domingo, 23 de outubro de 2011

HUMORES



Um risco, um talhe na pele do olho. Um cisco em lâmina, argueiro que vaza o humor vermelho e inunda o globo. Um corte esguio de bisturi. Um ver que ostenta insatisfação com o mundo e suas coisas à vista. O sangue ferve na veia e destempera o ritmo do coração. É assim, dizem: é o que há para ser visto.
O humor verde amarelado amarga a língua, espasmos de vômito em profusão. A pele eriça em calafrios, o sabor amaro da paisagem incômoda incomoda profundamente. Assim, do modo como as fraturas são expostas e a indiferença naturaliza o mau gosto, resta a esta anciã conhecer algo mais antigo; a novidade é a mesmice, sempre.
Há, de verdade, um humor físico, uma fleuma, pituíta que escorre em avalanche numa espécie de defluxo e não anima ninguém, arranca a alma do corpo e o deixa extasiado, inanimado diante do ver por ver coisas sem sentido. As palavras ganham formas visíveis, sem novidade. As imagens transitam apáticas e sem nenhuma atração.
Aos poucos e depois de séculos, resta-nos uma irascibilidade que se derrama sobre a pele de cada coisa e daí para o nada entre todas. É como se um certo humor irascível predominasse nos interstícios de tudo e se impusesse como padrão de visão sob a luz do meio-dia. O humor da bílis negra, a sensação de fim de tudo cheio de cólera.
O humor liquefeito das entrecoisas, das entrelinhas que percorrem os corpos e a eles mantêm com vida convida a uma percepção menos concreta da imagem, mas diluída nos veios, nas veias, nos leitos. O sangue circula nas artérias como um humor viscoso, prestes a se jogar pelos poros, a arrebentar o peito em emoções fortes ou a coagular na apatia e no marasmo do que a vista alcança.
A bílis emulsifica, absorve as gorduras e atua no estado de humor dos que veem diante de si as imagens carcomidas do cansaço da visão. Cada recorte põe em evidência humores diferentes, destes que regam a vida e envidam aceitamentos, aceites, convidam a desconfiar do visto.
Humor como estado de espírito, como permanência e mutação da vista. A paisagem repousa adiante e o melhor ângulo de observação desequilibra a sua possibilidade de contato ótico, de rejeição plena ao que a imaginação oferece. Água umidifica as lajes, o lajedo, e se entranha nos corpos como humor sob diversas formas. A água rega e limpa ao mesmo tempo, vai se solidificando com os detritos que agrega no seu percurso. A água contamina-se do mesmo modo que a visão vai se incrustando da sujeira das coisas vulgares que se ofertam de novidade.
A alma, com seus humores, paira sobre o mundo entorpecida. O sangue circula no corpo assim como os outros humores, a mistura é inevitável e letal. A diferença se impõe a cada um no lugar mesmo em que atua. Só uma eventualidade há de romper seus destinos. Só uma grande emoção ou um prazer desmedido, destes que parecem perder a probabilidade de ocorrência numa rapidez vertiginosa.

domingo, 16 de outubro de 2011

VER O RETORNO

Foto do autor

Olhar o vale do alto da montanha ateia fogo na alma. A relva desenha um verdor que nos envolve por inteiro. A teia estremece ao roçar do vento no afago da luz matinal e arranha o nada com filetes de prata trançados. De dentro vem o calor que esquenta o dia e anima as ideias. Fica-se um tempão sob a copa do Jatobá, à sombra.
Caminhos desenhados e mal acabados oferecem múltiplos sentidos, e, a cada escolha, risos e guizos. Engana-se quem pensa que caminhar por entre malícias, descendo ou subindo, é simples. Na descida, lança-se o corpo sem grande esforço, mas a tensão é com os receios do que possa vir dos arbustos que encobrem as trilhas. Subir, além dos medos, tem-se que arrastar o peso do corpo por entre as árvores e suas raízes, as pedras e os deslizes dos desvios e desvãos.
Mas gratifica tanto a oportunidade de chegar ao cimo e olhar o vale sobre as copas das árvores mais abaixo quanto, depois, chegar em casa com as paisagens na memória. Tudo é chama que incendeia, tudo é motivo para ver novamente. Histórias vão se criando com a experiência de abrir caminho ou de caminhar por trilhas já abertas e mesmo assim cheias de surpresas.
O que antes parecia apenas um delírio de infância se consolida de modo muito mais belo e agradável. A luz tinge matizes no teto verde da floresta e recria cores e tons no solo de folhas férteis. Os brotos escancham nos galhos e renovam-se como experimentos de vida. Pássaros acompanham cantando e entoam cantos diversos na brincadeira de aparecer e esconder, em voos repentinos. É só mais um motivo para desviar a atenção do cansaço e esquecer o esforço da caminhada.
O rosto entre as mãos, os cotovelos repousam nos joelhos dobrados. Aos poucos, a sensação de fome lembra o estômago. Há tempo espera o instante de ser chamado; enquanto aguarda, observa a estampa da toalha de mesa à sua frente com a atenção necessária para esquecer o aborrecimento da espera. Depois, não é apenas o tempo arrastado de esperar que incomoda, mas também a possibilidade de precisar ter que operar. De vez em quando cai em si pela interferência da voz da atendente que chama por alguém desconhecido, ainda não é a vez. Logo depois muda o olhar e volta a acionar a imaginação por algum motivo ignorado.
A banda de música postada no quiosque da praça executa um dobrado, não consegue identificar qual seria. Logo depois da praça, enfileirados, dezenas de alunos ensaiam para a Parada de 7 de Setembro, o dia da Independência do Brasil. O sol escaldante lança-se sobre a criançada enquanto eles seguem pisando no ritmo da bateria em marcha militar. A sombra da torre da igreja matriz se projeta sobre as filas de alunos fardados e só por alguns segundos aliviam-se do calor solar.
As crianças entoam hinos patrióticos e esgoelam-se no afã de cumprir as determinações das professoras que caminham ao lado, e, vez ou outra, intervêm para ajustar o passo marcado de algum pirralho que desatina. Contornam a praça diversas vezes. Repetem os exercícios de parar e seguir, à exaustão. Renovam os hinos e a marcha várias vezes, sob o sol pegando fogo.
Um vento mais forte entra pela janela e move a cortina com força, desfazendo o eixo do olhar preso à imagem da estampa. A atendente chega mais perto e avisa que chegou o momento de entrar para a consulta. Ainda dolente, observa a cara da atendente e não a reconhece como parte de sua experiência recente.

sábado, 1 de outubro de 2011

URBANOPATIAS

Foto do autor

A cidade é, por excelência, o lugar do excesso. Tudo é ofertado em demasia, inclusive a escassez. Recorrentemente se ouve falar em comportamentos compulsivos: consumo de bens materiais (roupas, perfumes, chocolate etc.), de bens simbólicos (novelas, notícias, Internet etc.) e até mesmo de sexo. As síndromes e os transtornos obsessivos compulsivos fazem parte das patologias modernas, mas, principalmente, urbanas.
Uma das lógicas que alimenta o sistema capitalista é exatamente a produção em larga escala: vários produtos, inclusive remédios, com finalidade e conteúdo semelhantes são ofertados em massa sob o pretexto de estimular a livre escolha. Mas, ao mesmo tempo, são criados filtros severos que definem quem pode ou não acessar os produtos em oferta. Sem dúvida, o mais forte destes filtros é o poder de compra; se de um ladoprodutos em excesso à mostra para consumo, por outroemprego e salário de menos, o que cria uma bruta contradição. Daí decorrem filtros como a falta de educação e de saber que afunilam mais ainda o acesso aos bens urbanos.
Diz-se que cada um é livre para dar destino à sua vida. Porém, para cada um, as oportunidades são bastante diferenciadas. Enquanto uns têm acesso à boa alimentação, educação, saúde, moradia, entretenimento, emprego e renda, aos outros são negadas estas garantias básicas de uma vida digna. Nega-se, assim, um dos fundamentos principais para o acesso as oportunidades de mobilidade social.
É claro que ao acessar as tecnologias e seus produtos, as elites garantem a manutenção desta realidade indefinidamente, e isso não ocorre de modo pacífico. Primeiro, porque as indústrias que produzem em excesso precisam de consumidores para as suas produções ― quanto maior o número de pessoas consumindo mais disputas são possíveis. Segundo, a ostentação da riqueza gera o desejo e a revolta entre aqueles que não têm acesso a nada, abrindo possibilidades de ações violentas.
O excesso é tanto maior quanto mais houver modernização tecnológica. As tecnologias facilitam o aumento da produtividade e substituem mão-de-obra, produzindo, contraditoriamente, mais oferta e desemprego. De outro lado, impõem a velocidade contra o tempo e o espaço, esgarçando fronteiras e desestabilizando referências que anteriormente pareciam estáveis: as comunidades disseminam-se no tecido social sob novas configurações, reinstauram-se tribos, exacerbam-se disputas e comportamentos violentos. Contra o conforto e as facilidades que atraem migrantes para os centros urbanos surgem a insegurança e o medo, provocados pela violência extremada. Vive-se um tempo em que, parece, o gestor urbano perdeu o controle sobre a ordem e a dimensão de suas medidas e escalas.
Neste cenário, ressurge o desejo do indivíduo sobre o da coletividade, é a reafirmação necessária da identidade que explode em fragmentos tantos quantos sejam possíveis. Cada um detém uma nova maneira de se apresentar e se identificar. Os conglomerados humanos, de qualquer tamanho, espelham-se e identificam-se nos comportamentos de massa superdimensionados pela mídia, sintomas de contágio dos corpos urbanos, através de epidemias de informações deformadas. As urbanopatias que poderiam ser características das grandes metrópoles espalham-se e contaminam pequenas cidades com a velocidade de viroses incontroláveis. O despertar para um retorno ao mundo rural, a migração às avessas, é um dado novo e contém em si o risco da disseminação dos espaços saudáveis do campo pelas patologias comportamentais que fizeram disparar nas cidades a violência, a solidão, o consumismo, o medo.

sábado, 24 de setembro de 2011

A ROSA DO POVO


Noitinha, a luz tênue mescla o verde-escuro das salsas com o branco da areia do terreiro da casa. As conversas, após o jantar, estão ainda no seu início e todos nos damos conta de que alguém se aproxima. Olhamos uns para os outros como a nos perguntarmos quem seja. Os cachorros levantam-se, se espreguiçam e se agitam, mas não rosnam ou latem, como se conhecessem o tal cavaleiro.
Encosta-se ao parapeito do alpendre, retira o chapéu com reverência e dá boa noite. Um coro meio desanimado e desafinado responde com “outro boa noite”. O rapaz explica que soube de estarmos de posse de uma mala encontrada na estrada. Explica que a referida mala é sua e que a deixou cair, quando a transportava na garupa do cavalo, na manhã anterior Diz que percorreu léguas e léguas beirando a estrada e tomando informação até saber que a havíamos encontrado.
Confirmamos ter encontrado a referida mala e já alguém se ergue para ir buscá-la, quando tenho a ideia de verificar se realmente ele é o dono, visto que os pertences encontrados no interior da tal mala são femininos. E o rapaz não parece nem um pouco afeminado. Perguntamos, então, se ele poderia nos dizer o que contém a mala. Ele, a princípio, faz silêncio, como se pensasse. E a seguir, começa a reclamar que estaríamos desconfiando de sua honestidade e coisa e tal.
À medida que resiste a responder o que perguntamos, vou ficando mais convencido de que ele não conhece o que tem a mala e, portanto, não pode ser o dono, como diz ser. O rapaz mostra-se bastante irritado e até insinua algumas ameaças, sugere portar armas, mas, em nenhum momento, apresenta qualquer ameaça ostensiva.
Resolvo, então, revelar genericamente o que tem na mala, digo que na verdade as coisas não podem ser dele porque se tratam de pertences femininos. Ao ouvir isto, ele começa a sorrir, a gargalhar como se houvéssemos contado uma piada muito engraçada. Ri que quase cai do cavalo. E sem dizer uma palavra, toca as esporas no cavalo e sai dali em disparada.
Alguém reclama, então, que eu entreguei a informação, e que, dali por diante, outras pessoas poderão vir buscá-la, pois, desta vez, já saberão o que a mala contém. Eu explico, então, que não é bem assim, porque a informação que eu dei foi muito imprecisa; em “pertences femininos” podem se incluir muitas coisas. Naquela noite mesmo não houve outro assunto. Também não apareceu mais ninguém.
No dia seguinte, cedinho, quando abrimos a porta, havia uma mulher sentada em um dos parapeitos, como se lesse um livro. Com todo o barulho de abrir a porta e o movimento que daí decorre, ela não ergueu a vista. Fui até onde ela estava e a cumprimentei com um bom dia, ao que ela responde olhando para mim e sorrindo. Diz que veio pegar sua mala. Olho ao redor e não vejo nenhum animal, nenhum veículo. Pergunto, então, como chegou até ali, e ela responde que alguém virá pegá-la depois.
Ela sorrindo me diz que nem precisa perguntar sobre o conteúdo da mala porque ela mesma dirá. E vai dizendo aos poucos, conferindo com o que de fato está lá. Por fim, fala do livro do Carlos Drummond de Andrade. Contamos a ela o ocorrido da noite anterior, ao que ela nos diz não saber quem seja o tal rapaz. Diz que soube que a mala estava conosco por alguém que a teria contado, mas não teria sido, certamente, o tal rapaz.
A respeito do livro, ela nos diz que sua mãe teria estudado em Belo Horizonte, quando jovem, e recebido o livro de presente do próprio poeta. Insinua ser filha dele, alguém de quem ele nunca teve notícia. E que ela também nunca teve como conhecê-lo pessoalmente. Sempre sorrindo, com ar de intimidade, se vai, e, antes de sair, diz que se chama Rosa.

sábado, 17 de setembro de 2011

BOCA DA NOITE



Desliga a luz, hora de tentar dormir. O corpo se espreguiça na cama fria e o lençol cheirando a amaciante promete agradável noite de sono. Mas o dia passado espelha a alma com os seus senões. A promessa de emprego frustrada, o sol abrasador queimando a pele nas idas e vindas inúteis, a bronca suportada, a comida com cheiro de queimado, a angústia de ter de silenciar para não desagradar a família que, de algum modo, o acolhe...
Vira para um lado, mantém os olhos fechados. Vira para o outro, ainda de olhos fechados. Não consegue adormecer. Ergue-se e vai à geladeira para tomar um copo d’água. Não tem sede, é apenas um pretexto para levantar-se e caminhar pela casa. Teme que alguém acorde ou que o descubra abrindo a geladeira e imagine que está aproveitando o escuro da noite alta para fazer uma boquinha. Mas vai adiante.
Ouve um murmúrio vindo do quarto de casal. Resolve bisbilhotar. Pisa macio, tomando cuidado para não topar em nada e vai à busca de ouvir o que conversam. À medida que se aproxima, o tom da conversa torna-se melhor audível e, aos poucos, vai pescando algumas palavras. Estranha que a luz não esteja acesa, o quarto todo escuro, mas mesmo assim põe-se a uma distância que dê para ouvir sem se arriscar muito.
Apenas uma voz feminina não encontra resposta de outra, parece que fala sozinha. Sabe que algumas pessoas têm o costume de falar enquanto dormem, até aquele momento nunca percebera que alguém naquela casa tivesse tal hábito. Apesar de não soar baixo, a voz parece cheia de línguas, não dá para ouvir muito bem tudo o que é dito. Somente alguns trechos e, em alguns instantes, palavras soltas em meio a grunhidos.
Entre muitas coisas ouvidas, sem muita clareza, a mulher conta que na casa de fazenda, que fica no baixio, guardam uma mala que foi encontrada na estrada. A mala, diz, está cheia de dinheiro em cédulas graúdas. Nunca apareceu ninguém para reclamar a posse. Diz que dona Sara, uma lavadeira que trabalha por lá também, foi quem contou tal história numa festa de casamento, para todo mundo ouvir.
Por uma nesguinha só da fresta da porta entreaberta, ele percebe que a pessoa que fala se movimenta como se fosse levantar da cama. Depressa, ele retorna ao quarto e, por descuido, esbarra numa cadeira que faz um barulho razoável. Deita-se e põe-se a pensar naquela história. Ouve passos dentro de casa, finge ressonar. A pessoa chega-se e fica próxima à porta do quarto, como se o observasse. Não se move. Dali a instantes, a pessoa se afasta, na mesma pisada.
Ele vai juntando as palavras e lembrando que já ouvira tal história, mas nunca nada a respeito do conteúdo da mala, por isso não deu importância. Agora, com a informação de que a mala guarda tanto dinheiro, a coisa muda de figura, principalmente, porque ninguém ainda apareceu para recamá-la. A ideia de se apresentar como dono da mala vai ganhando força em sua mente. Talvez aquela seja a oportunidade de conseguir reparar muitas coisas que andam mal em sua vida.
Uma voz distante chama galinhas enquanto joga milho no terreiro, ele estranha que os caroços de milho brilhem ao sol feito ouro. Ele se aproxima e verifica que, de fato, é ouro em pequenos caroços que a pessoa joga para as galinhas. Ele fica aborrecido com aquilo e resolve partir para cima e tomar-lhe a vasilha donde tira os caroços que arremessa ao terreiro. Dá um grito bravo.
Acorda assustado e continua ouvindo o som peculiar de alguém que chama as galinhas para alimentar. Ergue-se da cama um tanto destreinado, se espreguiça, enquanto boceja e emite um berro de raiva e decepção. Imediatamente, a história que ouvira à noite lhe vem à mente. Senta-se de novo na cama e, desta vez, para elaborar um plano com o objetivo ir buscar a mala. 

domingo, 11 de setembro de 2011

MALA NA ESTRADA


Foto do autor

Levantara-nos há pouco tempo, estávamos ainda à mesa do café quando ouvimos uma voz feminina gritando, quase histérica, como se houvesse descoberto ouro. Depois de algum tempo, entendíamos que falava de estrada e de mala. Fomos às pressas ao alpendre, para ver do que se tratava. Sara, uma senhora que lava roupas para nós, enfrenta a areia do terreiro arrastando uma mala. Entra em casa e larga a mala ao chão como se quisesse desfazer-se do peso. Alegre e esbaforida, demora para conseguir esclarecer a cena.
Conta que encontrou a tal mala na estrada, quando vinha de sua casa. Lógico, alguém a deixara cair de algum carro. De princípio, ficamos sem saber ao certo o que fazer. Era uma mala simples, sem tranca ou cadeado. Pensamos em abrir para ver se encontraríamos alguma indicação de quem pudesse ser, mas pensamos melhor: era provável que quem a perdera estivesse a sua busca na estrada, e a demora em remexer as coisas poderia deixar passar a oportunidade de devolvê-la ao seu dono ou a sua dona.  Deste modo, achamos mais prudente pedir que alguém de casa a levasse à estrada e ficasse por lá até que aparecesse quem a procurasse. Claro, que não se iria oferecer ou perguntar por ali se alguém sabia de quem poderia ser, porque logo haveria de aparecer donos aos montes.
Até a hora do almoço ninguém reclamara a mala, assim também ao pôr do sol. Neste caso, achamos por bem abrir e ver se encontrávamos algo que pudesse indicar a quem pertencia. Todos em casa concordaram. Nada de surpreendente revelou o conteúdo, a simplicidade das coisas que continha já estava mais ou menos prenunciada na sua apresentação exterior.
Aquela tarefa nos despertou sentimentos contraditórios, mas somente daquele modo podíamos encontrar informações que nos permitissem saber a quem devolver. Mas, ao mesmo tempo, incomodava-nos a sensação de estar invadindo a privacidade de alguém que sequer sabíamos quem era. No entanto, distraia-nos aquele exercício exploratório: retiramos as peças de roupa e outros itens pessoais agrupando-os conforme nos pareciam pertencer a um ou outro grupo de objetos.
A dona daquelas peças e, provavelmente, da mala, é uma mulher jovem. Os vestidos demasiadamente curtos, as roupas íntimas ousadas revelavam também tratar-se de alguém da capital, com gosto bastante sensualizado. A simplicidade, no entanto, expressa no conjunto de coisas, inclusive, pelo tipo de mala, o gosto de alguém humilde, economicamente. Nada de sofisticação ou etiquetas de moda.
Também não parece se tratar de alguém de grande estatura. Uma mulher de 1,60m, talvez magra, jovem. Pela cor das roupas, predominantemente claras, pode indicar que seja também de pele morena ou mais escura. Não dá para ter certeza. Apenas uma hipótese. Uma caixa de sabonetes glicerinados, um estojo de maquiagem em cores discretas, ainda sem uso. Um perfume suave e um espelho com cabo, em formato elíptico. Nada de fotografias, agendas ou qualquer documento que revele alguma identidade.
No fundo da mala, o livro A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1945, quando de sua primeira edição, tinha uma dedicatória que não revelava muita coisa, até porque, aparentemente, se não fora escrita no mesmo ano de publicação do livro foi próximo, e isto não batia com as impressões até ali acumuladas. Os outros indícios não remetiam para alguém com essa idade. Dizia a dedicatória, “Para o amor da minha vida, com a paixão que há de nos incendiar sempre que nos toquemos”.  Era assinada por um tal Hermano Carrasco. A data, borrada, aparentava ter-se borrado por efeito de algum líquido: água, perfume, lágrimas. Quem sabe?

sábado, 3 de setembro de 2011

DIA COMUM


Foto do autor

O dia amanhece com o mesmo sol dos dias anteriores. Algo de menos no tecido da esperança. É assim que se vislumbra adiante pelas frestas dos olhos incrédulos: a rede cerzida, o lençol puído e o chão batido sob as sandálias pela metade. Gentis inocentes esbaldam-se em ressaca moral. Uma nação inteira engana-se de lado a lado nas explicações amarelecidas sem explicação.
De resto, erguer o corpo no torpor do antes como um nada e vestir as vestes remendadas e comer o pão dormido há dias. Que não se atrevessem à sua frente quaisquer slogans ou mensagens de paz. É duro arrastar o tempo esticado e ainda aguentar os sorrisos e as bandeiras desfraldadas a custa de tanta insensatez. É difícil pensar nos mortos, nos vivos sem memória e no quanto uns e outros têm em comum. Nada mais a fazer, enganos ditos e repetidos como um eco sem paradeiro. Afora os sem sentidos, os dentes em falta, tudo o mais é promessa, como esses prometidos que nos sustentam e sobre os quais não se dá notícia.
Consciências carcomidas, bandas podres erguem-se arma em punho contra sombras em debandada e perseguem uma a uma como parte obrigatória do entretenimento. Multidões aplaudem torturadores confessos e vangloriam-se de ganhos insubsistentes. Solo fraturado, rasgos estonteantes sob a negação do viés vesgo e desnorteado.
O sol desloca-se lento e ardido. A pele esfumaça a última esperança sepultada, narinas dilatadas absorvem o calor corrente enquanto a sola dos pés incrusta vagos rastros no asfalto. É um dia comum, como outro qualquer. A diferença é que antes caminhavam ao lado de mais da metade dos que agora soslaiam-se pelas esquinas. Uma manhã comum certamente conduz a uma tarde comum, que, por sua vez, deve levar a uma noite comum e a uma madrugada igualmente comum. Tudo numa lógica de cavilação que não leva em conta a razão despida e alojada noutro extremo.
Ninguém muda, a cena irrequieta acena muda. O silêncio vergonhoso perde-se no alarido dos festejos sem graça alguma. Todos se admiram, miram-se e retornam ao estado letárgico do sono profundo. Espera-se que outros dias possam vir com sóis novos e luzes novas. O tecido esgarçado da esperança é o único pano, encardido, desbotado, a se erguer em bandeira. Apelo de senhas resguardadas a pelo.
O vento morno sopra sobre a tarde afeita ao vazio de ninguém mais. Grama esmaecida salta o fio vermelho do caminho por trás das grades. Olhar é longe, sombrio. Rios escorrem esquálidos, esgueiram-se fragilmente sobre os bancos de areia e ameaçam com a sequidão de verões cada vez mais longos. Não há como retornar ao terreno firme do passado. Barcos assombrados e recostam-se fincados no abandono enquanto lastreiam ratos a bordo.
Falta imensa no espaço, falta convicção e fé. Armam-se de argumentos até os dentes na comuna dos senhores da razão. A noite esconde os larápios e acalenta os corpos no descanso da fadiga. Mais um dia há de vir, Deus sabe a que preço. Farta e imersa no laço do lodaçal, a marca da ação litigante, em pele de cordeiro. Homens e mulheres consomem as últimas ofertas mostradas na televisão. Crianças esforçam-se para abrir os olhos, esticam o corpo e os braços e as pernas e bocejam.
Ao longe, canta o galo uma manhã sem sol e o canto ecoa no espelho preso à parede do quarto, fervilha no coador do café quentinho. Um dia comum como outros de antes, sem tirar nem por.