domingo, 23 de maio de 2010

O JOGO DA CONVIVÊNCIA


No campo das chamadas relações entre casais há espaços de negociação e dissimulação que sustentam muitas vezes convivências longevas. Vamos acompanhar detalhes da rotina de um casal que se diz amar para sempre.
1. Manhã, o casal apronta-se para ir ao trabalho. O marido depende da carona da mulher e seu horário de chegar ao trabalho é às 8h e o tempo de percurso são 15 minutos, aproximadamente, quando não há engarrafamento. Ele termina de se trocar às 07h30, já faltam 30 para as 8h e a esposa ainda experimenta vestidos. Veste um após outro, depois de alguns tantos retorna ao primeiro: vai combinando com o sapato, o cinto, o brinco, a pulseira do relógio etc. E a cada experimento, confirma com o marido se aquele está bem ao que ele responde com um hanran meio chocho, igualzinho para todos. Os sentimentos de desencanto e dúvida crescem nela.
Se a mulher gasta tempo e exige paciência enquanto se produz, sob a alegação de que o marido deve ficar feliz, porque afinal vai sair com alguém que zela pela beleza etc. etc., colocam-se outras nuances que nem sempre ficam muito claras: por exemplo, a quem de fato ela deseja chamar a atenção, ao marido e por isto quer ficar mais bonita para ele? Às outras mulheres com quem certamente cruzará nos mesmos pontos a que se destinam, a quem lançará cabelos, muxoxos e olhares enviesados? Ou, desculpem-me a grosseria, a certos marmanjos que lhes lançarão olhares inconfessáveis à revelia da boa fé do maridão?
Ela sempre se chateia, acha que o marido tá nem aí. Não presta atenção e está ficando indiferente, que isto é sintoma da rotina etc. etc. O que não observa é que a rotina desgasta pela repetição. Se a cena é esperada, a encenação e todos os textos também.
E ai daquele que simplesmente achar de ajudá-la a escolher os vestidos e transparecer felicidade e compreensão, concordando com tudo, sendo educado e gentil e... Homem certinho é um horror, dizem. Dá até para pensar que o que vem de encontro ao tempo e à paciência do homem não é exatamente para irritá-lo, é apenas para que não se torne muito compreensivo e chato.
Depois, se a cena é recorrente e ela sabe que irrita um pouco o companheiro, a ponto de ele confirmar sem mais refletir, sobre as perguntas se este ou aquele vestido fica melhor? A seguir vem sempre a pergunta: você ouviu mesmo o que eu perguntei? Você prestou atenção no que eu lhe mostrei?


2. Volta um pouco a cena e vamos encontrar o marido saindo do banho, enxuga-se e, mecanicamente, joga a toalha molhada em cima da cama. A esposa sai do banho e, ao sentar na cama para passar o hidratante nas pernas, senta-se sobre a toalha. Dá um pulo e reclama com o marido pela enésima vez, segundo ela. Ele, de bom humor, aproxima-se dela e dá um selinho, pedindo desculpas a seguir. Jura, como das vezes anteriores, que aquilo não mais se repetirá.
3. Volta ainda mais um pouco a cena: a esposa ao entrar no banheiro dá de cara com o assento do vazo respingado, e de imediato identifica o motivo: o marido que acabara de deixar o banheiro simplesmente não levantara o acento no momento de urinar. Ela engole o dtalhe em seco e entra para o banho.
4. Ao chegar à cozinha para o café – marido lá, sentado, vendo as notícias do futebol na televisão enquanto espera –, a esposa vê cascas de banana dentro da pia. Sabe exatamente quem costuma confundir a pia com a lixeira. Olha meio atravessado para o marido que nem percebe enquanto espera vendo televisão.
5. São 10 para 8 da manhã, quando a esposa finalmente entra no carro faz menção de sair novamente porque esqueceu de fechar a caixa do filme plástico com que embalara um pedaço do mamão do café. O marido protesta e a convence que o mais importante era o mamão que poderia estragar, mas a caixa pode esperar até o meio dia, quando estarão de volta para o almoço. O carro arranca, sob a recomendação da mulher de que o marido vá devagar, não carece aquela pressa.
6. Voltando a cena mais uma vez, bem para o começo: uma das coisas que o marido detesta e que todos os dias acontece exatamente igual é ela deixar o creme dental sem a tampa e espremê-lo no meio. Naquele dia não foi diferente, ao retornar ao banheiro para uma última penteada, está lá a bisnaga do creme dental mais baixa no meio e sem a tampa. Um fiozinho de mau humor percorre-lhe o corpo e ele tampa a bisnaga pela última vez, mais uma vez.
7. Combinam, no carro, de sair à noite para jantar. Aquela cena dos vestidos se repete com pequenas diferenças: os vestidos são outros e o tempo para decidir é mais elástico. A cena da televisão também. Só que desta vez é a novela que ele assiste enquanto espera. Aliás, a cena da toalha, da pasta de dentes também. Tudo se duplica. Mas a noite é uma criança e os espíritos estão desarmados. Beijam-se e abraçam-se sob declarações e juras de amor eterno. Alguém que acompanhasse, desde o início, tantos modos diferentes de perceber o outro numa vida comum, poderia muito bem se perguntar: como é possível?
Ah, antes que esqueça: no retorno ao lar, a altas horas, embriagados da madrugada e de tesão, vivem uma noite de amor como nunca.
O nível de satisfação e prazer que alimenta cada um é pessoal e intransferível, meio mórbido, talvez.

sábado, 15 de maio de 2010

SEMEADURA




Imagem do autor


A areia fina e branca acarinha os pés que quase se escondem no caminhar ritmado, cedinho da manhã. À frente, as sandálias do avô espalham pó e barulham no mesmo ritmo. O roçado fica logo depois da cerca, depois de um caminho puxado e percorrido com prazer. No percurso, calangos espiam os passantes e confirmam com a cabeça num gesto de aprovação. Lagartixas e outros rastejantes não têm a mesma opinião, fogem apressados para o refúgio da mata que comprime o caminho.
Hoje é um destes dias de plantio. O solo cinza respinga negrume de tocos queimados na pele toda do roçado. Terreno comprido, largo no meio da mata verde. Gaviões espiam de cima e anunciam-se com sua cantilena insistentemente monótona. Outras aves vez em quando abrem o bico no vazio do tempo.
Traspassada a cerca, o avô organiza seus apetrechos: cuias de cabaças para as sementes, água de beber à sombra, enxadas para cavarem-se as covas e, em fim, as sementes de feijão retiradas de um saco que deita ao chão. É quase um ritual, ele vai à frente, abrindo as covas com a enxada, e vamos atrás, pondo as sementes e enterrando-as com os pés. Vão-se desse modo longas horas. Sem conversa. Não há necessidade.
O sol desloca-se e esquenta tudo. A areia, depois de algum tempo, já não tem mais a mesma sensação gelada da manhãzinha. O suor percorre o rosto e o fio da espinha, abundantemente. Uma parada para descanso aqui outra ali, no final de cada leira. Pouco tempo, bebe-se um pouco d’água e puxa-se mais a respiração. Olhar o quanto falta é aflitivo e constrangedor.
À hora do almoço, para-se por tempo maior. Hora de pegar o soim: um pouco de carne frita, farinha, rapadura e água. Dizem que água de beber não tem sabor, só quem não conhece esta experiência. É um sabor de corpo e alma, não apenas na boca. O friozinho da água desce pela garganta e resfria a brisa e o sol na pele. Um pouquinho, sentados à sombra, algumas palavras, e retomamos de onde paramos, na mesma pegada. O sol descamba e ameniza.
Final de tarde, muito ainda há o que percorrer naquela arrumação, mas amanhã será outro dia e a noite já se avizinha. Hora de inverter os gestos da chegada e iniciar o caminho de volta. As aves emudecidas por certo se aninham em seus leitos. Os outros animais também se ausentam. Só o murmúrio da noite chegando e o barulho das sandálias do avô argumentam.
O corpo cansado, mas feliz se enternece com o cenário e a possibilidade de daqui a pouco entregar-se à rede espichada e ao lençol envolventemente cheiroso. Aos poucos, as estrelas vão surgindo aos montes, no firmamento. O escuro da noite infiltra-se em todos os lugares. Caminhar mais próximo do avô é melhor, por via das dúvidas. A decisão exige passos mais apressados. O avô percebendo os motivos estende a mão. O gesto esperado oferece um prazer a mais e uma segurança inquestionável.
A casa se anuncia primeiro por pequenos pontos de luz que estremecem ao sabor da brisa. Depois, vai crescendo, crescendo até que o alpendre e suas linhas de definição se configurem completamente. Cachorros latem e vêm ao encontro. Ao se aproximarem, vão substituindo os latidos por ganidos suaves e abanos de calda. Enroscam-se nas pernas do avô, pulam sobre ele, que ralha com carinho. Os cachorros nos escoltam até que cheguemos ao batente da casa.
As lamparinas quebram o negrume da noite. A avó vem ao encontro e pergunta alguma coisa. Os dois penetram casa adentro. Os apetrechos do trabalho do dia são postos de lado. Sinal de que o trabalho adormece, dando vez ao relaxamento das conversas amenas e às histórias do dia. Contam-se tantas coisas que pequenos olhos não dão notícia nem há ouvidos suficientes para tanto. À mesa nos aguarda o jantar.

sábado, 8 de maio de 2010

VAGO ENSAIO SOBRE O VAZIO


“Nós somos nada, temos nenhum valor, nenhum significado. Nada é o que somos”. O poeta embora não reconheça num desabafo assim a voz de Nietzsche, toca-lhe o niilismo que por aí se vai. No vácuo dessa compreensão, fita sua interlocutora e estranha que seja ela quem diz o que diz: o que justificaria estar ali uma pessoa que tem a bravura de enfrentar a vida como se acreditasse nas vitórias, como se vislumbrasse um futuro, uma realização pessoal prometida para um dia, nos planos que expõe?
Fecha Plano. Os lábios estremecem com as palavras proferidas, reafirmam a certeza do dizer, e se oferecem ou simulam se oferecer aos beijos mais ardentes. Flashback de outras histórias marcadas na boca. O sorriso leve presume malícias e mais ainda aciona novas interrogações. Como nada? E os desejos que emanam dos gestos, e os motivos que a trouxeram até ali naquela noite? Há muita materialidade na escolha da roupa, no combustível gasto, na decisão de vir ao encontro. Nem a cena, nem o cenário parecem ter a ver com o niilismo extemporâneo, pronunciado de modo tão enfático.
Nós somos algo um para o outro, do contrário não nos arremessaríamos ao mesmo lugar, para um encontro em que nos damos tempo longo de contemplação. Aguçamos as narinas para apreciar o perfume que emana da pele, do tecido, do corpo um do outro. Ficamos presos a detalhes do olhar, dos olhares, do sentar-se e ela pedir uma água no lugar do chope, jogar os cabelos para trás e sorrir como que percebendo que o poeta está a olhá-la.
Escolhemos as brincadeiras de entrada: crie uma personagem completa, diz ela, com todos os detalhes do corpo. Ponha no balão, à sua direita, algo em que ela não consegue deixar de pensar, uma frase que ela disse e depois se arrependeu profundamente. Num balão à esquerda...
Em uma história deste tipo, há tal concretude que não combina com nada. Isto é muito. É tudo. É a condução da situação, é a ocupação do lugar de regente: fala quem dirige a cena, dá as cartas, se impõe, domina naquele momento a relação. Bom, é evidente que a percepção do que ocorre incomoda, mas o desejo de que tudo corra bem exige concessões até que, num outro momento, os lugares sejam trocados, o poeta passa então a formular as regras da mesa. Você vai fazer uma viagem, diz ele. Pense num lugar para onde você está indo. Pensou? Ocorre que, logo de partida, surge um problema que faz você parar e sem resolvê-lo não pode prosseguir com a viagem. Que problema é este?...
O mundo mobiliza-se nas proximidades. Um garçom se aproxima para trazer uma nova tulipa com chope, ela decide trocar a água por um suco de fruta, escolhe limão. Um casal, ao lado, pede a conta e retira-se em seguida. A música em background acende a noite. É possível tocar cada momento, experimentar cada sensação com a certeza de que tudo tem significado real para cada um de nós e todos que ali estão. O texto do princípio não consegue eco a não ser por instantes.
Bom, pode ser que, por um feitiço qualquer, por um sonho, talvez, tudo isto não esteja de fato ocorrendo. Que uma feiticeira ou, talvez, uma fada os tenha feito delirar, e cada um, do seu lugar de inexistência, imagine o tal encontro como uma coincidência que se efetiva sob vários pontos de vista: o mesmo casal, o mesmo lugar, os mesmos textos por onde os dois entrecruzam olhares, o reconhecimento das histórias particulares de cada um, para os dois, enfim, a mesma ilusão do encontro que nunca houve.
O vazio do nada que somos se refaz na expectativa do seu esvaziamento sobre a plenitude do mundo vazio. Os desejos derramados, os encantamentos enunciados, os prazeres que, por acaso, possam se ter experimentado em nada se constituem. O que mais assombra são as impossibilidades de uma conquista que se projeta para o vazio. A casa, o quarto, a cama, a boca, tudo estará vazio. Ou, como diz a música de Gilberto Gil e Chico Buarque: “É sempre bom lembrar /Guardar de cor /Que o ar vazio de um rosto sombrio /Está cheio de dor /É sempre bom lembrar /Que um copo vazio /Está cheio de ar”. Todo poderoso amor.

sábado, 1 de maio de 2010

UM AMIGO, POR FAVOR


Dou por mim despertando, como se saísse de um sono sem referência, num primeiro momento. Apesar de manter os olhos despertos, não há nitidez nas coisas ao meu redor. Sinto no corpo uma trepidação que varia entre o quase imperceptível e os solavancos bastante bruscos. Vez por outra meu corpo é arremetido para um lado ou para o outro. Aos poucos, percebo que estou em movimento, no interior de um veículo. O som constante, embora distante, de uma sirene contribui para que eu conclua ser este veículo uma ambulância. Neste caso, tanto posso estar sendo conduzido a alguma unidade de saúde (clínica, hospital ou pronto socorro), ou, já de retorno, indo para casa.
Não sinto dores – talvez sob o efeito de algum sedativo – e não sinto o meu braço esquerdo do mesmo modo como sinto o braço direito. Um frio rápido e agudo percorre toda a espinha e um medo se instala repentinamente. Uma lembrança ridícula me vem de sobressalto: uso a mão esquerda para conduzir a comida à boca. Aumenta o medo e sinto uma forte sensação de vômito, mas não consigo provocar.
Uma pressão mais forte no meu braço direito faz com que eu me detenha a olhar mais detidamente para este lado, vislumbro alguém que parece estar segurando o meu braço. Pelos traços, parece tratar-se de Antonio, um amigo de longo tempo e a quem há muito não vejo. Isto, de certo modo, me traz uma leve sensação de segurança, embora seu silêncio alimente a impressão de que não deseja ser identificado.
Mas desvio o meu pensamento para tentar recuperar a memória e entender por que estou aqui, o que houve antes? Não consigo lembrar de nada que explique. A não ser pelo desconforto do lado esquerdo “esquecido”, nenhuma outra sensação física denuncia qualquer estado de mal estar.
Em meio à tempestade de pensamentos desordenados, restauro a imagem de Antônio, ao meu lado. Tonico, como o chamo costumeiramente, se mantém em silêncio e segurando o meu braço direito. A lembrança de quando estivemos mais próximos e dos momentos em que vivemos nossa amizade desde a infância, vai-se remontando como uma história de alegrias.
O seu silêncio pode significar a gravidade da situação. Talvez não queira revelar em sua voz algo que me desagradaria. Tonico é uma pessoa pouco discreta tanto pelo seu tamanho pelo modo exagerado de falar alto e gesticular enquanto fala. Ali, calado, não explica a sua presença a não ser pela adoção de precauções que eu desconheço, embora possa imaginar os motivos.
A ambulância para bruscamente. A sirene não para de soar. Abre-se a porta traseira e a luminosidade aumenta a opacidade da visão pelo ofuscamento. Estranho que Tonico reclame com aspereza a alguém que lhe chama pelo nome. Neste momento, aquela sensação de segurança que me transmitia, desvanece. Em seu lugar, o medo pelo que possa estar tentando esconder. Uma grande confusão me conduz a tentar lembrança do percurso, desde que me dei conta de minha condição.
Reflito sobre o trajeto e observo que em nenhum momento Antonio foi cuidadoso comigo como era de esperar. E, desse modo, outros pequenos detalhes ajudam a reconstituir o comportamento adverso de Antonio.
Nesse instante, vejo que uma mulher vem falar com ele. A visão embaçada não me permite identificar quem seja ela. A silueta parece-me familiar, mas não consigo associar a uma memória que me permita o reconhecimento. Lembro da voz que chamou por Antônio e confirmo ter-se tratado de uma voz feminina que, àquela altura não me pareceu relevante.
A sirene vai esmaecendo até sumir completamente. Meu copor é posto numa maca, sem qualquer cuidado. Neste movimento, sinto o meu braço esquerdo porque tento usar para me amparar na superfície da maca. Um alívio atenua o medo e as más impressões de ultimamente.
Fora da ambulância, a maca é empurrada por um corredor estreito. Antõnio vai à frente, como se fosse um enfermeiro. A mulher vem logo atrás, segurando o soro que me injetam na veia. Caminham calados. Escuto, porém, a respiração ofegante da mulher e vozes que ecoam no corredor sem definição da direção de onde procedem.
O casal me conduz como se carregasse um peso na consciência.

domingo, 25 de abril de 2010

DEUS NOS LIVROS





Já ouvi falar de muitos lugares onde Deus está. O Céu é, certamente, aquele lugar em que, digamos, não resta dúvida. Mas ninguém sabe exatamente onde fica o Céu. Há quem diga que o Céu é a própria Terra e que o alcançamos quando conseguimos ser felizes. Outros dizem que a felicidade está dentro de cada um de nós; portanto, neste caso, o Céu seria uma espécie de estado de espírito. Em cada uma destas possibilidades existe um número bastante grande de detalhes, de penduricalhos que se ajustam como explicação ou justificativa para uma tese complexa.
Como quem mais prega a existência de Deus num Céu são as ordens religiosas, é comum que se escute falar que uma igreja é a casa de Deus, a casa do Senhor. Neste caso, poderíamos pensar que uma igreja é o Céu. No entanto, os religiosos explicam que a igreja é a casa de Deus, qualquer um pode falar com ele indo à igreja, pode encontrá-lo lá, mas poucas ou nenhuma pessoa, em sã consciência, chega a confirmar, com segurança, qualquer experiência neste sentido.
É muito comum também que ouçamos falar que Deus está no Céu, na Terra e em toda parte. Bom, se Deus está em toda parte, parece meio desnecessário que eu fique aqui buscando escrever sobre os lugares onde dizem que Deus está. Como este argumento parece ser daqueles que buscam ganhar uma discussão ou encerrar uma conversa definitivamente, eu vou, a princípio, desconsiderá-lo. Está certo, Deus é onipresente, onisciente etc. etc. Mas se formos por este argumento vamos ter que parar de conversar.
Lembro que, quando criança, à hora das refeições, ninguém podia brincar ou falar desaforo, palavrão. Se alguém se arriscava a desconhecer a lei, a mãe, o pai ou os avós ralhavam. Botavam uma cara feia e repetiam enfaticamente para nos aquietarmos, porque Deus estaria à mesa. Olhávamo-nos, olhávamos os arredores e nunca víamos. Mas ninguém ousava dizer que não via. Apenas obedecíamos, sem discussão. Pensava sempre comigo mesmo, o lugar em que Deus está é à mesa. Algumas vezes nem havia mesmo uma mesa, era apenas uma esteira de palha estendida ao chão, ao redor da qual todos se sentavam para comer.
Em entrevista que o escritor Paulo Coelho deu à revista Veja, perguntaram-lhe porque seus livros têm tantos erros bobos, às vezes até parecem erros de digitação. Ele disse que é porque não faz nenhum esforço para retirar os erros de seus textos. E não os tira porque, segundo ele, Deus está nos detalhes e retirando os erros do texto poderia estar tirando Deus de sua obra.
O padre celebra a missa, a partir da leitura de um livro, donde diz extrair a palavra de Deus. Os pastores e os evangélicos, de modo geral, andam com a sua bíblia para cima e para baixo. Beijam, oram e cantam com os olhos pregados nesses livros. Mesmo os estudiosos, os pesquisadores buscam o conhecimento, com os quais se armam para conquistar o mundo, nas páginas dos livros. Embora alguns até usem este conhecimento para negar a Deus, é nos livros que encontram sua sapiência.
As gerações de sábios que se vão deixam, para as gerações futuras, muitos conhecimentos. Muito deste conhecimento é praticado e posto em rotação sem que haja necessariamente nenhuma palavra escrita a respeito. Contudo, é nos livros que vamos buscar o conhecimento com mais substância, aquele que resiste ao tempo e que serve de fonte de consulta a quem queira tirar dúvidas acerca de algo existente no mundo. Existência que pode ser até como ideia, pensamento, algo imaterial.
Já ouvi dizer que um bom livro sempre leva aos céus pelo prazer da leitura, das descobertas, das histórias que oferta. Esta relação entre Deus, céus e livros é muito humana. Isto pode não explicar nada, nem precisa, mas pode apontar para um lugar onde Deus pode estar e quase ninguém se dá conta. Deus está nos livros.

domingo, 18 de abril de 2010

A MULHER DO PESCOÇO COISADO


O sim das coisas é o não.
E o não é sem coisa.
Portanto, coisa e não
são a mesma coisa,
ou o mesmo não.
Carlos Drummond de Andrade





Uma mulher belíssima, jovem, risonha e misteriosa. Principalmente, misteriosa. Ninguém, que se saiba, conseguiu ver-lhe o pescoço. Esconde-o com seus belos cabelos cacheados ou, senão, com uma gola, um xale, com algo que o envolva, privando, assim, os olhares curiosos de ver-lhe um pedacinho sequer. Não é necessário conhecê-la bem para saber destas coisas: basta ter com ela e prestar-lhe atenção. Em certas ocasiões em que, por um pequeno descuido, deixou a descoberto um detalhe do pescoço, o que se viu foi, simplesmente, nada. Parece que seu pescoço é um vácuo, uma falta, como se sua cabeça se sustentasse no vazio, numa transparência. Claro que quem diz que viu semelhante coisa acaba ficando por mentiroso ou mentirosa, porque ninguém acredita nisto. O certo mesmo é que ela mantém, elegantemente, o pescoço encoberto, sempre.
Como não se sabe o que pode haver com o pescoço dela, diz-se que ela tem o pescoço coisado. Bom, não dá para saber se coisado aí tem a ver com uma qualidade do pescoço  bonito, comprido, cheiroso  ou com um estado  retorcido, assinalado, alongado etc. Coisado, neste caso, significa algo que não se define: alguma coisa sobre a qual não se encontra palavra para esclarecer. Não adianta ficar especulando, como é que se vai explicar algo de que não se tem a menor ideia.
Contam que, quando alguém pergunta a ela sobre este assunto, ela se põe a rir, um riso gostoso, bonito  sim, porque seu riso é lindo , como se zombasse da curiosidade e dos curiosos. Seu namorado não quer nem ouvir falar no assunto, qualquer menção a isto e ele logo faz de conta que não está escutando e desconversa. Faz-se de desentendido. Mesmo os amigos mais próximos ou, pior ainda, seus familiares morrem de curiosidade sem que ele dê a mínima atenção.
Por conta destes mistérios, surgem muitas histórias, cada uma mais estranha que a outra. Desde que ela tem uma cicatriz muito feia, resultado de um quase enforcamento quando ainda era criança e por pouco não foi decepada por uma linha com cerol; até a existência de um sinal peludo, horroroso e malcheiroso. E por aí se vão as histórias todas. Ela conhece cada uma e se diverte quando alguém pede que confirme alguma. Ri como se gostasse, como se curtisse os mistérios que alimenta acerca de seu pescoço coisado.
A versão que mais a agrada é a de que seu pescoço é tão lindo e perfumado que, simplesmente, nenhum homem o resistiria. Deste modo, ela o esconde, para não atrair sobre si os desejos dos homens todos que transitam por onde têm que circular diariamente. A tal mulher é professora e, além de lidar o dia inteiro com turmas de alunos, está sempre cercada por seus colegas professores. Mas apesar da curiosidade e das maledicências, ninguém ousa molestá-la. É muito respeitada por todos. Uma brincadeirinha aqui, outra ali, mas nada de atrevimentos.
Do corpo bem delineado à cabeça brilhante e privilegiada, um espaço inexplicável em que se perdem suspiros e se desorientam desejos. Um lugar que une e separa, ao mesmo tempo, coisas impensáveis e, do mesmo modo, indizíveis. Um pescoço feminino envolto em segredos: mistérios que sustentam fantasias e que, certamente, jamais serão esclarecidos.

terça-feira, 6 de abril de 2010

EU TE AMO AINDA


Luiz sai de casa, como de costume, na expectativa de encontrar-se com Joana naquela manhã. Porém, dado o hábito deste encontro, não há qualquer outro sentimento que o deixe excitado ou preocupado. Há, sim, um certo prazer de encontrar com a pessoa que naquele momento parece ser especial em sua vida. Afinal, Joana é muito carinhosa e com ela partilha os assuntos sobre os quatro filhos em comum.
Pensando assim, toma a condução que o levará ao seu destino. No percurso, vai repassando o que imagina ser a conversa deste dia, e definindo em quais ou tais pontos deve ceder ou não. Está tudo mais ou menos roteirizado, como sempre. Ao mesmo tempo em que organiza seus pensamentos numa espécie de agenda, observa com indiferença a paisagem que resvala ao seu redor.
Entretido em seus pensamentos, nem se dá conta de que puxara o sinalizador, quando dá por si já está descendo os degraus, à porta do coletivo. Cumprimenta alguém no ponto de parada e segue pela rua, quase que automaticamente. Chega à casa de Joana na hora que combinara, sem qualquer novidade.
Empurra a meia porta e entra, virando-se, em seguida para fechá-la. O silencio da casa, no entanto, não é o habitual. Em geral, quando chega, Joana está junto a pia, lavando louças ou ao fogão, preparando o almoço. Agora, não há movimento algum, parece que não há ninguém em casa. Logo percebe que Joana está no quarto, sentada na cama, arrumando os longos cabelos negros. Vai ao seu encontro e beijam-se brevemente.
Luiz sorri e pergunta, com zombaria, por que ela está se vestindo? Joana também sorri e responde que gosta que ele a dispa. Luiz senta-se na cama e ficam conversando, conforme ele vai puxando os temas que havia programado discutir com ela. Joana pergunta pela esposa de Luiz que, sem qualquer constrangimento, vai dissertando sua vida conjugal com Carmem.
Joana, então, fala dos filhos, das despesas da casa, da viagem que fizera à casa de seus pais e outros assuntos já esperados. As coisas todas vão ocorrendo dentro do previsto e do habitual. Assim, vão conversando e, devagarzinho, vão se aproximando um do outro. Um detalhe no cabelo dela, um botão desabotoado na blusa dele... as mãos frias dela na mãos quentes dele.
Desde que Luiz conhecera Joana, nunca sentira nela tanto ardor, tanta volúpia. E, claro, mesmo depois do amor, extasiado, ele não pode deixar de perguntar sobre o que está havendo. Quase que lhe pergunta por que não tem sido daquele jeito sempre. É certo que se dão maravilhosamente bem na cama, mas daquele modo, jamais ocorrera.
Joana, ainda com a expressão do prazer cintilando no rosto e no corpo inteiro, diz que tem uma coisa muito importante para dizer a ele. De imediato, ele imagina que ela pode estar grávida. E a interpela neste sentido. Joana nega sorrindo. O clima está ótimo e Luiz não se cansa de abraçá-la e beijar o seu corpo. Joana não resiste, mas também não retribui como das outras vezes.
Afinal, Luiz pergunta sobre o que mesmo ela quer falar com ele.
Joana se recompõe e, em silêncio, vai vestindo-se sob o olhar curioso de Luiz. Ela começa elogiando a esposa de dele: é uma mulher bonita que, mesmo sabendo que os dois vêm mantendo uma relação, inclusive, com quatro filhos, nunca criou problema. Até a recebe em sua casa, como recebe também os seus filhos. A ajuda quando precisa e está sempre disposta a compreender o seu lado. Joana diz, em fim, que pensou bastante e que apesar de o amar muito, a partir daquele momento, não o quer mais.