domingo, 3 de julho de 2011

CORRER O RISCO


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Diante da TV, sábado esportivo, o sol anima a ganhar o mundo ou a ficar entocado, só olhando pela janelinha eletrônica algum entretenimento mais interessante. Toca o celular, uma voz feminina, em tom de locução de aeroporto, diz que não a conheço, mas que está desejando me encontrar. Pergunto quem é, mas a pessoa prefere não se identificar. Vou puxando assunto para ver se reconheço a voz que me parece familiar. Diz que uma amiga minha deu a ela ótimas informações e por isto se interessou em me conhecer, pessoalmente.
Uma conversa deste tipo conduz a muitas deduções: primeiro, pode ser um trote. Alguém conhecido está brincando com a minha manhã de sábado. Se for mesmo esta a situação, melhor embarcar na história. Não há muito a perder, e não deixa de ser instigante uma brincadeirinha de esconder e descobrir.
Segundo, pode ser verdade, alguém que eu não conheço está querendo me encontrar. Neste caso, resta-me decidir, se eu também quero conhecê-la. É preciso que a conversa prossiga para ver se de fato há motivação que me leve ao encontro de uma pessoa que eu nem sei quem é. Uma pergunta se repete: Como ela sabe o meu nome e o número do meu telefone? Claro, se o que diz é verdade, a tal amiga informou tudo sobre mim.
Pensando deste modo, surpreende-me certo temor. E se for uma armação, uma destas práticas atuais em que alguém utiliza uma mulher para atrair um desavisado para uma situação de roubo ou sequestro relâmpago? A conversa já vai longe e não há um só detalhe que esclareça a situação ou a identidade de quem diz estar querendo me conhecer pessoalmente.
Assim, muitas possibilidades vão se desenhando, sem qualquer esclarecimento.
A pessoa sugere que nos encontremos às 18h na principal avenida do centro da cidade. Este horário é mais indicador de que pode se tratar de um encontro de fato desejado, não é tarde, apesar de sábado não haver muito movimento naquela região da cidade. Justifica que a escolha da avenida é porque está vindo de ônibus, de um bairro da zona Sul, e que a localização é mais adequada. Vir de ônibus é indicador de muitas outras coisas, mas será que é verdade?
Vou embarcando na história e fazendo interrogações. Quando pergunto, por exemplo, o nome de quem lhe deu meu número de telefone, desconversa. Posso tomar a decisão ali mesmo de desligar e interromper o papo, mas, como não há mais nada a fazer naquele momento e tomo gosto e curiosidade pelo desenrolar do mistério, vou adiante.
Observo a lista de atividades agendadas para esta tarde de sábado e decido incluir o encontro, depois de tudo.
Às 17:57h, ligo, conforme o combinado. Ela atende, pede desculpas e, em seguida, diz que só estará no local combinado às 19 horas. Diz que o ônibus atrasou e que este será o tempo correto para seu deslocamento. Peço, então, que, quando chegar ao local, me ligue. Aguardo.
Passa do horário combinado e nada de ligar. Resolvo ir ao shopping sem mais considerar o encontro como possibilidade. Encontro alguns amigos, ficamos conversando. Por volta de 19:45h, toca o telefone, é ela. Pergunta onde estou, respondo que estou na avenida, um pouco distante do lugar marcado. Ela diz que já chegou. Digo para aguardar um instantinho e vou ao seu encontro.
Ela está num ponto de ônibus e, para minha surpresa, não apenas tem muita gente como tem, pelo menos, uns três ônibus parados, pegando passageiros. Ligo e peço para ela vir para onde estou, avisa que já me viu, apesar do escuro. Vejo-a tocar o vidro do lado do passageiro, abro a porta e ela, enfim, toma assento.

sábado, 25 de junho de 2011

FERIADÃO

Manhã de domingo. Acordo com o calor incômodo de setembro. Olho o relógio digital para concluir que faltara energia na madrugada. Levanto-me e, inadvertidamente, ligo o chuveiro. A água fria recupera a memória de que não há energia. Banho-me depressa e saio antes mesmo que o corpo acostume-se com a temperatura da água. Desço para tomar café, insisto no isqueiro do fogão até me dar conta de que ainda não retornou a energia. Apelo para o fósforo, acendo o fogo, e ponho o leite para esquentar. Enquanto espero, resolvo fazer uma bananada. Pego o liquidificador, ponho a banana, o leite e o adoçante, e ligo em seguida. O aparelho não se mexe. Mais uma vez me dou conta que está faltando energia. Resmungo alguns impropérios contra a companhia de energia, todos os governos e desgovernos, impaciente.

Tomo café pensando em quanta falta faz a energia elétrica na vida urbana. Penso nos que podem estar presos no elevador, nos pacientes dos hospitais — em especial os de UTI —, nos cruzamentos das ruas com semáforos apagados, em quantas coisas ficam sem sentido numa cidade ou mesmo numa casa sem energia. O dilema de quem tem que dormir num lugar com muriçocas e calor: não pode embrulhar-se com o lençol porque o calor incomoda, não pode desembrulhar-se porque as muriçocas atacam. Um inferno.

Termino de tomar café, sento no sofá para ler o jornal, ligo o ventilador. Nem sinal de energia. Começo a achar todo este esquecimento repetitivo e ridículo. Vejo no jornal que o apagão da madrugada estava previsto, manutenção da rede, diz lá. Mas em outras matérias leio discursos de protesto contra o descaso com que a Companhia de Eletrificação trata seus consumidores. Há lugares na cidade em que falta energia cinco a seis vezes ao dia. Os aparelhos elétricos e eletrônicos, altamente sensíveis, apresentam defeitos resultantes dos constantes apagões. Prejuízo certo para os donos quando tais aparelhos são danificados pelas oscilações de corrente, pelos cortes bruscos, ou por descargas elétricas provocadas por raios, durante os períodos chuvosos.

Olho para o relógio e percebo que já são nove e trinta da manhã. A corrida de Fórmula Um, que começaria às 8 horas, está prestes a terminar. E não se consegue saber quem ganha a corrida naquele momento.

Ligo o laptop e, graças a carga da bateria, consigo acessar à internet. Mas não por muito tempo, percebo logo que o aviso de bateria fraca começa a piscar com maior insistência. De algum modo, tenho tempo de me informar sobre a situação da corrida.

Decido, então, retornar á cama e dormir mais um pouco. O calor continua lá. Não durmo um só minuto. Resolvo trocar de roupa e dar um giro pela cidade. Parece que todos os habitantes tiveram a mesma idéia. O trânsito está um caos, os cruzamentos bloqueados por carros em engarrafamentos gigantescos. Não há um só guarda para controlar tamanha balbúrdia e os motoristas, alucinados, conseguem piorar a situação ainda mais; cada um tenta buzinar mais forte que o outro.

Há muito custo, faço uma manobra e retorno para casa.

De volta, fico pensando o quanto estamos dependentes da energia elétrica e das tais próteses tecnológicas. Se eu tivesse saído a pé, não teria me estressado tanto e até teria me divertido vendo aquele povo todo em seus trancados em seus carros, com as mãos atadas as suas buzinas histéricas.

O serviço de fornecimento de energia vem piorando e parece não ter solução à vista. Por outro lado, os órgãos de controle do trânsito parece satisfazerem-se com os seus blocos de multa, numa hora destas não aparece um só de seus agentes.

FEMININO, SINGULAR

Olha só, que mulher! Claro, você não está vendo, mas eu estou. Aliás, eu a vejo sempre. Vou tentar descrevê-la para você, talvez assim você consiga ver também. Ela está de vestido preto, curtíssimo. Tem pele bronzeada e macia, cheirosa. Sorri com inteligência e sabe dizer palavras amáveis como ninguém.

Tem cabelos longos. Bom, algumas pessoas dizem que os cabelos não são dela, mas quem se importa com isto? O importante é que ela fica bem assim, de cabelos longos. Mas fica bem também de cabelos curtos. Fica bem com qualquer tipo de cabelo. Está certo que ainda não a vi com a cabeça raspada, no zero, mas imagino que mesmo assim ela mantenha sua beleza inabalável.

Tem pernas longas, e que pernas. Destas pernas que parecem ter azougue para olhos masculinos e femininos. Por onde passa, neste vestidinho preto, vão-se enfileirando olhos semicerrados, bocas abertas, queixos caídos num turbilhão de desejos. Pernas longas e passo macio feito felina.

Olha só, que mulher! Ah, havia esquecido que você não pode vê-la. A pele bronzeada parece que acabou de chegar da praia, o dia inteiro com o corpo exposto ao sol. Parece que saiu do banho agora, os pelos ruivos eriçados. Vê-la é correr os olhos e discorrer palavras impronunciáveis como quem cochicha murmúrios pausados.

Um aroma de romã enche o ar e esvazia os corações em suspiros e desejos. Ah, quem me dera. Cheiro feminino, legítimo. Nem precisa de muita coisa, para que se vire a cabeça, cheinha de bobagens perfumadas. E não é um perfume desses que se vai com facilidade, impregna a imaginação. Depois, é só imaginá-la que o ar emana o seu cheiro.

O sorriso é terno, doce e desafiador. A boca resplandece e os olhos serpenteiam com graça, desnorteando a gente. Tonalidades de cores cambiantes que se alteram conforme a densidade do riso, como se fossem furta-cores. Mas a sensação é de tranquilidade, de confiança plena, que até dá vontade de nos entregarmos por completo, sem qualquer resistência.

Olha só, que mulher. Ah, bom. Ainda bem que agora você entende. Desta vez posso falar assim porque você já pode vê-la também. Bem, tendo em vista que você agora consegue visualizá-la, entendo direitinho por que não dá para ficar indiferente a tanta beleza. Ou você ainda acha que preciso falar mais, apresentar mais detalhes?

Ah, então vamos buscar mais informações, mais motivações para aguçar a imaginação e trazer à tona o ideal de mulher perfeita que cada um guarda consigo. Eu diria, para continuar esta apresentação, que sua personalidade é um dos seus maiores atrativos: é simples, precisa no que faz e no que diz. Não sobra nada, cada detalhe tem apenas a exata dimensão do gosto mais apurado, mais exigente.

É madura, tem uma história de vida marcada por grandes alegrias e dores profundas. Tem a curiosidade da descoberta permanente e o espírito corajoso que a faz arremeter-se aos desafios de vida mais arriscados, como se se lançasse em trapézios em voos ousados, sem qualquer proteção de rede. É responsável e segura em seus compromissos.

Neste momento, você poderá estar-se perguntando, se tal mulher existe mesmo ou se será fruto de minha imaginação. Ao mesmo tempo, você mesmo, na dúvida, pensará que esta, de quem eu falo, poderá ser alguém que você conhece, sobre quem você tem estas mesmas impressões.

Não se trata apenas de uma mulher atraente aos desejos de homens, mas de alguém que inspira e faz suspirar, como modelo, outras mulheres.

sábado, 18 de junho de 2011

PERDÃO

Perdão. Perdi mais uma vez. Não me olhes com este olhar. Não silencies deste modo. Não sejas assim tão abundante. Juro, eu mesmo nem gostaria de te olhar, fico sem fôlego, nervoso por demais, mas é inevitável: és muito exuberante. E se te percorro o corpo o tempo inteiro é porque ostentas tanto teus traços provocantes, que nem dormindo eu ficaria indiferente, tampouco ausente.

Tens-me sob a língua e com ela sobejas meus quereres, é com ela que me reténs e me manténs refém. Contenho-me ante teus desejos ainda tão surpreendentes. Sob o corte dos teus dentes que esplendem e sangram a golpes de amor. Marcas de metais que os prendem a sorrisos suspensos e bambos, em todo o seu esplendor. O céu aberto nos convida a outros sonhos sobre as colchas rendadas em dias de lavores e dedicação. Nada mais a fazer senão nos dar assim um ao outro: eu te proponho...

O que fazer, se, dentre outros modos de pensar neste momento, um só se impõe irredutível como o pôr do sol. O chão perde-se em fé às promessas que deixamos rolar. As tramas insinuam dramas encenados sob displicências esquecidas, presas a desfechos prometidos, sem sequer nos falarmos. Infinidades de estrelas luzindo e sequer as vemos. Perco-me nas asas de tuas saias, vendo-te distanciar-se radiante no encalço de destinos longínquos.

Olhas a praça em que brincantes dançam frevo, feito loucos, e desguias este olhar de mim; assim me recomponho e faço de conta que não vejo. Gostas que finjam ignorar-te, enquanto exibes maneirismos, personagens retiradas de novelas de tevê. O cabelo posto sobre o ombro direito, donde observas fio a fio, com leve sorriso. Os pés descalços, as pernas cruzadas, a cabeça pendida para a direita e o olhar atento, se te olham. Respiras devagar, quase a não se perceber. Se a porta se abre, voltas-te, recurvando o corpo para trás. Se perguntam alguma coisa, respondes com indiferença aparente. Se não perguntam nada, és tu quem pergunta com falsa alegria: “o que desejas?” Depois de ouvir a indagação sobre o que quer que seja, respondes baixinho, com zombaria. Queres apenas que lhe repitam o que foi dito algumas poucas vezes.

Fico daqui supondo coisas que se vão sobre tua pele. As vestes íntimas, os pelos enfileirados e eriçados, com o frio do condicionador de ar. Ah, tantas coisas mais. Não fiques assim, não fiques aqui. O mundo te chama a ir-te e me deixar em paz. Só tu não vês o quanto me incomoda que me olhes, que me fales, que me sorrias, que me chames pelo nome. E eu que não desprego daqui. E eu que não me vou faz tempo. De salto, me toco com uma frase que certamente dirias, se eu te falasse o que tenho dito: “os incomodados que se retirem”.

Uma música ressoa nas caixas de som, Gal Costa interpreta “Meu bem, meu mal”: “Você é meu caminho, meu vinho, meu vício, desde o início estava você...” Fico acompanhando baixinho a canção, como a recitá-la para ti: “meu bem, meu zen, meu mal”. Fazes de conta que não percebes. Eu levanto um pouco a voz e viras de costas, para que eu não perceba que sorris. Levantas-te e mexes em algumas coisas como a procurar por algo. Percebo que baixas o volume do som enquanto me observas com zombaria. Dou-me conta que todos na sala me olham porque agora só a minha voz ressoa aquela canção.

Na verdade, desejo ser apenas aquilo que desejas. Alguma coisa como poder adivinhar teus pensamentos e poder me antecipar, só para agradar-te. Nestes momentos em que me parece que ris do mundo e, junto com ele, ris de mim, renego esta minha devoção. Mas, logo a seguir, volto a te desejar com mais força. “Teu corpo, teus pelos, teu rosto, tudo o que não me deixa em paz”. Imagino como posso prender-te e, ao mesmo tempo, questiono se o que mais admiro em ti não seja exatamente esta tua irreverência, aquilo que ninguém pode encarcerar, ninguém pode pôr cabresto... Perdão.

terça-feira, 14 de junho de 2011

PELA ÚLTIMA VEZ, MAIS UMA VEZ.


A repetição é uma técnica de fixação de ideias. As campanhas publicitárias trabalham com processos de repetição da mensagem em duas grandes linhas: 1) A multiplicidade de peças, que veiculam a mesma mensagem distribuída em diversos veículos de comunicação de massa, amplia as possibilidades de alcançar o consumidor em vários momentos do seu dia – ouvindo o rádio; enquanto se desloca para o trabalho; observando as placas de outdoor nos trajetos dentro da cidade; na televisão, nos horários de almoço ou antes de dormir; na leitura de malas diretas enviadas pelos correios; nos banners das páginas da Internet etc. 2) Na elaboração das mensagens em que a ideia principal é repetida algumas vezes no corpo do texto. Quer dizer, o consumidor e, principalmente, a consumidora são cercados por vários modos de ser, alcançados pelos anúncios e consomem antes do produto, as idéias publicitárias pela repetição.
A repetição é uma técnica de fixação de ideias e aprimoramento profissional. Algumas profissões lidam com a necessidade de repetir a mesma atividade em níveis diversos, inúmeras vezes, como modo de aperfeiçoar detalhes e conseguir melhores resultados. É assim, por exemplo, com a profissão de ator. Desde as primeiras leituras do texto, passando pelo tempo de ensaios e até mesmo durante a temporada em que uma peça fica em cartaz. Nas leituras iniciais do texto vão se definindo características dos personagens, e observando-se os focos de abordagem com ênfase numa ou noutra fala, numa ou noutra cena. Durante os ensaios, são feitos os ajustes de direção, marcações de palco, laboratórios etc. E durante o período em que a peça fica em cartaz, todas as noites, durante todo o tempo, repetem-se no mesmo horário e a mesma encenação para públicos presumivelmente diferentes. Há até alguma teoria que afirma que nunca um dia é igual ao outro, que cada plateia reage de modo diferenciado etc. e tal. Este argumento, apesar de pouco convincente, é repetido à exaustão como alguém a querer convencer a si, antes que aos outros.
A repetição é uma técnica de fixação de ideias e correção de falhas para o melhor rendimento da equipe. As práticas esportivas, principalmente as coletivas, carecem treinar horas e horas, repetindo os mesmos exercícios, incontáveis vezes. Romário, dizem, recusava-se a treinar alegando que já sabia o que fazer. Mas outros atletas obrigam-se a treinar sem descanso, até que adquiram o condicionamento técnico necessário ao melhor rendimento no exercício da profissão.
A repetição é uma técnica de fixação de ideias e apagamento da própria técnica. Os motoristas de coletivos e profissionais outros que diuturnamente repetem suas atividades, mas não o fazem para adquirir condicionamento técnico ou físico, como no caso dos praticantes de esporte, simplesmente assimilam a rotina do trabalho e meio que se anestesiam. De tanto que passam pelos mesmos lugares, as mesmas ruas e praticam os mesmos atos, nem se dão contam que estão se repetindo o tempo inteiro.
A repetição é uma técnica de fixação de ideias e produção da repetição. Muitos casais chegam a se separar pelo desgaste da rotina. Um reclama que o outro é muito previsível, que todo dia faz tudo sempre igual e a repetição das reclamações e dos desentendimentos leva em geral a que cada um busque seu próprio caminho, o que não é novidade também. Um poeta amigo nosso costumava dizer que não há nada mais antigo do que se buscar ser original. É então esta repetitiva manifestação de insatisfação que produz a fixação da necessidade de estranhamento com o diferente. Contra a repetição da mesmice se impõe a repetição da busca de novidade. Do mesmo modo que o movimento repetido, por atrito de uma superfície contra a outra, produz o desgaste e a carência de reposição em sistemas mecânicos, a fixação de ideias também nas relações familiares produz desgastes irrecuperáveis e nem sempre se pode repor.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

EM CADA LEITOR UM AUTOR DIFERENTE



A história das reputações é uma crônica de maiores ou menores discrepâncias. Há sempre uma brecha entre aquilo que alguém faz e aquilo que o mundo percebe que a pessoa fez. Algumas discrepâncias são temporais [...], outras são espaciais [...], mas poucas são tão grandes quanto os anacronismos e as ironias que caracterizam a carreira e a reputação de Mikhail Milakhalóvitch Bakhtin (1895-1975).
K. Clark e M. Holquist

O pensador reúne-se em torno de uma mesa com o seu grupo de interlocutores: amigos, igualmente, pensadores acerca das coisas humanas que, finalmente, são despejadas ao mundo como sentimento e reflexões, e que passam, então, a fazer parte do mundo também. Materializam-se e são discutidas, repartidas, esgarçadas, apropriadas e, por fim, disputadas em todos os seus aspectos, conceptuais originários.
Em torno daquela mesa, sob a luz de candeeiros, fica-se a noite toda a discutir acerca da alma, das dores, das vergonhas e dos dizeres. Um vinho aquece o corpo e alimenta as ideias. A fumaça entremeia aquelas figuras e provoca crises de tosse. Um deles, no entanto, concentra as atenções e, para ele, os outros se voltam ao simples gesto de pronunciar algo.
Noites e noites vão se passando com poucas alterações no cenário. Dali, pessoas, aparentemente simples, entram e saem, comem, fazem suas necessidades e retornam. Vivenciam naquele recinto as pressões dos tempos difíceis e ameaçadores que o País atravessa. As conversas sobre arte, literatura, filosofia da linguagem e outros temas, igualmente áridos, por vezes, são restringidos por conta do que poderão acarretar para o grupo ou para um de seus componentes, dado que tudo está vinculado ao contexto político e histórico.
Pouca coisa destas conversas tomou o destino das páginas e das edições de livros. Muito ficou restrito ao cenário das longas e cansativas discussões. Mas o pouco que foi publicado modificou e modifica, ainda hoje, o modo de pensar, o conhecimento, a literatura, a constituição de subjetividade e as relações identitárias, autoritárias e as teorias da linguagem.
Várias áreas do conhecimento, através de pesquisadores, estudiosos e outros autores, no mundo inteiro, tomam contato com os poucos produtos que conseguiram se materializar daquelas discussões. E em nenhuma destas áreas alguém consegue ficar indiferente. Os atuais métodos de pesquisa histórica, as modernas metodologias de pesquisa em comunicação, os mais avançados estudos de legislação apropriam-se de visadas bem particulares, recriam outras e lhe atribuem referência autoral.
Fundam-se núcleos de pesquisa e de discussão sobre todos os olhares. Em cada um deles é carimbada a marca confiável de sua autoria. Deste ponto de vista, exagera-se a ponto de parecer que alguém extremamente humano tenha adquirido a condição de um semideus, um gênio sem parâmetros de comparação.
A simplicidade de seus pensamentos e reflexões ganha em complexidade, e suas derivações são de tal ordem que ele próprio não se reconheceria nas citações que tentam dar legitimidade aos textos resultantes de pesquisas e observações científicas, com o mais exigente rigor. Daí as discrepâncias referidas na epígrafe deste texto.
O pensamento do autor, sua obra e sua imagem ganham uma elasticidade e uma diversidade que o fazem pairar sobre o tempo de lugares tão distantes e tão díspares, que mais se assemelha a uma rede de inter-relações infinitas. Ele já não se pertence. Não é mais como um homem simples, posto ao redor de uma mesa a beber, comer e a discutir, inclusive, amenidades, com seus pares.
O autor multiplica-se em títulos nas livrarias, alimenta a sanha produtiva da academia, a sanha comercial das editoras e dos livreiros a ponto de provocar cada vez mais leituras pelo mundo afora. O seu nome é uma garantia de interesse de leitores em número crescente. As ideias, que agora dizem que são suas, se multiplicam sem qualquer controle. No seu país, pesquisadores estrangeiros buscam aquelas páginas esquecidas no fundo de alguma gaveta, e tradutores empenham-se em lançar no mercado as últimas descobertas, textos inéditos. Daqui a pouco haverá necessidade de que tudo seja contraditado ou esquecido, e outros autores, saídos de lugares mais distantes, haverão de ocupar o seu lugar.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

LIMITES DA EXPERIÊNCIA URBANA


Tenho um fascínio pelo universo das cidades. Quando escuto esta palavra em algum lugar, paro para ouvir do que se trata. Entendo que uma cidade é sempre descrita a partir de impressões pessoais bastante localizadas, por mais que quem a descreva busque referir-se a diversidades, apontando bairros e situações. Comparo uma cidade com aquela cena dos cinco pânditas cegos que, apalpando pontos diferentes de um elefante, tentam descrevê-lo. Cada um deles descreve o elefante segundo o lugar que apalpa.
E as particularidades não são apenas físicas; a experiência não se constitui apenas das visualidades. Os prédios, os logradouros públicos etc. estão em tudo o que se experimenta, até mesmo o sabor de um sorvete de fruta típica ou o banho em um rio ou lagoa. As impressões produzidas pela experiência são, por assim dizer, essencialmente sinestésicas. Cada sensação será tanto mais particular quanto mais a visita for motivada por interesses de especialização profissional. Quero dizer, se o visitante for, digamos, um publicitário, vai conhecer em Teresina, por exemplo, além das agências e do hotel ou residência em que esteja hospedado, claro, alguns bares, produtoras e, talvez, veículos de comunicação. A impressão que alguém assim leva da cidade é a mais restrita possível. Alguém pode argumentar que não é bem assim porque a cidade é pequena, e, entre um lugar e outro o visitante passará por ruas e avenidas que lhe darão uma visão mais abrangente. Eu digo que os lugares de trânsito e as paisagens enquadradas pelas janelas dos automóveis parecerão mais postais deformados que em quase nada correspondem à realidade do lugar.
Tenho visto pessoas se referirem a lugares que nos são comuns, que, para mim, em nada correspondem à descrição que ouço. Ambos apalpamos pontos diferentes e nos sensibilizamos por outros sentidos. Lembro de um amigo que se referia à cidade de São Luis com um certo tom de deboche, porque, segundo ele, em todos os lugares que conheceu na cidade viu gays. Disse isto e acrescentou que até o guia de sua excursão era gay. Pode ser que esteja a explicação, experienciou um lugar com características bastante marcadas. Eu, pessoalmente, tenho outra impressão de São Luis. Nem me detenho no lado preconceituoso, o que desejo é discutir os limites da experiência e daquilo que uma cidade se deixa revelar a cada um que a experimenta.
Penso que mesmo as pessoas têm um pouco esta complexidade, revelam-se a cada um de modo diferente. Quantas vezes conhecemos alguém e temos uma impressão que depois vai se modificando para melhor ou para pior. Ou mesmo, noutros momentos, ouvimos declarações acerca de pessoas que conhecemos e que em nada combinam com aquelas impressões que temos. Se uma pessoa pode ser assim multifacetada, imagine-se uma cidade com todas as suas interfaces, em toda sua complexidade. Muitas ofertas nos tentam seduzir por motivos tantos que nem imaginamos. Isto que ocorre com pessoas também experimentamos com poemas, pois cada vez que os lemos descobrimos novos sentidos. Outros sequer gostamos à primeira leitura, depois, aos poucos, vamos aprendendo a gostar mais e mais.
As contradições e as peculiaridades todas das pessoas, dos poemas, das músicas se entrelaçam no tecido citadino num emaranhado de sensações e sentidos que não cessam nunca de se transformar, embora se mantendo os mesmos o tempo todo. O olhar, a visada é que se impregna de desejos, contaminada que está pela memória de cada um que as situações, assim como as expectativas que têm de si e do que está em seu entorno.