domingo, 12 de fevereiro de 2012

CONFLITOS FILIAIS



          A filha adolescente, tímida, aguarda o seu momento de manifestar-se, quase que escondendo-se por trás da avó. Sentindo que uma pausa mais longa se inicia, decide falar. E começa, com a voz em tom quase inaudível, trêmula. Diz que está ali porque sua avó a trouxe, mas que não se sente bem pagando aquele mico. Escutou com atenção tudo o que até então foi dito e que se sente constrangida de participar daquela situação.
              À média em que vai falando, vai soltando-se e a voz ganha firmeza. Sabe que entre os que falaram há muita coisa a ser percebida: desde o cuidado exagerado que a avó demonstrou até inveja, falsidades e outros sentimentos igualmente ruins. Não menciona mais ninguém, mas olha para as pessoas à sua volta com certo desdém.
          Dirige-se à sua mãe, dizendo que ela não precisava estar passando por aquela situação, que a preveniu e que ela, a mãe, sabe o quanto tudo aquilo a deixa mal. Não entende como tantas vezes ouviu de sua mãe que, como filha, seria a sua prioridade, e na hora de tomar a decisão de casar-se não levou em conta o seu sofrimento. Diz que não concorda com aquele casamento, que não sabe quem é aquele homem com quem sua mãe casara, que, em sua opinião, nada justifica o casamento.
          Vai falando e tomando gosto pelo falar, a voz assume um tom firme e até empostado, como se discursasse numa tribuna. Critica o pai por também estar ali, diz que ele não deveria, esteve sempre ausente quando era necessário e que agora que é desnecessário está ali. Critica a avó que fez que questão de trazê-la até ali e a colocou naquela situação ridícula.  Diz que aquela cena é inadmissível e os que ali se encontram não pensam na sua mãe, mas em si próprios.
          Mas também, não assume a defesa da mãe de um modo muito forte. Considera que ela tem culpa pelo que está passando, que ela não avaliou corretamente a situação e que está submetendo a família a coisas que não tem nenhuma razão de ser. Diz que uma pessoa precisa saber que os seus atos não apenas tem consequência para si, mas também, para as outras pessoas que estão ao seu redor. Uma atitude errada provoca mal estar em todos que, sequer, tem poder para barrar, impedir e, na maior parte das vezes, sentem até mais do que quem a praticou.
          Olha para a tia e reclama do drama ridículo que encenou. Diz que aquilo não ajuda, mas, ao contrário, expõe ainda mais as debilidades da família. Olha para o tio e, movendo a cabeça negativamente, diz que jamais imaginou que ele fosse capaz de uma fragilidade tão grande. Não conseguiu impedir que as coisas chegassem até ali e, agora, havia se comportado como um fraco.
          Olha ao seu redor e expressa um desprezo evidente por todos os que ali se encontram. Diz que tem certeza que os motivos que movem cada um são torpes e que, mesmo assim, todos tem a intenção de seguir adiante em seus propósitos. Por isto mesmo, diz, não pode ter qualquer outro sentimento pelas pessoas que ali estão a não ser o de reprovação.
          Diz que, se antes já não tinha o casamento como um objetivo seu, dali em diante, tem a certeza de que jamais se casará. É o segundo casamento de sua mãe e percebe que se o primeiro não deu certo, este outro se encaminha para o mesmo destino. O marido de sua mãe será sempre um estranho e, certamente, a realidade que ali se desenhara deixará marcas muito profundas em todos, principalmente, nele. Alias, diz enfaticamente, não sabe como ele ainda está ali, ouvindo tantas barbaridades e sem dizer nada e sem tomar qualquer atitude.
          Para finalizar, diz ser lamentável tudo aquilo. 
          Volta a postar-se por trás de sua avó, como se retirasse de cena.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

IRMANDADES EM COLAPSO


Foto do autor

          Diz o irmão, na condição de responsável pela família na falta do pai, que de início aguardava que todos falassem para, então, manifestar-se. No entanto, dado que muita coisa estranha fora dita, achou por bem falar. Seu desejo é preservar a imagem da família e, especialmente a de sua irmã que parece desorientada com tanta gente perturbando aquele momento especial, a sua lua de mel.
          De fato, a noiva emudece, olha perplexa para aquela multidão em cima de sua cama e não entende o que está acontecendo. Ela só deseja o momento em que o casal deve pronunciar a frase consagrada pela tradição: “em fim, sós”. O que a deixa ainda mais desnorteada é que, ao que parece, todos que ali estão desejam falar. E falar coisas sobre as quais ela não tem a menor vontade que venham a baila naquele ou em outros momentos. O sonho da lua de mel torna-se um pesadelo sem fim. Cada um que se pronuncia parece um boquirroto, um saco furado, revelando segredos e passagens íntimas que deveriam estar no esquecidas no passado de cada um.
          O irmão, único homem da família, parece acabrunhado com tantas coisas que ouvira até então, mas também não deseja silenciar para não parecer que concorda com todos os absurdos ditos na ocasião. Pensa consigo que “quem cala consente”. Não aceita isto, de modo algum.
          Tema sua irmã em boa conta, foi criada sob rígida orientação da mãe, como todos os outros. Não permite que sua honra seja enlameada do modo como estão querendo. Fala de momentos da infância onde sua irmã sempre comportou-se com timidez e com reservas. É uma pessoa discreta, bem formada, de boa índole. Grande parte do que foi dito não tem razão de ser. Quando alguém questiona o que ele poderia ter vindo fazer ali, ele dá de ombros e responde que é o irmão que assumiu o lugar ausente do pai, que tem responsabilidade sobre sua irmã, ninguém melhor do que ele para estar ali. Todos os outros deveriam perceber o ridículo de estarem ali e irem-se sem falar mais nada, não há necessidade, já falaram bastante. Apela a que todos se retirem, que deixem a sua irmã em paz.
          A irmã, que se mantivera apenas observando tudo, interrompe o irmão para declarar amor a sua maninha, reforçando o apelo para que todos deixem o local e parem de importunar a noiva que só deseja consolidar o seu casamento. Ela fala de sonhos havidos em noites anteriores, de uma cartomante, de um mago, de um padre, um feiticeiro, um pajé ... todos haviam previsto o que estava acontecendo ali. Ela que não prestou muito a atenção e nem levou em conta as previsões. Mas ela pode muito bem saber o que resultará de tudo isto, não pode acabar bem, a continuar do modo como está.
          Os dois se encaminham para a noiva, a abraçam longamente. Ouve-se um soluço, vários soluços. Um cochichar nervoso como se orassem ao mesmo tempo orações diferentes. Ajoelham-se ao seu redor e mais uma vez se abraçam e choram, desta vez alto, para que todos ouçam.
             Vez ou outra, um ou outro olha para trás na esperança de que todos tenham-se ido. No entanto, ninguém arreda pé, permanecem aonde estão, atentos a tudo. Pelo visto cada um aguarda a sua vez de falar.

domingo, 22 de janeiro de 2012

CORPO MÉDICO



Dr. Naum – Na verdade, não sei o que posso eu estar fazendo em cima de uma cama de um casal em lua de mel. Devo ter-me perdido a caminho de minha casa ou da casa de um paciente e agora me encontro aqui. Não tenho outra explicação. Bom, mas já que eu estou aqui, quero preveni-la ou preveni-los que este é um momento decisivo para a vida saudável de um casal. O equilíbrio, as ações ponderadas marcam positivamente para a vida harmônica no futuro.
          Não sei ao certo se isto deveria ter sido dito por sua mãe, quando falou há pouco, mas entendo que se ela não disse me cabe dizer porque eu, como seu médico, tenho o dever de zelar por sua saúde. Em primeiro lugar, aproveito para recomendar que você tome a sua medicação nos horários indicados, quando retornar faremos uma avaliação para verificarmos se estes remédios de agora, na dosagem prescrita, estão resolvendo.
      Tenho receio de que não tenhamos mais nenhuma opção para experimentarmos. Nenhuma das opções utilizadas anteriormente fez o efeito que esperávamos. Mas, tem um laboratório indiano que está experimentando uma droga nova e ficou de me enviar na próxima semana. Não sei, vamos ver se me enviam mesmo.
          Aproveito para pedir que alguém aqui que esteja retornando, me auxilie no meu retorno, posso dar uma carona contanto que me ajude a sair daqui.

Dr. Simplício – Bom, com tanta gente assim ao redor, não me parece adequado que eu trate de questões psiquiátricas com você. Dr. Naum passou ao largo, falou de medicação, mas não esclareceu qual seria. Temo que você esteja juntando as prescrições dele e mais as minhas, isto seria temerário. Os ansiolíticos tem propriedades bastantes complicadoras se associados a outras drogas com as quais reagem de modo diverso. Você já tem aquela experiência desastrosa de ingerir bebida alcoólica após tomar rivotril, esteve em coma. Este, na verdade, é o meu maior medo, por isto estou aqui. Tenha cuidado consigo, não arrisque sua vida por bobagem.
          Pensando bem, acho que vou esperar que você retorne para que possamos conversar com certa privacidade. Este povo todo olhando para nós, aguardando o momento de falar, na ansiedade em que está cada uma destas pessoas, não dá para avaliar o que pode acontecer, além da exposição pública de conversas que só devemos entabular no consultório.
          Vou aproveitar a carona do Dr. Naum, ajudá-lo a chegar a casa dele e até, aproveitar o percurso para conversar um pouco com ele acerca da sua situação. Por favor, nos permitam sair. Por favor...

Dra. Petra – Meu anjinho, difícil encontrar você assim, casada, sem lembrar de tudo o quanto já tivemos que enfrentar juntas. Veja, não quero atrapalhar sua lua de mel. Não, não quero. Eu vim porque você poderia precisar de mim, das minhas agulhas, dos meus cuidados médicos. Mas estou vendo que você está bem disposta, acho melhor ir com os meus colegas. De qualquer modo, estarei a sua espera quando você retornar. Temos aqueles exames ainda pendentes, temos que cuidar deles, são muito importantes. Não esqueça que sangramentos são sinais de alerta. Mas vou esperar seu retorno, não fique preocupada.
          Porém, enquanto você estiver por aqui, vou cuidando de juntar os exames que você já fez e vou tentar reunir uma equipe médica para que possa oferecer a você um parecer mais exato quando retornar. Estou indo, então,.. felicidades.

domingo, 8 de janeiro de 2012

O EX-MARIDO

Foto do Autor


Desculpe-me se a minha presença pode causar embaraços a sua felicidade. Não quero de modo algum constrangê-la num momento tão importante de sua vida. Longe de mim tal desejo. É até muito fácil explicar os motivos que me conduziram até aqui, neste momento.
Embora eu não tenha sido um pai muito presente na vida de nossa filha, não posso agora deixar de me preocupar com ela. E, também, com você. Com ela, porque desejo recuperar o meu lugar de pai junto a minha filha. Certo, eu entendo quando você reclama que dou mais atenção aos filhos do meu atual casamento, mas quero agora corrigir isto. Gostaria muito que a minha filha entendesse os meus motivos e baixasse a guarda. Quero muito ter o seu amor, digo, o amor da minha filha. Quero também mostrar a ela o quanto a amo, de verdade. Ainda não sei como conseguirei conquistar a confiança dela, mas é por isto mesmo que eu estou aqui. Penso que você pode ajudar-me.
Mas tem outra coisa que quero dizer, aliás, outras coisas. Primeiro, bom, não sei como dizer isto. Tem a ver com nós dois: eu e você. Nos separamos num momento em que poderíamos ter tentado superar as nossas dificuldades, rompemos uma relação de amor, sem muita resistência. Veja você que hoje já não bebo mais tanto, não sou mais aquela pessoa violenta que conviveu com você. Na verdade, eu nunca quis espancá-la, nunca. Nunca consegui entender porque acabava batendo na pessoa a quem mais amei na vida, mais am.. deixa quieto.
Você mesma conta para as suas amigas que passamos a ter os nossos melhores momentos depois que nos separamos. Eu posso dizer o mesmo. Nas vezes em que ficamos juntos depois de separados, foram os momentos mais felizes que experimentei na minha vida. E você sabe que nestes momentos eu jamais a ameacei, jamais encostei um dedo em você com intenção de machucá-la. Penso que estas coisas todas querem dizer algo de muito positivo. Eu mudei muito, e mudei para melhor.
Parece estranho que eu agora esteja aqui, sobre esta cama, na sua noite de lua de mel, dizendo isto. Mas, também, não me sentiria confortável se deixasse de vir, se deixasse de falar a você o que eu estou falando. Não imagino onde tudo isto vá parar, que conseqüências possa trazer para mim, para nós, mas confesso que me sinto melhor dizendo o que tinha para dizer a você hoje.
Eu entendo, sei que está pensando: que eu tenho outra família e que devo cuidar dela. Certo, tudo bem, você tem razão. Mas eu já tinha esta família quando saímos juntos tantas vezes. Aceito e entendo que você diga que agora é diferente, que agora está casada, que também tem o direito de constituir sua nova família. Não vejo problema, em nenhum dos seus namoros, nenhum dos casos, enfim, em nenhum de seus relacionamentos amorosos tivemos problema para nos entendermos, para sairmos e curtirmos o sentimento que temos em comum.
Você, mais do que ninguém, sabe que nos amamos, que a nossa separação é apenas um acidente de percurso. Uma destas peças que a vida nos prega e a respeito da qual nada podemos fazer. Fomos precipitados na separação, ao buscarmos novas companhias depois. Tudo foi ficando complexo demais e não soubemos resolver uma coisa tão simples e tão cristalina conversando, o fato de que precisamos um do outro.
Não adianta agora usar o meu casamento, o seu casamento para tentar nos livrar disto que nos tem unido todo este tempo e que nos unirá para sempre: o nosso amor. Dito isto, quero concluir dizendo que a minha presença aqui, nesta noite, é apenas o indicativo de que eu estarei presente em sua vida para sempre, não adianta tentar fugir. Você não conseguirá me esquecer, do mesmo modo que eu não conseguiria esquecer você.
Mesmo que esta minha insistência possa constituir uma dificuldade no desejo que eu tenho de reconquistar o afeto da minha filha, não posso simplesmente abrir mão de você. Tenho certeza que se eu contar com o seu empenho, poderemos ver outro meio de superar todos os empecilhos.
Mas hoje é a sua lua de mel e eu quero que você seja muito feliz.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

MÃE E SOGRA



Entre perturbada e divertida com aquela situação, a noiva procurou saber primeiro de sua mãe o que estava acontecendo ali. A mãe pegou as mãos da filha e com ar meio choroso, começou agradecendo a Deus porque, afinal, tudo estava bem. A filha não entendeu nada e perguntou novamente por que estavam ali? Ninguém dizia nada, olhavam-na como se não acreditassem no que viam.
Aquela cena confusa foi-se complicando mais e mais. Logo, a mãe, ainda com a voz embargada, disse que veio até ali porque preocupara-se por conta do modo como haviam tomado a estrada, saíram daquela maneira, ainda de madrugada, uma viagem longa. Com tantas notícias ruins que tem visto na TV: acidentes com vítimas, imprudência de motoristas, assaltos... enfim, se ficasse em casa não estaria tranqüila. Em seguida, abraçaram-se longamente.
A filha, embora considerasse tudo aquilo um absurdo, parecia entender as preocupações da mãe, tratava-a com delicadeza, acariciando seus cabelos e olhando-a com carinho. Ficaram assim por bastante tempo, enquanto as outras pessoas assistiam paralisadas àquela cena pouco esclarecedora, mas muito significativa.
Em certo momento, o noivo interferiu para reclamar e para protestar contra os motivos apresentados. Nada justificava aquela invasão na intimidade do casal. A sogra começa a chorar e a maldizer a hora em que havia concordado em deixar que a filha casasse com aquele homem sem coração. repete várias vezes que a filha sempre tivera o desejo de casar porque muito cedo o pai largara a família, e tal desejo fizera com que não pudesse ter percebido a pessoa de coração duro que era aquele homem...
A filha ficou sem saber se tomava as dores da mãe ou se preservava o seu casamento. Pedia ao marido que poupasse a sua mãe, alegava que se tratava de uma mulher sofrida que tivera de criar três filhos sozinha. Além de tudo, era uma mulher de idade avançada, que sofria de pressão alta e poderia a qualquer momento sofrer um ataque cardíaco ou até mesmo um aneurisma cerebral.
Mas, em seguida, pedia a mãe que compreendesse a situação, afinal, estava casada, havia de ter intimidade com o marido, que a mãe não devia invadir daquele modo a sua privacidade, era a sua lua de mel. Pedia que retornasse a sua casa, que não se preocupasse, estava tudo bem e continuaria assim. Mas a mãe continuava a chorar loucamente, rogando a Deus que a tirasse dali, que a fulminasse com um raio. Antes morrer ali, naquele momento, do que suportar a ingratidão de sua filha querida, que sofrer com as acusações daquele genro desalmado.
O mais absurdo era que todas as outras pessoas continuavam ali, caladas, observando como se cada uma aguardasse a sua vez de também ostentar o drama interior que experimentava. Apenas observavam. Nenhuma expressão esboçavam, como se estátuas fossem. Em meio a este cenário, a mãe chorando cada vez mais alto. De repente, para de chorar. Aproxima-se da filha, toma as suas mãos e, olhando fixamente no seu rosto, diz com raiva: “você sabe que não pode mais engravidar, sofreu um aborto há pouco tempo, teve hemorragia, sangrou muito, quase morreu. Uma gravidez neste momento é quase que uma sentença de morte. Eu estou aqui para impedir que você faça alguma besteira, que faça estripulias com este seu marido insensato”.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

LUA DE MEL


Foto do Autor

Um casamento simples, sem muitos convidados, sem grande festa, apenas um jantar com a família da noiva, já que a família do noivo é de outro estado e sequer foi convidada para a cerimônia. A alegação é a de que tudo foi decidido muito de repente. O namoro foi breve, o noivado ainda mais: do primeiro encontro ao enlace decorreram apenas três semanas. Mas nada é problema, tudo é só felicidade.
A música já se repete e a conversa rola já também a repetirem-se os assuntos, muito mais pelo estado etílico dos convidados do que mesmo por falta de novidades. No entanto, não se percebe que alguém tome a iniciativa de ir embora. Todos, de algum modo, fazem questão de ostentar a alegria que uma festa de casamento exige.
Curioso é que naquela festa, a família está reunida mas não há um grupo homogêneo. São pequenos grupos formados ao redor das diversas mesas. Uns falam de coisas do passado, recuperam acontecimentos saudosos ou bem humorados, outros discutem questões do cotidiano como o custo de vida ou a preferência por este ou aquele supermercado para as compras da semana.
Outros, os mais jovens, falam de músicas, de namoro ou de acontecimentos escolares ou, ainda, das últimas férias que, afinal não estão distantes, visto que ainda é setembro. À media que falam de coisas deste tipo, vão marcando encontros para novos encontros em shows, shoppings, cinema etc.
Enquanto a mesa dos adultos é servida com cervejas, whisky, cachaça etc., na mesa dos mais novos só refrigerante ou suco, nada de bebida alcoólica. Mesmo assim, não falta alegria e nem entusiasmo. A música é diversa e quando toca alguma coisa mais atual, arriscam-se até danças.
Enquanto isto, a noite avança. O casal roda de mesa em mesa e quando percebe algum demora no serviço de servir as mesas, toma a iniciativa conjuntamente. Não desgruda um do outro um só momento. Ninguém demonstra cansaço ou aborrecimento. Sabem que tem muito tempo para curtir a felicidade juntos e, um jantar que reúna toda a família é tão raro e tão agradável que ninguém tem motivo para reclamar.
Já é madrugada quando as primeiras pessoas começam a despedirem-se para ir embora. Mas, também, como estivesse combinado, todos se vão. Rapidinho já não há mais ninguém que precise ir embora. A família trata, então, de recolher pratos, talheres, toalhas de mesa, enfim, organizar as mesas e por cada coisa ao menos num lugar que facilite as tarefas da arrumação da casa quando amanhecer.
Desliga o som e logo todos estão prontos para a cama. Apenas o casal verifica as malas porque tem viagem marcada para a lua de mel numa cidade um pouco distante. A mãe da noiva demonstra preocupação por conta de estar já quase amanhecendo e adverte que dirigir com sono não é recomendável. O rapaz esclarece que procurou dormir durante o dia, que não há risco algum. Dirigir àquela hora, diz ele, é até melhor porque a tendência é que o dia vá clareando mais até que nasça o sol. Além disto, complementa, o clima está mais ameno e a estrada menos movimentada. Contra o gosto da sogra, o rapaz põe o carro para fora da garagem e dali a pouco estará na estrada.
Em pouco mais de 4 horas de viagem chegam ao hotel em que foram feitas as reservas. O rapaz retira a bagagem, o manobrista conduz o carro ao estacionamento enquanto um auxiliar de portaria conduz o casal até a porta do quarto. Um olha para o outro, sorriem, e o rapaz toma a iniciativa: põe a noiva nos braços, empurra a porta com o joelho e entram, embriagados de desejo.
Ao ligar a luz tomam um susto imenso: sobre a cama estão todos os parentes da noiva, o ex-marido, os últimos amantes, alguns médicos de especialidades diversas e uma cartomante vestida a caráter.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

LAVADEIRAS



Lavar e passar, dia após dia. Horas a fio na beira do rio, batendo roupa, literalmente, até que os braços não mais deem conta. Enquanto a roupa é batida, o sol açoita os corpos desnutridos e resseca a pele tal qual faz com o leito seco dos lagos: queima que racha. Um dia os panos são reclamados por uma família, noutros, por outras. Mas a rotina repete os gestos, repete as roupas e até mesmo os pensamentos que consomem o tempo.
À beira do rio, só as cantigas mal cantadas, os benditos murmurados desfiam o silêncio. Afora isto, o ruído das águas ou a algazarra dos pirralhos que se banham um pouco mais além, na água turva. A roupa batida contra a pedra solta um repique seco e ritmado e ecoa nos arredores como um fazer de costume, sem surpresa alguma.
A blusa que antes foi nova, recebeu recomendações para secar à sombra, agora, desbotada, parece ter perdido o seu sentido na espuma do sabão e no enxágue das tantas vezes que mergulhou nas águas do rio e de outras tantas que foi torcida até que pingasse a última gota, antes de ir-se ao varal para a secagem. O sol se entranha no tecido e sorve tudo o que é líquido. E o vento transpassa as malhas esmaecendo as cores e a resistência dos fios.
A roupa limpa e passada desfilará pelos dias, pelas ruas, pelas paragens inimagináveis ou, até mesmo, inconfessáveis. Vai adquirindo cheiros ou fedores dos perfumes e dos suores. Vai adquirindo estampas de coisas escorridas em ocasiões diversas: alimentos, bebidas, batons e outras intimidades. Depois retornará ao rio para o lavado e novas recomposições. No e vir se faz o seu desgaste e, ao mesmo tempo, desgasta o tempo e a vida no esforço repetido e nas horas somadas em que ficará estendida.
Por vezes surge um cerzido reunindo no pano puído as margens do que rompeu no uso e na batida contra a pedra. Por outras vezes, por descuido, um puxãozinho, o tecido preso à farpa do arame se esgarça. Quando não, o ferro mais aquecido, ou esquecido sobre a roupa, queima enrugando ou ou rompendo em pequenos furos. De qualquer modo, embora tudo isto faça parte deste rito, também faz parte ouvir queixas, lamentos e ameaças, cobranças: “era a minha melhor roupa”. Parece coisa feita, é sempre esta que se rasga.
Na hora da paga, os caraminguás, como bem se diz, mínguam. O bem calcular, cada batida na pedra vale pouco mais que a fração mínima. Mas também isto já está ajustado, não há novidade alguma. Como que por determinação da sequência, ou melhor, da consequência, aquelas poucas cédulas e as moedas adjunto vão se transformar em alimento, sustento para que no dia seguinte se possa lavar a roupa que está ajustada de muito antes com a família daquele dia.
O sono da noite vira sonho que gira em torno das águas do rio: uma roupa vestida sem consentimento e o flagrante da dona que reage aborrecida. Tudo o que foi desejo não realizado no decorrer do dia inventa de acontecer como experiência enquanto o corpo adormece, no instante da noite dormida. As festas, as brincadeiras, as cores estampadas nas melhores roupas. Até mesmo a companhia desejada. É no tempo dos sonhos que se materializam.
As mães passam o ofício de lavar e passar para as filhas numa história interminável, como um destino sem apelação. Uma ou outra menina foge deste determinismo, quando migra para outras paragens ou quando lhe falta mesmo a vontade e se dedica a fazer outras coisas. Por vezes, coisas tão repetitivas quanto, mas dá-se a buscar outros destinos para si.
As lavadeiras nem se dão conta de que os destinos das peças de roupa repetem de certa maneira os seus próprios destinos. Se por um lado, as roupas vão e voltam às suas mãos enquanto perdem a cor e se diluem no tempo, a vida de cada uma das mulheres que batem a roupa contra a pedra também vai-se desgastando no trabalho repetido, no esforço dos dias, dos anos, até que tenha que repassar às gerações mais novas a tarefa de lavar e passar.
As roupas em seus ritos de ir e vir, de bater contra a pedra e de consumir a força e a vida enquanto se consomem, desenham o destino das lavadeiras e das famílias a que servem, no mesmo diapasão.