domingo, 20 de novembro de 2011

MERA COINCIDÊNCIA



Sexta-feira, tenho que levar um amigo a rodoviária, ele vai a Fortaleza. Trabalhamos na mesma empresa. Ele é programador visual e eu sou redator, fazemos uma dupla de trabalho. Na verdade, vou dirigindo o carro que a empresa nos cede para estas ocasiões. Chegando a rodoviária, ainda há algum tempo até que o ônibus chegue, vamos à lanchonete com o intuito de beliscar alguma coisa.
Na lanchonete, nos chama a atenção a TV ligada, transmitindo o programa de um partido. Ficamos ali, conversamos, lanchamos e assistimos ao programa político com algum interesse. Observo que ladeando o balcão, duas jovens conversam, atentas ao programa. Também elas vieram acompanhar uma amiga que viaja para o interior do estado.
Saimos dali praticamente juntos. Pergunto a uma das moças para onde estariam indo. Antes que responda, informo que vou ao centro da cidade, ofereço carona. Confirmam que vão indo no mesmo sentido e aceitam ir comigo. Até chegar ao local em que devem descer, pouca conversa, apenas sondagens de nomes e ocupações na cidade. Ficam na avenida principal. Ao descer, agradecem pela carona e esboçam um sorriso, como se sugerissem um até breve.
Alguns dias depois, o amigo que havia ido a Fortaleza me interroga sobre a possibilidade de sairmos para conversar. Diz que conheceu uma pessoa de Teresina em Fortaleza e que está combinado de saírem no final de semana próximo. Diz ele que esta pessoa tem uma amiga e que a tal amiga deseja me conhecer. Retira um papel do bolso e entrega-me. Neste papel estava anotado o número do telefone de contato. Naquele momento eu estava mesmo interessado em conhecer pessoas novas na cidade, morava sozinho e sair com alguém pra conversar seria mesmo estimulante. Gostei da ideia e fiquei de ligar.
Meu amigo conta que numa destas coincidências, a tal pessoa esbarrara nele quando entravam numa loja e, passado o susto, ela teria perguntado se ele poderia ensinar como chegar a outra loja. Ele se oferecera para ir com ela até lá, no percurso, enquanto conversavam e teriam descoberto que moram na mesma cidade, que estariam ali em trânsito. Desde então, nas conversas que dali foram acontecendo falaram sobre o trabalho, as amizades, os gostos pessoais. Dentre tantas coisas, teriam armado o meu encontro com esta amiga da nova amiga dele.
Passei a ligar para o tal número e sempre estava ocupado. Passados alguns dias sem sucesso cheguei a pensar que não conseguiria. Cheguei a falar com ele que me prometeu ver se havia algum problema com o número. Não havia. Continuei a insistir até que num determinado momento eu consegui. No início, fiquei um pouco sem saber o que dizer. Aos poucos, fui me sentindo mais seguro, falei do meu amigo, da amiga dela e de como havia tomado conhecimento do número do telefone. Demonstrei interesse em conhecê-la e a convidei para sairmos. Acertamos para sair, para irmos a um bar cultural que é moda na cidade.
Quando a vejo, reconheço-a de cara, é uma das jovens a quem dei carona da rodoviária até o centro da cidade. Tomo o destino do endereço do bar para onde combinamos ir. Como o bar está sem mesa desocupada, ficamos num restaurante, logo em frente. Na conversa, vai a noite tomando o seu jeito sedutor de sorrir e de como mexe com os cabelos, cada vez de um modo diferente. Cativo, prendo a  minha atenção. Ficamos atentos um ao outro dias e noites seguidos dai por longo tempo.

domingo, 13 de novembro de 2011

A PROVA




Satélites patrulham o espaço.
E eu me movo como passo:
entre a província e o mundo.
                              Elias Paz e Silva

          Confesso que não estou muito a fim de fazer a prova hoje. Vou à aula porque tenho que ir, não sei bem como estão as minhas faltas, não posso arriscar a ficar reprovado. Até que eu estudei o bastante para fazer uma boa prova, mas não gosto de fazer provas, esta é que é a verdade.
          Vou-me agora aproximando do Centro Acadêmico, vejo que todos os meus colegas de turma estão lá. De cara, noto que algo está errado: primeiro porque esta turma não anda junta assim e nem tampouco freqüenta em bloco o CA. Depois, está todo mundo de cara amarrada, como se alguém houvesse feito alguma ofensa séria. Pergunto o que está pegando, me falam que não vão fazer a prova, vão falar para o professor. Ninguém ali quer fazer a prova. Eu também não estou a fim, mas não falo nada, só escuto. Pergunto por que não vão fazer a prova? Dizem que não tem nada a ver o livro que o professor indicou como texto: o autor fica falando de suas experiências pessoais, e não existe conteúdo para avaliação, ninguém entendeu nada.
          Bom, este não é o meu motivo, até que eu achei o livro interessante. É verdade que os textos estão escritos na primeira pessoa e alguns são auto-elogiosos, mas, no geral, o assunto é interessante e o autor conhece bem, fala com propriedade. No entanto, continuo só ouvindo. Demonstro, com a cabeça, concordar com o que estão argumentando.
          Quando a turma inteira se levanta para dirigir-se a sala de aula, vou junto. Afinal, se houver uma reviravolta, estarei lá para cumprir com a minha obrigação. A turma elegeu uma garota para falar com o professor, uma espécie líder da turma de última hora. Ao chegarmos à sala, alguns minutos de atraso, o professor já está lá. Sobre a mesa, o Diário de Classe e alguns outros papéis que devem ser as folhas de questionário da prova. Sentamos todos em silêncio, a garota senta-se na primeira fila. Sento-me no fundo da sala, um lugar donde posso observar tudo.
          A garota pede ao professor para falar, ao que ele assente com a cabeça. Ela começa dizendo que ela e os seus colegas não estão preparados para fazer a prova. O professor a olha com espanto, e pergunta o que fizeram desde que o livro foi indicado e o texto disponibilizado para a leitura? A garota diz exatamente o que me haviam dito no Centro acadêmico: o autor fala de coisas pessoais, não há conteúdo que possa servir como tema de avaliação...
          O professor faz silêncio, olha a turma com perplexidade, como se esperasse que alguém ali manifestasse alguma opinião diferente ou, quem sabe, pudesse dar uma explicação mais plausível. Silêncio completo.
          O professor, então, toma a palavra e sorri com ironia, começa dizendo que não irá impor uma prova para a turma se esta turma se confessa incapaz de entender o livro que tentou a muito custo ler. Neste momento, a minha vontade foi a de protestar, de soltar os cachorros pra cima do professor. A verdade, é que não consigo. Estou me sentindo humilhado e co-responsável pela decisão da turma e, mais ainda, se não consigo esbravejar é porque também eu concordo, de alguma maneira, com o que diz o professor. Percebo que mais uns dois ou três colegas argumentam que não é assim, que o professor os está diminuindo, mas a conversa não prospera.
          Ficou pior ainda quando o professor pega seu material para se retirar e resolve tomar mais uma decisão. Diz ele que não haverá mais nenhuma prova, que as notas até ali atribuídas serão somadas com a nota do seminário que deverá ser apresentado em dias previamente marcados, donde será tirada a média para cada um. Outra coisa – completa o professor – ninguém mais precisa entregar o artigo que teríamos que produzir, que seria uma violência exigir que escrevêssemos um artigo científico. Disse isto e retirou-se.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

VIAGEM DE FÉRIAS




Com o tempo, Regina, já habituada à cidade do Rio de Janeiro, vai espaçando suas idas à terra natal, no Nordeste. Continua sentindo saudades da família, dos lugares, dos costumes, da comida e dos amigos, mas já não é tão incômoda. Até parecem agradáveis estas lembranças. Mas este ano achou por bem passar as férias com sua família. Toma todas as providências com antecipação: passagens, roupas, malas etc. Um presentinho para quem acha que deve levar, uma lembrancinha somente.
Dia da viagem, levanta-se cedinho. Tudo arrumado, enquanto espera a portaria do prédio anunciar o táxi, caminha pelo apartamento para ver se não está esquecendo nada e, ao mesmo tempo, arrumar o que possa estar fora de lugar. No último momento, lembra de pegar Hermano no guarda-roupa e sentá-lo no sofá, com advertência de que tome conta de tudo, não abra a porta para estranhos e que se cuide. Diz que deixou na geladeira apenas refrigerante e outros produtos próprios, que, se ele precisar, vá ao supermercado. Deixou dinheiro suficiente, no lugar de sempre. Dá-lhe um beijo carinhoso e se vai. Regina emociona-se ao deixar Hermano sozinho.
No caminho, até o aeroporto, Regina desliza entre paisagens de prédios apressados que se deslocam em sentido contrário ao seu. Os pensamentos misturam a expectativa de rever sua terra e sua gente, com as preocupações com tarefas do trabalho, novas amizades, o apartamento e a solidão em que ficara Hermano.
Do embarque até o momento de decolar, Regina fez tudo tão automático que não precisou sair daquele transe de viagem. As distâncias se mesclam, as pessoas se confundem e os olhos não veem o que olham, apenas a ebulição interior. Dá-se conta de que está voando, quando a comissária toca em seu ombro e lhe pergunta se está passando bem. Com um sorriso leve e com a cabeça assente que sim. Fica, então, atenta ao serviço de bordo e busca se situar.
Depois da aterrissagem, Regina toma um ônibus, na estação rodoviária, que lhe conduzirá à cidade em que mora sua família. Duas horas de trajeto, logo estará chegando. Tempo de um cochilo. Desperta com a passageira ao lado pedindo para que a deixe passar, o ônibus chegara ao seu destino, avisa.
Regina vê pela janela que sua família inteirinha veio recebê-la. Sorriem, abraçam-se e, aos poucos, dirigem-se aos carros que os levarão para casa. Nenhuma conversa completa, só frases cortadas, sem muito sentido: sobre saudades, a viagem, o cansaço, estas coisas de quem não sabe mesmo o que falar e que são próprias de determinadas ocasiões na vida.
Em casa, sobrinhos novos, vizinhos novos, olhares de admiração e surpresa. Após tomar um banho rápido e vestir uma roupa leve, Regina chama a parentada para o quarto em que ficará alojada, abre uma mala e vai chamando pelo nome o dono de cada presente. Risos, abraços e beijos, num clima de frisson. Antes de entregar cada presente, uma pequena história que justifique a lembrança e, ao mesmo tempo, explique por que cada coisa tem a ver com cada um que a recebe.
E, à medida que entrega cada presente, o quarto vai ficando mais apertado: os que recebem não se retiram e novas pessoas vêm em busca dos seus. Num dado momento, é necessário que a mãe de Regina peça para que os que já receberam o seu deem lugar aos outros. O quarto vai, aos poucos, se esvaziando, junto com a mala. Depois que todos saem do quarto, Regina se dá conta de que está só. 

domingo, 23 de outubro de 2011

HUMORES



Um risco, um talhe na pele do olho. Um cisco em lâmina, argueiro que vaza o humor vermelho e inunda o globo. Um corte esguio de bisturi. Um ver que ostenta insatisfação com o mundo e suas coisas à vista. O sangue ferve na veia e destempera o ritmo do coração. É assim, dizem: é o que há para ser visto.
O humor verde amarelado amarga a língua, espasmos de vômito em profusão. A pele eriça em calafrios, o sabor amaro da paisagem incômoda incomoda profundamente. Assim, do modo como as fraturas são expostas e a indiferença naturaliza o mau gosto, resta a esta anciã conhecer algo mais antigo; a novidade é a mesmice, sempre.
Há, de verdade, um humor físico, uma fleuma, pituíta que escorre em avalanche numa espécie de defluxo e não anima ninguém, arranca a alma do corpo e o deixa extasiado, inanimado diante do ver por ver coisas sem sentido. As palavras ganham formas visíveis, sem novidade. As imagens transitam apáticas e sem nenhuma atração.
Aos poucos e depois de séculos, resta-nos uma irascibilidade que se derrama sobre a pele de cada coisa e daí para o nada entre todas. É como se um certo humor irascível predominasse nos interstícios de tudo e se impusesse como padrão de visão sob a luz do meio-dia. O humor da bílis negra, a sensação de fim de tudo cheio de cólera.
O humor liquefeito das entrecoisas, das entrelinhas que percorrem os corpos e a eles mantêm com vida convida a uma percepção menos concreta da imagem, mas diluída nos veios, nas veias, nos leitos. O sangue circula nas artérias como um humor viscoso, prestes a se jogar pelos poros, a arrebentar o peito em emoções fortes ou a coagular na apatia e no marasmo do que a vista alcança.
A bílis emulsifica, absorve as gorduras e atua no estado de humor dos que veem diante de si as imagens carcomidas do cansaço da visão. Cada recorte põe em evidência humores diferentes, destes que regam a vida e envidam aceitamentos, aceites, convidam a desconfiar do visto.
Humor como estado de espírito, como permanência e mutação da vista. A paisagem repousa adiante e o melhor ângulo de observação desequilibra a sua possibilidade de contato ótico, de rejeição plena ao que a imaginação oferece. Água umidifica as lajes, o lajedo, e se entranha nos corpos como humor sob diversas formas. A água rega e limpa ao mesmo tempo, vai se solidificando com os detritos que agrega no seu percurso. A água contamina-se do mesmo modo que a visão vai se incrustando da sujeira das coisas vulgares que se ofertam de novidade.
A alma, com seus humores, paira sobre o mundo entorpecida. O sangue circula no corpo assim como os outros humores, a mistura é inevitável e letal. A diferença se impõe a cada um no lugar mesmo em que atua. Só uma eventualidade há de romper seus destinos. Só uma grande emoção ou um prazer desmedido, destes que parecem perder a probabilidade de ocorrência numa rapidez vertiginosa.

domingo, 16 de outubro de 2011

VER O RETORNO

Foto do autor

Olhar o vale do alto da montanha ateia fogo na alma. A relva desenha um verdor que nos envolve por inteiro. A teia estremece ao roçar do vento no afago da luz matinal e arranha o nada com filetes de prata trançados. De dentro vem o calor que esquenta o dia e anima as ideias. Fica-se um tempão sob a copa do Jatobá, à sombra.
Caminhos desenhados e mal acabados oferecem múltiplos sentidos, e, a cada escolha, risos e guizos. Engana-se quem pensa que caminhar por entre malícias, descendo ou subindo, é simples. Na descida, lança-se o corpo sem grande esforço, mas a tensão é com os receios do que possa vir dos arbustos que encobrem as trilhas. Subir, além dos medos, tem-se que arrastar o peso do corpo por entre as árvores e suas raízes, as pedras e os deslizes dos desvios e desvãos.
Mas gratifica tanto a oportunidade de chegar ao cimo e olhar o vale sobre as copas das árvores mais abaixo quanto, depois, chegar em casa com as paisagens na memória. Tudo é chama que incendeia, tudo é motivo para ver novamente. Histórias vão se criando com a experiência de abrir caminho ou de caminhar por trilhas já abertas e mesmo assim cheias de surpresas.
O que antes parecia apenas um delírio de infância se consolida de modo muito mais belo e agradável. A luz tinge matizes no teto verde da floresta e recria cores e tons no solo de folhas férteis. Os brotos escancham nos galhos e renovam-se como experimentos de vida. Pássaros acompanham cantando e entoam cantos diversos na brincadeira de aparecer e esconder, em voos repentinos. É só mais um motivo para desviar a atenção do cansaço e esquecer o esforço da caminhada.
O rosto entre as mãos, os cotovelos repousam nos joelhos dobrados. Aos poucos, a sensação de fome lembra o estômago. Há tempo espera o instante de ser chamado; enquanto aguarda, observa a estampa da toalha de mesa à sua frente com a atenção necessária para esquecer o aborrecimento da espera. Depois, não é apenas o tempo arrastado de esperar que incomoda, mas também a possibilidade de precisar ter que operar. De vez em quando cai em si pela interferência da voz da atendente que chama por alguém desconhecido, ainda não é a vez. Logo depois muda o olhar e volta a acionar a imaginação por algum motivo ignorado.
A banda de música postada no quiosque da praça executa um dobrado, não consegue identificar qual seria. Logo depois da praça, enfileirados, dezenas de alunos ensaiam para a Parada de 7 de Setembro, o dia da Independência do Brasil. O sol escaldante lança-se sobre a criançada enquanto eles seguem pisando no ritmo da bateria em marcha militar. A sombra da torre da igreja matriz se projeta sobre as filas de alunos fardados e só por alguns segundos aliviam-se do calor solar.
As crianças entoam hinos patrióticos e esgoelam-se no afã de cumprir as determinações das professoras que caminham ao lado, e, vez ou outra, intervêm para ajustar o passo marcado de algum pirralho que desatina. Contornam a praça diversas vezes. Repetem os exercícios de parar e seguir, à exaustão. Renovam os hinos e a marcha várias vezes, sob o sol pegando fogo.
Um vento mais forte entra pela janela e move a cortina com força, desfazendo o eixo do olhar preso à imagem da estampa. A atendente chega mais perto e avisa que chegou o momento de entrar para a consulta. Ainda dolente, observa a cara da atendente e não a reconhece como parte de sua experiência recente.

sábado, 1 de outubro de 2011

URBANOPATIAS

Foto do autor

A cidade é, por excelência, o lugar do excesso. Tudo é ofertado em demasia, inclusive a escassez. Recorrentemente se ouve falar em comportamentos compulsivos: consumo de bens materiais (roupas, perfumes, chocolate etc.), de bens simbólicos (novelas, notícias, Internet etc.) e até mesmo de sexo. As síndromes e os transtornos obsessivos compulsivos fazem parte das patologias modernas, mas, principalmente, urbanas.
Uma das lógicas que alimenta o sistema capitalista é exatamente a produção em larga escala: vários produtos, inclusive remédios, com finalidade e conteúdo semelhantes são ofertados em massa sob o pretexto de estimular a livre escolha. Mas, ao mesmo tempo, são criados filtros severos que definem quem pode ou não acessar os produtos em oferta. Sem dúvida, o mais forte destes filtros é o poder de compra; se de um ladoprodutos em excesso à mostra para consumo, por outroemprego e salário de menos, o que cria uma bruta contradição. Daí decorrem filtros como a falta de educação e de saber que afunilam mais ainda o acesso aos bens urbanos.
Diz-se que cada um é livre para dar destino à sua vida. Porém, para cada um, as oportunidades são bastante diferenciadas. Enquanto uns têm acesso à boa alimentação, educação, saúde, moradia, entretenimento, emprego e renda, aos outros são negadas estas garantias básicas de uma vida digna. Nega-se, assim, um dos fundamentos principais para o acesso as oportunidades de mobilidade social.
É claro que ao acessar as tecnologias e seus produtos, as elites garantem a manutenção desta realidade indefinidamente, e isso não ocorre de modo pacífico. Primeiro, porque as indústrias que produzem em excesso precisam de consumidores para as suas produções ― quanto maior o número de pessoas consumindo mais disputas são possíveis. Segundo, a ostentação da riqueza gera o desejo e a revolta entre aqueles que não têm acesso a nada, abrindo possibilidades de ações violentas.
O excesso é tanto maior quanto mais houver modernização tecnológica. As tecnologias facilitam o aumento da produtividade e substituem mão-de-obra, produzindo, contraditoriamente, mais oferta e desemprego. De outro lado, impõem a velocidade contra o tempo e o espaço, esgarçando fronteiras e desestabilizando referências que anteriormente pareciam estáveis: as comunidades disseminam-se no tecido social sob novas configurações, reinstauram-se tribos, exacerbam-se disputas e comportamentos violentos. Contra o conforto e as facilidades que atraem migrantes para os centros urbanos surgem a insegurança e o medo, provocados pela violência extremada. Vive-se um tempo em que, parece, o gestor urbano perdeu o controle sobre a ordem e a dimensão de suas medidas e escalas.
Neste cenário, ressurge o desejo do indivíduo sobre o da coletividade, é a reafirmação necessária da identidade que explode em fragmentos tantos quantos sejam possíveis. Cada um detém uma nova maneira de se apresentar e se identificar. Os conglomerados humanos, de qualquer tamanho, espelham-se e identificam-se nos comportamentos de massa superdimensionados pela mídia, sintomas de contágio dos corpos urbanos, através de epidemias de informações deformadas. As urbanopatias que poderiam ser características das grandes metrópoles espalham-se e contaminam pequenas cidades com a velocidade de viroses incontroláveis. O despertar para um retorno ao mundo rural, a migração às avessas, é um dado novo e contém em si o risco da disseminação dos espaços saudáveis do campo pelas patologias comportamentais que fizeram disparar nas cidades a violência, a solidão, o consumismo, o medo.

sábado, 24 de setembro de 2011

A ROSA DO POVO


Noitinha, a luz tênue mescla o verde-escuro das salsas com o branco da areia do terreiro da casa. As conversas, após o jantar, estão ainda no seu início e todos nos damos conta de que alguém se aproxima. Olhamos uns para os outros como a nos perguntarmos quem seja. Os cachorros levantam-se, se espreguiçam e se agitam, mas não rosnam ou latem, como se conhecessem o tal cavaleiro.
Encosta-se ao parapeito do alpendre, retira o chapéu com reverência e dá boa noite. Um coro meio desanimado e desafinado responde com “outro boa noite”. O rapaz explica que soube de estarmos de posse de uma mala encontrada na estrada. Explica que a referida mala é sua e que a deixou cair, quando a transportava na garupa do cavalo, na manhã anterior Diz que percorreu léguas e léguas beirando a estrada e tomando informação até saber que a havíamos encontrado.
Confirmamos ter encontrado a referida mala e já alguém se ergue para ir buscá-la, quando tenho a ideia de verificar se realmente ele é o dono, visto que os pertences encontrados no interior da tal mala são femininos. E o rapaz não parece nem um pouco afeminado. Perguntamos, então, se ele poderia nos dizer o que contém a mala. Ele, a princípio, faz silêncio, como se pensasse. E a seguir, começa a reclamar que estaríamos desconfiando de sua honestidade e coisa e tal.
À medida que resiste a responder o que perguntamos, vou ficando mais convencido de que ele não conhece o que tem a mala e, portanto, não pode ser o dono, como diz ser. O rapaz mostra-se bastante irritado e até insinua algumas ameaças, sugere portar armas, mas, em nenhum momento, apresenta qualquer ameaça ostensiva.
Resolvo, então, revelar genericamente o que tem na mala, digo que na verdade as coisas não podem ser dele porque se tratam de pertences femininos. Ao ouvir isto, ele começa a sorrir, a gargalhar como se houvéssemos contado uma piada muito engraçada. Ri que quase cai do cavalo. E sem dizer uma palavra, toca as esporas no cavalo e sai dali em disparada.
Alguém reclama, então, que eu entreguei a informação, e que, dali por diante, outras pessoas poderão vir buscá-la, pois, desta vez, já saberão o que a mala contém. Eu explico, então, que não é bem assim, porque a informação que eu dei foi muito imprecisa; em “pertences femininos” podem se incluir muitas coisas. Naquela noite mesmo não houve outro assunto. Também não apareceu mais ninguém.
No dia seguinte, cedinho, quando abrimos a porta, havia uma mulher sentada em um dos parapeitos, como se lesse um livro. Com todo o barulho de abrir a porta e o movimento que daí decorre, ela não ergueu a vista. Fui até onde ela estava e a cumprimentei com um bom dia, ao que ela responde olhando para mim e sorrindo. Diz que veio pegar sua mala. Olho ao redor e não vejo nenhum animal, nenhum veículo. Pergunto, então, como chegou até ali, e ela responde que alguém virá pegá-la depois.
Ela sorrindo me diz que nem precisa perguntar sobre o conteúdo da mala porque ela mesma dirá. E vai dizendo aos poucos, conferindo com o que de fato está lá. Por fim, fala do livro do Carlos Drummond de Andrade. Contamos a ela o ocorrido da noite anterior, ao que ela nos diz não saber quem seja o tal rapaz. Diz que soube que a mala estava conosco por alguém que a teria contado, mas não teria sido, certamente, o tal rapaz.
A respeito do livro, ela nos diz que sua mãe teria estudado em Belo Horizonte, quando jovem, e recebido o livro de presente do próprio poeta. Insinua ser filha dele, alguém de quem ele nunca teve notícia. E que ela também nunca teve como conhecê-lo pessoalmente. Sempre sorrindo, com ar de intimidade, se vai, e, antes de sair, diz que se chama Rosa.