domingo, 11 de julho de 2010

DIFUSO


Acompanha-me, desde sempre, um sentimento de que preciso buscar algo que me falta. Este sentimento me conduz a estar sempre em movimento, de um lugar para o outro. Uma amiga observou, certa vez, que eu pareço estar sempre de partida, mesmo quando acabo de chegar. Ainda assim, dou comigo há anos vivendo no mesmo lugar. Há uma espécie de contradição, a inquietação move-me para longas viagens e me arremete de volta ao lugar de origem onde permaneço.
Ainda que entre partir e retornar signifique alguns poucos anos, a certeza de que retornarei me põe outro tipo de sensação, a de provisoriedade. Nenhum traço do que pode ser definitivo, por isto mesmo não finco raízes, não estabeleço vínculos permanentes. Nada deve ter marca do ficar. A saudade “de casa” é então aliviada por esta impressão de que logo estarei de volta. Os dias contados, os compromissos parcelados até a data do retorno. O que é provisório não ata laços.
A provisoriedade é real, estamos, como se diz, de passagem na vida. E a sua sensação em mim é uma espécie de equívoco, porque pressupõe a ideia de permanência. Cada estada breve só se justifica porque hei de estar sempre onde estou: em lugares diversos e, ao mesmo tempo, definitivamente, no mesmo lugar. Pode ser que este ir e voltar se faça em função do sentimento de falta, da busca de preencher esta incompletude. Pode ser que este retornar ao mesmo ponto de partida se dê, porque os pontos de busca apontam para o mesmo destino. Pode ser tanta coisa.
Quem está em busca de algo, e não sabe exatamente o que é, não sabe também quando ou se encontrará. Pode ser que este não saber traga junto a surpresa como atrativo, pode ser que também seja acionado para não produzir decepções. Mas, ao mesmo tempo, produz uma espécie de cegueira que nos leva a lugares em que nada há, para se buscar, ou, pelo menos, onde nada se encontra.
Há quem diga que este sentimento deve ser preenchido pela presença de Deus, que quem tem Deus ou uma religiosidade firme não precisa andar em busca de outras coisas que tragam felicidade. Mas é também o caso de se perguntar se não já é a fé que nos remete ao mundo e nos impõe a tal busca.
O crescimento de uma pessoa se processa, basicamente, em duas direções: a primeira é o crescimento físico acompanhado pelos hábitos sociais. Este crescimento conduz a que cada um se projete do seio da família onde goza de segurança para a constituição de sua própria realização, o que quase sempre leva à constituição de novas famílias que esta pessoa passa a prover, assumindo responsabilidades que mais a fragilizam do que lhe dão estabilidade. A segunda direção é produzida pelo desenvolvimento do conhecimento e a ampliação do nível de consciência sobre si e a sua condição no mundo. Esta nova perspectiva arremessa o ser num emaranhado de dúvidas e descobertas, que também produz incerteza e instabilidade, embora possa produzir sentimento de prazer e satisfação.
O que traz novamente a impressão de solo firme nas duas situações pode ser realmente a religiosidade. Mas é por crer em algo que nos arremessamos ao mundo e nos consideramos capazes de vencer desafios e superar limites. Novamente, se impõe a necessidade de ir em busca de objetivos e metas e de se chegar a destinos que não parecem se efetivar nunca. Tenho trabalhado, neste sentido, a ideia de que todo lugar de chegada é, antes, um ponto de partida.
Outro aspecto desafiador é que os percursos se bifurcam e os destinos se multiplicam, o que nos leva a ter que fazer escolhas, a optar. Escolher é necessário, mas nem sempre é fácil. Consideramos que temos direito a escolher, no entanto, quanto mais opções, mais difícil. Escolher um destino é excluir outros. Estes podem depois nos faltar.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

PAISAGENS DA ESTRADA


Foto do autor

Seis horas da manhã, o sono ainda acarinha o corpo, apesar da noite bem dormida. É hora de botar o pé na estrada. O risco largo sobre o chão, uma tarja cinza, a estrada rasteja mundo adiante, um vácuo que suga os desejos de irem-se. Sem que se definam as condições do tempo, o carro revisado e a bagagem pronta determinam que se parta.
No percurso, outros carros não tão apressados vigiam a faixa contínua e impacientam, animam o estresse. Uma curva à frente, um aclive mais acentuado. Tudo é motivo para retardar a ultrapassagem. Só no estirão das retas, nas faixas seccionadas o carro dispara e ultrapassa um após outro até que a pista livre se estire a perder de vista.
Placas de sítios vão ficando para trás, a paisagem vai se modificando de um lado a outro da estrada. As placas indicativas ora entortam mais à esquerda, ora mais à direita e os quilômetros a percorrer reduzem rapidamente, mas parecem intermináveis. À esquerda, avista-se um flamboyant de fronde vermelha, inclina-se sobre flores espalhadas ao chão e adornam uma casa simples, de taipa, porta e janela. Um cachorro estica a língua e se espicha à sombra. À direita, uma cerca branca, e um portão largo contornam uma chácara rodeada de plantas e flores. Palmeiras ao vento.
Um caminhão pesado e longo segue com vagar, pisca a lanterna esquerda indicando que não há condições de ultrapassagem, logo a seguir desliga a lanterna esquerda e aciona a direita, comunicando então que já não mais há risco: ultrapassagem segura. E lá se vai... pé embaixo.
Adiante, à direita, uma boiada margeia, tangida por vaqueiros que se agitam com a aproximação do carro. Aboiam, gritam, aciona o chiqueirador. O gado inquieta-se, mas segue à margem. Por via das dúvidas, é aconselhável reduzir a velocidade e evitar que, num ímpeto de atravessar a pista, tenham-se que adotar manobras ou freadas bruscas. Aos poucos, retoma-se a velocidade de antes e um suspiro profundo finda a apreensão frente ao estirão adiante. Vez ou outra, um jumento, cabras, uma vaca com bezerro atravessam a estrada e tem-se que ter cuidado, alivia-se o pé no acelerador e, quando necessário, aciona-se o freio no tempo e com a precisão que cada caso exige.
Entre os meses de junho e outubro, é comum que o verde ou o cinza que recobre as margens da estrada seja pulverizado por ipês amarelos, que mais se aproximam ou se distanciam, num jogo paisagístico que anima a alma dos viajantes com deslumbramento. Aqui e acolá, atravessam-se pequenos povoados e sedes municipais, onde o desenho das casas residenciais e comerciais é quase sempre muito parecido, como estivesse andando em círculos e passando pelos mesmos lugares diversas vezes. Mudam somente o relevo, as curvas, as retas, o cruzamento com trilhos desativados da ferrovia etc. Mas o melhor indicativo são as placas que dão boas vindas ou, simplesmente, identificam cada localidade.
De um lado ou de outro, crianças oferecem melancias, jerimuns, farinha, feijão, artesanatos da região ou animais silvestres à beira da estrada. Quando é tempo de ata ou milho verde, é quase obrigatório que se pare. A negociação não é fácil, porque na maior parte das vezes o preço está acima do que vale a oferta. Mas, fechado o negócio, retorna-se à viagem com a mesma determinação.
As placas agora confirmam a proximidade com o destino que se aproxima. A tensão vai se aliviando e a velocidade reduzindo-se, também porque aumenta o trânsito e o cuidado tem que ser redobrado.

domingo, 27 de junho de 2010

REGINA VAI AO MÉDICO


Regina amanhece sentindo-se indisposta, e acha melhor procurar um médico. Depois do café, ao invés de ir para o trabalho, vai ao Centro Médico de Botafogo. O mal-estar provoca calafrios, náuseas e indisposição.
Aproxima-se do balcão de atendimento e pede para marcar uma consulta com o clínico geral. Enquanto aguarda ser atendida, apanha uma revista bastante atrasada e fica paginando sem desejo de ler, apenas olha as imagens de personalidades que se exibem numa destas ilhas cenário. Ao seu lado, uma senhora que também aguarda a vez parece agitada. Diz ela que há várias noites não consegue dormir direito por causa de barulhos que a incomodam no apartamento um andar acima do que ela mora.
Conta que o barulho parece, num momento, ser de pessoas que correm como que uma perseguindo a outra. Noutros momentos, parecem rolar pelo chão, derrubando cadeiras e outros móveis. Tem sido assim há dias: inicia uma hora da manhã e vai até próximo de cinco e meia da madrugada. O pior é que os porteiros do prédio já foram avisados, mas não tomam conhecimento. Pior ainda, o dito apartamento está vazio, os donos estão viajando para a Europa e não retornam tão cedo. A mulher reclama que está se sentindo descompensada e que não sabe mais o que fazer. Sua última saída foi procurar o auxílio médico, entende que, tomando um remédio mais forte para dormir, não será mais afetada pelo problema.
Enquanto escuta aquela história, Regina vai virando as páginas da revista sem se deter muito em qualquer uma delas. De vez em quando para e ergue os olhos, para tentar observar as pessoas que parecem prestar atenção naquela senhora idosa que fala e gesticula com nervosismo. Quanto mais ela se percebe observada, quanto mais gente se chega próximo para ouvir seus relatos, mais a senhora dramatiza sua situação.
Há quem sorria do modo dramático com que ela se expressa, há quem demonstre indignação e assombro, e parecem questionar como podem incomodar o sono de uma pessoa idosa que está precisando agora descansar na vida? E os tais porteiros, que não descobrem ou não querem tomar providências com aquela situação, onde estariam? Há quem seja indiferente e continue lendo aquelas matérias das revistas ultra ultrapassadas, como se novidade fossem. As reações são as mais diversas. De um momento para o outro, alguém é chamado para receber atendimento, e seu lugar é ocupado por alguém que acaba de chegar, ou aguardava em pé um assento.
Regina, com seu mal-estar, não pede a Deus que seja logo atendida, porque não sabe quanto tempo aguentará se sentindo daquele modo. O tempo passa lentamente. Um suor frio percorre sua espinha e borbulha a testa. Os lenços de papel já não dão conta. Mesmo assim, a boca ressequida e amarga exige que Regina vá ao bebedouro e engula copos e copos de água. Como não consome bebida alcoólica, sabe que não é ressaca, mas as pessoas que a observam parecem admiradas de tanto vê-la beber água.
A atendente comunica à senhora que contava seu drama que, quando sair o paciente do consultório três, ela será atendida. A mulher confirma com a cabeça e, ainda gesticulando, ergue-se da cadeira, e, como se necessitasse ainda da audiência que a circunda, comenta, para finalizar, que, se o sonífero não der resultado, vai apresentar queixa na policia. Ainda mais que parece emanar do tal apartamento um cheiro muito forte e, parece, alguma fumaça.

domingo, 20 de junho de 2010

LUGARES TROCADOS


A cada ano é lançado no mercado um automóvel que tem algum tipo de apelo rural: jipes, pick-ups e utilitários outros com tração nas quatro rodas, pneus abiscoitados, estepes na tampa traseira, estribos laterais, quebra-mato, potentes e resistentes, enfim, os chamados off-road. Esta tendência poderia ser atribuída a certo crescimento econômico do campo e ao aumento do poder de compra de produtores rurais; no entanto, para além deste fato até visível, há alguns dados que não podem deixar de ser observados: o esvaziamento das grandes cidades em períodos de feriados prolongados ou mesmo nos períodos de férias de trabalho e escolares – os meses de janeiro, fevereiro e julho.
Os citadinos vão à busca de sítios, fazendas e do litoral, de preferência praias pouco movimentadas, para experimentar a vida calma de lugares ainda não urbanizados. Pelo menos, por alguns dias, podem-se respirar os ares do campo e vivenciar as noites cobertas de estrelas e luar. Nestes casos, a comida caseira toma o lugar dos fast-foods e as mesas de escritórios são substituídas por uma boa rede e espreguiçadeiras em alpendres, debaixo de árvores ou entre coqueiros. A presença de um violão anima cantores e cantoras resguardados a soltar a voz e a realizar sonhos acalentados há anos.
Mas há também um detalhe que não pode ficar de fora deste texto, um lugar bucólico será tanto mais procurado quanto mais nele houver infraestrutura urbana: acesso pavimentado, energia elétrica, telefones fixos, antenas de TV (parabólicas ou por assinatura), computadores, acesso a intgernet etc. Em muitos casos, a fuga para o campo não significa uma liberação das obrigações e os laptops estão aí mesmo para que se aproveite o descanso e se realizem tarefas inadiáveis.
Os novos campesinos contaminam o espaço rural com suas manias de urbanidades, estabelecem fronteiras não muito claras de costumes entrelaçados. Cercam-se de auxiliares nativos que observam e experimentam os hábitos tecnologizados, e com a continuidade desejam para si, misturando-os aos seus de origem.
Por outro lado, nativos do campo fazem o percurso inverso. Uma vez migrados para os espaços urbanos, tratam de buscar, adquirir e usufruir o que podem. Os migrantes camponeses instalados nas cidades buscam amplos quintais com árvores frutíferas e onde possam criar galinhas, perus, capotes, bodes, porcos; buscam âncoras que os mantenham de algum modo presos à origem campesina. A alma cheia de sensações confusas e indeterminadas não consegue estreitar o espaço fronteiriço entre os ritos originais e os novos rituais urbanos. É comum que alguns instalem objetos urbanos dentro de casa como modo de reduzir as diferenças e identificar-se com aqueles que já estavam lá como habitantes urbanizados quando chegaram: estantes com coleções de livros que nunca serão lidos, televisão, geladeira, aparelho de som, computadores. Os benefícios da tecnologia impregnam o espírito e depois de algum tempo sentir-se-á estranho no campo e saudoso na cidade. Experimenta um esgarçamento em que não se sentirá mais campesino e nem urbano porque será uma mescla dos dois.
          As pessoas que fogem para sítios e fazendas nos feriados prolongados e outros períodos de descanso têm a vantagem de retornarem à cidade, seu lugar de moradia, no fim do período; enquanto que o migrado dificilmente retorna para morar no campo. Os que conseguem um nível de vida melhor passam a retornar de vez em quando, para matar a saudade em momentos em que o trabalho e os compromissos permitam, compram seu lugar de lazer. Retornam como urbanizados, cheios de sotaques e manias adquiridos. Os que se instalam na periferia nunca serão urbanos nem jamais voltarão a ser camponeses.

domingo, 13 de junho de 2010

UM LUGAR NO PASSADO


Itarema-Ce. Cidadezinha litorânea, pouco mais de 20 mil habitantes, sem grandes benefícios de infraestrutura. Período de férias, fim de tarde. Conversam-se em grupos coisas próprias da infância do lugar: passeios, pescarias, banhos no lagamar, caça de preás, colheita de pipoca-do-rio e outras frutas silvestres entre tantas outras estripulias. Os passeios, em geral, passam pela praia de Almofala, distrito próximo onde se encontra uma igreja pequenina que, dizem, foi construída por índios escravizados a mando da princesa Izabel. Paredes de pedras, essa igreja passou 50 anos embaixo de uma dessas dunas movediças, comuns no litoral nordestino, que mudam de lugar ao sabor do vento.
As pescarias em riacho exigem a preparação de anzóis e iscas. Na maioria das vezes as iscas são minhocas escavadas no brechó dos baixios. Mas dizem que a isca de rã é a melhor delas. Contam até que os peixes mandam antes verificar qual o tipo de isca que oferecem os pescadores. Se for rã, despedem-se dizendo: “traga lá minha roupa nova, meus tamancos e até dia de juízo”. Cada pescador, com seu vasilhame fervilhando de minhocas, se posta à margem dos riachos e lança à água o anzol. O peixe belisca e, num leve puxão, é fisgado, é só erguer, então, o caniço e trazê-lo para si.
Os banhos no lagamar incluem navegação em canoas a remo, donde se salta em acrobacias variadas. Disputar travessias e tempo de imersão também faz parte. O lagamar enche com a maré. Somente com a maré alta é que se pode tomar banho. Por isto mesmo a programação tem que levar em conta o tempo certo.
A caça de preás em meio ao junco ou no plantio de coqueiros é feita com cachorro. Apenas os de focinho escuro são bons caçadores. Identificam-se as veredas por onde os preás caminham pela grama afastada e pelas fezes deles espalhadas nas trilhas. Põem-se os cães a farejar e eles buscam os preás embaixo dos balseiros ou no oco de árvores caídas e apodrecidas. Cercam-se o lugar e quando o preá “espirra” é pego. O cachorro bom de caça pega e não machuca a caça.
Muitas são as frutas silvestres que existem em épocas chuvosas na região litorânea: muricis a batipuçás, manipuçás, araçás, pipocas-do-rio, murtas, guabirabas etc.
As pipocas-do-rio são pequeninas, sabor agridoce e são colhidas em alagadiços. Dão em grande quantidade, e, para colhê-las, sobe-se nos finos galhos da árvore. Em geral, não há risco, porque as quedas na água não machucam, salvo os arranhões que se produzem na vã tentativa de evitar a queda.
Ficar conversando aos magotes também é parte da programação. Contam-se histórias e vantagens no relato do que se aprontou durante o dia. Neste fim de tarde e início de noite, em meio a conversas, ouve-se um assovio longo e fino ao longe. Depois, outro mais próximo. Olham-se entre surpresos e receosos, mas não há comentário. Segue a conversa. Dado que não se ouve mais nenhum assovio, alguém toma coragem e comenta que se uma pessoa repete tal assovio outros serão dados tão próximos e tão forte que a pessoa fica surda ou louca. Alguns completam dizendo tratar-se de um assobiador, figura conhecida na região. As histórias enveredam por esta temática. Muitas são as versões e os acontecimentos narrados. Todos, dizem, testemunhados. Alguém do grupo resolve, então, para surpresa geral, desafiar o medo e imitar o assovio. Todos riem um riso nervoso. No vácuo do silêncio que se segue, como que a esperar que algo ocorra, outro repete o feito: assovia mais forte ainda. Um longo silêncio se estabelece e parece que o medo desvanece.
Quando já se iniciam novas conversas, um forte assovio soa tão próximo que joga areia sobre a calçada. Uma indiscutível sensação da presença de algo desconhecido e invisível toca o grupo. A seguir, choro e reza balbuciada ocupam o lugar das histórias.

domingo, 6 de junho de 2010

ENTRETANTOS


Entre! Eu esperava ouvir esta palavra como um convite, mas a entonação pareceu-me uma ordem. Olhei em volta e não encontrei apoio para levar adiante o intento de penetrar. Girei sobre os calcanhares e fui me afastando. Não houve protesto ou insistência, ficou só aquela palavra “entre” repetindo-se como um eco que se intensifica. Caminhei lento e pensativo em direção à minha casa, entretanto, tinha a sensação de estar entrando em um lugar para onde não havia sido convidado. Não ouvia mais nada a não ser aquela palavra que ia mudando de entonação e de sentido; entretido, dei por mim parado diante da porta entreaberta. Embora estranhasse estar ali, não me incomodava perceber que não havia saído do lugar. Surpreendia-me que não houvesse alguém à porta que me convidasse a entrar. Entrementes, sentia-me impelido a dar meia volta e retirar-me dali. A porta, que noutras ocasiões poderia ser um acesso, parecia-me um entrave, não sei exatamente a razão. O certo que é me afastei caminhando, devagar. Entristecia-me por alguma coisa, o mais provável é que eu esperasse ser convidado a entrar e, embora tendo ouvido alguém pronunciar a palavra, o sentido não era o esperado. Provavelmente, era este o motivo. Não admitia ser tratado daquele modo, não havia motivo.
O espaço retalhado das ruas entremeava-se de silêncios sólidos, entraves sem consequências para o caminhar cuidadoso, absorto em meditar sobre o eco recalcitrante da palavra “entre”. Entre automóveis em brasa, segui para casa. Uma fila diante do cinema chamou a atenção para uma comédia que tinha como título “Between”; lembrei de uma anedota boba a este respeito. Sorri, entretido.
Atravessei por entre as alamedas e praças sem pensar noutra coisa, não me absorvia a ponto de descuidar do trânsito ou de desguiar do destino, apenas não conseguia desviar o pensamento e questionava-me sobre os sentidos que uma palavra como aquela pode produzir, se dita de um ou outro modo, num ou noutro tempo e/ou lugar. Entretanto, nada concluía em definitivo. A cada momento todos os sentidos se embaralhavam e repercutia apenas a palavra “entre”. Em meio ao redemoinho de sentimentos e sensações que daí derivam, sentia-me, paradoxalmente, confortável.
Já quase alcançava a esquina da rua de casa quando ouvi, nitidamente, a voz de uma pessoa conhecida, embora, de momento, não reconhecesse quem fosse, a me interrogar, com ironia: “você veio?!”. Parei, senti um frio na espinha, ergui a cabeça e percebi a porta entreaberta à minha frente, sem ninguém à vista. Estava eu lá, no mesmo lugar. Esperei um pouco e ouvi a ordem: “entre!”. Perguntei-me se estaria andando em círculo ou se, em algum momento, houvera saído dali. Permaneci em pé, parado, por um bom tempo. A dúvida era se adiantaria afastar-me, se depois eu constatasse que continuava no mesmo ponto. Entre ir e ficar, fiquei. Pensei: algum momento isto tem paradeiro.
Amanhecia, eu continuava em pé, diante da porta. Ninguém entrava ou saía. Uma leve garoa umedecia a manhã, como prenúncio de chuva. O tempo fechado rondava-me. Girei o corpo, sem sair do lugar, olhei em torno e não percebi nada de estranho. Pessoas agasalhadas se entrecruzavam em busca de seus destinos. Ia aos poucos aumentando o número de transeuntes e ninguém dava conta de mim.
Ao longe, soa uma campainha. O som repetido vai se aproximando até incomodar. Dou por mim caminhando em direção à porta, giro a chave com dificuldade. Abro um pouco, é a faxineira, “hoje é sexta-feira”, diz ela sorrindo para mim. Sem entender mais nada, abro mais a porta e, quase mecanicamente, peço-lhe que entre.

domingo, 30 de maio de 2010

HÁ MUITOS CARNAVAIS


A orquestra enfatiza os agudos nos metais de “Viva o Zé Pereira”, foliões eletrizam-se e transpiram fantasias. De repente, corre, corre para os lados dos sanitários masculinos. Gritam pelo Sr. Waldemar, o fotógrafo da festa que, às pressas, apanha seu equipamento sobre a mesa, quase derrubando as garrafas de cerveja. Acompanho aquela gente toda sem saber o que acontece. Um bom número de brincantes forma um semicírculo diante de uma cena hilária: Candinho, visivelmente embriagado, escanchado sobre o muro do Clube Social Imperatriz, dormindo, aparentemente, pendula. A [muito] custo, seu Waldemar aponta a objetiva em direção ao Candinho que, quase ao mesmo tempo, se inclina primeiro para frente e depois para o lado e despenca. Pior, cai para fora do Clube. Pular o muro é uma prática até certo ponto comum, quando a rapaziada não tem o suficiente para pagar o ingresso. Ou, mesmo, por folia.
Vendo aquela cena, lembro de um ocorrido com o dito Candinho em uma festa passada, naquele mesmo clube. Diz que Candinho tirou Telewa para dançar. De má vontade, Telewa demorou muito até chegar ao salão onde Candinho já a esperava. Mal começaram a dançar, Candinho tropeçou nas próprias pernas e, de tão embriagado, saiu aos tropicões, buscando se equilibrar no meio dos casais. Depois de algum tempo, Candinho retorna e quando estende a mão para recomeçar a dança, Telewa avisa que não vai mais dançar. Candinho olha para ela e, com surpresa e a língua embolada, pergunta, desencantado:  “Ué, já cansou?”
Voltamos todos ao salão, e com a mesma alegria, esquecemos o Candinho e continuamos a nos embriagar, ao ritmo frenético das marchinhas de carnaval. Índios, senhoras grávidas e barbadas, árabes com imensos turbantes, monstros de máscara de papel estão por toda parte.
Depois das quatro da madrugada, o clube vai ficando mais espaçoso. Poucos ainda se mantêm pulando. Mas a orquestra não para: “Mamãe, eu vou ser soldado de Israel/ Não tem água no cantil/ mas tem mulher no quartel/ além disto, guerra é guerra, mamãe/ e vai ser sopa no mel”.
Ando por ali observando, um pouco fora de foco, casais inebriados, que antes sorriam no salão, agora se estendem na grama por trás do palco. Impossível entrar no mictório, um aguaceiro malcheiroso se alastra. Mesmo assim, não há remédio, a cerveja incha a bexiga com incômodo incomum.
Não dá para sentar à mesa, a cabeça gira e pesa muito. O remédio é andar e, de vez em quando, ensaiar uns passos sem muita segurança, mas feliz. E com esta felicidade, dirijo-me com meus amigos de festa para a casa onde estamos hospedados. Toinho da Nica é o nosso anfitrião. É ele quem conta o resto da história que, aliás, não confirmo.
Diz Toinho que, ao chegar a casa, eu tento por três vezes seguidas pôr o punho no lugar errado. Coloco o punho da rede na chave da porta, deito e caio... Levanto-me e, sem dizer nada, tento novamente... Assim, pela terceira vez. Os colegas discutem se me deixam ir em frente ou alguém irá e botar o punho da rede no armador. Bom, felizmente, decidem pela segunda opção, mas só depois de rirem muito da situação.