sábado, 10 de outubro de 2009

UMA HISTÓRIA DE AMOR




O casal apronta-se para ir à festa, cada um em quarto diferente. Uma festa de família, um casamento entre amigos, numa localidade próxima. Ele, em sua magreza, tem que ficar subindo as calças porque o cinto não aperta a cintura e deixa a calça folgada, insistentemente. A blusa branca, a calça preta em pano passado.
Ela veste uma saia pregueada na cintura e solta na barra, pano fino feito cetim. Blusa de manga, com botões abundantemente enfileirados de cima a baixo. Batom leve e mais nada no rosto. Olha-se no espelho, pela última vez, mais uma vez. Um respingo de perfume na articulação de braço e antebraço, no avesso da mão e na ponta da orelha. Ergue o nariz e tenta colher no ar se não se deixou exagerar. Confirma seu gosto e dirige-se à sala onde ele a espera com impaciência. Ao perceber que se demorara além do devido, baixa a cabeça e comenta alguma coisa sem que se possa ouvir claramente o que seja. Ele se esquece que está aborrecido e pergunta o que ela teria dito ao que ela responde com um “nada não”, já risonho.
Ao chegarem ao local da festa, casa de sítio com amplos alpendres e o espaço invadido com a música alta e luzes enfileiradas até depois dos limites do terreiro. As mesas espalhadas parecem todas ocupadas. Ela suspira fundo a olhar para um grupo de rapazes postos logo adiante. Num olhar, ele a censura e, ao mesmo tempo, indaga onde poderiam se instalar. Ela, embora sentindo aquele olhar, minimiza, diz que não veio à festa para ficar sentada, quer dançar. Puxa-o para o salão onde o sanfoneiro rasga o fole e os dançantes gastam os sapatos no piso encerado.
Dançam até cansarem-se. Saem do salão e buscam algum lugar aonde possam conversar e ficar à vontade. Sentam-se num tronco de árvore afastado do burburinho e põem-se a conversar. Logo, ela percebe que o lugar ganha movimento e, mais ainda, movimento de mulheres. Observa que as moças que por ali passam voltam a agruparem-se adiante e ficam rindo, conversando e a olhar para onde está o casal. Sem mais nem menos, ela pede a ele a aliança. Ele, a princípio, não entende. Ela diz que quer, simplesmente, que ele entregue a aliança e vá conversar com as moças que não fazem questão de esconder o interesse nele. Afinal, diz ela, elas o estão paquerando desde que saíram do salão de dança.
Ele entrega a aliança, beija as mãos da mulher e vai ao encontro das moças que estão logo ali, em pé, falando e sorrindo, ao tempo em que olham para onde o casal está.
Ela sai caminhando devagarzinho em direção a casa aonde a festa vai animada. Encontra-se com alguns conhecidos que perguntam pelo marido. Ela responde que ele foi a algum lugar e prossegue seu destino. Mais adiante encontra umas amigas, cumprimentam-se, trocam algumas palavras e aos poucos um grupo maior está formado. Passam a botar o papo em dia, há muito não se vêem.
Sem que se dêem conta, as primeiras luzes do dia começam a surgir. Ela olha para onde havia vindo e não vê o marido e nem as moças que estavam com ele. Resolve então, ir a busca dele com o objetivo de irem para casa, a festa está quase terminando e ela não se agüenta mais de sono. Percorre quase todo o espaço aos arredores da casa e não o encontra. Resolve procurar dentro de casa e nada.
Quando já estava quase decidida a tomar o caminho de casa sozinha, vê um casal afastado, bem afastado da casa. Ao se aproximar ela o identifica. Caminha, então, na direção do casal e chegando ao local, percebe que os dois estão bastante à vontade em afagos e carícias. Ela para junto e eles nem percebem. Ela, sem alarme, pega na mão do marido e o puxa para si. Ele também não reage. Com calma, ela mostra para o dia que está nascendo e diz que está na hora de irem para casa.
A moça adota uma expressão de surpresa e desapontamento. Sem entender nada, vê como ele cede ao convite da mulher que acabara de chegar ali. Olha para as suas mãos no momento em que ela repõe a aliança no dedo do marido. Desesperada, corre aos prantos em direção a casa. O casal vira-se de costas e se vai impassível.

sábado, 3 de outubro de 2009

O PASSADO É O QUE CONTA




Emília é uma mulher muito interessante. Diz que seu gosto na vida é conhecer pessoas, lidar com gente é seu passatempo favorito. Conversa com desenvoltura e dá conta de suas tarefas no atendimento a clientes de uma clínica onde trabalha, sem problemas. Apesar de gostar de conversar, não perde tempo ao usar o telefone. Explica que, neste caso, o importante é atender a um número maior de pessoas e não falar além do necessário com uma única pessoa. Mas é atenciosa, educada e extremamente hábil ao lidar com isto que faz o seu gosto.
Mas Emília tem uma característica, no mínimo, curiosa: o passado exerce um fascínio muito forte sobre ela. Perde-se nas horas ao contar qualquer acontecimento do passado, especialmente, suas histórias de amor. De vez em quando ela pergunta ao atual namorado: — Você lembra-se de quando nos conhecemos? Ai, mesmo que ele não estimule, ela desfia todos os detalhes do primeiro encontro: a cor da roupa que ela e ele vestiam, as palavras trocadas, o lugar e a hora certa... tudo tim, tim por tim, tim.
Outra pergunta freqüente é: — Você se lembra do nosso primeiro beijo? Do mesmo modo, não sossega enquanto toda a cena e o cenário não são recuperados. As sensações que sentiu, o conflito que a deixou em desespero etc. etc. Bom, esta história de conflito, então, é típica de outras coisas igualmente recorrentes e que estão ligadas ao seu passado.
A começar por um casamento desfeito. Diz que o seu ex-marido a maltratava, a deixava sozinha e ia a passeios em lugares distantes, só com os amigos. Finais de semana ele só queria saber de jogar bola. Só retornava pra casa tarde da noite, bêbado. Sem contar que nestas situações, algumas vezes ele chegou mesmo a espancá-la. No entanto, ela conta tais agruras com certo tom de permissão. Diz que o entende e que não tem raiva dele, pelo contrário, é um amigo necessário, tanto que às vezes fica a conversar com ele horas e horas lembrando os bons momentos em que viveram juntos. Não declara, mas dá a entender que têm ficado juntos e se amado loucamente.
Outras vezes, lembra passagens do passado com sua família. A infância com os pais, os irmãos, os passeios e os lugares onde morou. O passado é, certamente, o lugar em que ela mais fica à vontade. É como se o presente só servisse virar passado e, por isto, tema preferido de suas conversas pessoais. Como se todas as suas experiências do presente fossem planejadas para se transformar em lembranças.
Além das histórias da sua vida de casada, conta também a história que aconteceu depois com um namorado de quem gostava muito. Aliás, demonstra que gosta até hoje. Diz que este foi seu primeiro namorado, após a separação. Diz que apesar de estarem namorando firme, ele saiu com uma amiga dela. Esta amiga armou uma situação da qual Emília nunca esquece: ligou pra ela e deixou o celular ligado enquanto transava com o tal namorado. Emília não teve reação, sua única saída foi chorar. Apesar disto, não guarda mágoa dele. Até tem saído com ele algumas vezes só para lembrar as coisas boas que passaram juntos e, também, para alimentar coisas novas para lembrar com ele, futuramente. Ela se delicia contando suas histórias do passado.
Ultimamente, diz que namorava um cara casado e que viveu com ele momentos inesquecíveis: muitas vezes iam para um Motel e não faziam amor, ficavam lá só conversando e brincando como se crianças fossem. O cara, um figurão da política local, prometia e jurava que iria descasar para ficar com ela.
Ele tinha tanto ciúme dela que às vezes a seguia pelas ruas. Quando ela menos esperava ele aparecia para abordá-la, sob qualquer pretexto. Outras vezes, não aparecia, mas ela o percebia estacionado numa rua próxima como se a observasse. Ao mesmo tempo em que isto lhe provocava riso de convencimento, a incomodava pela desconfiança demonstrada. Mas, também, não reclamava com ele.
Num certo dia, o rapaz apareceu com uma história de lhe pedir um tempo, um ano exato. Precisava tomar umas decisões na vida dele e o tal tempo seria fundamental. Nunca voltou, mas faz questão de deixar sinais de que está vivo e muito próximo, como se alimentasse alguma esperança. É um fantasma que a alimenta e é por ela alimentado. Ela sofreu muito, conta, mas não pode fazer nada. Diz ela que, dada a sua decepção, jurou que, desde aquele dia, nunca mais aceitaria a corte de homem algum. Fala isto com um sorriso malicioso, como quem diz: quem quiser que acredite.
A clínica, onde trabalha, é um lugar por onde passa muita gente com as mais diversas histórias, inclusive, algumas delas, dolorosas. Emília faz amizades com médicos, outras atendentes e sabe de cor a data de aniversário de cada um, endereço, telefone e a constituição familiar. Mas o que mais a deixa feliz é contar como, onde e quando, conheceu cada uma dessas pessoas.

sábado, 26 de setembro de 2009

O BRILHO DA FESTA





Hoje é dia de festa. Daqui a pouco, a empresa em que Antonio trabalha vai oferecer uma festa para todos os seus funcionários, parentes, amigos e fornecedores. Todas as providências estão sendo adotadas e está quase tudo pronto. A cidade é cruzada por centenas de ligações telefônicas onde cada um dos convidados quer saber informações, as mais diversas, do outro. Desde sugestão de salão para fazer o cabelo, comentário sobre expectativas para logo mais, até a necessidade de saber se há quem tenha um convite sobrando. Sempre chega alguém de última hora e a cidade inteira desejaria ir a tal festa. Comida e bebida garantida, e de graça.
A festa é oferecida a pretexto do aniversário da empresa que coincide com as fastas de final de ano. Mas, na verdade, ela serve de palco para a satisfação pessoal do dono da empresa que conduz as atrações contratadas, realiza os sorteios de prêmios e as efetivas premiações aos seus funcionários mais destacados, com presentes até de carros. Todas as decisões, todos os acontecimentos passam pelo dono da empresa e, consequentemente, o dono da festa.
Tudo, antes, fica a cargo de um organizador que goza da confiança do dono da empresa. A ele é entregue a responsabilidade de controlar o acesso, distribuir senhas para ocupação dos espaços e até para comprar a bebida e o churrasco. Para cada item um número com uma cor que informa a que cada um dos convidados tem direito naquele momento. Um batalhão de segurança controla o acesso ao estacionamento e a distribuição das categorias de convidados: políticos e empresários vão pelo corredor A, ficam sentados nas mesas próximas ao palco; os funcionários e suas famílias pelo corredor B e ficam nas mesas mais afastadas.
O roteiro de apresentações é conferido e os artistas são alojados em hotéis da cidade com traslado garantido pelo organizador. Agora, sim: tudo checado, tudo pronto.
Antonio olha no espelho seu porte avantajado naquela roupa comprada especialmente para a festa. Um detalhe no perfume aqui, uma penteada de leve. Um último olhar e a conclusão de que está melhor do que o planejado. Põe os sapatos e, pela última vez, vai ao espelho confirmar sua impressão. Confirmado, ganha o destino do local de realização da festa, um sítio na saída da cidade.
Segue para lá na maior felicidade. Ao chegar ao local, quase todos os convidados já estão devidamente acomodados. Sente-se como se estivessem todos a esperar por ele. Ergue o queixo, olha o horizonte das mesas estendidas e caminha a pessos largos, porém lentos, pelo corredor do meio. De longe, o seu chefe que, não por acaso, é o responsável pela organização da festa o avista: aquele homenzarrão imenso, vindo por entre as mesas, avançando com o silencio dos que o observam enquanto passa, vestido de camisa social branca, de mangas compridas, gravata vermelha e calça de listas verticais, meio largas, em preto e branco.
Ao chegar próximo ao chefe cumprimenta-o com um sorriso como se não houvesse observado ainda seu semblante contrariado. Percebe que naquele momento as luzes do palco se apagam como a anunciar que serão iniciadas as atrações da festa. Ele está sob o efeito dos olhares nada discretos que lhes são lançados experimenta uma sensação bastante particular. É a mais pura satisfação pessoal que sequer consegue dissimular.
O chefe, de cara amarrada, retribui ao cumprimento e o convida a um lugar um pouco afastado dali, meio na penumbra, onde não há mais ninguém. Ele concorda e, ainda sem se dar conta da situação, desloca-se ao lado do chefe para o tal lugar. Sem olhar no rosto do chefe, conduz o semblante de felicidade motivada pela visível manifestação do público que, na verdade, tinha como expectativa. O chefe quebra o seu encanto com um pedido, no mínimo, inesperado: — Antonio, quero que você vá para casa trocar esta roupa. E Complementa: Nesta festa ninguém pode chamar mais a atenção do que o dono dela.
Antonio perdeu o chão, perdeu o prazer, perdeu a graça. Saiu dali desolado pra nunca mais retornar. A única coisa que ainda o alimentava era que, ninguém que o viu chegar, o viu ir embora.

sábado, 19 de setembro de 2009

AMPARO E DESAMPARO




O coveiro Antonio Gaspar recebeu a ordem para que desocupe o túmulo que era da família Ferreira. Aquele túmulo que ele cuida com muito cuidado e que lhe traz tantas lembranças. Foi ali que ele conheceu Amparo. Várias e várias vezes ela contou para ele a história que acabou, como conseqüência, unindo os dois, ao menos, por uns tempos.
Amparo chegou a sua casa naquele dia, após o trabalho, e soube que o marido havia saído com o filho para dar um passeio, de bicicleta. Era hábito de Teobaldo, o marido, fazer aquele passeio à tardinha. Mas, justo naquele dia ela havia saído do trabalho mais tarde e esperava encontrá-los em casa, naquele horário já haveriam de ter retornado, como faziam sempre. Vendo que não haviam ainda chegado, passou-lhe um mau pressentimento. O tempo foi passando e ela ficando cada vez mais aflita. De repente, lembrou que no caminho do trabalho para casa, ali próximo, viu que havia um movimento como se algum acidente houvesse ocorrido. Todos que vinham no coletivo viram. E, de relance, lembrou que alguém comentou alguma coisa sobre um ciclista. Na hora, não ligou. Mas agora imagina que pode ter sido seu marido quem estava lá, acidentado.
Decidiu procurar então nos hospitais próximos e acabou encontrando o marido e o filho, mortos, no hospital municipal de atendimento de urgência.
Ela sofreu muito, como é natural. E, para aliviar o sofrimento, começou a ir ao cemitério todos os dias para visitar o túmulo do marido e do filho. Foi, então, que Antonio Gaspar a conheceu.
Em sua recordação, ele reconstitui o dia em que logo ao chegar para trabalhar viu aquela mulher se desmanchando em lágrimas por causa da morte do marido. Uma cena muito comum, não fosse pelo exagero com que a mulher chorava e lamentava o falecimento do esposo e do filho de sete anos.
Ele não entendia por que depois de tanto tempo presenciando cenas iguaiszinhas àquela, se comoveu tanto a ponto de se aproximar da mulher para oferecer ajuda. Sua oferta era, a princípio, desinteressada, apenas para acalmá-la e para ver a retirava daquele lugar e daquela situação. Mas as cenas foram se repetindo todos os dias dali por diante e o tempo em que ele passava com ela foi se alongando dia após dia.
Ficaram amigos, passaram a sair juntos nos finais de semana. Num certo dia, depois de um final de sábado repleto de festinhas e comemorações, ele acordou e percebeu que havia dormido na casa dela. Não lembrava como chegara até ali. Dormira fora de casa pela primeira vez na vida. A esposa deveria estar muito preocupada. Saiu dali, procurou um telefone e inventou uma história qualquer como desculpa.
Depois disto, foram ficando juntos dias, semanas e, como era de se esperar, ela engravidou. Não era para engravidar, mas engravidou. De modo algum ela quis tirar o menino. Gaspar também não insistiu. Tinha outra família com três filhos, mas Amparo não lhe cobrava nada, disse que assumiria a gravidez até sozinha se fosse necessário, ele ficou descansado.
Mas as coisas complicaram quando a esposa soube do que estava ocorrendo. E para piorar, Amparo foi reclamando mais tempo para os dois e, depois, os três. Com o nascimento do filho, não deu mais para conciliar as duas casas porque as cobranças se multiplicaram de ambos os lados. A esposa ameaçava sair de casa com os filhos. Ficou de tal modo insuportável que Gaspar e Amparo tiveram que se separar.
Ele soube depois, pela boca dos outros, que Amparo havia tomado a decisão de vender o túmulo da família. Dizia que era para poder juntar o dinheiro da venda com a parte de outra venda, a da casa em que morava, desejava comprar uma casa melhor. Mas Gaspar sempre achou que, na verdade, ela não queria mais o túmulo porque sempre que fosse lá teria de encontrá-lo. Não considera correto que ela tenha deixado que os restos mortais do filho e do marido ficassem sem abrigo, pelo simples capricho de um amor desfeito. No entanto, nada pode fazer, não tem onde guardá-los.
Agora está ali, com aquela ordem na mão. Terá que cumprir, afinal é o seu trabalho, mas entende que aquela tarefa é para ele como se estivesse desenterrando a si próprio e o seu passado.

sábado, 12 de setembro de 2009

ÓCULOS E DISCURSOS PERDIDOS.


Foto do autor

Tenho que viajar amanhã cedinho e, apesar das altas horas da madrugada, ainda estou aqui revisando um discurso que acabei de redigir. Os olhos parecem trocados e, vez em quando, fico um pouco confuso, as letras mexendo-se no teclado do computador. Na verdade, não é amanhã cedinho que eu devo viajar, é daqui a pouco, às 6:30h da manhã.
O dia desfaz a noite e eu tento imprimir o discurso enquanto a impressora encrenca. Não imagino por qual motivo. Começa a me bater certo sentimento de que talvez não consiga imprimir o texto e depois tomar banho, tomar café, trocar de roupa e depois de tudo, chegar a tempo de tomar o avião para a Bahia. Acho que eu esqueci de por nesta ordem de tarefas a mala que ainda tenho de fazer. Isto se a impressora resolver colaborar. Ah, finalmente. O texto impresso, sem problema.
O que é mesmo agora que eu tenho que fazer? Volto ao parágrafo anterior, bom, tenho que tomar banho. Ligo o chuveiro e deixo a água ir esfriando o cérebro (ou quase isto). A sensação do banho me reanima e as coisas parecem menos problemáticas. Confira a lista acima e veja as outras coisas que eu vou fazendo. Claro, ponha antes de tudo a mala.
          Desço arrastando a mala pelas escadas porque não tenho tempo para ficar esperando o elevador que, por desconto de pecado, acaba de passar reto no andar que estou agora, não atendendo ao meu chamado. Chego, finalmente, à portaria, comigo, os passageiros do elevador que ignorou o meu chamado, que chegam junto.
Tomo o táxi e comunico ao motorista para baixar o pé, sem dó. Ele me olha desafiador e segue em marcha lenta. Peço para ele parar, quero apanhar um táxi que respeite a minha pressa. Resmunga algumas coisas indecifráveis e vai adiante. Protesto, mando que pare, ele não escuta. Acelera um pouco mais e vai adiante, calado. Percebo que me observa pelo retrovisor, com cara de poucos amigos. Xingo, comigo, ele e várias gerações dele.
          No aeroporto, nenhum aviso de atraso de vôo. Pelo menos isto me alivia. Em pouco tempo, estou acomodado olhando, sem escutar, o discurso cheio de gestos que uma comissária de bordo faz diante de mim. Depois disto, a aeronave já está pousando no aeroporto de Salvador. Dormi pesadamente, concluo.
Vou para o Centro de Convenções e lá encontro o grupo de recepcionistas que estavam me aguardando. Falam dos procedimentos, me comunicam que a minha participação é a primeira. Entre eles, uma jovem que me convida para sentar num quiosque enquanto não inicia. Sentamos numa mesa afastada, ela pede uma cerveja. Conversamos amenidades, não quero retirar a surpresa da fala que está no meu discurso depois de ter atravessado a noite em claro pensando e escrevendo cada palavra, caprichosamente.
Retiro os óculos para limpar a lente e, como que por hábito, guardo no envelope que está sobre a mesa, junto com o texto do improviso. Bate uma chuva repentina e nos retiramos da mesa às pressas. A garota tem um papo interessante e a cerveja a deixa cada vez mais atraente. Ou seria a carência? Discutir isto agora não faz o menor sentido. O que é certo é estamos nos dando muito bem. Vejo que nos chamam, é um dos caras que me recebeu quando cheguei ao Centro de Convenções. Avisa que temos que ir para o Auditório, serão iniciadas as atividades do evento e eu serei o primeiro a falar.
          Chamam-me para a mesa e a garota senta-se ao meu lado. Sinceramente, não ouvi ninguém anunciando seu nome, mas também não vou polemizar, não me cabe. Até gosto que ela esteja ali, ao meu lado. O presidente da mesa me anuncia e me passa a palavra. Acho estranho que eu não consiga distinguir com clareza as pessoas á minha frente, sentadas naquele auditório. Param de aplaudir, procuro o envelope que deve estar comigo e que tem o texto do discurso. E os meus óculos, também. Entendo porque tenho dificuldades para distinguir as pessoas. Não encontro o tal envelope.
Resmungo uns impropérios, enquanto um silêncio pesado cai sobre o tempo. Sem o discurso e sem os óculos, agradeço o convite, a presença de todos, cumprimento os ocupantes da mesa e fico sem saber mais o que dizer. Passa pela minha cabeça uma solução estapafúrdia e, sem que eu mesmo me controle, passo a palavra à jovem ao meu lado alegando que ela é baiana e que, certamente, tem mais o que dizer do que eu. Para o meu espanto, a garota se levanta, toma o microfone e dana-se a falar asneiras, coisas sem sentido. Surge um ensaio de vaia, mas não prospera. Não sei o que faço aqui, sem meu discurso e sem meus óculos.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

COISAS QUE NÃO FALAM DIZEM COISAS



Um cheiro de tarde entra pela janela aberta, um vento frio agita as cortinas e esfria o tempo no interior da sala. Levanto-me com o intuito de fechar a janela, antes estico o olhar por sobre a grama amarelecida que o vento despenteia e que contorna a casa, antes que a vista alcance a areia da praia. Adiante, o mar encrespa-se. Penso que pode haver ressaca esta noite. Fico um bom tempo observando o agito da brisa e um pedaço de papel de jornal me chama a atenção: vem rolando sobre a grama, como se brincasse, ao sabor do vento frio. Para próximo à parede da casa, detido por um ramo seco fincado na areia.
De imediato, me dou conta dos movimentos diversos ali expressos: tudo o que move os procedimentos de fabricação do papel, os processamentos industriais de produção da notícia impressa nos jornais e, contrariamente, o tempo atuando sobre o papel até deixá-lo com aquele aspecto envelhecido; a primeira condição daquela página numerada, como parte de um caderno, até sua nova condição de fragmento solto e entregue ao vento; a origem, o seu lugar de partida (jornal O Povo, Fortaleza, Ceará, edição de 18 de abril de 2002), e sua trajetória até ali, sendo deslocado como se vida própria tivesse; o objetivo de tornar-se notícia, como novidade e atualidade, e o seu estágio atual de lixo urbano em decomposição. Neste aspecto, amanhã já não estará mais ali, o lixeiro há de catá-lo junto com as folhas e outros detritos.
Num arquivo do proprio jornal, de uma biblioteca ou de um museu seria memória, seria história, material para pesquisa para o interesse de vários cientistas: historiadores, sociólogos, comunicólogos, professores etc. Uma narrativa acerca da realidade de um lugar, num tempo determinado, com registro do tipo de fazer e pensar de alguém, de uma comunidade, de uma época. Problemas humanos observados sob diversos pontos de vista.
Por pura curiosidade, busco ver que notícias aquela quase folha de jornal traz. Deve ser pouco mais de meia página, rasgada irregularmente na parte anterior. O título de uma das matérias anuncia seguinte: “Placa com nome errado de avenida está exposta há 2 anos”. O texto fala sobre uma placa indicativa numa Rua de Fortaleza chamada 31 de abril. Nem me fixo muito em qual calendário a Prefeitura de Fortaleza pode ter encontrado o mês de abril com 31 dias ou mesmo no disparate que é uma placa de rua homenagear uma data que não existe. Que fato poderia ter ocorrido nesta data? Sim porque uma data não tem nenhum valor se não marca um acontecimento importante. De imediato, penso em quantas pessoas devem se orientar pelas placas das ruas sem ao menos refletir sobre do que tratam: datas ou nomes de homenageados.
Todos os dias passamos por placas nas esquinas das ruas e não nos perguntamos sobre a pertinência do nome da rua, da justeza da homenagem e nem sobre se estão corretos ou não os dados ali postos a nos servirem de orientação. Por que alguém agora se deu conta que há dois anos uma placa de uma Rua no Bairro Aeroporto, em Fortaleza, se chama 31 de abril? E por qual motivo este pedaço de jornal veio parar nesta praia, tão distante do Ceará?
Deixo em paz a página de jornal e estico a vista para mais adiante onde uma canoa balança, movida pelas ondas do mar. Não tem ninguém sobre si, fica-se a resvalar nas ondas e agitar-se mais ou menos a depender do tamanho de cada onda que lhe impacta. A pouca luz que ainda resiste à tarde mostra suas tábuas escurecidas e restos de cores vermelhas e azuis em faixas paralelas que lhe devem ter sido pintadas quando antes mais nova. Seu estado fala do tempo gasto ao longo de chegar até sua condição atual. Fala, talvez, do descuido do seu dono que não lhe renova as cores. Ou, quem sabe, da precariedade dos recursos que possui que não lhes permitem pinta-la novamente.
Fala de suas idas e vindas ao alto mar em busca do peixe para a venda e para a mesa do pescador: o atrito com a água deve ter-lhe esmaecido as cores. Não há dúvidas de que se trata de um pescador, nesta região não existem pescadoras que utilizem canoas para arriscar-se em mar aberto. Uma vez ou outra, vemos alguma mulher pescando à tardinha, mas de anzol, á beira do mar. Usam o caniço longo e arremessam o anzol distante, ficam-se ali até que algum peixe miúdo belisque, donde vão enrolando a linha até ter o peixinho à mão. É só um espécie de prazer que têm, o de fisgar peixinhos miúdos ao final das tardes com os pés fincados na pouca água que as ondas arremessam mansamente.
Agora, olhando para dentro de casa, a escuridão me diz para acender uma luz. A pele resfriada pede para eu fechar a janela e ir-me requentar no interior da casa ou na sopa quente que me espera à mesa.

domingo, 30 de agosto de 2009

CENAS URBANAS



Ruas tramam traçados: cruzamentos, vias públicas, vilas, valas. Poças encalham esgotos a céu aberto, olham azul o céu negro. Roupas estendidas, corpos estendidos, olhos espichados, estendidos. Pouca gente, pouca roupa, comida pouca sobre a mesa.
Crianças adornam as praças e empinam sonhos e graça sob o sol. Pipas pontuam o azul e riscam, enlinham-se nos cortes do cerol. Choro, sangue, faz de conta corta a ponta e alça outra vez: isto é o que conta. Vielas recortam muros, casebres, costados, lado a lado, rente colados. O trilho treme sob o trem, a terra estremece também.
Cachorro adormece e sonha fins de semana, grunhe mansamente entre o sol e a areia seca. Sua sombra sua sobre a cama e o resto do tempo descamba sem movimento. Pedaço de telha, caco de vidro, tábua com pregos ao seu redor.
Crianças esguias esgueiram-se nos logradouros: menino, cata-vento; menina, catapulta. Boca aberta ao Deus dará, pernas e braços idem. Graves laços enlaçam grossas promissões. Larvas lerdas lançam-se nas águas paradas e mosquitos picam novos pontos. Um mundaréu de casas, acesas feitos brasas, enfileiram-se, tijolo sobre tijolo, massa ao meio.
Uma bodega de esquina revolve gente. Uns que entram, outros que saem. Entram firmes e saem trôpegos. Uma esquina, um canto com entradas e saídas insistentes. Verde desbotado sobre o vermelho riscado do cenário. Picolés, pingas, conversa exaltada, miolo de pote: aguardente.
Sob uma latada o corpo de um bode, dependurado – retiram-lhe o coro. A carne exposta, as vísceras expostas – retiram-lhe o fato, o fígado, o bofe. Olhos esbugalhados a ver o nada diante de si, de cabeça para baixo. Miram-lhe olhos de expectativa: um quilo para cá, meio quilo para ali – vão-se as suas carnes. Restam-lhe os ossos descarnados. O cachorro sonolento ergue a cabeça e aguarda receber sua parte.
A igreja no alto do morro finda a rua. Portas abertas aguardam engolir fiéis ao fim da tarde. Um ou outro mais piedoso põe-se de joelhos e espera, junto ao altar, a olhar os santos que miram o infinito. Adornos de flores ornam as orações. A fé preenche o espaço com sombras de alívio, o sol castiga lá fora. Ponto branco sobre telhados cinza escuro. Somente uma senhora, sem hora para outras ocupações, ora àquela hora.
Tempo ou outro soa o sino repicando as marcas do tempo que se vai e anunciando as fronteiras do que virá. Vez em quando há silêncio no vento que dissimula-se nas ruas. Um ladrar distante, um galo mais próximo e o gralhar de pessoas em revoada. Ondas que se diluem no vácuo do dia. Um assobio experimenta melodias desconcertantes. Uma risada também estilhaça o silêncio. O ronco de uma motocicleta raspa as ruas até desaparecer no longe da avenida principal. Por longos tempos o ônibus se ausenta e cessam seus ruídos. No ponto, um esperar sem fim.
Uma algazarra repentina denuncia um jogo de futebol nas proximidades. Jovens demarcam o chão e marcam com pedras o lugar do gol. Qualquer coisa parecida com uma bola rola aos pontapés, em meio à disputa que se trava no interior da poeira que se agita. Gritos, xingamentos, empurrões e risos nervosos compõem a trilha daquela tarde.
Das janelas, mulheres observam tudo sem se darem conta de que também são observadas. Esgoelam um bocejo e trançam os cabelos, olham-se e sorriem à-toa. Nas calçadas, casais sentam-se à sombra e conversam coisas de sempre: o calor do dia, a falta de energia da noite anterior, a vida de alguém conhecido... vão-se desfiando temas sem consequência como que para matar o tempo.
Espreguiçadeiras recebem corpos envelhecidos. Logo uma brasa acende o fumo e pitam fumaça de cheiro forte. Domingo pede cachimbo. Domingo pé-de-cachimbo.