domingo, 11 de setembro de 2011

MALA NA ESTRADA


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Levantara-nos há pouco tempo, estávamos ainda à mesa do café quando ouvimos uma voz feminina gritando, quase histérica, como se houvesse descoberto ouro. Depois de algum tempo, entendíamos que falava de estrada e de mala. Fomos às pressas ao alpendre, para ver do que se tratava. Sara, uma senhora que lava roupas para nós, enfrenta a areia do terreiro arrastando uma mala. Entra em casa e larga a mala ao chão como se quisesse desfazer-se do peso. Alegre e esbaforida, demora para conseguir esclarecer a cena.
Conta que encontrou a tal mala na estrada, quando vinha de sua casa. Lógico, alguém a deixara cair de algum carro. De princípio, ficamos sem saber ao certo o que fazer. Era uma mala simples, sem tranca ou cadeado. Pensamos em abrir para ver se encontraríamos alguma indicação de quem pudesse ser, mas pensamos melhor: era provável que quem a perdera estivesse a sua busca na estrada, e a demora em remexer as coisas poderia deixar passar a oportunidade de devolvê-la ao seu dono ou a sua dona.  Deste modo, achamos mais prudente pedir que alguém de casa a levasse à estrada e ficasse por lá até que aparecesse quem a procurasse. Claro, que não se iria oferecer ou perguntar por ali se alguém sabia de quem poderia ser, porque logo haveria de aparecer donos aos montes.
Até a hora do almoço ninguém reclamara a mala, assim também ao pôr do sol. Neste caso, achamos por bem abrir e ver se encontrávamos algo que pudesse indicar a quem pertencia. Todos em casa concordaram. Nada de surpreendente revelou o conteúdo, a simplicidade das coisas que continha já estava mais ou menos prenunciada na sua apresentação exterior.
Aquela tarefa nos despertou sentimentos contraditórios, mas somente daquele modo podíamos encontrar informações que nos permitissem saber a quem devolver. Mas, ao mesmo tempo, incomodava-nos a sensação de estar invadindo a privacidade de alguém que sequer sabíamos quem era. No entanto, distraia-nos aquele exercício exploratório: retiramos as peças de roupa e outros itens pessoais agrupando-os conforme nos pareciam pertencer a um ou outro grupo de objetos.
A dona daquelas peças e, provavelmente, da mala, é uma mulher jovem. Os vestidos demasiadamente curtos, as roupas íntimas ousadas revelavam também tratar-se de alguém da capital, com gosto bastante sensualizado. A simplicidade, no entanto, expressa no conjunto de coisas, inclusive, pelo tipo de mala, o gosto de alguém humilde, economicamente. Nada de sofisticação ou etiquetas de moda.
Também não parece se tratar de alguém de grande estatura. Uma mulher de 1,60m, talvez magra, jovem. Pela cor das roupas, predominantemente claras, pode indicar que seja também de pele morena ou mais escura. Não dá para ter certeza. Apenas uma hipótese. Uma caixa de sabonetes glicerinados, um estojo de maquiagem em cores discretas, ainda sem uso. Um perfume suave e um espelho com cabo, em formato elíptico. Nada de fotografias, agendas ou qualquer documento que revele alguma identidade.
No fundo da mala, o livro A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1945, quando de sua primeira edição, tinha uma dedicatória que não revelava muita coisa, até porque, aparentemente, se não fora escrita no mesmo ano de publicação do livro foi próximo, e isto não batia com as impressões até ali acumuladas. Os outros indícios não remetiam para alguém com essa idade. Dizia a dedicatória, “Para o amor da minha vida, com a paixão que há de nos incendiar sempre que nos toquemos”.  Era assinada por um tal Hermano Carrasco. A data, borrada, aparentava ter-se borrado por efeito de algum líquido: água, perfume, lágrimas. Quem sabe?

sábado, 3 de setembro de 2011

DIA COMUM


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O dia amanhece com o mesmo sol dos dias anteriores. Algo de menos no tecido da esperança. É assim que se vislumbra adiante pelas frestas dos olhos incrédulos: a rede cerzida, o lençol puído e o chão batido sob as sandálias pela metade. Gentis inocentes esbaldam-se em ressaca moral. Uma nação inteira engana-se de lado a lado nas explicações amarelecidas sem explicação.
De resto, erguer o corpo no torpor do antes como um nada e vestir as vestes remendadas e comer o pão dormido há dias. Que não se atrevessem à sua frente quaisquer slogans ou mensagens de paz. É duro arrastar o tempo esticado e ainda aguentar os sorrisos e as bandeiras desfraldadas a custa de tanta insensatez. É difícil pensar nos mortos, nos vivos sem memória e no quanto uns e outros têm em comum. Nada mais a fazer, enganos ditos e repetidos como um eco sem paradeiro. Afora os sem sentidos, os dentes em falta, tudo o mais é promessa, como esses prometidos que nos sustentam e sobre os quais não se dá notícia.
Consciências carcomidas, bandas podres erguem-se arma em punho contra sombras em debandada e perseguem uma a uma como parte obrigatória do entretenimento. Multidões aplaudem torturadores confessos e vangloriam-se de ganhos insubsistentes. Solo fraturado, rasgos estonteantes sob a negação do viés vesgo e desnorteado.
O sol desloca-se lento e ardido. A pele esfumaça a última esperança sepultada, narinas dilatadas absorvem o calor corrente enquanto a sola dos pés incrusta vagos rastros no asfalto. É um dia comum, como outro qualquer. A diferença é que antes caminhavam ao lado de mais da metade dos que agora soslaiam-se pelas esquinas. Uma manhã comum certamente conduz a uma tarde comum, que, por sua vez, deve levar a uma noite comum e a uma madrugada igualmente comum. Tudo numa lógica de cavilação que não leva em conta a razão despida e alojada noutro extremo.
Ninguém muda, a cena irrequieta acena muda. O silêncio vergonhoso perde-se no alarido dos festejos sem graça alguma. Todos se admiram, miram-se e retornam ao estado letárgico do sono profundo. Espera-se que outros dias possam vir com sóis novos e luzes novas. O tecido esgarçado da esperança é o único pano, encardido, desbotado, a se erguer em bandeira. Apelo de senhas resguardadas a pelo.
O vento morno sopra sobre a tarde afeita ao vazio de ninguém mais. Grama esmaecida salta o fio vermelho do caminho por trás das grades. Olhar é longe, sombrio. Rios escorrem esquálidos, esgueiram-se fragilmente sobre os bancos de areia e ameaçam com a sequidão de verões cada vez mais longos. Não há como retornar ao terreno firme do passado. Barcos assombrados e recostam-se fincados no abandono enquanto lastreiam ratos a bordo.
Falta imensa no espaço, falta convicção e fé. Armam-se de argumentos até os dentes na comuna dos senhores da razão. A noite esconde os larápios e acalenta os corpos no descanso da fadiga. Mais um dia há de vir, Deus sabe a que preço. Farta e imersa no laço do lodaçal, a marca da ação litigante, em pele de cordeiro. Homens e mulheres consomem as últimas ofertas mostradas na televisão. Crianças esforçam-se para abrir os olhos, esticam o corpo e os braços e as pernas e bocejam.
Ao longe, canta o galo uma manhã sem sol e o canto ecoa no espelho preso à parede do quarto, fervilha no coador do café quentinho. Um dia comum como outros de antes, sem tirar nem por.

sábado, 27 de agosto de 2011

DIA APÓS DIA


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Há momentos em que histórias gravitam no espaço em que se vive. Parece que são épocas em que as antenas estão melhor conectadas com o entorno, na ânsia de aprender e apreender todos os movimentos e informações.
Pela manhã, desperta-se com o canto agudo da graúna, que, presumivelmente, projeta seu cantar do alto do maior coqueiro do quintal. O dia ainda é sombra e os cheiros da luz do amanhecer timidamente esgueiram-se nas telhas. Ao canto da graúna vêm-se somar outros alaridos: galinhas, perus, capotes, bem-te-vis, rouxinóis, sanhaços etc. Dentre os aromas do amanhecer, o do café é o mais forte e irresistível.
O cuscuz fumegante imerso no café com leite anima as primeiras histórias do dia. Diz que Ana Benta, garotinha de 8 a 10 anos saiu para pegar guabiraba e perdeu-se no capoeiral ouve-se na cozinha. Há dias, já não acreditam que ainda esteja viva. Comentam que encontraram suas roupas debaixo de um pé de pau-ferro. Mais nada. Os pais aflitos não perdem a esperança e continuam a procurá-la.
Cavalo de talo, sombra das mangueiras, o dia aquieta-se. Diz que há um cachorro louco solto nas redondezas, melhor voltar para casa. Diz que já mordeu muitos meninos que não souberam dar conta dos riscos e aproximaram-se demais. Primeiro morde os outros cachorros e depois o que encontrar pela frente. Melhor voltar para casa. De esquecido o tempo, esquece-se o assunto. À sombra da mangueira, a areia fresquinha e branca acaricia o corpo e fertiliza a imaginação.
Gritam que é hora do almoço. Fica-se mais um pouco e outros gritos ecoam até que alguém vem esbaforido e com ameaças. Se não for almoçar agora fica sem comer. Vai-se assim, em desembalada carreira. A cozinha mais parece uma feira. Gente de todo lugar. Uns comem em volta da mesa, outros sentados ao chão. Alguns ainda de pé experimentam a comida. Os mais velhos ralham: tem que comer direito, e respeitar a mesa. Deus está na mesa. Comer sem sossegar dá indigestão. Diz que seu Manuel teve uma congestão porque se aperreou na hora do almoço. Foi-se desta, não teve como salvar-se. Seu Manuel, aquele que contava histórias. Diz que esteve no Amazonas e foi encantado por uma cobra. Era seringueiro experimentado, mas neste dia ficou andando em círculos, atraído pelo feitiço da cobra. Só escapou porque se apegou à imagem de Nossa Senhora e rezou forte. Foi por pouquinho que a cobra não o engoliu.
Tem horas do dia que o sol esquenta até a sombra da mangueira, melhor ficar como todo mundo, espiando o nascente, sentado no alpendre, sem perceber nada. Só os que pitam cachimbo esmorecem naquele espiar agudo, o sol sobre a areia e a salsa a perder de vista. O caminho estreito, como se esperasse por quem não ficou de vir. Sonolência danada.
Diz que nestas horas os caiporas descasam debaixo das moitas e não toleram que ninguém atrapalhe seu descanso. Deve ser por isto que todos se ensombreiam no alpendre, sem se mexer nem dar um pio. Só o olhar alongado que silencia no avistar sem fim.
A tarde corre ligeiro, e depressinha já anoitece. O sol descamba feito doido até se pôr por trás da casa. Diz que de manhã até meio dia quem conduz o sol é um senhor de idade, com muito cuidado e responsabilidade. É por isto que as horas se arrastam e as manhãs são longas. Do meio dia para a noite, é um garoto peralta que desanda a brincar, a correr e rapidinho chega ao seu destino.
À noite caminham sacis, estrelas cambiam e vozes e silêncios enchem o mundo de histórias. Diz que, ao se adormecer, outras tantas povoam também os sonhos. O Coaxar do sapo, o pio da coruja, o piscar do vaga-lume carecem de imaginação para encenar as suas.

domingo, 21 de agosto de 2011

UM ASSUNTO PUXA OUTRO


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Regina levanta-se de sua mesa de trabalho e se dirige à lanchonete que serve aos empregados da empresa. Pede um suco de goiaba com laranja e vai se sentar com outras colegas de trabalho, ao redor de uma mesa, em descoberto, um pouco distante donde se concentra o maior número de pessoas naquele horário. Senta-se a tempo de ouvir alguém que fala das contradições que estão presentes na vida atual, no cotidiano de todos. Ouve dizer, por exemplo, que um carro, dos mais simples, tem potência no motor para desenvolver velocidade de até 180 km por hora, no entanto, a legislação limita a velocidade nas estradas entre 80 e 100 km.
Outra pessoa argumenta que, recentemente, passando pelo centro da cidade, presenciou a apreensão, por agentes federais, de CDs e DVDs vendidos nas calçadas por agentes federais. Ora, a própria tecnologia facilita a reprodução de CDs e DVDs em série. Certamente existem aí outros aspectos, como, por exemplo, a questão dos direitos autorais, a pirataria etc. Mas é contraditório. Fabricam-se produtos que não podem executar boa parte das funções que potencializam.
Alguém aproveita para reclamar do modo como se organizam a distribuição e o consumo de produtos e serviços derivados do uso de computadores. Além de toda uma gama de acessórios, periféricos, softwares e mais não sei o quê, o usuário tem que pagar a um técnico que cobra em média 50 reais a hora, se não quiser ou não puder levar o computador à assistência técnica. Existe uma rede de entrelaçamentos que movimenta muito dinheiro, por conta de cada um que se aventura a ingressar no mundo da informática, ao adquirir um PC.
Argumentam que, do mesmo modo como quem dirige carro não tem, necessariamente, de aprender mecânica, quem usa um computador também não tem que saber mexer na parte física da máquina. Enquanto isto, o dinheiro vai saindo pelo ralo.
E essa história de antivírus?! A cada dia infestam a rede dezenas ou centenas de vírus. Alguns deles são espiões que, uma vez instalados em sua máquina, podem enviar informações suas para um computador ou para vários, que controlam e utilizam tais informações para acessar contas, números e senhas de cartões de crédito e por aí afora.
Regina, já terminando de tomar o suco, comenta por comentar: ah, mas com um bom antivírus instalado não tem problema. As colegas se entreolham e riem, zombando do comentário. Ah, não me diga que você acredita nisto. Tenha dó, Regina!
Alguém entra na conversa e completa: há quem diga que as próprias companhias que desenvolvem antivírus alimentam esta situação. Se criarem um sistema de proteção com garantia total, não haverá mais necessidade de desenvolver novos antivírus e, rapidinho, todo mundo, de um modo ou de outro, estará com o seu na máquina. Elas teriam que fechar. Não há sistema completamente seguro.
A mesma coisa acontece, dizem, com as empresas de segurança. Nenhuma delas tem interesse em que se acabe com a violência. Se a sociedade conseguir adotar um sistema completamente sem chance de assalto ou ameaça ao patrimônio, elas perdem a razão de existir. Vocês já pensaram sobre o que sustenta tantas guerras no mundo?! A indústria bélica, claro. Se não houver guerra, como vão desovar seus estoques de armas? É triste que precisemos do emprego que tem por finalidade garantir que as sociedades continuem violentas. Mas não dizem que é o desemprego que gera violência?
Por falar nisto, um destes órgãos de combate ao uso de drogas fez veicular recentemente uma campanha cujo slogan dizia mais ou menos assim: “Quem usa droga alimenta a violência”. Ora, claro, se ninguém usar droga, a quem os traficantes vão vender? De onde vão tirar dinheiro para comprar armamento pesado e carrões? É verdade, concluem, em coro.
Já saindo da mesa, para retornar ao trabalho, alguém comenta: mas vcs já perceberam o que estamos consumindo no mundo da informação e do entretenimento? A verdade mesmo é que a própria programação dos meios de comunicação, em especial das TVs, principalmente, nos finais de semana, é uma verdadeira droga. E depois querem uma sociedade sadia. Por falar em drogas...

sábado, 13 de agosto de 2011

TRANSEUNTES


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Caras fechadas, sorridentes, indiferentes, desconhecidas. Desloco-me em meio a tanta gente e tento observar o que dizem, para mim, as pessoas pelas quais passo no ir e vir de sempre. Evidente que, ao olhar para um lado, deixo de ver quem passa pelo outro. Há, ainda, portanto, as caras perdidas. Lógico, perdidas, naquele momento, pode ser que, noutro, as recupere, mas nunca terei certeza se são as mesmas ou outras.
Não preciso falar nas pessoas que reconheço que me reconhecem, algumas das quais, às vezes, me dirigem a palavra. Ou, pelo contrário, eu as interpelo. Ou, de outro modo, nos interpelamos, mutuamente. Estas são caras, são raras, mas não me servem para o que eu desejo tratar aqui. De algum modo, falo nelas, noutros momentos, noutros textos. Por enquanto, basta.
Quero falar das pessoas que estão em movimento e, apesar de encontrá-las no dia-a-dia, nos deslocamentos da lida, não nos conhecemos. Não nos cumprimentamos, não nos dizemos nada, além do que pronunciamos em silêncio. Dos apelos que se lançam no entre espaço das indiferenças. Bom, indiferença, nem sempre. Por vezes, a semelhança com alguém que conhecemos nos faz acenar, sorrir, olhar para alguém desconhecido. Só depois, e com certo constrangimento, nos recolhemos a nossa mudez de sempre. Talvez seja tarde, aquela pessoa, por certo, nos marca uma lembrança e já não nos será indiferente no próximo encontro.
Outras vezes, a exuberância de uma beleza ou de uma feiura nos chama a atenção e ficamos a olhar por longo tempo. Melhor fingir que não olha. Melhor não deixar o queixo cair, de modo que também chame a atenção dos outros, ou da própria pessoa observada. Mas, mesmo assim, é só um olhar, quando muito, um murmúrio incontido. Não passa disto. Não deve passar.
Está certo, disse antes que observo as pessoas pelas quais passo no ir e vir dos dias. É isto, observo para me dar conta que somos só transeuntes de uma urbanidade anestesiada, de uma coletividade de sonâmbulos. É só ficar observando, para nos darmos conta que algumas cenas se repetem para confirmar este letargo posto à vista: uma buzina de automóvel agride o sol silente que escora o dia, de pé à frente do veículo, alguém assustado, atravessava a rua, apenas. Um encontrão, esbarram-se as pessoas na calçada. Ainda bem que têm pressa, vão-se adiante a olhar para trás e a xingarem-se, sem tempo, para quaisquer pedidos de desculpa. Quem sabe, um convite para um chope mais tarde, uma conversa de entendimento. Uma amizade futura, talvez.
Um corpo caído atravessa a calçada, algumas pessoas o contornam sem ao menos olhar. Outras olham e, da mesma maneira, seguem adiante. Há sangue coalhado no chão. Algumas não têm tempo para contornar, menos ainda, parar. Simplesmente, passam por cima. São tantas, tão diversas, tantos destinos.
À medida que avança a noite, esvaziam o espaço das ruas. Retornam com o sol e acompanham sua trajetória no mesmo vaivém, no anonimato. Parece mecânico, de acordo com os horários do dia ou da noite, movimentam-se de igual modo: com maior ou menor intensidade.
Interessante, são as caras que contemplo. Apenas, ao acaso, percebo um corpo. Apenas naquelas situações a que me referi acima. São braços longos, pernas finas, espinha recurvada e o passo entrelaçado de traços. Coisas que fogem ao ritmo das coisas comuns. As caras estão mais à vista, avistam-se e expressam as sensações que a alma busca preservar. As dores, o tempo, as preocupações, as alegrias e outros marcadores do espírito desenham-se na cara de cada um, à revelia de seus desejos e/ou comandos.
Uma cara estampa um cartaz e este cartaz se multiplica nas esquinas, nos postes, nos lugares onde as pessoas sabem que outras vão passar. Alguém, parado, espia os outros, na cara: são todos transeuntes.

sábado, 6 de agosto de 2011

CAMINHADA

Um caminhar a esmo num caminho bem antigo naquelas horas da manhã, no dizer de Mário, um caminho que, de tão velho, já não se sabe aonde vai. Outro poeta retruca: “velhos caminhos não levam ninguém a novos lugares”. Os únicos passos que se conhecem são marcados naquele momento depois de longos e longos anos. Séculos, talvez. O certo é que a solidão do caminho e o seu abandono estão expostos ali, para quem quiser ver.

Mas isto, aos olhos de quem observa, pela primeira vez, a última vista por ali. Para o caminheiro, como diz o poeta, são os passos que fazem o caminho ou, dito de outro modo, por outro poeta, o caminho se faz ao caminhar. Mas também sobre isto ele não reflete, apenas caminha. Basta mirar sua rota e ir abrindo picada entre urzes e pedras que recobrem a trilha adormecida há não se sabe quanto tempo.

Os rastos o acompanham e trilham em dois a solidão dos destinos. A areia marcada já não lembra que obrigações ele tem com as pegadas que se enfileiram de longe. Certamente, o tempo saberá o que deve ser feito, e na ausência prolongada de outros caminhantes tomará a melhor decisão. Um dia de chuva com a água reconstituindo percursos e levadas outras pistas se constituirão por ali.

Nada disto importa a quem tomou para si a decisão de ir em frente sem fazer perguntas, sem refletir sobre coisa alguma ou sem qualquer dúvida sobre as bifurcações que o caminho oferece àquelas horas da manhã. Ainda é Mário quem norteia, ao dizer que se deve ir adiante, como quem foge de casa, como se estivessem abertos, diante de nós, todos os caminhos do mundo. Embora, neste caso, apenas um interesse. Afinal, só se consegue caminhar um caminho por vez. Talvez seja esta a orientação que não reconhece dúvidas e o faz caminhar resolutamente, como quem sabe que destino o aguarda, ou, pelo menos, espera encontrar.

As distâncias não contam; o tempo não conta, menos ainda as preferências. Se se há de caminhar, que se caminhe e pronto. Os destinos, estes todos os caminhos reservam os seus. Iguais, diferentes, conhecidos, desconhecidos, destinos são destinos. Esta é uma conclusão de quem observa, passa distante do caminhante que nem quer tomar conhecimento.

A sensação de caminhar se assemelha um tanto com que diz Orson Welles, a respeito do que lhe dá prazer num filme, ou seja, o processo enquanto o filme está sendo filmado, o filme constituindo-se, gerúndio. O percurso do que está pronto é outra história, são trilhados outros caminhos. O que está acabado, já não interessa tanto. Algumas vezes na vida nunca desejamos alcançar o destino, o ponto final. A observação gera muitas reflexões, o caminhar apenas abre trilhas, ou, por vezes, as confirma.

Ao longe, um pássaro entoa sua canção matinal. Parece sozinho, outros não respondem, apesar de sua insistência. Não se sabe se canção ou se choro, talvez um chororó. O certo é que solta seu som em meio ao mundo, sabe-se lá por qual motivo. As obras alternam-se com luminosidades laterais, matizando o caminho e adorna impacientemente o corpo do caminhante que se desloca como um trole sobre um trilho em dias de sol, rumo a algum lugar.

Olhos ao chão, pisada ritmada e demarcada, uma após a outra, uniformemente. Para trás, as pegadas vão se enfileirando, seguindo os passos, como de propósito. O sol enganchado no teto retém os ponteiros das horas, longamente. As divagações não marcam o céu limpo, quase sem nenhuma nuvem. Pontos de areia branca respingam as canelas e refulgem o lúmen como estrelas saltitantes. Mosquitos matinais rodopiam em torno da cabeça e se arremessam aos olhos como camicases, o que provoca um estapear estulto.

domingo, 31 de julho de 2011

SOBRAS DO SER SÓ

Regina, de uns tempos para cá, deu para prestar atenção a certas coisas que parecem comuns, mas que, no entanto, passaram a significar certo excesso para ela. Começou a pensar nisto, quando, certa vez, retornando do trabalho para casa, ligou o som do carro e deixou-se ouvir um blues de B.B. King. Primeiro lhe veio uma emoção motivada por uma espécie de gozo, de prazer extremo. Daí, sentiu a necessidade de dividir aquele momento com alguém, mas percebeu que estava sozinha em seu carro.

Noutro momento, sentou em sua cama, pegou um livro de poemas e, ao ler os primeiros versos, novamente, sentiu que todo aquele momento de grande felicidade poderia ser partilhado. Não é a sua cama ou o seu quarto, relativamente grandes, que lhe provocam o sentimento de solidão, não. É a sensação de excesso que sente quando tem acesso a algo que gosta muito. E a certeza de que outras pessoas poderiam estar ali e usufruir também do mesmo momento e do mesmo prazer. Desde então, outras tantas vezes vem se repetindo a mesma sensação.

São grandezas de outra ordem. Um bom filme, um vinho especial, uma boa comida, uma peça de teatro. Enfim, coisas que, em grande medida, nos sentimos melhor quando acessamos em companhia de alguém. Melhor ainda, se esta companhia for alguém a quem devotamos carinho.

Parece uma abstração, mas não é. Pelo contrário, é bastante concreto. Regina fica a se perguntar se isto ocorre apenas com ela. Tem vontade de perguntar a suas colegas de trabalho se elas também experimentam tal sentimento. Mas, nas várias vezes em que teve o ímpeto de falar sobre o assunto, recuou. Tem medo de que alguém a considere maluca. Fica, às vezes, a observar uma de suas amigas a executar tarefas rotineiras para tentar perceber se deixa revelar algo que a interesse ou que lhe dê ao menos a chance de tocar no assunto. Mas nunca percebeu qualquer abertura neste sentido.

Ultimamente, tem evitado sair à noite, para não ter que, na sua refeição, parecer que belo peixe ao molho de alcaparras, tocado a vinho branco, possa trazer-lhe esta sensação de que, apesar de ser servido apenas o prato individual, aquele sabor, aquela situação, é demais para uma única pessoa. No entanto, não consegue se livrar completamente. Nem mesmo a presença do boneco Hermano em sua casa, com quem conversa durante as refeições ou quando está lavando louças ou roupas, tem evitado, de todo, sentir a presença de algum excesso.

Ao entrar em seu apartamento, para, diante da porta, olha-o por inteiro, e os lugares que sua vista não alcança lhe vêm à memória resgatar os detalhes. Claro, não é nenhum sofrimento isto que sente, pelo contrário, é sempre um prazer relativamente significativo poder consumir coisas bem escolhidas. O que a incomoda é que isto poderia se tornar melhor se fosse compartilhado. Mas até mesmo a repetição da mesma cena pode indicar, ou indiciar algo que não compreende.

Talvez por conta deste seu sentimento, por vezes lhe bate alguma dúvida que parece estranha: Seria isto alguma prova psíquica de que fosse ela uma pessoa egoísta? Na verdade, a situação que se revela parece até ser contrária a isto. É justamente o desejo de dividir com alguém seus momentos e seus lugares de prazer que a deixa desconfortável. Mas, sabe-se lá, as explicações simples nunca satisfazem completamente suas curiosidades.

Num momento desses, estava simplesmente meditando, à noite, a respeito de um passeio de barco que fizera naquela manhã. Pegou uma barca, destas que fazem a travessia Rio/Niterói, numa destas estações da Praça XV. Postou-se na parte superior em posição de observar a paisagem de que se distanciava e, ao mesmo tempo, tentar perceber também outras visadas: a ponte que liga uma cidade a outra como outra perspectiva de travessia, o deslocamento entre um ponto e outro, a brisa e a passagem que se pode sentir enquanto a barca se desloca. Não havia intenção de ir a lugar algum, apenas o desejo de experimentar esta transitoriedade. Foi e retornou, com o objetivo de observar o mesmo movimento, a partir de pontos diferentes. Uma experiência e tanto. Mas, agora, ali, pensando sobre tudo lhe veio uma felicidade tão grande e, no entanto, não havia ninguém por perto com quem pudesse dividir. Deitou e chorou até adormecer.