sábado, 6 de agosto de 2011

CAMINHADA

Um caminhar a esmo num caminho bem antigo naquelas horas da manhã, no dizer de Mário, um caminho que, de tão velho, já não se sabe aonde vai. Outro poeta retruca: “velhos caminhos não levam ninguém a novos lugares”. Os únicos passos que se conhecem são marcados naquele momento depois de longos e longos anos. Séculos, talvez. O certo é que a solidão do caminho e o seu abandono estão expostos ali, para quem quiser ver.

Mas isto, aos olhos de quem observa, pela primeira vez, a última vista por ali. Para o caminheiro, como diz o poeta, são os passos que fazem o caminho ou, dito de outro modo, por outro poeta, o caminho se faz ao caminhar. Mas também sobre isto ele não reflete, apenas caminha. Basta mirar sua rota e ir abrindo picada entre urzes e pedras que recobrem a trilha adormecida há não se sabe quanto tempo.

Os rastos o acompanham e trilham em dois a solidão dos destinos. A areia marcada já não lembra que obrigações ele tem com as pegadas que se enfileiram de longe. Certamente, o tempo saberá o que deve ser feito, e na ausência prolongada de outros caminhantes tomará a melhor decisão. Um dia de chuva com a água reconstituindo percursos e levadas outras pistas se constituirão por ali.

Nada disto importa a quem tomou para si a decisão de ir em frente sem fazer perguntas, sem refletir sobre coisa alguma ou sem qualquer dúvida sobre as bifurcações que o caminho oferece àquelas horas da manhã. Ainda é Mário quem norteia, ao dizer que se deve ir adiante, como quem foge de casa, como se estivessem abertos, diante de nós, todos os caminhos do mundo. Embora, neste caso, apenas um interesse. Afinal, só se consegue caminhar um caminho por vez. Talvez seja esta a orientação que não reconhece dúvidas e o faz caminhar resolutamente, como quem sabe que destino o aguarda, ou, pelo menos, espera encontrar.

As distâncias não contam; o tempo não conta, menos ainda as preferências. Se se há de caminhar, que se caminhe e pronto. Os destinos, estes todos os caminhos reservam os seus. Iguais, diferentes, conhecidos, desconhecidos, destinos são destinos. Esta é uma conclusão de quem observa, passa distante do caminhante que nem quer tomar conhecimento.

A sensação de caminhar se assemelha um tanto com que diz Orson Welles, a respeito do que lhe dá prazer num filme, ou seja, o processo enquanto o filme está sendo filmado, o filme constituindo-se, gerúndio. O percurso do que está pronto é outra história, são trilhados outros caminhos. O que está acabado, já não interessa tanto. Algumas vezes na vida nunca desejamos alcançar o destino, o ponto final. A observação gera muitas reflexões, o caminhar apenas abre trilhas, ou, por vezes, as confirma.

Ao longe, um pássaro entoa sua canção matinal. Parece sozinho, outros não respondem, apesar de sua insistência. Não se sabe se canção ou se choro, talvez um chororó. O certo é que solta seu som em meio ao mundo, sabe-se lá por qual motivo. As obras alternam-se com luminosidades laterais, matizando o caminho e adorna impacientemente o corpo do caminhante que se desloca como um trole sobre um trilho em dias de sol, rumo a algum lugar.

Olhos ao chão, pisada ritmada e demarcada, uma após a outra, uniformemente. Para trás, as pegadas vão se enfileirando, seguindo os passos, como de propósito. O sol enganchado no teto retém os ponteiros das horas, longamente. As divagações não marcam o céu limpo, quase sem nenhuma nuvem. Pontos de areia branca respingam as canelas e refulgem o lúmen como estrelas saltitantes. Mosquitos matinais rodopiam em torno da cabeça e se arremessam aos olhos como camicases, o que provoca um estapear estulto.

domingo, 31 de julho de 2011

SOBRAS DO SER SÓ

Regina, de uns tempos para cá, deu para prestar atenção a certas coisas que parecem comuns, mas que, no entanto, passaram a significar certo excesso para ela. Começou a pensar nisto, quando, certa vez, retornando do trabalho para casa, ligou o som do carro e deixou-se ouvir um blues de B.B. King. Primeiro lhe veio uma emoção motivada por uma espécie de gozo, de prazer extremo. Daí, sentiu a necessidade de dividir aquele momento com alguém, mas percebeu que estava sozinha em seu carro.

Noutro momento, sentou em sua cama, pegou um livro de poemas e, ao ler os primeiros versos, novamente, sentiu que todo aquele momento de grande felicidade poderia ser partilhado. Não é a sua cama ou o seu quarto, relativamente grandes, que lhe provocam o sentimento de solidão, não. É a sensação de excesso que sente quando tem acesso a algo que gosta muito. E a certeza de que outras pessoas poderiam estar ali e usufruir também do mesmo momento e do mesmo prazer. Desde então, outras tantas vezes vem se repetindo a mesma sensação.

São grandezas de outra ordem. Um bom filme, um vinho especial, uma boa comida, uma peça de teatro. Enfim, coisas que, em grande medida, nos sentimos melhor quando acessamos em companhia de alguém. Melhor ainda, se esta companhia for alguém a quem devotamos carinho.

Parece uma abstração, mas não é. Pelo contrário, é bastante concreto. Regina fica a se perguntar se isto ocorre apenas com ela. Tem vontade de perguntar a suas colegas de trabalho se elas também experimentam tal sentimento. Mas, nas várias vezes em que teve o ímpeto de falar sobre o assunto, recuou. Tem medo de que alguém a considere maluca. Fica, às vezes, a observar uma de suas amigas a executar tarefas rotineiras para tentar perceber se deixa revelar algo que a interesse ou que lhe dê ao menos a chance de tocar no assunto. Mas nunca percebeu qualquer abertura neste sentido.

Ultimamente, tem evitado sair à noite, para não ter que, na sua refeição, parecer que belo peixe ao molho de alcaparras, tocado a vinho branco, possa trazer-lhe esta sensação de que, apesar de ser servido apenas o prato individual, aquele sabor, aquela situação, é demais para uma única pessoa. No entanto, não consegue se livrar completamente. Nem mesmo a presença do boneco Hermano em sua casa, com quem conversa durante as refeições ou quando está lavando louças ou roupas, tem evitado, de todo, sentir a presença de algum excesso.

Ao entrar em seu apartamento, para, diante da porta, olha-o por inteiro, e os lugares que sua vista não alcança lhe vêm à memória resgatar os detalhes. Claro, não é nenhum sofrimento isto que sente, pelo contrário, é sempre um prazer relativamente significativo poder consumir coisas bem escolhidas. O que a incomoda é que isto poderia se tornar melhor se fosse compartilhado. Mas até mesmo a repetição da mesma cena pode indicar, ou indiciar algo que não compreende.

Talvez por conta deste seu sentimento, por vezes lhe bate alguma dúvida que parece estranha: Seria isto alguma prova psíquica de que fosse ela uma pessoa egoísta? Na verdade, a situação que se revela parece até ser contrária a isto. É justamente o desejo de dividir com alguém seus momentos e seus lugares de prazer que a deixa desconfortável. Mas, sabe-se lá, as explicações simples nunca satisfazem completamente suas curiosidades.

Num momento desses, estava simplesmente meditando, à noite, a respeito de um passeio de barco que fizera naquela manhã. Pegou uma barca, destas que fazem a travessia Rio/Niterói, numa destas estações da Praça XV. Postou-se na parte superior em posição de observar a paisagem de que se distanciava e, ao mesmo tempo, tentar perceber também outras visadas: a ponte que liga uma cidade a outra como outra perspectiva de travessia, o deslocamento entre um ponto e outro, a brisa e a passagem que se pode sentir enquanto a barca se desloca. Não havia intenção de ir a lugar algum, apenas o desejo de experimentar esta transitoriedade. Foi e retornou, com o objetivo de observar o mesmo movimento, a partir de pontos diferentes. Uma experiência e tanto. Mas, agora, ali, pensando sobre tudo lhe veio uma felicidade tão grande e, no entanto, não havia ninguém por perto com quem pudesse dividir. Deitou e chorou até adormecer.

sábado, 23 de julho de 2011

SEXO DOS ANJOS

Santiago, conhecido pescador no literal cearense, deixa a terra rumo ao mar, ao sabor da brisa da madrugada. Na sua rotina de pesca, passa, por vezes, até 10 dias em alto mar em sua jangada de velas. Desta vez, Santiago teve uma experiência surpreendente. Já no oitavo dia em alto mar, onde céu e água, muitas vezes, se confundem, vê anoitecer sem que o tempo se torne de todo escuro. Há uma luminosidade sem explicação e uma sensação estranha em torno de si.

Experiente em coisas do mar e do seu ofício de pescador, Santiago jamais vira algo parecido. Dizem que pescador conta muitas histórias fantasiosas, digamos assim. É nisto que Santiago pensa enquanto tenta entender o que se passa. Algumas das histórias que circulam na vila em que mora são confirmadas pelo próprio Santiago, quer dizer, confirmadas no que diz respeito às possibilidades de ocorrerem, porque, de verdade, nunca viu nada de inexplicável: um peixe maior, desses que só se deixam pescar depois de muita luta; um mergulho em águas povoadas de tubarões ou arraias; uma ou outra tempestade, dessas que ameaçam virar a embarcação, enfim, estas coisas com que qualquer pescador lida, à medida que vai experimentando a vida em mar aberto, em busca do pescado para o sustento da família.

Sereia, sereia mesmo, nunca viu. Em raras situações, acordou no meio da noite como se ouvisse um canto, uma melodia de beleza inigualável, mas, logo ao acordar, somente o silêncio concreto, rompido com o estalar do corpo da jangada contra a superfície do mar é testemunha, nada mais do que isto.

Enquanto pensa sobre tais coisas, em busca de compreender o que ocorre, Santiago vê que, saída da claridade, se materializa em sua frente uma mulher belíssima. Tomaria por uma santa, não fosse por um detalhe, está completamente despida. Sorri para ele, diz o seu nome como se o conhecesse. O pescador olha em torno de si e não acredita, diz consigo que deve estar sonhando. Mas tem consciência de que mal anoitecera e não é seu hábito dormir tão cedo, quando está na pesca.

A mulher se aproxima e a claridade esmaece à medida que ela fica mais próxima. Santiago, paralisado, sente em seu corpo o abraço carinhoso da mulher. Eflúvios aromáticos perfumam o ambiente com uma fragrância jamais sentida em qualquer lugar. Enormes melros saltam em torno da jangada e o mar se agita tanto que a vela, em instantes, vai de um lado ao outro como se a embarcação fosse virar. O pescador se agita e usa todas as energias do seu corpo para acompanhar a fúria marítima. Num descontrole final, levita, levita, levita.

Um forte calor açoita a pele, e as pálpebras pesam toneladas. Santiago abre, enfim, os olhos como se acordasse de um sono de anos. O mar apenas estremece a jangada numa leve calmaria. O pescador tem a boca seca e o corpo exausto. Mais do que tudo, Santiago surpreende-se com uma coisa impensável, está completamente nu. Sua roupa espalhada no piso da jangada, cada peça num lugar diferente. Há muito custo, ergue-se e vai se vestindo devagarzinho, sem qualquer esforço, para entender o que aconteceu durante a noite. Não sente medo ou estranhamento, apenas uma sensação de felicidade extrema.

Enquanto toma pé da situação, decide retornar para casa. O pescado está do modo como deixara no dia anterior. Não é muita coisa, para os oito dias que pescara, mas também não é pouco. Dá para voltar com alimento e ainda uma sobra para a venda. Levanta vela e direciona a jangada em direção à terra. O sol já se põe, quando avista a faixa litorânea, o vento sopra leve empurrando a jangada.

Santiago observa que muita gente o aguarda, isto não é comum. Só quando há jangadas sumidas no mar, o povo da vila se posta à beira da praia, daquele modo. Pipocam foguetes, palmas, e sorrisos, para o receber em seu retorno para casa.

domingo, 17 de julho de 2011

DESATENTOS

Fugimos do olhar de poucas pessoas que nos observam e sabem de cor e salteado nossa vida, nos escondemos na multidão da cidade. Aqui, ninguém dá conta de nossa existência. Todos olham para si, cegamente. Os edifícios nos dão as costas e olham o vazio da janela do vizinho o tempo inteiro. Somos nós, sozinhos, que entrecruzamos as ruas de olhos rastejantes nas calçadas. Vemos somente à altura de uma roupa que desejamos nas vitrines, um manequim que se veste elegantemente, mudo.

O lucro tange e aglutina as pessoas; e o medo e a timidez embalam cada uma, isoladamente; o supermercado é para onde todos vão comprar mantimentos para os dias de trincheira nos apartamentos. O cinema reúne multidões na penumbra – o mundo passa na tela e é tão distante. Depois nos retiramos das salas de exibição e vamos remoendo a ilusão dos enredos fantasiosos por dias e dias.

Os shoppings lotam de pessoas sozinhas, escorrem e transbordam os corredores como peixes nos rios; transitam o dia inteiro de um lado a outro, entram por onde há portas abertas, escarafuncham coisas, levam algumas para casa e no dia seguinte são outras levas que se desconhecem mais uma vez. Repetem as mesmas ocupações como uma obrigação, como um instinto, como um comando programado, como se fossem todas iguais. Chegam ao mesmo tempo, preenchem os espaços do mesmo modo, desejam as mesmas coisas. Encontram-se nos mesmos lugares e se vão à hora marcada. Os lugares coletivos são lugares onde menos se conhece alguém. Beijar, se beijam tantos, ao mesmo tempo, que nem precisa saber quem são.

As avenidas, as ruas têm sempre carros e pedestres o dia inteiro, trafegam e se postam como vigilantes que se prevenissem de uma invasão. É contra um inimigo que desconhecem e não se percebem em vigília. Um medo linear ocupa os espaços, ameaça as esquinas e perambula em seu silêncio ensurdecedor. Os jovens em festa fazem ruído para assombrar as noites caretas. Depois, retornam aos leitos, marcam de acordar tardios, diferenças que se forjam num parecer extremo.

Ninguém suporta lugares em que uns veem os outros e sabem o nome, conhecem a família e as idades, observam costumes e dão palpites na vida uns dos outros. Pouca gente, em grupos pequenos, dá nisso. O melhor mesmo é a multidão onde ninguém se apercebe, ninguém vê a quem está mais próximo, não se reconhece ninguém. Dá para pintar e bordar sem que haja recriminações. Depois, nem precisa limpar a sujeira. O tempo é o senhor da irracionalidade. Todo mundo esquece, ou melhor, ninguém precisa esquecer o que não viu.

Todos os dias estão chegando às cidades levas e levas de pessoas que desejam montar sua tenda e se esconder no seio da multidão. Este movimento de convergir para lugares públicos e depois os esvaziar sem deixar marcas ocorre em ondas, demarcadas pelo relógio, no ritmo dos compromissos e do lazer. Nunca nos perguntamos para que serve o trabalho individual de cada um. Costurar um bolso, pregar botões numa fábrica, serve para quê? Está certo: para ganhar um salário no final do mês. Onde e como gastar este salário? Melhor ainda, salário, para quê? Aonde vai o dinheiro que cada um gasta na mercearia da esquina?

Nos bares sorvem-se milhões de litros de cerveja, outros tantos quilos de carnes são devorados, verduras e frutas são consumidas nos restaurantes, nos lares todos. Ao redor das mesas derramam-se conversas sem qualquer matéria, substâncias fluídas, desatam-se nós, isolam indivíduos para o resto da vida.

Para gritar e botar os demônios para fora, as multidões acorrem a lugares como estádios, por exemplo. Cada indivíduo aguarda dar de cara com uma câmera de TV, para que possa provar ao mundo a sua existência. Seria tão bom se as pessoas que estão à nossa volta e não nos veem descobrissem, na televisão, que existimos, que estivemos com elas num determinado momento de suas vidas. A multidão é refúgio.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

RODA MOINHO

No corpo da semana tatuam-se labutas e desejos de toda sorte. Das rodas, os trilhos em camadas de vezes repetidos, à exaustão dos itinerários. Os passos contrariam sentidos e também se repetem uns por sobre os outros, vezes sem fim, nos dias todos, repetidos. O suor enxugado, de tanto derramado como um choro poroso, renova-se no tédio tardio da mesmice. No sulco da pele aleitam-se pequenas torrentes sob o sol abrasador.

Segunda-feira. Move-se gente e mobilizam frutas, animais, ceras, cercas e cereais em sacos, sem saco, sem destino melhor conhecido. Sorrisos e apreensões amálgama de almas e coisas tecidas sobre o chão das ruas empoeiradas. Algarobas estendem ralas sobras onde se acoitam cães exauridos. Lojas e casas de portas abertas.

Terça. Cruzamentos estendidos ignoram o tempo e aquietam-se desertos. Nos bares, uma sinuca joga o jogo: tacos em giz. Desafio à morte, que espreita pacientemente. Uma mulher que passa; um menino atrás de uma bola; alguém sopra a fumaça, cigarro em brasa. Tosse há dias, os dias queimados em vão defluxam o peito. Promessa de ausência para breve.

Quarta. Uma festa anunciada para a noite movimenta os salões, as lojas de perfume, casas de variedades. As ruas recebem pessoas às pressas. Nenhum esquecimento, água em banho. O dia espera a noite em agito, ansiedade. Os encontros marcam os relógios e as almas planejam coisas íntimas, inconfessáveis.

Quinta. Voz embargada cumprimenta passantes. A cabeça arrasta a ressaca da noite anterior. O sono ainda pesa sobre os ombros. Nada que um bom banho não resolva. Todos parecem tristes como se a noite não houvesse cumprido o prometido. Todo o trabalho dos salões comprometido: cabelos desgrenhados, a pele empalidecida e os olhos borrados. Leva o rosto à água da torneira e deixa-se ver aos poucos no espelho. O dia é outro, há menos garrafas cheias nas prateleiras e nos freezeres. Um sono inteiro no mundo.

Sexta. Há uma sensação de alegria no ar. Ninguém comenta, mas já se comemora o final de semana a seguir. Roupa lavada, e passada a ferro em brasa. O vinco vai e vem como uma moda inconstante. Olha a roupa e imagina o que poderá vir dali. Veste para atrair o olhar que a desejar que tire, num confuso gosto pelo que compõe e decompõe a arte de conquistar companhias. O vazio que deve ser preenchido, sempre.

Sábado. Repete a quinta-feira pós-festa. Festa não houve, mas a conversa no bar rendeu e a noite esticou-se em meio à embriaguez da conversa e do álcool. Muita água para retirar do rosto as pegadas da noite, muita água para repor ao corpo a hidratação necessária. Muita água para limpar a alma depois da esbórnia. Memória de uma canção que diz “a água lava, lava, lava tudo, a água só não lava a língua desta gente”.

Domingo. O sol vai alto e um sono domingueiro estatelado no corpo à cama. Outro corpo, ali rendido, encena ato de parceria na peça de costume. Bom não pensar muito e viver o que o dia reserva como diferença da promessa. O jogo de futebol no campo de pelada, um banho de mar, piscina, rio ou cachoeira e a visita de gente nova, no mínimo, nas cores que o domingo pinta. A luz farta de domingo, a missa na igreja próxima e a TV sem nada que preste para se ver. Muita bobagem e preguiça, a pretexto de resguardar-se para o dia seguinte.

Segunda.

domingo, 3 de julho de 2011

CORRER O RISCO


Foto do autor

Diante da TV, sábado esportivo, o sol anima a ganhar o mundo ou a ficar entocado, só olhando pela janelinha eletrônica algum entretenimento mais interessante. Toca o celular, uma voz feminina, em tom de locução de aeroporto, diz que não a conheço, mas que está desejando me encontrar. Pergunto quem é, mas a pessoa prefere não se identificar. Vou puxando assunto para ver se reconheço a voz que me parece familiar. Diz que uma amiga minha deu a ela ótimas informações e por isto se interessou em me conhecer, pessoalmente.
Uma conversa deste tipo conduz a muitas deduções: primeiro, pode ser um trote. Alguém conhecido está brincando com a minha manhã de sábado. Se for mesmo esta a situação, melhor embarcar na história. Não há muito a perder, e não deixa de ser instigante uma brincadeirinha de esconder e descobrir.
Segundo, pode ser verdade, alguém que eu não conheço está querendo me encontrar. Neste caso, resta-me decidir, se eu também quero conhecê-la. É preciso que a conversa prossiga para ver se de fato há motivação que me leve ao encontro de uma pessoa que eu nem sei quem é. Uma pergunta se repete: Como ela sabe o meu nome e o número do meu telefone? Claro, se o que diz é verdade, a tal amiga informou tudo sobre mim.
Pensando deste modo, surpreende-me certo temor. E se for uma armação, uma destas práticas atuais em que alguém utiliza uma mulher para atrair um desavisado para uma situação de roubo ou sequestro relâmpago? A conversa já vai longe e não há um só detalhe que esclareça a situação ou a identidade de quem diz estar querendo me conhecer pessoalmente.
Assim, muitas possibilidades vão se desenhando, sem qualquer esclarecimento.
A pessoa sugere que nos encontremos às 18h na principal avenida do centro da cidade. Este horário é mais indicador de que pode se tratar de um encontro de fato desejado, não é tarde, apesar de sábado não haver muito movimento naquela região da cidade. Justifica que a escolha da avenida é porque está vindo de ônibus, de um bairro da zona Sul, e que a localização é mais adequada. Vir de ônibus é indicador de muitas outras coisas, mas será que é verdade?
Vou embarcando na história e fazendo interrogações. Quando pergunto, por exemplo, o nome de quem lhe deu meu número de telefone, desconversa. Posso tomar a decisão ali mesmo de desligar e interromper o papo, mas, como não há mais nada a fazer naquele momento e tomo gosto e curiosidade pelo desenrolar do mistério, vou adiante.
Observo a lista de atividades agendadas para esta tarde de sábado e decido incluir o encontro, depois de tudo.
Às 17:57h, ligo, conforme o combinado. Ela atende, pede desculpas e, em seguida, diz que só estará no local combinado às 19 horas. Diz que o ônibus atrasou e que este será o tempo correto para seu deslocamento. Peço, então, que, quando chegar ao local, me ligue. Aguardo.
Passa do horário combinado e nada de ligar. Resolvo ir ao shopping sem mais considerar o encontro como possibilidade. Encontro alguns amigos, ficamos conversando. Por volta de 19:45h, toca o telefone, é ela. Pergunta onde estou, respondo que estou na avenida, um pouco distante do lugar marcado. Ela diz que já chegou. Digo para aguardar um instantinho e vou ao seu encontro.
Ela está num ponto de ônibus e, para minha surpresa, não apenas tem muita gente como tem, pelo menos, uns três ônibus parados, pegando passageiros. Ligo e peço para ela vir para onde estou, avisa que já me viu, apesar do escuro. Vejo-a tocar o vidro do lado do passageiro, abro a porta e ela, enfim, toma assento.

sábado, 25 de junho de 2011

FERIADÃO

Manhã de domingo. Acordo com o calor incômodo de setembro. Olho o relógio digital para concluir que faltara energia na madrugada. Levanto-me e, inadvertidamente, ligo o chuveiro. A água fria recupera a memória de que não há energia. Banho-me depressa e saio antes mesmo que o corpo acostume-se com a temperatura da água. Desço para tomar café, insisto no isqueiro do fogão até me dar conta de que ainda não retornou a energia. Apelo para o fósforo, acendo o fogo, e ponho o leite para esquentar. Enquanto espero, resolvo fazer uma bananada. Pego o liquidificador, ponho a banana, o leite e o adoçante, e ligo em seguida. O aparelho não se mexe. Mais uma vez me dou conta que está faltando energia. Resmungo alguns impropérios contra a companhia de energia, todos os governos e desgovernos, impaciente.

Tomo café pensando em quanta falta faz a energia elétrica na vida urbana. Penso nos que podem estar presos no elevador, nos pacientes dos hospitais — em especial os de UTI —, nos cruzamentos das ruas com semáforos apagados, em quantas coisas ficam sem sentido numa cidade ou mesmo numa casa sem energia. O dilema de quem tem que dormir num lugar com muriçocas e calor: não pode embrulhar-se com o lençol porque o calor incomoda, não pode desembrulhar-se porque as muriçocas atacam. Um inferno.

Termino de tomar café, sento no sofá para ler o jornal, ligo o ventilador. Nem sinal de energia. Começo a achar todo este esquecimento repetitivo e ridículo. Vejo no jornal que o apagão da madrugada estava previsto, manutenção da rede, diz lá. Mas em outras matérias leio discursos de protesto contra o descaso com que a Companhia de Eletrificação trata seus consumidores. Há lugares na cidade em que falta energia cinco a seis vezes ao dia. Os aparelhos elétricos e eletrônicos, altamente sensíveis, apresentam defeitos resultantes dos constantes apagões. Prejuízo certo para os donos quando tais aparelhos são danificados pelas oscilações de corrente, pelos cortes bruscos, ou por descargas elétricas provocadas por raios, durante os períodos chuvosos.

Olho para o relógio e percebo que já são nove e trinta da manhã. A corrida de Fórmula Um, que começaria às 8 horas, está prestes a terminar. E não se consegue saber quem ganha a corrida naquele momento.

Ligo o laptop e, graças a carga da bateria, consigo acessar à internet. Mas não por muito tempo, percebo logo que o aviso de bateria fraca começa a piscar com maior insistência. De algum modo, tenho tempo de me informar sobre a situação da corrida.

Decido, então, retornar á cama e dormir mais um pouco. O calor continua lá. Não durmo um só minuto. Resolvo trocar de roupa e dar um giro pela cidade. Parece que todos os habitantes tiveram a mesma idéia. O trânsito está um caos, os cruzamentos bloqueados por carros em engarrafamentos gigantescos. Não há um só guarda para controlar tamanha balbúrdia e os motoristas, alucinados, conseguem piorar a situação ainda mais; cada um tenta buzinar mais forte que o outro.

Há muito custo, faço uma manobra e retorno para casa.

De volta, fico pensando o quanto estamos dependentes da energia elétrica e das tais próteses tecnológicas. Se eu tivesse saído a pé, não teria me estressado tanto e até teria me divertido vendo aquele povo todo em seus trancados em seus carros, com as mãos atadas as suas buzinas histéricas.

O serviço de fornecimento de energia vem piorando e parece não ter solução à vista. Por outro lado, os órgãos de controle do trânsito parece satisfazerem-se com os seus blocos de multa, numa hora destas não aparece um só de seus agentes.