segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A RAZÃO E O VAZIO


Regina estremece quando Armando pergunta-lhe se pode recompor o laço da sua manga da blusa. Ela olhou para o braço direito, na direção em que ele indica com o olhar e percebe que o laço está desfeito. Sorri, com timidez, e consente.
Desde sua chegada ao Rio de Janeiro, Regina não se interessara por namorar ninguém, ainda tem certo receio, mas Armando foi se aproximando devagarzinho, conquistou sua confiança e despertou sentimentos que Regina resguardava. Começaram a sair e àquela noite parecia que o namoro começaria a se firmar.
O gesto de pedir para recompor o laço da manga da blusa adquire para ela o sentido de firmar laços de amor. Parece bobagem, afinal, refazer um laço não tem nada demais, porém, é assim que Regina entende aquela pergunta. Várias vezes pensara contar a Armando da existência de Hermano, o boneco de pano que lhe faz companhia e para quem confia suas confidências. É bem verdade que Regina também não tivera coragem de confidenciar a Hermano os sentimentos que despertavam por conta dos repetidos encontros que vinha mantendo com Armando, mas aquela noite será decisiva, mas antes de aceitar o namoro precisa conversar primeiro com Hermano, não quer deixá-lo ressentido, conclui consigo.
Regina conhecera Armando pela Internet. Achava estranho que com tantos cuidados para não correr riscos com estranhos, tenha justo se aproximado de uma pessoa que conheccera no Twitter. Aparecera em sua timeline alguém com o perfil “ArmandoB” solicitando que fosse seguido, ela aceitou segui-lo e foi-lhe despertando a atenção o bom humor de Armando. Vez ou outra ela comentava ou correspondia a algum ponto de vista. Depois de alguns meses, Regina recebe uma Mensagem Direta (DM) de Armando informando seu e-mail pessoal e pedindo-lhe que informasse o e-mail dela. Ela, de imediato, respondeu por seu e-mail. Desde então, ficaram se falando também via MSN. Foram, um e outro, adicionando-se em Orkut, Facebook etc. e conhecendo-se melhor. Só recente marcaram para se encontrar, visto terem descoberto que moram na zona sul do Rio de Janeiro: ele em Botafogo e ela em Copacabana.
No início, Regina marcou num ponto do calçadão de Copacabana, no posto 3, próximo de sua casa. Ficou pouco tempo e, alegando ter que trabalhar cedinho, não demorou a retornar para casa. Aos poucos, os encontros foram–se sucedendo e ela já fica com ele até mais tarde. Ele vai deixá-la até o portão do prédio onde ela mora, mas nunca sobe. Regina não o convida para subir.
Além de viver em permanente estado de vigília por conta de morar sozinha, no Rio de Janeiro, Regina tem conhecimento dos casos freqüentes de pessoas que são vítimas de outras, conhecidas em redes sociais. Quer primeiro conhecer a família de Armando, tirar qualquer desconfiança e só, então, assumir o namoro firme.
Depois que ele recompôs o laço, ficam os dois olhando-se ternamente por alguns minutos. Daí, o inevitável, uma série de beijos e carinhos, mas sob a atenção de Regina que, vez ou outra, se afasta como a sinalizar seus limites. Armando manifesta, então, o desejo de que Regina vá com ele a sua casa e conheça os pais dele. Regina contrapõe outra possibilidade: organiza um almoço no final de semana e ele traz ao apartamento dela os pais para que ela os conheça. E ficam longamente argumentando e contra argumentando em meio a sorrisos e beijos.
Mas, aos poucos, armando demonstra descontentamento. Regina o envolve com carinho e pede compreensão. Em vão. A discussão ganha ares de rispidez. E, saem dali em direção ao apartamento de Regina. No portão, já meio desestimulados para prosseguir a discussão, Armando despede-se e, num gesto último, puxa as pontas do cordel e desfaz o laço que havia recomposto.

domingo, 10 de outubro de 2010

SOBRE VIVER, O JOGO DA VIDA


Na roda de amigos o assunto que predomina é o jogo que está sendo a mania do momento. Chama-se “Sobre Viver”, assim, separado. Diz-se que isto significa uma reflexão a respeito da vida, ou melhor, do viver. Não é uma destas teorias orientais e nem tem nada a ver com nenhuma delas. Ninguém sabe de onde veio e nem qual a corrente filosófica que o sustenta, o que se sabe é que diz respeito ao estímulo para que se responda de modo diferente às questões que o viver apresenta em cada situação do cotidiano. Ficam de fora as respostas fisiológicas como saciar a fome ou a sede que não teriam a ver com estados de consciência, num primeiro momento. Sim, porque, conforme o nível de compreensão de cada indivíduo até tais questões podem suscitar respostas inteligentes. Assim, a escolha de um caminho, as divergências políticas, religiosas etc., e as transações comerciais, de imediato, podem ser respondidas de diferentes modos. Não há indicação estável para nenhuma situação.
Quanto mais conhecimento o indivíduo detém, mais possibilidades ele pode oferecer para a mesma questão. Mas uma das grandes sensações do jogo é que as respostas não são apresentadas de pronto, mas cada um busca sua resposta através de pistas que um certo jogador vai ofertando a cada participante. Ou seja, o jogo é conduzido por uma espécie de jogador hábil que deixa seus enigmas e cobra de cada participante que os decifre, a moda do coringa, das histórias de Batman. O jogo não oferece prêmios e nem todas as regras estão definidas, joga-se pelo prazer de jogar e as recomendações mais particulares vão se implantando à medida em que se joga.
Outra coisa interessante é que uma vez entrando no jogo, não há um lugar determinado para se jogar, joga-se no viver cotidianamente. Em todas as situações da vida em sociedade. Isto faz com que algumas pessoas nem se dêem conta de que estão participando do jogo. Os jogadores vão formulando suas repostas e seus interlocutores, embora estranhe algumas vezes, certas situações de imprecisão nas situações, sentem-se estimulados a decifrarem os enigmas e já ingressam na condição de jogadores.
A principal indicação é de que as respostas prontas não satisfazem, tem-se que buscar repostas diferentes para as situações mais comuns. Uma situação como, por exemplo, a necessidade de lavar roupas pode ter como enigma trocar a sua roupa suja com alguém que tem roupa limpa propondo para esta pessoa questões que ela deve responder e se não conseguir chegar a tais respostas em tempo determinado e situações pré-estabelecidas, é obrigada realizar a troca. Não pode reclamar ou desistir porque isto não permitido pelas regras básicas do jogo.
O jogo estimula relações mais inteligentes e reações mais racionais diante das diversas situações do cotidiano, estabelecendo entre os jogadores estados de consciência e prazer nas relações e no cumprimento de tarefas mais simples que, em geral, se tornam rotinas enfadonhas e oferecem desgaste na sua realização. Porém, como todas as situações em que há exagero na busca de uma resposta mais inteligente, surgem certos níveis de estresse e até de frustração o que pode gerar desconforto. Nestes casos, é chamado o jogador que conduz o eixo do jogo e este propõe enigmas de recuperação do estado de tranqüilidade a profissionais da área de saúde que deverão dar respostas ao paciente dentro de certa exigüidade de tempo. É uma situação que pode conduzir a uma corrente de situações indesejáveis visto que os próprios profissionais de saúde também podem responder a isto produzindo para si condições estressantes o que vai requerer que sejam também observadas as suas respostas por outros profissionais e assim por diante.
A regra número um deste jogo é que ele não limita o número de seus participantes e ele pode ser recriado a cada necessidade de uma nova resposta, sempre estimulando a capacidade inteligente de seus jogadores, tomando como princípio fundamental cada possa viver melhor.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

CORPOS SEM FACE


O que se apresenta através de nós como uma materialidade atemporal não tem face definida, mas tem corpo, o corpo humano. O caráter transitório de cada um amplia o existir da experiência deste corpo, mas não goza do tempo de sua vitória, não participa do seu futuro. O equívoco de se constituir como singularidade sustenta a farsa da festa e alimenta os conflitos em torno de algo que não existe a não ser como miragem.
Todos os dias o noticiário estampa as imagens de corpos abatidos na selvageria dos crimes pela posse e distribuição das drogas, pelo desejo de ter algum bem destes que a televisão anuncia, pelo sufoco que o estômago vazio impõe, pela pura falta de compaixão ou piedade consigo e/ou com os outros etc. etc.
São todos corpos sem vida desde há muito. São corpos sem origem, sem nome, sem alguém que os reclame. Simplesmente existem na imagem repetida cotidianamente dos jornais expostos nas bancas, sob os olhares acostumados dos leitores e das autoridades iletradas.
São corpos sem lei, obedientes ao comando de posar assim, sem camisa, estendido e inerte num matagal nos arredores da cidade. Dispostos como a anunciar sua presença, finalmente. Uma imagem de alguém que não se sabe quem, um corpo a mais na vala comum da mídia policial.
Um dia, estão de calças jeans, noutro, de bermudas, noutros ainda, só de cuecas. As pernas cruzadas, afastadas, amarradas, sem uma perna, sem as duas pernas e sem braços...
Em geral, a pele escura reluz ao marrom predominante do capinzal que lhe abriga. Retalhos de um tecido vermelho indiciam que vestiam camisas ou que o sangue coalhado sobre pinta as cores da cena do alvorecer como a repetir a morte do leiteiro que Carlos conta em poesia.
São guris de meia idade, de papo pro ar, estampados em manchete, com vendas nos olhos, com legendas e em decúbito dorsais. A cada dia os mesmos pontos de desova amanhecem abastecidos num ritual macabro dos dias atuais. Não há marcas na camisa, os tênis não existem mais, não há etiquetas nas calças e nem os sonhos ou os delírios sutis.
São corpos de uma guerra que não nos pertence. São restos mortais de soldados abatidos na luta cotidiana, sob a desorientação dos verbos, dos objetos, dos predicados verbais. Não existem documentos, não resistem as testemunhas, não procedem as investigações e não prosperam os laudos periciais.
Resultam de tramas e ardis que impuseram a si mesmos. São corpos ofertados a esmo como troféus, crimes sem álibis, são produtos anunciados nos intervalos comerciais. A audiência diante da TV almoça indiferente à carne que consome. Os olhos ardentes desejam o colt 45 de última geração.
A indústria de armas abate em treinamento os boçais e os imbecis. E o esgoto decanta pela enésima vez a água que será engarrafada e distribuída aos que tem sede de justiça, aos que se arvoram de verdes ainda que amarelecidos. Os projéteis que destroçam corpos e os ofertam em série todos os dias são oferecidos para o sacrifício de novas unidades de exemplares advindos de gerações ainda mais jovens.
Os Institutos de Medicina Legal recebem os corpos sem face ante o contrato de guardarem sigilo dos seus destinos; de remunerarem as funerárias e os distribuírem, sob amparo da indigência, aos estudos médicos dos cursos de medicina donde serão subtraídas as vísceras e devidamente dissecados para o progresso da balística.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A MULHER QUE FALA PELOS COTOVELOS


Pense numa pessoa que não para de falar nunca. Pois bem, a mulher aqui referenciada fala mais, muito mais. Aliás, ela ganha, na escola, todos os concursos de disputas de conversa. As concorrentes, simplesmente, esgotam todos os seus assuntos e ela continua feito uma matraca elétrica, sem parar. A Comissão Julgadora nunca tem a menor dúvida sobre a quem deve entregar o prêmio de vencedora: a ela, claro. Por conta desta sua compulsão para falar, tem experimentado vários problemas com suas amigas. Reclamam que não conseguem falar nada, ela não deixa, não dá espaço.
Dizem que ela fala por quantas juntas tem. E que é mais misteriosa que o homem da mala e fala mais do que o homem da cobra. Não adianta ninguém reclamar ou pedir que ela dê um tempo. É mais teimosa que a mulher do piolho. Sabe aquela história da mulher que provocava o marido que tinha o apelido de piolho? Aquela que, uma vez, o marido não tendo como fazê-la parar, botou-lhe uma mordaça, e ela, ainda assim, esfregando uma contra a outra, as unhas dos polegares, continuava a insultar o marido. Pois ela é assim. Não tem quem a faça parar de falar, por nada deste mundo.
Do mesmo jeito que conversa, trabalha. Executa várias atividades ao mesmo tempo. Não para também, parece que está ligada na tomada a mais de 300 watts. Como dizem, é uma máquina. Estuda, trabalha em vários lugares, cuida de sua casa, faz compras no supermercado, lava roupas, passa, costura... ufa!
Dizem que ela não consegue parar de falar nem quando está dormindo. Por conta de sua agitação, desenvolveu sonambulismo. Tem que se recolher cedo da noite porque acorda praticamente de madrugada, por volta de 5 horas da manhã. Precisa tomar mil providências antes de sair para o trabalho. Ainda bem que trabalha numa emissora de rádio, é locutora. Aproveita para falar à vontade. No seu programa, entrevista personalidades, conversa com ouvintes, lê notícias. O produtor só tem que ficar marcando em cima por que senão ela conversa o programa inteiro com uma única pessoa, sem dar vez para as outras. Isto aconteceu no início do programa.
Um dia desses, imagine, o pai dela assistia ao Jornal da Globo. Ela chegou à sala, de camisola, sentou e ficou um tempão ali, como estivesse assistindo ao jornal, também. Até comentava as notícias, dava risadas. O pai só percebeu que ela estava dormindo porque tentou saber os motivos por que ela estava ali àquela hora e ela não lhe respondeu. Depois, levantou e foi deitar-se, com a maior naturalidade. No dia seguinte o pai tentou saber se ela se lembrava de alguma coisa. Não se lembrava de nadinha.
De um tempo para cá, dias, ela começou a perceber que está ficando afônica. A voz vem sumindo aos poucos. Todos à sua volta vivem dizendo para ela maneirar, diminuir sua falação, mas não tem jeito. Nada a faz diminuir seu ritmo. O que mais a apavora é exatamente isto, ter que parar de falar por conta de sua rouquidão. Mas, infelizmente, a cada dia sua voz vai perdendo força, perdendo clareza.
Nos últimos dias, ela só tem conseguido se comunicar através de bilhetinhos. Já esgotou vários blocos de anotações, folhas e folhas de papel ofício. Esvaziou várias canetas esferográficas. Fica angustiada quando liga para falar com alguém e não consegue que a pessoa, no outro lado da linha, entenda o que ela tenta falar, não obtendo mais do que um ruído sem sentido.
Embora tenha tomado todo tipo de chás, remédios, e experimentado todas as simpatias, não consegue melhorar. A cada manhã, acorda cheia de esperanças de que tenha ficado boa ou, ao menos, melhorado um pouco. Qual o quê! Seu desespero aumenta, quando tenta dar bom dia a seus pais e a voz não sai.
De repente, percebe que algo de novo está lhe acontecendo, finalmente volta a falar, mas não é como todo mundo. Não fala pela boca, fala pelos cotovelos. No início, imagina que esteja sonhando, uma espécie de pesadelo bonzinho. Mas depois se dá conta de que é para valer. Não sabe se fica feliz ou triste. Por fim, embora constrangida, decide que não é de todo ruim, afinal, o importante mesmo é poder falar, não importa se é pelos cotovelos; não há nenhum problema em falar-se pelos cotovelos.

domingo, 12 de setembro de 2010

DE FORTALEZA A TERESINA, COM ESCALAS.



        Tomo o avião em Fortaleza com destino a Teresina, PI. Em quarenta e cinco minutos estarei chegando ao meu destino, promete, pelo serviço de som da aeronave, o comandante. Enquanto o avião se dirige para a pista de decolagem, cochilo levemente. Acordo com uma das comissárias de bordo tentando explicar a uma senhora, sentada na poltrona à minha frente, que nos assentos que coincidem com as saídas de emergência não é permitido por a bagagem de mão. A mulher finge não entender aquela observação e prende a sua bolsa ao corpo. Começa, então, um e vir de comissários revezando-se na tentativa vã de convencer a resistente senhora a largar a bolsa. Surpreendo-me quando, num gesto brusco, uma das comissárias arranca abruptamente a tal bolsa das mãos da mulher e a põe no bagageiro acima de sua cabeça. A seguir, percebendo que todos no avião estão com a atenção voltada para a cena, cumprimenta-nos com um gesto de cabeça e sorri, como se houvesse conquistado uma importante vitória ou nos prevenisse.
          Todos retornam as suas posições de inércia e indiferença. O avião decola, finalmente.
       Pego um exemplar de uma revista de bordo e vou folheando. Em textos bilíngües, a revista vai-me apresentando cidades da Colômbia e vou-me deliciando com matérias que me remetem à “cosmopolita Bogotá, a romântica Cartagena, a paradisíaca San Andrés (no Caribe) e, finalmente, a Letícia, uma pequena jóia incrustada na Amazônia.”
          Bogotá me acolhe com seu clima gostoso de apenas 18 graus. A cidade vencedora de uma fase de perturbações violentas provocadas pelas guerrilhas e pelo tráfico de drogas oferta-se como uma promessa de prazer ao turista. Capital da Colômbia, Bogotá é uma cidade charmosa e sedutora. Ruas limpas, seguras enfeitam-se de vida nas cores das vestimentas de seus transeuntes e da vibração de alegria que parece emanar de cada pessoa: nativos e estrangeiros. Chamam-nos a atenção o teleférico no centro, os artistas em apresentações de rua e uma igreja de sal. Por entre os casarões originários dos séculos 17 e 18, cerca de 58 museus e 62 galerias de arte transformam-se em opções de visitação, ou melhor, reivindicam a obrigatoriedade da visita. Assim se revive a história, desde a pequena Santa Fé de Bogotá, nascida em 1538. De Bogotá a 40 minutos de carro, uma visitinha ao restaurante Andrés Carne de Rés, localizado na cidadezinha de Chia, uma espécie de rota necessária a quem visita a Colômbia e, especial, Bogotá. A frente deste restaurante, um misto de empresário e artista plástico, Andrés Jaramillo. Gostosamente saciado, verifico que preciso seguir visitando o país. Próximo destino, Cartagena.
     Ao chegar, sobrevôo uma cidade à beira-mar, com cerca de 1 milhão e 100 mil habitantes, com contrastes de casario extremamente simples e arranha-céus com até 48 andares. Na zona portuária, derramam-se obras para todos os lados. Containeres coloridos, sobrepostos por entre navios no porto, dão maior charme ao cenário. Mas as imagens do cinema resistem e me aquietam no passeio por entre os românticos sobrados. Palmilho e chão de pedra, observando as varandas forradas de flores e as praças arborizadas, povoadas por casais enamorados que se aconchegam como que monumentos vivos à beleza do amor e da cidade. Revejo Garcia Marques no seu Amor em Tempo de Cólera situado por entre as muralhas de Cartagena, cenário para a filmagem da história de Florentino Ariza e Firmina Daza. Supreendo-me com a sensação de conhecer todos estes detalhes com certa intimidade.
         Saindo de Cartagena, vou ao arquipélago colombiano de San Andrés e Providencia. De princípio, me encanta a exuberância da natureza, conformada nas belas nativas, na transparência e na variedade de cores da água e no frescor dos coqueirais. As ilhas todas tem seu o encanto e o meu deslumbramento recupera o cansaço da viagem dos dias anteriores. Entendo ali porque holandeses, espanhóis, ingleses e piratas disputaram este paraíso por longo tempo. Os ingleses tomaram conta até o século 19, quando um tratado decidiu que o arquipélago ficaria com a Colômbia. E, claro, num lugar com tanta história, outras estórias compõem a sua riqueza. Não raro, sou informado de tesouros que foram recentemente desenterrados ali próximo, na praia mesmo. Na maioria das vezes, o que se conta é que tais tesouros teriam sido postos ali pelo legendário Henry Morgan, pirata galês que esteve à frente das disputas pela posse do lugar. Após usufruir de outros confortos, sinto uma vontade imensa de ficar por ali, mas sei que tenho de seguir adiante. Desta vez, vou a Letícia, no meio da floresta amazônica.
      Chego à cidadezinha de cerca de 40 mil habitantes enfrentando as dificuldades de acesso comuns a todos os lugares que ficam na selva amazônica: através de barcos e vôos em pequenos aviões. O nome Letícia dado a cidade tem origem rodeada de controvérsias. Tanto poderia ter sido motivada por uma homenagem prestada pelo engenheiro Manuel Charón a uma peruana chamada Letícia Smith, quanto por iniciativa de um soldado colombiano apaixonado por uma índia que tinha este nome. Apenas uma avenida separa a cidade de Letícia, da brasileira Tabatinga. São os nomes das empresas em idiomas diferentes que marcam para quem chega a informação de que se está no Brasil ou na Colômbia. Entre as várias etnias indígenas da região, predominam os ticunas.
         Ainda não inteiramente satisfeito com o que desejo conhecer em Letícia, sou obrigado a interromper a minha estada pela comissária de bordo que insiste que eu retorne o assento a posição vertical, anuncia que estamos chegando a Teresina. Olho para ela e lembro de sua determinação ao arrancar a bolsa dos braços da senhora sentada na poltrona à minha frente. Acho melhor repor a revista ao seu lugar inicial e fazer como a comissária manda.

domingo, 5 de setembro de 2010

BORBOLETAS BORBULHANTES


Meu olhar cruza o olhar dos demais e vai se prender à dança de duas borboletas que, para além do vidro da janela, rompem com o cinza e as sombras predominantes do pátio com suas cores vermelho e amarelo. Enquanto a turma inteira observa com atenção os slides projetados na parede, observo o frêmito das borboletas que sobem e descem, trocam de lugar num voo nervoso e inconstante.
Curioso que elas se postem no espaço exato em que a luz solar, rompendo a fronde da mangueira, ilumina uma fração do espaço, entre a lateral da sala e a espessa copa da árvore. O fundo cinza de uma banca de revistas contrasta com as cores vivas das borboletas inquietas, que assomam e somem repetidas vezes.
A impressão que eu tenho é que elas desejam mesmo chamar a atenção, roubar a cena, naquela manhã barthesiana. O movimento das asas, associado ao movimento que descrevem no espaço, não apenas adquire um desenho harmônico e repetido, mas simula algo que é da ordem do inverossímil.
Imagino tratar-se de uma dança de acasalamento, visto que, de instante em instante, quase se tocam, para, em seguida, se distanciarem uma da outra, num traçado circular, numa arquitetura de voo simples e exuberante. A incidência do sol faz alternar suas cores entre o amarelo vivo e o vermelho luminoso. São pequenas luminâncias que pontuam percursos em riscos de cera no ar.
Outras vezes tenho a impressão de que adornam aquela manhã em homenagem ao tema da exposição com que concorrem. A leveza, o silêncio e a beleza capturam não apenas o meu olhar, a minha atenção, mas, igualmente, abafam a voz do palestrante, a tal ponto, que não o consigo ouvir durante a maior parte do tempo. Absorto, prendo-me ao espetáculo com que meu olhar se deslumbra.
O vestido verde de uma das assistentes me chama a atenção pelo contraste produzido com as cores das borboletas. Vejo e revejo o verde do vestido, o amarelo e o vermelho e me pergunto o que mesmo relacionaria cada um destes pontos naquela manhã. Percebo, a seguir, que, na perna direita da assistente de vestido verde, atenta à exposição do assunto, há um sinal vermelho sobre a pele alva, logo acima do joelho.
Luto por manter a minha atenção na fala do expositor, ele demonstra conhecer bem o que expõe, mas não consegue que eu me atenha ao exposto. As borboletas se mantêm em sua apresentação, a assistente de vestido verde e sinal vermelho na perna, quase como uma mancha larga e esvoaçante, permanece impassível, os olhos voltados para os slides. Não há expressão de aprovação ou reprovação. Não há expressão alguma, apenas olha para frente, como a escutar o que é falado e a olhar o que é mostrado. Só isto.
Eu vejo suas pernas, a mancha vermelha no lado interno da perna direita e as borboletas inquietas na sua dança iluminada. Alguém mexe na cadeira, um pigarrear insistente, um sussurro, tudo me é perceptível com certo nível de inquietação, um cuidado preocupado de que trinquem aquele momento de cores atraentes, de movimentos matinais nunca experimentados por mim.
Concluída a exposição, os aplausos me parecem ser direcionados ao show das borboletas, que findam, afinal, sua apresentação. Ainda algumas perguntas, depoimentos pessoais de satisfação, de elogio ao expositor. Os agradecimentos de praxe. A sala vai-se esvaziando sob o ruído ensurdecedor das conversas que se multiplicam por todos os lados. Não tenho clareza sobre o que falam tantas pessoas ao mesmo tempo.
Meu olhar prende-se ao vidro da janela à espera de que as borboletas retornem à sua apresentação. A assistente de vestido verde e sinal vermelho na perna direita ergue-se devagar, olha para mim, olha para a janela, dá-me um sorriso e se vai sem revelar sua cumplicidade.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

APENAS UMA BOA RAZÃO


Uma bala disparada a esmo não escolhe alvo, tanto pode atingir uma criança no inesperado do tempo quanto o usuário de drogas que financia a arma que a dispara. O pavor da violência se detém na barreira da irracionalidade. Ninguém nunca explica quem, em última instância, financia o tráfico e suas ações violentas. Não houvesse consumo não haveria produção e muito menos distribuição. Pior ainda, se a droga custa caro, consome quem tem dinheiro. A chamada elite, apodrecida, ergue muros ao redor de si, instala câmeras em cada esquina, mas refugia-se nos guetos, nas orgias privadas, para consumir sua encomenda de primeira ordem. Não importa o quanto custe. Não interessa a que preço.
Rebeldes nem tão poderosos assim imitam alegremente a cena deprimente da fuga sem sentidos. Pó e fumaça alimentam almas assombradas, a caretice dos uniformes e paramentos ostenta a moral e o racionalismo, da boca para fora. É muito larga a zona fronteiriça em que se separam e intersectam-se as linhas de interesses opostos ou divergentes. Batinas, fraques, fardões, sobretudos, longos, togas e galões esbarram-se em corpos dopados nos sombrios sobrados dos negócios escusos.
Mundos diferentes, cores adversas, destinos invertidos estabelecem tréguas e firmam pactos de não agressão; por instantes, deleitam-se em seus motivos. Uns escancaram risos, limpam as narinas fedorentas, outros contam o apurado do dia e riem o riso incomum da insensatez.
Morrem jovens na guerra do tráfico. Morre a polícia de inanição. Morre a autoridade do Estado de estupefação. A droga adquire vida própria, mobiliza exércitos de traficantes, de todas as idades. A criança na lida do tráfico sinaliza sua perseverança, sua resistência. Mobiliza procissões de consumidores, como sonâmbulos que obedecem a uma ordem superior a que não conseguem resistir.
Ninguém nunca explica quem, em última instância, financia o tráfico e suas ações violentas. Como querer que os donos das armas abram mão do direito de continuar empunhando-as livremente? Como querer que o crime criativo, que a cada momento oferece uma droga nova, um produto mais atraente no mercado, desarme-se? A arma ostentada nos meios de comunicação a cada momento é um troféu que se exibe em vitória da irracionalidade sobre a vida.
O usuário de drogas coloca cada um de nós numa roleta russa, com o cano da arma apontado direto para a cabeça. Ninguém sabe ao certo a direção do próximo disparo. O traficante é uma invenção do consumidor de drogas. Sem consumo não há produção e muito menos circulação. Se não há procura, não há oferta.
Não há vencedores nessa história, apenas sobreviventes. E nada garante que seja por muito tempo. Quem ingressa no mundo do crime livra a cara enquanto pode, mas sabe que o pior gira em torno de si, cada vez mais próximo. Não teme a morte porque não dá valor à vida de ninguém nem mesmo a sua. São as regras de quem está no front, está de pé enquanto não é o alvo do adversário. Uma arma na mão dá a sensação de poder tudo. Este engodo alimenta a gana do fabricante de arma que não se vê na mira da trama que produz. Vive sob a miragem do lucro, não sabe e não quer saber o que é razão. Não entra em nenhum dos componentes do instrumento de morte que fabrica. Quem compra a arma reafirma os seus propósitos.
Ninguém nunca explica quem, em última instância, financia o tráfico e suas ações violentas.