domingo, 12 de setembro de 2010

DE FORTALEZA A TERESINA, COM ESCALAS.



        Tomo o avião em Fortaleza com destino a Teresina, PI. Em quarenta e cinco minutos estarei chegando ao meu destino, promete, pelo serviço de som da aeronave, o comandante. Enquanto o avião se dirige para a pista de decolagem, cochilo levemente. Acordo com uma das comissárias de bordo tentando explicar a uma senhora, sentada na poltrona à minha frente, que nos assentos que coincidem com as saídas de emergência não é permitido por a bagagem de mão. A mulher finge não entender aquela observação e prende a sua bolsa ao corpo. Começa, então, um e vir de comissários revezando-se na tentativa vã de convencer a resistente senhora a largar a bolsa. Surpreendo-me quando, num gesto brusco, uma das comissárias arranca abruptamente a tal bolsa das mãos da mulher e a põe no bagageiro acima de sua cabeça. A seguir, percebendo que todos no avião estão com a atenção voltada para a cena, cumprimenta-nos com um gesto de cabeça e sorri, como se houvesse conquistado uma importante vitória ou nos prevenisse.
          Todos retornam as suas posições de inércia e indiferença. O avião decola, finalmente.
       Pego um exemplar de uma revista de bordo e vou folheando. Em textos bilíngües, a revista vai-me apresentando cidades da Colômbia e vou-me deliciando com matérias que me remetem à “cosmopolita Bogotá, a romântica Cartagena, a paradisíaca San Andrés (no Caribe) e, finalmente, a Letícia, uma pequena jóia incrustada na Amazônia.”
          Bogotá me acolhe com seu clima gostoso de apenas 18 graus. A cidade vencedora de uma fase de perturbações violentas provocadas pelas guerrilhas e pelo tráfico de drogas oferta-se como uma promessa de prazer ao turista. Capital da Colômbia, Bogotá é uma cidade charmosa e sedutora. Ruas limpas, seguras enfeitam-se de vida nas cores das vestimentas de seus transeuntes e da vibração de alegria que parece emanar de cada pessoa: nativos e estrangeiros. Chamam-nos a atenção o teleférico no centro, os artistas em apresentações de rua e uma igreja de sal. Por entre os casarões originários dos séculos 17 e 18, cerca de 58 museus e 62 galerias de arte transformam-se em opções de visitação, ou melhor, reivindicam a obrigatoriedade da visita. Assim se revive a história, desde a pequena Santa Fé de Bogotá, nascida em 1538. De Bogotá a 40 minutos de carro, uma visitinha ao restaurante Andrés Carne de Rés, localizado na cidadezinha de Chia, uma espécie de rota necessária a quem visita a Colômbia e, especial, Bogotá. A frente deste restaurante, um misto de empresário e artista plástico, Andrés Jaramillo. Gostosamente saciado, verifico que preciso seguir visitando o país. Próximo destino, Cartagena.
     Ao chegar, sobrevôo uma cidade à beira-mar, com cerca de 1 milhão e 100 mil habitantes, com contrastes de casario extremamente simples e arranha-céus com até 48 andares. Na zona portuária, derramam-se obras para todos os lados. Containeres coloridos, sobrepostos por entre navios no porto, dão maior charme ao cenário. Mas as imagens do cinema resistem e me aquietam no passeio por entre os românticos sobrados. Palmilho e chão de pedra, observando as varandas forradas de flores e as praças arborizadas, povoadas por casais enamorados que se aconchegam como que monumentos vivos à beleza do amor e da cidade. Revejo Garcia Marques no seu Amor em Tempo de Cólera situado por entre as muralhas de Cartagena, cenário para a filmagem da história de Florentino Ariza e Firmina Daza. Supreendo-me com a sensação de conhecer todos estes detalhes com certa intimidade.
         Saindo de Cartagena, vou ao arquipélago colombiano de San Andrés e Providencia. De princípio, me encanta a exuberância da natureza, conformada nas belas nativas, na transparência e na variedade de cores da água e no frescor dos coqueirais. As ilhas todas tem seu o encanto e o meu deslumbramento recupera o cansaço da viagem dos dias anteriores. Entendo ali porque holandeses, espanhóis, ingleses e piratas disputaram este paraíso por longo tempo. Os ingleses tomaram conta até o século 19, quando um tratado decidiu que o arquipélago ficaria com a Colômbia. E, claro, num lugar com tanta história, outras estórias compõem a sua riqueza. Não raro, sou informado de tesouros que foram recentemente desenterrados ali próximo, na praia mesmo. Na maioria das vezes, o que se conta é que tais tesouros teriam sido postos ali pelo legendário Henry Morgan, pirata galês que esteve à frente das disputas pela posse do lugar. Após usufruir de outros confortos, sinto uma vontade imensa de ficar por ali, mas sei que tenho de seguir adiante. Desta vez, vou a Letícia, no meio da floresta amazônica.
      Chego à cidadezinha de cerca de 40 mil habitantes enfrentando as dificuldades de acesso comuns a todos os lugares que ficam na selva amazônica: através de barcos e vôos em pequenos aviões. O nome Letícia dado a cidade tem origem rodeada de controvérsias. Tanto poderia ter sido motivada por uma homenagem prestada pelo engenheiro Manuel Charón a uma peruana chamada Letícia Smith, quanto por iniciativa de um soldado colombiano apaixonado por uma índia que tinha este nome. Apenas uma avenida separa a cidade de Letícia, da brasileira Tabatinga. São os nomes das empresas em idiomas diferentes que marcam para quem chega a informação de que se está no Brasil ou na Colômbia. Entre as várias etnias indígenas da região, predominam os ticunas.
         Ainda não inteiramente satisfeito com o que desejo conhecer em Letícia, sou obrigado a interromper a minha estada pela comissária de bordo que insiste que eu retorne o assento a posição vertical, anuncia que estamos chegando a Teresina. Olho para ela e lembro de sua determinação ao arrancar a bolsa dos braços da senhora sentada na poltrona à minha frente. Acho melhor repor a revista ao seu lugar inicial e fazer como a comissária manda.

domingo, 5 de setembro de 2010

BORBOLETAS BORBULHANTES


Meu olhar cruza o olhar dos demais e vai se prender à dança de duas borboletas que, para além do vidro da janela, rompem com o cinza e as sombras predominantes do pátio com suas cores vermelho e amarelo. Enquanto a turma inteira observa com atenção os slides projetados na parede, observo o frêmito das borboletas que sobem e descem, trocam de lugar num voo nervoso e inconstante.
Curioso que elas se postem no espaço exato em que a luz solar, rompendo a fronde da mangueira, ilumina uma fração do espaço, entre a lateral da sala e a espessa copa da árvore. O fundo cinza de uma banca de revistas contrasta com as cores vivas das borboletas inquietas, que assomam e somem repetidas vezes.
A impressão que eu tenho é que elas desejam mesmo chamar a atenção, roubar a cena, naquela manhã barthesiana. O movimento das asas, associado ao movimento que descrevem no espaço, não apenas adquire um desenho harmônico e repetido, mas simula algo que é da ordem do inverossímil.
Imagino tratar-se de uma dança de acasalamento, visto que, de instante em instante, quase se tocam, para, em seguida, se distanciarem uma da outra, num traçado circular, numa arquitetura de voo simples e exuberante. A incidência do sol faz alternar suas cores entre o amarelo vivo e o vermelho luminoso. São pequenas luminâncias que pontuam percursos em riscos de cera no ar.
Outras vezes tenho a impressão de que adornam aquela manhã em homenagem ao tema da exposição com que concorrem. A leveza, o silêncio e a beleza capturam não apenas o meu olhar, a minha atenção, mas, igualmente, abafam a voz do palestrante, a tal ponto, que não o consigo ouvir durante a maior parte do tempo. Absorto, prendo-me ao espetáculo com que meu olhar se deslumbra.
O vestido verde de uma das assistentes me chama a atenção pelo contraste produzido com as cores das borboletas. Vejo e revejo o verde do vestido, o amarelo e o vermelho e me pergunto o que mesmo relacionaria cada um destes pontos naquela manhã. Percebo, a seguir, que, na perna direita da assistente de vestido verde, atenta à exposição do assunto, há um sinal vermelho sobre a pele alva, logo acima do joelho.
Luto por manter a minha atenção na fala do expositor, ele demonstra conhecer bem o que expõe, mas não consegue que eu me atenha ao exposto. As borboletas se mantêm em sua apresentação, a assistente de vestido verde e sinal vermelho na perna, quase como uma mancha larga e esvoaçante, permanece impassível, os olhos voltados para os slides. Não há expressão de aprovação ou reprovação. Não há expressão alguma, apenas olha para frente, como a escutar o que é falado e a olhar o que é mostrado. Só isto.
Eu vejo suas pernas, a mancha vermelha no lado interno da perna direita e as borboletas inquietas na sua dança iluminada. Alguém mexe na cadeira, um pigarrear insistente, um sussurro, tudo me é perceptível com certo nível de inquietação, um cuidado preocupado de que trinquem aquele momento de cores atraentes, de movimentos matinais nunca experimentados por mim.
Concluída a exposição, os aplausos me parecem ser direcionados ao show das borboletas, que findam, afinal, sua apresentação. Ainda algumas perguntas, depoimentos pessoais de satisfação, de elogio ao expositor. Os agradecimentos de praxe. A sala vai-se esvaziando sob o ruído ensurdecedor das conversas que se multiplicam por todos os lados. Não tenho clareza sobre o que falam tantas pessoas ao mesmo tempo.
Meu olhar prende-se ao vidro da janela à espera de que as borboletas retornem à sua apresentação. A assistente de vestido verde e sinal vermelho na perna direita ergue-se devagar, olha para mim, olha para a janela, dá-me um sorriso e se vai sem revelar sua cumplicidade.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

APENAS UMA BOA RAZÃO


Uma bala disparada a esmo não escolhe alvo, tanto pode atingir uma criança no inesperado do tempo quanto o usuário de drogas que financia a arma que a dispara. O pavor da violência se detém na barreira da irracionalidade. Ninguém nunca explica quem, em última instância, financia o tráfico e suas ações violentas. Não houvesse consumo não haveria produção e muito menos distribuição. Pior ainda, se a droga custa caro, consome quem tem dinheiro. A chamada elite, apodrecida, ergue muros ao redor de si, instala câmeras em cada esquina, mas refugia-se nos guetos, nas orgias privadas, para consumir sua encomenda de primeira ordem. Não importa o quanto custe. Não interessa a que preço.
Rebeldes nem tão poderosos assim imitam alegremente a cena deprimente da fuga sem sentidos. Pó e fumaça alimentam almas assombradas, a caretice dos uniformes e paramentos ostenta a moral e o racionalismo, da boca para fora. É muito larga a zona fronteiriça em que se separam e intersectam-se as linhas de interesses opostos ou divergentes. Batinas, fraques, fardões, sobretudos, longos, togas e galões esbarram-se em corpos dopados nos sombrios sobrados dos negócios escusos.
Mundos diferentes, cores adversas, destinos invertidos estabelecem tréguas e firmam pactos de não agressão; por instantes, deleitam-se em seus motivos. Uns escancaram risos, limpam as narinas fedorentas, outros contam o apurado do dia e riem o riso incomum da insensatez.
Morrem jovens na guerra do tráfico. Morre a polícia de inanição. Morre a autoridade do Estado de estupefação. A droga adquire vida própria, mobiliza exércitos de traficantes, de todas as idades. A criança na lida do tráfico sinaliza sua perseverança, sua resistência. Mobiliza procissões de consumidores, como sonâmbulos que obedecem a uma ordem superior a que não conseguem resistir.
Ninguém nunca explica quem, em última instância, financia o tráfico e suas ações violentas. Como querer que os donos das armas abram mão do direito de continuar empunhando-as livremente? Como querer que o crime criativo, que a cada momento oferece uma droga nova, um produto mais atraente no mercado, desarme-se? A arma ostentada nos meios de comunicação a cada momento é um troféu que se exibe em vitória da irracionalidade sobre a vida.
O usuário de drogas coloca cada um de nós numa roleta russa, com o cano da arma apontado direto para a cabeça. Ninguém sabe ao certo a direção do próximo disparo. O traficante é uma invenção do consumidor de drogas. Sem consumo não há produção e muito menos circulação. Se não há procura, não há oferta.
Não há vencedores nessa história, apenas sobreviventes. E nada garante que seja por muito tempo. Quem ingressa no mundo do crime livra a cara enquanto pode, mas sabe que o pior gira em torno de si, cada vez mais próximo. Não teme a morte porque não dá valor à vida de ninguém nem mesmo a sua. São as regras de quem está no front, está de pé enquanto não é o alvo do adversário. Uma arma na mão dá a sensação de poder tudo. Este engodo alimenta a gana do fabricante de arma que não se vê na mira da trama que produz. Vive sob a miragem do lucro, não sabe e não quer saber o que é razão. Não entra em nenhum dos componentes do instrumento de morte que fabrica. Quem compra a arma reafirma os seus propósitos.
Ninguém nunca explica quem, em última instância, financia o tráfico e suas ações violentas.

domingo, 15 de agosto de 2010

TRAVESSIA


Eu decidi contar aqui uma história que me intriga, porque não lembro quem me contou, e também porque não sei exatamente qual é o seu sentido nem o sentido de ter que contá-la. Bom, mas o que interessa, por enquanto, é a história. Então, vamos a ela. Contam que um aprendiz de barqueiro tomou um dia uma canoa e resolveu atravessar o rio sozinho, imaginava ele que contaria com a ajuda de seu mestre, que ia gritando da margem oposta, quando o risco de uma pedra sob a água ou um redemoinho ou outros obstáculos perigosos fossem se aproximando. Ele acreditava que poderia fazer tranquilo sua travessia com a ajuda do mestre que não estava na canoa nem remava com ele, estava na margem oposta (seja lá o que isto signifique).
Assim, se pôs a remar rio adentro. No princípio, logo percebeu que o rio não obedecia direito ao sentido de suas remadas. Remava para um lado, a canoa ia para outro, remava para o outro, a canoa seguia rumo diferente. Mas, mesmo assim, avançava. Ouvia o seu mestre, que, como um técnico de futebol que tem a receita e conhece as táticas e estratégias para as melhores jogadas e para a vitória do time, fica à beira do campo, gesticulando coisas incompreensíveis e berrando palavras impronunciáveis. Algumas coisas que entendia ia pondo em prática, outras que não entendia, interpretava-as a seu modo.
O certo é que, durante o percurso, virou a canoa e deu de garra do primeiro tronco de árvore que passou boiando, próximo. Seu mestre gritava dizendo para ele retornar e recuperar a canoa, mostrava, gesticulava, mas o aprendiz de barqueiro não quis saber de conversa: àquela altura lhe parecia que a margem onde deveria chegar estava tão próxima que o melhor mesmo era seguir escanchado no tronco, e fazer de conta que aquilo era, então, o seu barco.
Vendo que não ia conseguir muita coisa, o mestre achou por bem embarcar (me perdoem o trocadilho) na crença do seu discípulo. Deitou a organizar regras novas e a tentar passá-las para o moço que subia e descia já quase sem fôlego naquele tronco de árvore. Foi tanto o esforço e tantas foram as dificuldades, que o moço esqueceu por um momento de agarrar o tronco e lá se foi sua “canoa” rio abaixo. No desespero, e já sem ouvir mais ninguém, fez um esforço extremo e conseguiu agarrar-se a um caule de bananeira que se chocou com ele, boiando.
O caule liso não permitia que ele se escanchasse de modo que teve que abraçá-lo com um dos braços enquanto tentava nadar, puxando a água para si com o outro. Por incrível que possa parecer, isto foi lhe dando confiança e, aos poucos, se aproximou da margem de destino. Sentia que havia bebido muita água e que estava muito cansado, mas aliviou-se, imaginando que ali estava o seu barco e conseguira atravessar o rio como havia se proposto, desde o início.
Já quase à margem, sem mais precisar de nada, nem do apoio do caule de bananeira, fez questão de puxá-lo e levá-lo consigo até o solo seco, onde outras pessoas, além do seu mestre, o aguardavam. Foi com ar de vitória que abriu o sorriso e abraçou os que ali estavam. No entanto, surpreendeu-se quando alguém lamentou que ele houvesse deixado a canoa perder-se na correnteza do rio. De todas as maneiras possíveis e inimagináveis, tentou provar a todos, especialmente para o seu mestre, que aquela bananeira era a canoa com a qual havia iniciado a travessia. Bom, dizia o aprendiz de barqueiro, é lógico que ela está um pouco diferente porque, no aprendizado do percurso, foi preciso transformá-la, mas para melhor garantia.
Restou, ao final, agradecer ao seu mestre pela escolha do caminho mais seguro e aos presentes pela força.

domingo, 1 de agosto de 2010

SEXTA, À NOITE


Sexta-feira à noite, expectativas. O pai que trabalha no interior durante a semana retorna para casa. Esperá-lo é não dormir. É ouvir, com o coração aturdido, os rumores dos feirantes que chegam, para, no dia seguinte, negociar sua produção no entorno do mercado central.
O tempo frio agita o vento que barulha no telhado, ora mais brando, ora mais forte. O poste em frente a casa impõe claridades pelas frestas da janela. A luminosidade invasiva e o burburinho de vozes aquietam apreensões e amenizam a tensão da espera.
O hábito antecipa as cenas na memória e as permite tomar conta da imaginação. Batidas na porta, são batidas conhecidas. De repente, parece que todos na casa estavam sintonizados na mesma espera. Todos vêm receber o pai que chega. Logo, a família está em volta da mesa, ouvindo as novidades da semana. Não carece grande esforço para que o riso geral encha o vazio da sala de jantar. Há um bom humor em tudo, as coisas todas parecem conspirar para a felicidade de todos. Àquela noite, a família completa-se, preenchendo o vazio de dias intermináveis.
Pela manhã, depois do café, é hora de ir à feira e transitar por entre surrões de farinha, feijão, arroz; montes de jerimuns, feijão em baja, espigas de milho; balanças e carrinhos... Comprar cheiro verde, frutas e carne para o final de semana. Toda aquela gente, desde cedinho, vai se aglomerando em conversas desencontradas, num alarido que parece ecoar no espaço que a feira livre ocupa. Não é difícil entender-se com os vendedores, mas não são compreensíveis as conversas que se dão ao redor, parecem sons sem nexo espraiando-se no cinza iluminado na mimese da feira.
À hora do almoço, a mãe faz o prato de cada um, resguardados para o pai os petiscos de sua preferência. Parece ter que ser assim. Sempre foi assim. Será sempre assim. Nem nestes momentos há silêncio, a conversa acumulada de dias tem que ser atualizada e aproveitam-se todos os instantes de reunião da família. A mesma alegria, a não ser por um ou outro irmão que mostra insatisfação com algo, ou por implicância de outro, numa arenga besta.
Após o almoço, passando algum tempo, os pais vão dormir e é hora de ganhar a rua para encontrar-se com amigos e inventar brinquedos e brincadeiras. Correr, jogar futebol ou pegar manga no sítio de dona Teresa. Dona Teresa, sempre que tem notícia de garotos dentro do sítio, atravessa a rua e vem ver com a mãe por onde andam as crianças. A bronca espera sua hora para se apresentar. O sítio enorme e as mangas cheirosas atraem meninos e meninas de toda parte. Não são sempre os mesmos.
Depois das quatorze horas, o café da tarde. O pão quentinho recém-chegado da padaria exala um cheiro gostoso. A mãe serve o café de acordo com o gosto de cada um. As histórias se espicham como se estivessem iniciando naquele momento. Sempre histórias engraçadas.
O ônibus para na rodoviária e interrompe os pensamentos. Um dos carros que fazem corrida e que estão estacionados ao lado da pracinha é utilizado para chegar mais rápido em casa. O percurso não é longo. Logo estará batendo à porta de casa. É tarde. Passa das duas da manhã de sábado. Enquanto o carro desloca-se, histórias na imaginação desenham sorrisos passageiros.
A rua está deserta. Não há feirantes. Não há quase ninguém. A casa se aproxima e a porta de entrada é um ponto fixo. Mete a chave na fechadura e adentra. Ninguém acordado. Depois de livrar-se do peso da bagagem, toma banho, troca a roupa, cai na cama e se alivia da fadiga e do cansaço da viagem.

sábado, 24 de julho de 2010

DEFASAGENS ENTRE O HUMANO E O CONCRETO


Se eu tivesse que dar um título diferente para este texto seria “O estranhamento do retorno ao mesmo-outro”. Antes que alguém estranhe, eu explico: semana passada eu escrevi sobre este tema, mas errei a mão. Ou seja, ficou parecendo que eu estava querendo criticar a selvageria do capitalismo, que já é, por sinal, muitíssimo discutida. Não é isto o que eu tenho interesse em discutir aqui agora.
Ocorre que a temática do eterno retorno, como um dado filosófico, é também um assunto batido, apesar de interessante. Mas ainda não é exatamente disto que eu desejo falar. A questão é a seguinte, algumas vezes, retornamos a alguns lugares e nos surpreendemos com as mudanças ocorridas durante o tempo em que estivemos ausentes. Nossos amigos já não têm a mesma cara, o mesmo corpo, os vizinhos já não são os mesmos, as ruas também mudaram, enfim, muito daquilo que guardávamos como lembrança e que, de algum modo, pensávamos encontrar, transformou-se ou desapareceu.
É assim comigo, imagino que seja com todo mundo. Evidentemente, nós também mudamos. Só que estamos nos observando no espelho durante todo o tempo, e, apesar das mudanças visíveis, não estranhamos. Sequer nos damos conta, por conveniência, talvez.
O retorno a que me referi anteriormente, diz respeito a processos históricos que ocorrem principalmente com as cidades em que as regiões centrais, antes residenciais, são transformadas em centros comerciais e/ou industriais, empurrando as famílias para as periferias distantes. De alguma maneira, as pessoas que antes habitavam as regiões centrais retornam a estes lugares e, decerto, não se reconhecem mais nos logradouros que ali se construíram. Outra coisa, estas pessoas retornam, não para matar a saudade ou para buscar se encontrar, mas para trabalhar, passar a fazer parte das ocupações do espaço que antes era seu.
Como no exemplo anterior em que eu me referia às mesmas pessoas, ao mesmo lugar, aqui também. É o que eu estou chamando de mesmo-outro. Em essência, são as mesmas referências, mas, concretamente, são outras. São as mesmas pessoas, mas essencialmente, são outras. Alguém há de lembrar-me de Heráclito, o filósofo, e daquela historinha sobre o homem que toma banho no rio etc. etc. Eu responderei com um “pois é”, destes recursos de linguagem a que recorremos, quando o assunto proposto não bate com o que queremos conversar..
Mas, além do que disse até agora, há um outro dado que me interessa comentar que é o seguinte: num caso e noutro falta se apresentar aquilo que se constitui o vetor mesmo transformador e beneficiário das mudanças, da transformação dos espaços. Pode ser que possamos chamar a este vetor de desenvolvimento, modernidade ou bestialidade. Novamente corro o risco do panfletário. Mas não é o meu desejo, lembro. Quem disse que, para que haja desenvolvimento, tem-se que desalojar o espaço residencial para a ocupação de empresas? Penso que os atuais shoppings centers mostram outra percepção. Mas não é ainda sobre isto que eu quero falar.
Quero falar do que fica, do que se vai com as transformações. Lembrando aqui aquele recurso da câmera acelerada que mostra em poucos segundos o movimento de um dia inteiro de ocupação dos espaços urbanos. Pessoas e carros enchem e esvaziam tais espaços do mesmo modo, todo dia. A cada dia são pessoas diferentes, predominantemente, que repetem o mesmo movimento. Esta imagem me serve para falar sobre a ocupação dos prédios construídos no processo de mudanças. Primeiro, em geral, são motivos econômicos que determinam a construção ou a demolição dos edifícios, sejam eles residenciais ou empresariais. Depois, uma vez construídos, são ocupados, durante algum tempo pelas mesmas pessoas, depois por outras, por outras e assim, indefinidamente. Parece que estamos a serviço de uma força invisível que nos induz a fazer o que fazemos, contrariando toda a ideia de racionalidade. Em alguns importantes centros urbanos é comum existirem grandes edifícios abandonados, quando não completamente vazios, ocupados por moradores de rua ou por desabrigados de outra ordem.
O que fica, depois de tudo, e à revelia da impressão que possamos ter de fazer e acontecer são os prédios, as praças, as ruas, os postes etc. Tudo aquilo cujo viver transcende a nossa compreensão. Estranho que o mesmo espaço de concreto passe a abrigar em ondas de tempo outras pessoas que imaginam, a exemplo das anteriores, possuí-lo.

terça-feira, 20 de julho de 2010

SOBRE O CONCRETO PERMANENTE


A abertura de uma avenida, a abertura de canais para uma linha de metrô, a construção de um condomínio empresarial, uma praça, um heliporto etc., empurra famílias inteiras para pontos distantes do seu lugar originário de moradia. Com isto se desestruturam sonhos e vidas para lugares cada vez mais distantes. Os centros das cidades ganham movimento e agitação num dado momento para, noutros, perder a alma e entregarem-se ao silêncio e ao desânimo.
O tecido das cidades se esgarça com a migração para as periferias. O espaço central é apropriado por empresas e outros empreendimentos para onde os migrantes retornam depois como atividade de labor ou de entretenimento. As distâncias se alongam e os laços desvanecem e refazem novos nós de amizade em outros lugares. Grupos esfacelados de amizades se reestruturam em novos ambientes e se forjam outros tecidos.
Os grandes percursos implicam deslocamentos demorados e cansativos. Por isto mesmo, destinos que antes pareciam comuns apartam-se e se reconstituem em lugares diferentes e sonhos incomuns. Criam-se linhas de ônibus, abrem-se corredores e implantam-se trilhos por onde trens enormes haverão de trazer de volta os antigos habitantes da região, desta vez, para trabalhar ou consumir.
Ninguém se dá conta de que retorna, num espalhar e juntar-se mecânico, imposto por leis de mercado, por determinação de outras explicações, que nunca levam em conta o desejo do indivíduo, mas a racionalidade concreta que permanece, mesmo depois que seus idealizadores e seus gestores se vão. Até parece que edificações, ruas e avenidas têm vontades próprias, que se impõe às aspirações das pessoas, por vezes, comunidades inteiras.
Há uma lógica que afasta as pequenas residências, os grandes quintais, os campos de pelada, os vizinhos, as brincadeiras de roda, os postes de iluminação, as ruas estreitas, para longe, e, em seu lugar, são plantadas largas avenidas, arranha-céus, lojas, bancos, shoppings etc. Aos poucos, sem que nos demos conta, uma rua, um bairro inteiro deixa de ser morada para tornar-se um centro de compras. As pessoas, que antes perambulavam por ali, com suas esperanças, desilusões e mais tudo o que possa ser característico de pessoalidade, dão lugar a outras transações, menos pessoais, mais empresariais, mais concretas.
Esta mesma lógica, que distende as distâncias e desestabiliza grupos de famílias e os joga em nova peregrinação, retira deles o chão sob o pés, oferece a possibilidade do salve-se quem puder, de ter que reconquistar seu espaço e sua dignidade pela força. O lugar do concreto armado é também o lugar do encanto, das posses. É o novo lugar do desejo. Certo que se dá a poucos, mas estimula a todos a buscá-lo, do modo como for conveniente.
Engendram-se argumentos de aço em altos muros de alvenaria, a pretexto de resguardarem-se contra aqueles que ameaçam recuperar seu lugar de origem. Contra os que, atraídos pelos encantos das novas ofertas de felicidade, não se contentam com pouco. É um caminho sem retorno porque os altos investimentos e a oferta de milhares de emprego justificam as blindagens de carros, a produção e o consumo em massa de armamentos, as corporações de segurança de valores etc.
As tecnologias sofisticadas de aparelhos de emissão e recepção de voz e imagem interligam não apenas as mansões, mas também as antenas das favelas e seus habitantes. Ao mesmo tempo em que sustentam a impressão de controle e segurança dos filhos dos ricos, conectam traficantes; e os sistemas de localização e bloqueio de presídios interferem nos interesses dos que utilizam os aparelhos, para produzir e distribuir o produto de seu trabalho. Uma parte prega contra a pirataria porque reduz seus ganhos, outra produz equipamentos com capacidade de produzir cada vez mais cópias de melhor qualidade. As tecnologias atendem muito bem a quem quer que saiba utilizá-las. Difícil é prever o que nos aguarda mais adiante.