sábado, 23 de janeiro de 2010

DESCARRILADO



O mundo gira e oscila em derredor. Os pés não encontram a visão das calçadas, as formas todas se deformam sem parar. É tudo um delírio que o estômago projeta para fora em fluxos espasmódicos. E o que mantém a repetição destas sensações incômodas é a necessidade do esquecimento dos problemas, pelo menos por alguns momentos. Nãobusca de causas nem dúvidas sobre qualquer coisa, o delírio se assenta na mais perfeita ordem do vazio.
O time ganhou, a aprovação no emprego é certa, o filho não tarda a nascer. É tudo uma festa . Motivos não faltam. O ritmo e o som da noite repercutem forte dentro da cabeça, sob o comando de caminhar sempre para frente. Luzes multicoloridas acompanham na mesma batida. Gargalhadas femininas aproximam-se e afastam-se lentamente, em meio à confusão de pessoas sem rosto, numa dança frenética. Uma fumaça densa confunde as linhas e exala um cheiro forte.
Vez ou outra uma buzina sobressalta e um palavrão alivia o coração, sem mais sentido. Noutros instantes, vozes se misturam num alarido sem nexo. Por vezes, silêncio sepulcral. O exterior traspassa e esvai tropegamente.
Não há calor nem frio e ninguém mais parece estar junto. A boca seca não é sede exatamente. O amaro da língua empesta as coisas todas. Um incômodo nos lábios renova-se com a sensação de estar queimando. Um na garganta e no peito um vácuo sem fim.
Parar não é possível, não há razão. Não se dimensionam os passos para mais ou para menos, enquanto as pernas cambaleantes imaginam traçar paralelas: se encontram no infinito. No entanto, os braços inertes e adormecidos abraçam paredes disformes. As mãos tocam a impenetrabilidade do depois. Alguém chama insistentemente por um nome que não encontra registro na memória. Parece que soluça um choro histérico e desesperançado. Por instantes, grilhões prendem os pés e as mãos e alçam o corpo em voo lento e rasteiro. Gritos de socorro vêm de todos os lugares.
A escuridão abafa todos os ruídos como se pusessem um tapa-ouvidos. Os sons abafados vêm de dentro e circulam nas veias num ir e vir acelerado. Medo e dúvida são agora os sentimentos predominantes: medo de quê? Dúvida de quê? Nada tem explicação. Embora não mais sinta que caminha, parece que o corpo projeta-se para frente de algum outro modo. Estremecimentos e impressões de paradas bruscas seguidas de arranque seguem-se após longo período de inércia. Pequenas réstias sucedem-se rapidamente como se quisessem arrancar os olhos. Não adianta cerrar, as lâminas de luz dissecam as retinas em dores agudas cada vez mais fortes.
Retorna a claridade e vozes indecifráveis. O corpo é novamente arremetido e esbarra sobre uma superfície irregular que também ganha movimento, sempre para frente. Bate um cansaço e um sono que aos poucos vai misturando as imagens chacoalhadas na cabeça. Um alívio profundo e uma alegria ímpar tomam conta. Não faltam motivos.

sábado, 16 de janeiro de 2010

NA SEXTA



Quando Regina vai morar no Rio de Janeiro imagina que o sofrimento provocado pela adaptação de viver sozinha será por pouco tempo. Pensa: “logo, logo me acostumo e tiro de letra”. Mas ela descobre que, à medida que o tempo passa, vai ficando mais só. Não entende como antes, quando não conhecia ninguém no prédio onde mora, nem no trabalho, nem no supermercado, nem em lugar algum, sofria menos. Hoje, Regina continua com medo de circular sozinha pelas ruas de Copacabana e até, de vez em quando, tem umas paranóias de se sentir seguida. Várias vezes tem sentido esta sensação. Mas agora, já conhece a família que mora no apartamento vizinho ao seu. Já chama os porteiros pelo nome e, vez ou outra, pede a um deles para ajuda-la a subir com as compras. Depois de muito resistir, até aceitou ir ao cinema com um colega de trabalho que vive dando em cima. Deixa-lo ir ao seu apartamento está fora de cogitação, mesmo se decidir namorá-lo um dia, pensa.
Para sua insatisfação, parece que quanto mais passa o tempo, mais se esgarça sua resistência. E isto porque, pelo menos duas vezes por semestre, viaja à sua terra para encontrar a família. Nessas viagens, já sente, curiosamente, que depois de dois dias começa a sentir falta do seu apartamento, do trabalho, em fim, do Rio de Janeiro. Isso a deixa ainda mais confusa. Agora é uma mulher dividida e tomada de saudade onde quer que esteja: se no Rio, sente falta da terra e da família. Se com a família, sente falta do Rio, inclusive, da companheiro de pano que arranjou para si e com quem mais conversa quando está em casa, especialmente, à noite.
Nesta sexta-feira, Regina acorda sentindo oco, um vazio impreenchível, difícil de suportar. Levanta-se meio sem disposição, estranhando o frio de agosto. A pele arrepiada incomoda de maneira incomum. Pega o fósforo sobre o fogão, em câmera lenta, e quase não consegue girar o botão que libera o gás do aquecedor. Espera a água esquentar. Testa com a ponta do pé, depois com a palma da mão. Nada. Continua fria demais. Decide, então, escovar os dentes enquanto a água do chuveiro aquece. Para não desperdiçar, deixa chuveiro fraquinho. Assim esquenta mais depressa.
Não se reconhece no espelho, os cabelos desgrenhados, os olhos cheios de saudades, a boca sem graça. Definitivamente, acordara a pessoa errada. Em meio a confusão de sentimentos, passa pela cabeça momentaneamente tratar-se do seu amigo de pano. Imagina ser um sonho, ridiculariza o pensamento anterior. Mas seu cabelo está de tal modo desalinhado que, ao abrir a porta do armário para apanhar, finalmente, a escova de dentes, apanha o pente ao invés da escova, retira-o e fecha o armário. Ao se dar conta daquela situação, irrompe uma vontade sem controle de chorar, ao mesmo tempo em que uma gargalhada arrebenta nervosa.
Depois de algum momento sem saber se ri ou chora, afinal, acalma-se. Devolve o pente ao seu lugar, apanha a escova e o creme dental. Olha para o espelho, faz caretas como se a zombar dele. Começa a escovação, lentamente. Aos poucos chega aos seus ouvidos o ruído da água do chuveiro que deixara ligado para aquecer a água. Junto com o ruído da água, o frio sobre pele. Sente como se estivera dormente aquele tempo todo. Sexta-feira, repete para si. Sente uma necessidade enorme de entender o que este dia pode significar dito daquele modo, de si para consigo.
Uma avalanche de lembranças recupera as sextas-feiras em sua vida. Desde a promessa do pai de levá-la ao circo no domingo, os encontros marcados e desencontros imprevistos, porém, marcantes. O café engolido as pressas, a visão antecipada do percurso dentro de um ônibus até o trabalho, as ruas, os prédios, Botafogo, Aterro, Flamengo etc. Sexta-feira repercute no inconsciente, ainda sem saber ao certo o significado deste dia naquele momento de sua vida. O onibus avança com o dia levando Regina consigo.

domingo, 10 de janeiro de 2010

FLAGELADO




O sol de concreto arde à pele da terra. Uma concha de azul desbotado, emborcada sobre o cinza da paisagem incinerada, delineia o horizonte distante. Uma estrada de piçarra que vai do sertão ao litoral, riscando a monotonia da caatinga, estremece a extremidade distante. O vento quente redemoinha a poeira do meio dia. Pendurada à estrada, uma casa de taipa refugia-se à sombra rala de um cajueiro. No interior da casa esgueiram-se os moradores.
No cenário de sol saturado, alguém se desloca na piçarra aproximando-se lentamente mais e mais. Chega à casa e, emoldurado em contra-luz, à meia porta, bate palmas. Uma mulher vem atender e refuga os traços. Os traços, trapos do homem esmolambado que pede água, assustam.
Em tempos secos circulam estórias de pessoas que, a pretexto de pedir água, invadem as casas para saquear. O terror se interpõe. Mas, sob a proteção da luz do dia, a mulher retorna à cozinha para apanhar a água. Entrega-lhe o copo de alumínio, machucado, ao pedinte. Ele estende a mão direita para apanhar o copo e, ao mesmo tempo, estende a esquerda como se tentasse pegar o braço da mulher. De supetão, ela empurra o copo e recolhe o braço. O homem toma a água e guarda num saco sujo o copo, sob os protestos da mulher. Ele se vira e, com a mesma lentidão com que chegou, se afasta e retoma a estrada.
O sol declina e a tarde esvai-se à boca da noite.
Por essas épocas é comum que apareçam seres estranhos que tentam escapar à escassez da seca ou, simplesmente, perambulam sem rumo pelas estradas. Transitam como cometas que só retornam sob as mesmas condições. Mas também surgem outras estórias, as mais diversas. Abordam enredos em que estas pessoas que esmolam são representadas como personagens envolvidas em violência e mistério.
A noite avança e o movimento da casa vai se encaminhando para a dormência após o jantar minguado. Luzes de lamparina estremecem sob a brisa suave ao som dos grilos e, vez em quando, o canto de uma coruja. Enquanto armam as redes nos lugares marcados, ouvem que batem à porta. A mulher achega-se receosa e olha pela fresta, vê que se trata do mesmo homem em trapos que passara anteriormente, a pretexto de pedir água para beber, e levou consigo o copo. Ele está em pé, diante da porta, aguardando que o atendam. Visto que naquele dia apenas ela e as crianças estão em casa, resolve não abrir. O marido saíra para trabalhar numa frente de serviço do governo e só retorna no final da semana. Sem abrir a porta, ela pergunta o que ele deseja. O homem não responde e como se não a ouvisse volta a bater na porta.
Tomada de medo a mulher decide não alarmar para não assustar as crianças, pede que ele vá embora e que não abrirá a porta àquela hora da noite. Informa que adiante há uma mercearia com grande alpendre onde, geralmente, se arrancham caminheiros.
O homem insiste nas batidas, elas vão encurtando ficando mais insistentes e em intervalos cada vez menores. Ela, percebendo que as crianças se aproximam, resolve acalma-las, mas sem sucesso. Choramingam e pedem que ela não abra.
A mulher sabe da fragilidade da porta, no momento que quiser aquele homem entrará na casa. Ele pára de bater a porta. Ela sente um breve alívio e milhares de pressentimentos lhes vêm. Pode estar-se preparando para novas investidas. Pode estar tramando outras ações... Enquanto medita vai juntando ao pé da porta o que pode empurrar para dificultar que o homem entre. Olhando pela fresta observa que ele caminha à frente da casa de um lado para o outro, lentamente. Vez ou outra ele volta a bater forte a porta. Cada toque é um susto.
De tão distante a casa está de outras casas que não adianta pedir por socorro. Naquela estrada, àquela hora, ninguém caminha. Só raramente. Sem alternativas, resolve trancar-se no quarto com as crianças e deitar-se com elas numa mesma rede. Ali, juntinhos, adormecem.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

MIMESE




O cenário em que me movo matiza-se dos meus gestos, das cores que gasto neste roçar cotidiano. E tudo toma feições de um personagem em que me reconheço. E me assusta verificar que o desgaste que se produz na vida estampa-se nos mínimos detalhes em tudo o que me rodeia. A experiência deixa fragmentos e se formam crostas invisíveis na superfície dos rostos à minha volta, no limbo dos dentes à mostra em risos cúmplices, nas vestes que vestem os corpos que circulam ao meu redor.
O tempo tem unhas e cardos que arranham e sulcam a minha pele marcando o rascunho dos dias repisados. Há gente que experimenta as minhas dores e sofre por coisas que não lhe pertencem como se fossem suas. Gente que me vela o sono sem que revele quaisquer intenções ou motivos. E no rosto e na alma de cada uma destas pessoas estampam-se resquícios de mim que resultam deste pegar-se, deste abraçar-se com unhas e dentes, na labuta. Ou, por outro lado, pela simples condição dos afagos e piscar de olhos que trocamos em nossas encenações diárias.
A camisa verde-musgo estendida no varal desbota-se ao sol verde-musgo que impregna a roupa dos meus. O muro esverdeado circunda a casa e, frio, resguarda a cor que, afinal, mimetiza. A grama prossegue esverdeando a camisa estendida no varal. Beija-flores estampam cores outras e dissimulam, simulam um verde gasto que contrasta com o vermelho vivo da Amapola recém beijada.
‘Enquanto se faz, o silêncio embaralha sons do seu fazer-se. Este é o meu silêncio aquele que silencio por mim e que se confunde comigo quando calo. Ou, quando falo, nos interstícios das palavras, no vazio da dúvida antes de pronunciar-me. Também este silêncio carrega sotaques em que me reconheço.
No mais, as ruas, as casas, o bairro perfazem o meu universo. Os monumentos erguidos em praça pública têm traços meus e sofrem o desgaste do tempo como eu. A sombra em que me deito quando cansado, quando busco os lastros amplos que devem amparar o meu corpo, ou a roda de amigos ao final da tarde, em conversas sobre amenidades, são a glória de minha história.
As calçadas guardam meus rastros no mais profundo de suas camadas, para além da superfície em cimento duro, por puro repetir-se. Os meus passos em trajeto de idas e vindas, no trançado das esquinas me conduzem a destinos diversos, cotidianamente. Cada fenda, cada falha, toda folha caída, os becos sem saída, tudo me tem na pele e nos sustos, sem muito custo. São espelhos em que, de tanto mirar-me, guardam imagens minhas sobrepostas e ofertam as opções em que devo escolher sobre como desejo me ver em cada um dos momentos.
O clima das estações que se vão e vêm, o início e o final dos dias: seus cheiros e cores. As datas comemorativas ou promocionais lembram-se de mim. O perfume que, mesmo depois de tanto tempo de esgotado o frasco, ainda anuncia minha presença. As narinas estão impregnadas destes odores e a boca, dos paladares que são meus.
A noite tem a minha cara caso atormente-se com o escuro e a solidão. Se a chuva encharca a noite e acarinha os lençóis, se o tempo frio pede alguém por perto. Se à mesa da sala de jantar põem um prato raso e sirvam peixe cozido. Se os jornais e as novelas da TV chamam atenção sobre si e exigem silêncio, atenção. Se, tarde ainda, se ouvir um riso que chama à vida que se apresente com bom humor. Traços que refaço como uma picada por onde transito a minha rotina, uma vereda longa, estreita e conhecida logamente.
Os livros carregam meu nome como marca de posse. Porém, mais do que isto, carregam minhas digitais, suas páginas embebem suores, lágrimas como mata-borrões de tempos vividos. Não são apenas meus, são eu. As mesas e cadeiras, além de cúmplices, conformam usos que outros não suportariam, apenas a mim se ajustam tão bem. As cenas que se apresentam neste cenário reconstituem o roteiro de uma experiência muito particular, cada vez se propondo nova. Apesar dos gestos gastos em se refazer, em guardar de mim o menor traço, de modo tão ostensivo e delineie comigo o percurso que faço, cada linha sua é minha em traço.

sábado, 26 de dezembro de 2009

EURICO FICOU RICO




Dizem que Eurico ficou rico sem mais nem menos, de uma hora para outra. Há quem diga que ele acertou na loteria, que ele recebeu uma herança ou, ainda, que ele arrancou uma botija com moedas de ouro. Só não falam que ele enricou trabalhando. O certo mesmo é que dizem que Eurico ficou rico.
Os que espalham que Eurico acertou na loteria juram de pés juntos que ele jogava a mesma série de números há bastante tempo. De tanto insistir, acabou por acertar e recebeu uma gorda bolada. Depois de assim se expressarem, riem com deboche: “Bem que uma gordinha destas vale a pena” — dizem. Não satisfeitos, dão nome e endereço da Loteca onde o jogo foi feito.
Os que divulgam que Eurico recebeu uma herança, dizem que, apesar de todos saberem que ele foi criado num orfanato e que nunca conheceu nenhum parente próximo, chegou para ele uma correspondência dando conta que alguém do estrangeiro, parece que um alemão, salvo engano, lhe havia deixado uma boa soma em conta bancária, conta aberta em seu nome. Comentam que o falecido se dizia pai de Eurico e deixou registrado em testamento que o resto de sua família não poderia tocar na parte da herança que cabia a cada um antes que encontrasse e entregasse, em mãos, o que cabia a Eurico. E assim foi feito. Até dizem saber nome e sobrenome do tal pai de Eurico, mas alegam que estes nomes em alemão são de difícil pronúncia e não conseguem falar assim, corretamente Franz alguma coisa... Nestes casos, é melhor evitar pronunciar errado — dizem.
Os que propagam que Eurico arrancou uma botija com moedas de ouro, contam uma estória um tanto fantástica. Aliás, arrancar botija já é um acontecimento fantástico. Mas, bom, contam que durante três noites seguidas Eurico recebeu a visita de uma visagem que lhe prometia entregar uma botija cheia de moedas de ouro enterrada sob uma raiz retorcida de uma gameleira, próximo de sua casa, sem precisar o local.
A primeira vez que a tal visagem apareceu foi logo prevenindo a Eurico que ele não poderia contar seu sonho a ninguém, sob pena de não encontrar mais o ouro na botija. Contou, inclusive, que outras pessoas já haviam recebido a mesma informação, mas acabaram desenterrando um pote velho cheio de casas de marimbondos-de-chapéu ao invés de ouro, porque não souberam guardar o segredo. Disse ainda que ele deveria aguardar o momento exato para arrancar a botija, que voltaria para dizer a ele quando.
A segunda vez, a visagem disse exatamente as mesmas coisas. A terceira vez acrescentou uma informação. Disse que, pela manhã, cedinho, ele deveria dirigir-se a uma vila conhecida como Vila do Arraial, procurar a Barbearia da vila e que, dentro da tal barbearia, observasse uma réstia de sol que , exatamente, às 10 horas estaria posta no chão da barbearia, em frente a ponta do sapato do barbeiro. Com o passar do tempo, a réstia de sol iria subindo até que coincidiria com a boca do barbeiro. Neste momento, ele ficaria sabendo onde e como arrancar o seu tesouro. Assim Eurico fez.
Chegou à Barbearia, ficou observando o chão. Durante algum tempo observando, não havia nenhuma réstia. Haviam algumas pessoas esperando a vez para cortar o cabelo ou fazer a barba. Eurico sentou-se no único lugar que estava vazio. Na hora marcada, percebeu a réstia no chão, exatamente em frente à ponta do sapato do barbeiro. Ficou quase olhando fixo, com receio de que ela sumisse. Havia um alarido de conversas dentro da barbearia, mas ele não se dava conta do que conversavam as pessoas. Aos poucos, a barbearia foi-se esvaziando e quando só restava ele, coincidiu que a réstia postou-se no rosto do barbeiro, iluminando a boca. Eurico estremeceu, sentiu as mãos suadas. No entanto, nada aconteceu que pudesse revelar algo sobre a botija.
Ele, um tanto desencantado, contou então a história para o barbeiro. Este riu e tentou consolá-lo. “É assim mesmo, estas coisas não existem. Uma época me aconteceu um caso parecido: uma pessoa, em sonho, dizendo que debaixo da gameleira, que fica na margem direita do riacho Pau D’óleo, na passagem do caminho que vai para a localidade da Cacimba de Beber, sob uma raiz retorcida, havia uma botija de ouro. Eu, embora não acreditando nestas coisas, fui lá e só encontrei um pote velho cheio de marimbondos-de-chapéu.”

sábado, 19 de dezembro de 2009

SONS DO POEMA QUANDO SILÊNCIO




Apenas gotas pingam na superfície da poça d’água em intervalos de silêncios marcados. Repetem o mesmo som ao tocar a superfície. Depois, o som se visualiza nas ondas que repercutem e se expandem às margens, circularmente. Sobre o silêncio ressoam aqueles sons, decalcam aquelas imagens. A poesia exaure o ritmo do tempo, recostada no vazio silencioso do poeta. Doem-lhe os dias passados na memória. E a poça à vista é água incômoda, é a imprevisão do teto fendido. É o incômodo do ruído repetido sobre a insistência da poesia indócil e a pele nervosa da água empoçada.
A respiração audível angustia-se em fundos suspiros. Ao redor, o silêncio reconforta-se no escuro, mostra-se no dégradé de luz frágil que emana de uma janela com cortinas transparentes. Divisórias põem limites ao espaço de intimidade que resguarda o trabalhador em seu ofício de esquadrinhar versos.
As dores da alma e as alegrias do corpo distendem-se para ocupar o espaço com o que há de vingar na superfície do papel esparramado, nu, sobre a mesa. A esferográfica debate-se entre os dedos até que a ansiedade ganhe forma em caligráficas animações. A rasura é o rasto de uma dúvida, uma insatisfação, algumas inseguranças.
Os versos desenham ritmos e sentidos. Uns se ajustam ao exato desejo do escritor, outros escapam completamente e negam-se a ajustes de qualquer ordem. Riscam-se, borram-se, vão-se, mas não aceitam imposições, sob nenhum pretexto. Um verso ao lado de outro, um verso contra outros. Põem-se, repõem-se, alteram-se, alternam-se indiferentes ao sofrimento do poeta.
Um pingo após outro, em intervalos de tempo constante, pinga na poça e seus sons parecem idênticos, diluem-se no silêncio com um ruído chocho. Sem nenhum propósito, cada ocorrência chama a atenção e fazem-se ver as ondas que repercutem na superfície, empurradas para a margem da poça. A memória resgata lembranças de filmes sobre torturas em que o torturado é obrigado a suportar durante dias, preso em uma cela, a constante repetição de gotas d’água que lhe caem sobre a cabeça com insistência.
Difícil não prender o olhar naquela poça e observar durante longo tempo o seu estremecimento ante as gotas que lhe caem uma a uma. Impossível não admirar que não transborde. Está sempre no limite das margens. O som das gotas, a própria gota, tudo tão semelhante e, no entanto, acontecimentos diferentes em tempos diferentes. A gota na poça perde-se em sua condição de gota e adquire outra: a pele da poça em frêmito.
A telha fendida, o percurso da gota do teto ao chão, o atravessamento da luz sem atrito aparente. A repetição, mais uma vez uma vez mais. O silêncio importunado, o papel pacientemente pousado sobre a mesa, a esferográfica entre os dedos, a luz branda que se projeta da janela e as cortinas transparentes levemente tocadas por rajadas de vento: tudo suspira profundamente, com um soluço que parece findar uma busca de séculos.
Cada detalhe tem o seu silêncio. A poça espera a gota d’água, o poeta espera o próximo verso enquanto observa a queda do som sobre tempo, as coisas todas esperam em silêncio o poema que há de riscar o papel. O silêncio resulta do repouso das palavras no lugar donde haverão de pronunciar-se.
Um soneto singular reponta entre todos os potenciais poemas, como a permitir que desponte a cada instante, ante as condições prevalentes no cenário, um poema novo. A palavra simples, estável, regular, e simétrica se porá como limite para continuidade paralisante das gotas projetadas em suspenso, donde se observa o seu trajeto — parada em cada instante do percurso — e o restabelecimento da instabilidade do silêncio contínuo. Goteja na memória o final de um poema, como a latejar o que aqui ainda não esteja: “o vivo e puro amor de que sou feito, como matéria simples busca a forma”.

sábado, 12 de dezembro de 2009

VISAGENS




O jogo de cartas adormece a atenção ao tempo. De susto percebe-se que a noite avança pela madrugada. Um cuidado alfineta os sentidos e a lembrança de casa finaliza a última mão do relancinho.

A lua cheia reluz no caminho estreito de areia branca, madrugada alta. O passo largo avança rápido roçando o embainhado da calça nas ramagens de salsa que estreita a picada. Ruído marcado da respiração ofegante e do atrito da roupa no mato. A lua baixa alonga a sombra para trás.

Erguendo a cabeça com o olhar à frente percebe alguém que caminha adiante, pouco mais de duzentos metros. Acelera o passo, imaginando tratar-se de alguém conhecido. Chapéu de aba e roupa branca repercute o luar. No entanto, ao alcançar o cume do alto, a pessoa desvia-se e penetra a mata alta, à esquerda. Nenhuma suposição. Ignora o fato motivado pela preocupação com o avançado da noite.

Pouco mais adiante, ouve o ruído de algo que se projeta no ar indo, em seguida, chocar-se contra o chão, jogando poeira às margens do caminho. É um pedaço de galho de gameleira, de uns setenta centímetros, cortado em bico de gaita nas extremidades, num golpe só por vez. O comum é que houvesse escutado o barulho, mas nada foi ouvido. O estranho é que não há sentido aparente para o acontecimento.

Não há muito o que pensar. É continuar seguindo e apressar ainda mais a marcha.

Aos poucos começa a ouvir um choro angustiado e inteiriço. Vem a lembrança da esposa que está só em casa. Encontra-se grávida do primeiro filho e pode estar sentindo dores. Andar apressado, agora, já não basta. É necessário correr, pode ser que esteja precisando de ajuda. Marinheiro de primeira viagem, não consegue imaginar o que possa fazer ou, antes, o que possa estar havendo.

De relance, sente um remorso por estar jogando baralho enquanto a mulher, gestante, ficara só em casa. Em seguida, imagina que não há de ser nada, conforma-se. O choro vai ficando mais alto à medida que se aproxima de casa.

A roupa encharcada de suor parece limitar os movimentos. De vez em quando é necessário parar para respirar. O percurso parece que se espicha. Ao chegar, o choro para e o silêncio incomoda até mais. Salta a cerca do quintal e busca a porta da cozinha num movimento automático. Ela sempre está só, encostada, à sua espera. Entra em casa e com alívio percebe que a esposa dorme serenamente.

Suado e cansado, senta-se e se deixa ficar por bom tempo com os braços estendidos, o corpo recostado na cadeira. Recomeça o choro, mas desta vez parece distante.

Pela manhã, acorda com a voz de alguém que chama seu nome. Levanta-se, sente o cheiro do café novinho. A esposa, em sua atividade diária, parece desconhecer qualquer coisa a respeito do que aconteceu à noite passada, e, como se acostumada, nem pergunta mais onde esteve. Não parece aborrecida. Prepara a mesa do café no ritmo do esperado.

Continuam a chamar seu nome para além do cercado. Abre a porta e manda que se aproximem três pessoas, após identificá-las: são vizinhos que ficaram de acertar trabalho na roça.

Na mesa de café, ele conta o ocorrido e ninguém dá notícia de ter ouvido qualquer coisa estranha na noite anterior, muito menos choro. Mas um dos vizinhos relata que outras pessoas por ali já se referiram a algo parecido. Diz que se trata de recém-nascido, falecido e enterrado na porteira do curral, sem o devido batismo. Alguém tem que desenterrar e batizar para que o caso não volte a acontecer.