domingo, 25 de abril de 2010

DEUS NOS LIVROS





Já ouvi falar de muitos lugares onde Deus está. O Céu é, certamente, aquele lugar em que, digamos, não resta dúvida. Mas ninguém sabe exatamente onde fica o Céu. Há quem diga que o Céu é a própria Terra e que o alcançamos quando conseguimos ser felizes. Outros dizem que a felicidade está dentro de cada um de nós; portanto, neste caso, o Céu seria uma espécie de estado de espírito. Em cada uma destas possibilidades existe um número bastante grande de detalhes, de penduricalhos que se ajustam como explicação ou justificativa para uma tese complexa.
Como quem mais prega a existência de Deus num Céu são as ordens religiosas, é comum que se escute falar que uma igreja é a casa de Deus, a casa do Senhor. Neste caso, poderíamos pensar que uma igreja é o Céu. No entanto, os religiosos explicam que a igreja é a casa de Deus, qualquer um pode falar com ele indo à igreja, pode encontrá-lo lá, mas poucas ou nenhuma pessoa, em sã consciência, chega a confirmar, com segurança, qualquer experiência neste sentido.
É muito comum também que ouçamos falar que Deus está no Céu, na Terra e em toda parte. Bom, se Deus está em toda parte, parece meio desnecessário que eu fique aqui buscando escrever sobre os lugares onde dizem que Deus está. Como este argumento parece ser daqueles que buscam ganhar uma discussão ou encerrar uma conversa definitivamente, eu vou, a princípio, desconsiderá-lo. Está certo, Deus é onipresente, onisciente etc. etc. Mas se formos por este argumento vamos ter que parar de conversar.
Lembro que, quando criança, à hora das refeições, ninguém podia brincar ou falar desaforo, palavrão. Se alguém se arriscava a desconhecer a lei, a mãe, o pai ou os avós ralhavam. Botavam uma cara feia e repetiam enfaticamente para nos aquietarmos, porque Deus estaria à mesa. Olhávamo-nos, olhávamos os arredores e nunca víamos. Mas ninguém ousava dizer que não via. Apenas obedecíamos, sem discussão. Pensava sempre comigo mesmo, o lugar em que Deus está é à mesa. Algumas vezes nem havia mesmo uma mesa, era apenas uma esteira de palha estendida ao chão, ao redor da qual todos se sentavam para comer.
Em entrevista que o escritor Paulo Coelho deu à revista Veja, perguntaram-lhe porque seus livros têm tantos erros bobos, às vezes até parecem erros de digitação. Ele disse que é porque não faz nenhum esforço para retirar os erros de seus textos. E não os tira porque, segundo ele, Deus está nos detalhes e retirando os erros do texto poderia estar tirando Deus de sua obra.
O padre celebra a missa, a partir da leitura de um livro, donde diz extrair a palavra de Deus. Os pastores e os evangélicos, de modo geral, andam com a sua bíblia para cima e para baixo. Beijam, oram e cantam com os olhos pregados nesses livros. Mesmo os estudiosos, os pesquisadores buscam o conhecimento, com os quais se armam para conquistar o mundo, nas páginas dos livros. Embora alguns até usem este conhecimento para negar a Deus, é nos livros que encontram sua sapiência.
As gerações de sábios que se vão deixam, para as gerações futuras, muitos conhecimentos. Muito deste conhecimento é praticado e posto em rotação sem que haja necessariamente nenhuma palavra escrita a respeito. Contudo, é nos livros que vamos buscar o conhecimento com mais substância, aquele que resiste ao tempo e que serve de fonte de consulta a quem queira tirar dúvidas acerca de algo existente no mundo. Existência que pode ser até como ideia, pensamento, algo imaterial.
Já ouvi dizer que um bom livro sempre leva aos céus pelo prazer da leitura, das descobertas, das histórias que oferta. Esta relação entre Deus, céus e livros é muito humana. Isto pode não explicar nada, nem precisa, mas pode apontar para um lugar onde Deus pode estar e quase ninguém se dá conta. Deus está nos livros.

domingo, 18 de abril de 2010

A MULHER DO PESCOÇO COISADO


O sim das coisas é o não.
E o não é sem coisa.
Portanto, coisa e não
são a mesma coisa,
ou o mesmo não.
Carlos Drummond de Andrade





Uma mulher belíssima, jovem, risonha e misteriosa. Principalmente, misteriosa. Ninguém, que se saiba, conseguiu ver-lhe o pescoço. Esconde-o com seus belos cabelos cacheados ou, senão, com uma gola, um xale, com algo que o envolva, privando, assim, os olhares curiosos de ver-lhe um pedacinho sequer. Não é necessário conhecê-la bem para saber destas coisas: basta ter com ela e prestar-lhe atenção. Em certas ocasiões em que, por um pequeno descuido, deixou a descoberto um detalhe do pescoço, o que se viu foi, simplesmente, nada. Parece que seu pescoço é um vácuo, uma falta, como se sua cabeça se sustentasse no vazio, numa transparência. Claro que quem diz que viu semelhante coisa acaba ficando por mentiroso ou mentirosa, porque ninguém acredita nisto. O certo mesmo é que ela mantém, elegantemente, o pescoço encoberto, sempre.
Como não se sabe o que pode haver com o pescoço dela, diz-se que ela tem o pescoço coisado. Bom, não dá para saber se coisado aí tem a ver com uma qualidade do pescoço  bonito, comprido, cheiroso  ou com um estado  retorcido, assinalado, alongado etc. Coisado, neste caso, significa algo que não se define: alguma coisa sobre a qual não se encontra palavra para esclarecer. Não adianta ficar especulando, como é que se vai explicar algo de que não se tem a menor ideia.
Contam que, quando alguém pergunta a ela sobre este assunto, ela se põe a rir, um riso gostoso, bonito  sim, porque seu riso é lindo , como se zombasse da curiosidade e dos curiosos. Seu namorado não quer nem ouvir falar no assunto, qualquer menção a isto e ele logo faz de conta que não está escutando e desconversa. Faz-se de desentendido. Mesmo os amigos mais próximos ou, pior ainda, seus familiares morrem de curiosidade sem que ele dê a mínima atenção.
Por conta destes mistérios, surgem muitas histórias, cada uma mais estranha que a outra. Desde que ela tem uma cicatriz muito feia, resultado de um quase enforcamento quando ainda era criança e por pouco não foi decepada por uma linha com cerol; até a existência de um sinal peludo, horroroso e malcheiroso. E por aí se vão as histórias todas. Ela conhece cada uma e se diverte quando alguém pede que confirme alguma. Ri como se gostasse, como se curtisse os mistérios que alimenta acerca de seu pescoço coisado.
A versão que mais a agrada é a de que seu pescoço é tão lindo e perfumado que, simplesmente, nenhum homem o resistiria. Deste modo, ela o esconde, para não atrair sobre si os desejos dos homens todos que transitam por onde têm que circular diariamente. A tal mulher é professora e, além de lidar o dia inteiro com turmas de alunos, está sempre cercada por seus colegas professores. Mas apesar da curiosidade e das maledicências, ninguém ousa molestá-la. É muito respeitada por todos. Uma brincadeirinha aqui, outra ali, mas nada de atrevimentos.
Do corpo bem delineado à cabeça brilhante e privilegiada, um espaço inexplicável em que se perdem suspiros e se desorientam desejos. Um lugar que une e separa, ao mesmo tempo, coisas impensáveis e, do mesmo modo, indizíveis. Um pescoço feminino envolto em segredos: mistérios que sustentam fantasias e que, certamente, jamais serão esclarecidos.

terça-feira, 6 de abril de 2010

EU TE AMO AINDA


Luiz sai de casa, como de costume, na expectativa de encontrar-se com Joana naquela manhã. Porém, dado o hábito deste encontro, não há qualquer outro sentimento que o deixe excitado ou preocupado. Há, sim, um certo prazer de encontrar com a pessoa que naquele momento parece ser especial em sua vida. Afinal, Joana é muito carinhosa e com ela partilha os assuntos sobre os quatro filhos em comum.
Pensando assim, toma a condução que o levará ao seu destino. No percurso, vai repassando o que imagina ser a conversa deste dia, e definindo em quais ou tais pontos deve ceder ou não. Está tudo mais ou menos roteirizado, como sempre. Ao mesmo tempo em que organiza seus pensamentos numa espécie de agenda, observa com indiferença a paisagem que resvala ao seu redor.
Entretido em seus pensamentos, nem se dá conta de que puxara o sinalizador, quando dá por si já está descendo os degraus, à porta do coletivo. Cumprimenta alguém no ponto de parada e segue pela rua, quase que automaticamente. Chega à casa de Joana na hora que combinara, sem qualquer novidade.
Empurra a meia porta e entra, virando-se, em seguida para fechá-la. O silencio da casa, no entanto, não é o habitual. Em geral, quando chega, Joana está junto a pia, lavando louças ou ao fogão, preparando o almoço. Agora, não há movimento algum, parece que não há ninguém em casa. Logo percebe que Joana está no quarto, sentada na cama, arrumando os longos cabelos negros. Vai ao seu encontro e beijam-se brevemente.
Luiz sorri e pergunta, com zombaria, por que ela está se vestindo? Joana também sorri e responde que gosta que ele a dispa. Luiz senta-se na cama e ficam conversando, conforme ele vai puxando os temas que havia programado discutir com ela. Joana pergunta pela esposa de Luiz que, sem qualquer constrangimento, vai dissertando sua vida conjugal com Carmem.
Joana, então, fala dos filhos, das despesas da casa, da viagem que fizera à casa de seus pais e outros assuntos já esperados. As coisas todas vão ocorrendo dentro do previsto e do habitual. Assim, vão conversando e, devagarzinho, vão se aproximando um do outro. Um detalhe no cabelo dela, um botão desabotoado na blusa dele... as mãos frias dela na mãos quentes dele.
Desde que Luiz conhecera Joana, nunca sentira nela tanto ardor, tanta volúpia. E, claro, mesmo depois do amor, extasiado, ele não pode deixar de perguntar sobre o que está havendo. Quase que lhe pergunta por que não tem sido daquele jeito sempre. É certo que se dão maravilhosamente bem na cama, mas daquele modo, jamais ocorrera.
Joana, ainda com a expressão do prazer cintilando no rosto e no corpo inteiro, diz que tem uma coisa muito importante para dizer a ele. De imediato, ele imagina que ela pode estar grávida. E a interpela neste sentido. Joana nega sorrindo. O clima está ótimo e Luiz não se cansa de abraçá-la e beijar o seu corpo. Joana não resiste, mas também não retribui como das outras vezes.
Afinal, Luiz pergunta sobre o que mesmo ela quer falar com ele.
Joana se recompõe e, em silêncio, vai vestindo-se sob o olhar curioso de Luiz. Ela começa elogiando a esposa de dele: é uma mulher bonita que, mesmo sabendo que os dois vêm mantendo uma relação, inclusive, com quatro filhos, nunca criou problema. Até a recebe em sua casa, como recebe também os seus filhos. A ajuda quando precisa e está sempre disposta a compreender o seu lado. Joana diz, em fim, que pensou bastante e que apesar de o amar muito, a partir daquele momento, não o quer mais.

sábado, 27 de março de 2010

O PERCURSO DO PROFESSOR


Final de expediente, o professor Pedro, chefe do Depto. do Curso de Psicologia, busca em suas gavetas a pauta que preparara para a Assembléia Departamental do dia seguinte. Ergue a cabeça ao perceber que alguém entrara em sua sala. Trata-se do professor Josué, um colega de Departamento, catedrático da disciplina Psicologia Clínica.
Cumprimentam-se. O prof. Josué interpela então o chefe do Departamento acerca do resultado do concurso público recém concluído em que foi aprovado um egresso do curso, agora, prof. Orlando. Manifesta desagrado que este senhor tenha sido aprovado como professor, em regime de Dedicação Exclusiva, para o Curso de Psicologia. O prof. Josué tem uma formação militar, conservadora, e não admite que Orlando, que passou, segundo ele, 10 anos para concluir o curso seja agora seu colega de Departamento. Relata brevemente a trajetória do aluno Orlando no curso. Diz que ele até demorou mais que 10 anos para se formar em psicologia porque sua maior dedicação eram as atividades do partido político em que milita, inclusive, a de conquistar mais militantes e simpatizantes.
De princípio, o prof. Pedro ouve com bom humor aquelas reclamações que lhe parecem intempestivas. Explica que ele não pode fazer nada porque foi constituída uma Banca Examinadora reconhecidamente idônea e que uma vez submetido à tal banca e aprovado não lhe resta outra alternativa a não ser encaminhar os resultados setor competente da Universidade para que Orlando seja contratado.
Aos perceber que o processo era, então irreversível, o professor Josué começa a levantar o tom da voz, vai-se irritando e falando cada vez mais alto e em todos os seus argumentos, põe a culpa no Chefe do Departamento. O prof. Pedro, imaginando que vai conseguir acalmar o seu colega, sugere que ele compareça à Assembléia Departamental que será realizada no dia seguinte e tente convencer aos demais colegas que o resultado do concurso deve ser revisto por conta da história discente do prof. Aprovado.
Como o prof. Josué não simpatizava com os debates comuns às Assembléias Departamentais, quase nunca comparecia, entendeu que aquilo era uma indireta para forçá-lo a comparecer à próxima. Pensando deste modo, deu um soco na mesa e gritou que fosse respeitado. Citou toda a sua história de dedicação acadêmica e garantiu que de modo algum iria comparecer àquela Assembléia.
O prof. Pedro perdeu a paciência e, olhando fixo, para a cara do seu interlocutor, falou pausada e firmemente que não tinha autoridade para modificar o resultado do concurso, não era esta a sua atribuição, que não tinha culpa e que não iria mexer uma palha para contrariar a decisão da Banca Examinadora. E, completou, que se o prof. Josué insistisse naquela história e naquele tom, só lhe restaria lhe dar uns murros e quebrar a sua cara. Por fim, perguntou, ainda do mesmo modo, o que, então, o prof. Josué iria afazer?
O prof. Josué ficou lívido. Pensou um instante, fez menção de sair e, voltou-se de repente para o colega que o fixava já de pé. Então, procurou manter um ar de calma e, no mesmo tom, pausado e firme, retrucou que, já que era daquela maneira, pouca coisa lhe restaria fazer: iria para casa com a cara quebrada e quando, chegando em casa, a sua esposa lhe perguntasse quem teria feito aquilo ele diria simplesmente que fora o finado prof. Pedro.

sábado, 20 de março de 2010

AS OUTRAS COISAS



Regina lê Paulo Leminski neste sábado de primavera. Demora-se na apresentação de “Metaformose”, escrita por Alice Ruiz. Lê o trecho “Por isto não confundir com Ovídio, não é metamorfose, é metaformose, a outra forma transformada por uma leitura”. Retorna à leitura da frase “não é metamorfose, é metafor...” Toca o telefone. Resiste um pouco antes de decidir atender.
Reconhece pela voz um amigo um tanto distante com quem estivera numa roda de conversa, na noite anterior, num barzinho na Urca. Era aniversário de uma amiga comum e a comemoração fora naquele barzinho, com muito papo e muita risada. Antes que o amigo se apresente, ela o interpela: — Otávio, tudo bem? Ele, como se surpreendido, faz silêncio e em seguida confirma: — tudo bem.
Otávio pergunta o que ela fará à noite, ao que Regina responde, automaticamente, não ter nada programado. Diz que está lendo um livro, gosta de ler literatura, principalmente, nos finais de semana, mesmo quando tem muitas outras tarefas a cumprir. Sabendo que Regina não tem nada agendado para a noite, Otávio toma coragem e pergunta se ela não gostaria de comer uma pizza.
Quase ainda sem pensar direito, Regina toma a decisão de não aceitar o convite. Não gosta de sair de casa à noite. Pensa que isto dá margem a uma maior exposição às possibilidades de tornar-se vítima da violência urbana. Desde que chegou ao Rio, pouquíssimas vezes saiu para jantar fora ou para algum outro compromisso noturno. Explica, então, que está querendo continuar sua leitura, que outro dia poderá aceitar o convite. Diante da recusa, o amigo não insiste. Ela agradece, despedem-se.
Regina não mais consegue retomar a leitura com o gosto de antes. Passa os olhos pelo texto e não consegue absorver. Lê duas, três vezes o mesmo parágrafo sem compreender nada. Resolve parar, e refletir sobre os últimos acontecimentos. Esbarra nas palavras finais do convite: “comer uma pizza”.
E, sem qualquer malícia, se pergunta: o que Otávio estaria mesmo querendo dizer com isto? É certo que são duas pessoas maiores, livres e desimpedidas, poderiam sair sem problema para conversar, bater um papo e jantar qualquer coisa, até mesmo uma pizza. Regina estranha porque considera despropositado o convite para comer uma pizza, visto que não há entre os dois nenhuma aproximação mais estreita. O que poderia haver de errado nesta história? De repente começa a se dar conta que os motivos alegados para não aceitar o convite não eram, de fato, os reais motivos.
Comer uma pizza, dito daquele modo poderia ser, simplesmente, um motivo para que se entabulasse ali uma conversa. Ela poderia dizer que sairia com ele para conversar, mas que não estava a fim de comer pizza ou que poderia aceitar comer outra coisa. Poderia, inclusive, convidá-lo a vir ao seu apartamento e lhe prepararia algo enquanto conversassem.
Num dado momento, veio uma pergunta incômoda, será que Otávio estaria interessado nela, seria aquele convite uma cantada? Procurou vasculhar a memória da noite anterior, dos papos, dos olhares à mesa e não encontrou nada que pudesse concluir alguma coisa neste sentido. Pensou em retornar a ligação e esclarecer tudo, mas desconsiderou, não era uma boa decisão, poderia parecer oferecida. Enquanto fechava o livro e o depositava sobre a mesa de centro bateu os olhos no título: “Metaformose”.
Não deixou de passar por sua imaginação a associação do título com os sentidos possíveis daquele convite, “comer uma pizza”. Imaginou o quanto esta forma poderia ser alterada em seu sentido, numa conversa em que buscasse argumentar com alguém sobre o que se poderia dizer com isto. Antes de desligar as luzes da sala, concluiu que ela própria não poderia tirar outras conclusões, senão que um amigo não muito próximo ligou convidando-a para comer uma pizza.

sábado, 13 de março de 2010

ENTRE


Há um espaço de fronteira, zona de litígio, que, ao mesmo tempo, une e separa os corpos no mundo. Este espaço aparentemente vazio intercede nas relações de várias ordens e pode ser preenchido pelos aromas dos amantes, no antecipar do encontro da matéria corporal, pelo sentido das palavras que medeia os des/entendimentos, pelos olhares que se interceptam e se atravessam na simplicidade da contemplação ou no toque ríspido da interpelação. Muitos outros tipos e modos de preenchimento podem se apor a este espaço nas diversas possibilidades de troca que orbitam os corpos.
A aura, dizem, irradiada dos seres vivos e só percebida por pessoas especialmente sensíveis intersecta-se com outras e estabelece contatos de harmonia ou desarmonia conforme o clima e o estado de espírito de um e outro. A interseção das auras preenche o espaço entre as pessoas e atua segundo regras de aceitação ou rejeição. Olhamos e quase nunca nos damos conta deste entorno posto ao meio; como extensão de cada um, ali está e revela sentidos que muitas vezes desejam ocultar-se.
Mesmo entre abstrações de diferentes níveis como, por exemplo, intenção e gesto, em que a distância reconhecida pelo poeta tem seu próprio preenchimento no contraditório, no perder-se ou desviar-se do percurso. Diz ele, “se trago as mãos distantes do meu peito/ é que há distância entre intenção e gesto/ e se meu coração nas mãos estreito/ desencontrado, eu mesmo me contesto”. Este conflito que se materializa em belíssimo poema não é restrito ao poeta ou aos poetas, todos temos este sentimento e nos defrontamos com a angústia de não poder materializar desejos e intenções em gestos.
Ficamos a imaginar que a transitoriedade da nossa existência é fato, que a matéria dos corpos evanesce e desvanece num espaço que permanece entre antes e após. A percepção de tal coisa não altera nada em nossas vidas. Ou, quase nada. Certamente que devemos ficar mais atento a isto, desde o instante mesmo em que nos pomos a refletir sobre. Mas o que pode mudar não está à vista de outros, e, se não materializamos de algum modo esta pequeníssima mudança, ninguém haverá de perceber.
Numa quadrinha meio ingênua, de domínio público, há o registro disso tudo que estamos a pensar. Diz ela, “da minha casa para a tua/ tem um riacho no meio/ tu de lá dá um suspiro/ e eu de cá, suspiro e meio”. O riacho que se posta ao meio do caminho, como uma pedra, é algo que representa o que estamos tentando dizer até agora. O sentido é particular e se posta também ao meio, e para percebê-lo havemos de considerar o “ângulo e o cristal com que se mira”. O entre de que falamos não é meramente linear e dicotômico. Linca-se com múltiplas possibilidades ao mesmo tempo: da esquerda para a direita (e vice-versa), de cima para baixo (e vice-versa), de um ponto a outro em diagonal e, assim, infinitamente.
O tecido plasmático e etéreo do entre não se dá a ser escudo, pelo contrário, é condutor tanto dos propósitos amorosos quanto das vis ofensas, e atravessam e nos atingem com a mesma intensidade. Tanto nos serve para nos fazer entender quanto para produzir desentendidos ou mal-entendidos. Une e reprocessa o perfume dos amantes ou mistura leite e sangue numa aurora colorida em que o equívoco e a precipitação desfazem a vida dos leiteiros.
Tudo o que foi dito será repetido. Tudo o que foi dito será repetido, como o que ainda não foi dito. Porque estas extremidades se confundem, se negam e se confirmam antes e depois. E será repetido, como tudo o que foi dito
Nós I Nós 0+A

sábado, 6 de março de 2010

ONDE É MESMO O BEIJO?


Chego em casa, ligo o computador. Enquanto carregam os programas, vou cuidar de outras coisas: um banho para restaurar as energias, uma tal de falta de jeito com manuseio do fogão e o preparo de algo que possa ser considerado, de bom grado, uma refeição. Só para conferir, ligo a televisão. Fico de olho. Rapidinho, dou conta da minha última “arte culinária”.
Desligo a TV, imaginando religar quando estiver mais próximo o horário do jornal. Ligo o som e vou para o computador. Acesso a Internet, para variar. O dia quase que completo – no ambiente de trabalho, fiquei conectado. É o costume. Ao abrir minha caixa de e-mail, vejo a mensagem de uma amiga que finaliza com uma pergunta: Onde é mesmo o beijo?
Rio com gosto, uma provocação. Sei bem como é. Mas embarco na história e fico imaginando como responder do modo como a pergunta permite. Ora, onde?! Bom, bem poderia eu tratar do assunto, imaginando uma referência que deslocasse o sentido que primeiro acorre nestes casos: uma parte qualquer do corpo. Ou, pelo menos, considerasse a possibilidade de pensar numa outra topologia, uma casa, uma praia, um sítio etc.
É claro que também assim eu poderia conduzir o sentido para um efeito de contato, para um clima de envolvimento. O que me excita, nesse caso, é a possibilidade de conduzir o entendimento na fronteira de ambivalências que a pergunta permite.
A seguir, me dou conta de quantas formas de beijar existem, quantos ritos sociais incluem o ato de beijar como parte constituinte. Beijar a testa com certo disfarce do que queima por dentro, com certo pudor ou desvelo. Beijar a mão, com alguma insinuação; beija-se mais com o olhar que com os lábios que mal tocam a pele. Ainda, beijar a mão com respeito e reverência. Beijar o rosto, beijo em que o olfato aguça o gosto: beijo onde vários sentidos se mesclam.
Recentemente, falei sobre beijo neste espaço, inclusive, citando Edgar Morin. Não vou mais me referir ao mesmo ponto de vista. Desejo apenas ir-me deixando levar pelo tecido dos sentidos, que uma pergunta enreda. Ou, talvez, não seja bem a pergunta, quem sabe são outras motivações: a pessoa que pergunta, a malícia que a pergunta suscita, as ilações que faço, o imaginário que construo, por puro prazer, enfim, os contextos das relações em um e outro.
Por fim, penso em diferenças que existem nestes ritos e nos atos mesmo de beijar. Em certa idade, ou em certa época, muito se falou de beijo roubado, aquele em que a mocinha é beijada sem sua permissão, mas, segundo reza a lenda, com grande prazer. Hoje, com esta história de politicamente correto, este tipo de beijo está fora de cogitação. O cinema consagrou o beijo na boca, como cena final e apoteótica de uma relação a dois, num quadro de romantismo exacerbado. As novelas atuais ainda cultuam ou cultivam um pouco este sentido, só que a celebração do casamento tem maior peso de significação. O beijo, aquele do cinema, é quase que banalizado, além de ter adquirido certo tom de vulgaridade na maior parte das vezes.
Ainda envolto no clima da pergunta e nas tais diferenças, percebo como o beijo, em certas circunstâncias, pode conter sentidos de um ato solitário. Mesmo considerando que quem beija deve, presumivelmente, beijar outro alguém. Mesmo que esta outra pessoa seja a si própria. Se tivesse que escolher, eu certamente escolheria um beijo compartilhado, daqueles em que não se pode dizer, com certeza, quem está beijando quem, simplesmente, se beijam. O beijo, assim, parece uma oração que a boca apenas usa para exprimir ou expressar o que vai pelo espírito, pelo coração, pelo corpo inteiro.