bandeiras, cores e alegria. As disputas de bola e os dribles com toque refinados de arte a espalhar beleza pelos gramados, sob o olhar atento das torcidas. Um time há que ganhar, o outro há que perder ou, quem sabe, os dois possam empatar, mas cada um dos torcedores haverá de ganhar o dia pelo espetáculo visto.
Que a noite retorne e seja também linda. O negrume velando o universo e as luzes pontuando o coração feliz em cada pessoa em sua casa, em cada rua, em cada praça. Na cidade inteira. Os ritos noturnos celebram o dia ido e rogam por uma noite em paz. Deus queira que, depois de tudo, nosso desejo não seja algo fora de propósito, ou, menos ainda, um mero desejo de tempos e coisas intangíveis.

domingo, 23 de janeiro de 2011

RIM TIM TIGRESA


Para falarmos de uma gata muito especial, recorremos ao poeta que, dizem, adorava os felinos: Eliot. E nos inspiramos num poema em que, a propósito de falar de um certo gato, cheio de manhas e manias, discorre sobre aquilo que lhe parece particular. Assim também faremos a respeito dessa gata. Quem não a conhece, por certo, estranhará que seja tão cheia de si e determinada, porque, a olho nu, sobressai-se uma ternura sem par, emoldurada por uma beleza igualmente ímpar.

Para começo de conversa, Rim Tim Tigresa usa três números diferentes de celular e a cada momento que buscamos localizar em um deles, está utilizando o outro. Deste modo, diverte-se, quando alguém lhe revela cheio de mágoas que não consegue encontrá-la ou falar-lhe ao telefone.
Combina de sair, deixa todos animados e, na última hora, quando dão por sua falta, ela liga avisando que está muito cansada, para sair de casa. Nem adiantam argumentos porque, naquele dia, se prostrará dentro de casa, como a deixar-se de manha, de olhos presos ao monitor que exibe um site a ser explorado, lentamente.
Numa mesa, quando percebe que alguém está muito eufórico, cheio de elogios a alguém ou a alguma coisa, põe-se a criticar a tal pessoa ou objeto elogiado. Faz cara de mau gosto e torce o nariz, para cada palavra pronunciada. E sempre que assim for, mesmo sob os protestos de outrem, ela repetirá tudo do mesmo modo. E não há nada que se possa fazer a respeito.
Rim Tim Tigresa arruma-se para sair como quem vai à caça, ninguém consegue ficar mais bela. E com tanta beleza, torna-se alvo de conquista, mas a ninguém permite entregar-se. Faz-se de desentendida ou foge acintosamente. Tudo é feito de maneira que o conquistador perceba-se ridículo.
Diz que adora shows de tudo quanto é banda: de rock a axé music, de reggae a mpb, mas quando sai com a sua turma, no auge do show, diz que vai e vai embora. Podem se encher de argumentos que não abre mão de sua decisão. Mas assim que outro show se anuncia, marca no calendário e azucrina suas amigas até que prometam que lhe farão companhia.
É leve, linda e meiga, mas tem um gênio que põe qualquer cabra valente para correr. Parece frágil, delicada como uma pétala de rosa, mas encara paradas que fariam tremer Dadá e Corisco. E não abre nem para um trem carregado de explosivos. Ai de quem se meter a besta com ela. E sempre que assim for, mesmo sob os protestos de outrem, ela repetirá tudo do mesmo modo. E não há nada que se possa fazer a respeito.
Rim Tim Tigresa é uma gata cheia de não-me-toques. Tem uma inteligência fora do comum. Antenada, dá conta de coisas atuais e de outras do arco da velha. Parece quietinha, mas não tem quem a segure quando dana-se a dançar. Dança qualquer ritmo, não sei se para si ou para chamar a atenção. Mas que é bonito vê-la dançar, isto é. Quando baixa a guarda, dá até vontade de pegá-la no colo.
Com sorriso atraente que tem, e com o humor refinado que destila, consegue encantar rapidinho a quem estiver por perto. Vez ou outra, porém, é comum ouvi-la ironizar acerca de atos e fatos com os quais não concorda. Envolta nessa aura de fada, ela vai longe em sua vassoura de magias. É uma feiticeira que vê coisas de outro mundo e não faz questão de esconder. Também não é para menos, tem uns olhos tão grandes e bonitos que quase sobram no seu rosto pequenino.
Rim Tim Tigresa parece cheia de dúvidas, mas se afirma em certezas absolutas. Ninguém, ao seu redor, fica desamparado, porque, além de tudo, é solidária, amiga fiel e leal. É, contudo, crudelíssima, com quem a desafia ou lhe pisa os calos. Não tem dó nem piedade. E sempre que assim for, mesmo sob protestos, ela repetirá tudo do mesmo modo. E não há nada que se possa fazer a respeito.
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domingo, 16 de janeiro de 2011

MEIO TERNO E MEIO


A dona da casa anda de um lado para o outro como a querer descobrir algo para fazer. Aproxima-se a hora de o esposo chegar do hospital; internado, após vários dias fora de casa, vítima de um aneurisma cerebral. Não é tão grave, mas suficientemente forte para deixá-lo com o lado direito da face meio insensível.
As filhas, os netos, todos estão empenhados em arrumar a casa para receber aquele que, apesar de ser um tanto ranzinza, é o dono da casa e tem um senso de humor muito refinado. Esperam um telefonema do hospital, comunicando a alta médica para irem buscá-lo. Enquanto isto, lavam e enceram o piso da casa inteira, trocam os panos e arrumam a cama em que há de se acomodar. Mudam um jarro, uma planta de lugar.
Todo mundo está voltado para as tarefas da arrumação, à espera do retorno.
A dona da casa acha por bem, na falta de outra coisa, passar a roupa do marido para diminuir a sua ânsia e o seu nervosismo. Esteve com ele todos os momentos durante sua estada no hospital, acompanhou de perto sua melhora e ficou muita angustiada nos piores momentos, mas naquele dia quis vir antes para arrumar tudo para recebê-lo.
À busca de qual roupa passar, vai separando em cima da cama, aquelas que mais carecem de um ferro quente. Cada peça de roupa com que se depara vai ativando a memória, como se aquele exercício tivesse a ver com alguém já ausente. A Memória involuntária provocada pelas peças conecta momentos de sua companhia e a afeta como uma saudade profunda. Percebendo isto, questiona-se se não estará atraindo para si coisas que não deseja. Tomada por este sentimento, pega as roupas já separadas e sai do quarto buscando pensar noutra coisa. A sensação é de medo e de angústia.
Arruma a tábua de passar, liga o ferro e a TV para tentar desviar a atenção daquele sentimento triste. Procura uma explicação consigo: a única coisa que lhe vem à mente é uma leve sensação de culpa, porque naquela noite de sábado, em que o marido teve o desmaio motivado pelo aneurisma, os dois haviam discutido. Mas, até agora, não havia sentido tal culpa. Neste momento, toca o telefone. Para de engomar e escuta a filha que confirma estar saindo para ir buscar o pai no hospital.
Volta à sua tarefa, de olho na televisão. Outra parte da família fica conferindo se está tudo conforme o planejado, se cada coisa está no lugar devido para a recepção. As faixas de rua desejando boas vindas, saúde, declarando amor eterno etc.
Já há vizinhos chegando e se oferecendo para ajudar na arrumação.
Pouco depois, o carro estaciona na calçada de casa e ele desce amparado pelos filhos. Palmas, vivas, sorrisos. Ele faz de conta que não é com ele. Está sisudo, com cara de poucos amigos. Ao entrar em casa, a esposa vem recebê-lo e o ajuda a sentar-se no sofá. Diz que não quer ir deitar-se porque esteve todo o tempo deitado em uma cama de hospital. Quer ficar ali, junto com a família. A esposa retorna ao seu serviço de engomar a roupa. No instante em que ele se senta, avista aquele trabalho dela, mas não comenta nada.
Aos poucos a casa vai se esvaziando de curiosos e logo só estão ele e a esposa na sala. Ela engoma o paletó dele. Ele pede a ela que lhe pegue um copo com água. Ela larga o que está fazendo e vai à geladeira para pegar a água. Quando retorna, e vai continuar a engomar o terno, percebe que a calça tem as duas pernas cortadas, um pouco acima da dobra do joelho. Ela fica boquiaberta, quem poderia ter feito aquilo em tão pouco tempo, pergunta-se. Aí, ela o escuta dizer, resmungando, com a boca meio torta: “se você estava pensando em me enterrar com este paletó, enganou-se. Ele agora não presta mais para nada”.