sábado, 1 de janeiro de 2011

LUZ E SOMBRA


Diafragma da câmera em 16.0 e o obturador em 1/12.000, não apenas para fixar uma imagem em alta velocidade, mas para não permitir que sature a luminosidade. Que vele o filme. É assim que se desenham imagens na película, no filme fotográfico ASA 100. O sol imenso imerso no azul do céu de olho espichado no mundo e a luz intensa assombram as sombras que desanimam sob as árvores esbaforidas.

Tintas frescas de cinza e marrom matizam a superfície da terra entre vãos de asfalto e cimento aquecidos. Nada de pé em pele, nada de caminhar descalço. Ninguém se arrisca. Calor a pino desfaz em pasta o sorvete antes que alcance a língua jogada a esmo, em ondas de doce esperança.
O ar morno materializa-se na respiração e amorna as narinas canal adentro no meio do tempo, em todos os lugares. Torneiras abertas, mangueiras ligadas, chuveiros chovendo, só enquanto. A pele evapora logo após. A roupa resguarda um tiquinho do frescor da água embebida por mais um pouco.
Os olhos cerram para ver lá fora o mundo velho pegando fogo. A boca ressequida recupera a saliva e pigarreia no nada. Sertão, o verso contorcido feito marmeleiro finge que se embrisa, finge que descansa no varal. Cada um diz o seu como pode, conforme Deus lhe dá. Cada um é cada um, está dito.
Sertões são tantos, diversos. E o sertanejo em sua peleja não se dá conta de hoje, tudo é para amanhã. Agora é só hoje, um instante que passa logo. Não carece pressa. Planta, reza, canta, festeja batizados, casamentos, dias santos e outras datas. Vaqueiro, agricultor, carpinteiro, pintor etc. Ser tão diverso, sertão de versos.
Noite feita e a lua abarca cada cantinho do mundo. Luz posta em breu, noite profunda. No fogão, o sol definha a lenha sob panelas de barro. A conversa enche a boca e se espera o tempo de comer. A imagem fotográfica refaz texturas e outros enquadramentos. As luzes atormentam mais vagar.
Noite, ainda, e as pessoas se inquietam com o calor, espiam a lua e não entendem por que o tempo continua quente. Entabulam conversas sobre o derretimento das geleiras, o aquecimento da terra, o efeito estufa. Nenhum argumento tem explicação outra. É mais um necessário esperar passar o tempo. É mais um esperar passar o calor, em algum momento, nem que seja após muitos meses. É quase um não pensar, um pensar inútil.
Daqui a pouco é hora de tentar dormir, esperar o dia seguinte sem a ansiedade de quem vigia, de qualquer vigília. Dormir, simplesmente. Depois, na repetição das horas, a diversificação de cada um. O modo de perceber as coisas, de refazer sua rotina, de criar para si o interesse. É o modo de se deixar esquecido, que, embora aquecido, o dia é só mais um. A marcação no calendário deixa ver o ano inteiro enfileirado, um dia após outro. Melhor viver um de cada vez, frio ou quente. Viver.
Madrugada feita, o feirante rumo à feira, o pescador rema para onde imagina possa encontrar seu pescado, as mulheres cuidam de si e dos seus. As luzes vão-se aos poucos, dando forma ao mundo e às coisas. Um pouco do que foi frescor e carícia torna-se calor e abarca a terra inteira.
Após a alvorada o sol há de espichar seu olho e assim ficar em curva longa e lenta sobre nossas cabeças. Nem para pensar. É tanta gente em movimento que a energia que daí deriva torna tudo este forno. É tanta gente acendendo alguma coisa em algum momento, que ninguém se dá conta que está tocando fogo no tempo. É tanta gente tomando café quente em meio aos 40 graus do dia que parece até inverno pleno.
Observando deste lugar, dá para imaginar que deve ter sido assim que pensou o pintor, autor deste quadro na parede. O movimento do pincel parece descrever um açoite sobre o corpo da tela, misturando traços, figurando gente, separando luz e sombra.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

JORGE E BRUHMA


Jorge conheceu Bruhma em uma cidadezinha do Interior, por acaso. Ele andava por lá visitando uns parentes e a viu, de relance, passando no outro lado da rua. Acompanhou-a com os olhos até onde deu. Foi embora, lamentando não a ter visto mais de perto. Depois, por coincidência, Jorge a encontra na igreja, por ocasião de uma cerimônia de batizado. Os dois saem ao mesmo tempo e se encontram na calçada. Param, olham-se, sorriem e se vão para destinos diferentes. Mais uma vez, Jorge lamenta, naquela ocasião estava com a esposa, e Bruhma, também, acompanhada.
Depois de algum tempo, encontram-se na Capital e, por conta deste encontro, em lugar tão distante dos primeiros, iniciam uma conversa. Resolvem almoçar juntos e descobrem que são casados, que têm filhos e, que naquele momento, vivem uma crise conjugal. Ela alega que o marido a sufoca, não permite que tenha independência, que se manifeste livremente. Ele diz que a esposa tem umas manias, certos pensamentos fixos, não esclarece nada, mas acaba dizendo que isto vem atrapalhando o casamento.
Desde então, passam a se encontrar com mais constância, e cada um dos encontros é marcado com hora e lugar determinado. Percebem que se aproximam um do outro, mas não põem dificuldade. Pelo contrário, abreviam os intervalos cada vez mais. Depois de algum tempo, resolvem romper com o casamento para ficarem juntos. Mas ficar juntos não significa viverem sob o mesmo teto. Vão planejando e, ao mesmo tempo, conhecendo-se melhor.
A vida de Jorge e Bruhma transforma-se numa espécie de romance em que tudo é feliz. Passeios, aventuras, brincadeiras e muito amor. Juras e promessas de futuro encantador. Amam-se de modo intenso. A cada dia descobrem mais afinidades e a necessidade que sentem, mutuamente, um do outro. Têm certeza de que nasceram um para o outro e não entendem por que estiveram tanto tempo casados com pessoas tão diferentes. De repente, uma novidade: aqui e acolá um dos filhos obriga que um encontro seja desmarcado. Eles se aborrecem, mas compreendem a situação.
Depois surgem outras novidades ainda mais desagradáveis: Jorge descobre que sua namorada anda saindo com o ex-marido. Não gosta, mas não pede explicações. Diz que entende que os dois têm filho e que não há motivo para se preocupar. Depois é Bruhma quem descobre que Jorge, a pretexto de realizar negócios e de ver o filho, de vez em quando viaja para a cidade em que mora sua ex-mulher.
A situação vai ficando complicada e cada vez fica mais difícil explicar o retorno ao passado. Cada um entende que a sua situação é perfeitamente compreensível, mas nega ao outro a mesma facilidade de compreensão. O certo é que as coisas se encaminham para o impasse e, num dado momento, se torna insustentável. Ocorre, então, o rompimento. Apesar de várias tentativas de conciliação e de reconstrução da história de amor, a relação vai se esgarçando e, finalmente, decidem que cada um deve seguir seu caminho. Tristeza profunda, choro e ranger de dentes.
Ainda muito machucados vão se abrigar no conforto do passado. Ela volta a considerar a corte e os agrados do ex-marido e ele volta a ser gentil e agradável com a ex-esposa. Alegam que há, na decisão pessoal, o desejo de reagrupar a família e atender aos desejos do filho que sempre sofreu com a separação. O ex-esposo revela-se um homem apaixonado e disposto a não repetir os erros do passado. Jorge garante a ex-esposa que tudo será diferente doravante. As famílias se reconstituem e parecem experimentar novos tempos de felicidade.
Bruhma gasta seu tempo entre o trabalho e a internet, quando está em casa. É sempre a última a ir para a cama. Mas diz viver uma felicidade nunca experimentada. Some do círculo de amizade e das noitadas com as amigas, mas garante que nunca foi tão feliz na vida.
Jorge entrega-se ao trabalho mais do que antes, para pensar o mínimo possível na situação, e investe seriamente na sua “nova” condição: marido e pai de família, embora cheio de dúvidas sobre o que sente por sua esposa.
Bruhma conhece Marcos na Internet, na sua timeline do twitter.

domingo, 12 de dezembro de 2010

JOÃO, REGINA E O PÉ DE FEIJÃO


Regina chega ao seu apartamento naquele dia com certo brilho nos olhos, mais adaptada à cidade, descobriu uma livraria em seu caminho, e, passando por lá, teve a ideia de comprar um livro que pudesse ler, na companhia de Hermano, antes de dormir. Trouxe o livro de um autor desconhecido, chamado Raimundo Santana Lemos. Trata-se de uma recriação da história João e o Pé de Feijão.
Tudo pronto, Regina começa ler a história para Hermano.
João descobriu em meio à vegetação rasteira de uma capoeira em suas terras um enxu, uma espécie de abelha que produz mel em colmeia no subsolo. A quantidade de mel era tal que João teve que utilizar uma burra para transportá-lo em barris. E de tanto trabalho, utilizando cangalhas com cargas pesadas de mel, criou-se uma peladura no lombo da mula. Ensinaram para João que pó de feijão torrado ajuda a cicatrizar e evita varejeiras. João colocou o pó de feijão na bicheira e soltou a mula, lamentando não ter concluído o transporte do mel. Tanto ainda que ficou por engarrafar que o lugar tornou-se uma imensa lagoa de mel de enxu.
Passado o período chuvoso, João põe-se a procurar a burra no capoeiral. Soube, em sua busca, que um fenômeno vinha chamando a atenção de moradores da região em uma de suas capoeiras, um pé de feijão crescera tanto que ninguém conseguia ver o seu final, nem olhando de longe, porque o tal pé de feijão entrava nuvem adentro. João esqueceu, por momentos, sua busca e foi verificar a procedência de tal história.
Chegando ao lugar, viu que era verdade, e, de tanta admiração, foi logo entrando na moita. Surpreso, percebeu que aquele enorme pé de feijão crescera no lombo de sua burra. A coitada mantinha-se quieta, deitada, porque não conseguia levantar-se. João, então, foi à sua casa e trouxe alguns amigos para ajudá-lo a derrubar aquele pé de feijão e recuperar seu animal de carga. Retornando, deu de garra do machado e juntou a contar as ramas do pé de feijão, junto com seus auxiliares.
Foi derrubando vagens e subindo na ramagem. Percebe que começa a juntar gente com animais com cambitos e caçuás que enchiam de feijão, transformando-se numa enorme romaria, com filas imensas indo e voltando. Mas João não deu trela, estava preocupado em livrar sua burra de tamanha dificuldade e levá-la para casa, outros serviços dependiam dela.
Quando João deu por si estava em um lugar muito estranho, parecia fumaça ou nuvem. João deixou o pé de feijão e começou a caminhar sobre aquela superfície, fascinado. Era tão estranha a sensação esquisita sob seus pés. E, ao se afastar, não percebeu que seus amigos haviam conseguido, finalmente, derrubar pé de feijão. João ficou sem poder descer. Danou-se a caminhar, quando avistou uma casinha simples, de quintal, com cerca de pau-a-pique onde havia roupas de frades estendidas. João não contou pipoca, pegou os cordões que servem de cinto aos frades, amarrou uns aos outros, pendurou uma extremidade na cerca e deixou descer a outra.
Segurando-se devagarzinho, foi descendo com todo cuidado. Mas, ao chegar ao final, viu que ainda faltava muito para alcançar o chão. Com muito esforço, retornou a casa e ficou pensando no que fazer. Logo, apareceu São Francisco, o dono da casa que lamentou não poder fazer muito por João a não ser ceder seus cordões novamente já que João os havia retirado sem permissão. Enquanto pensava, João viu subir até ele uma coluna de fumaça com forte cheiro. Por este cheiro, João identificou tratar-se da fumaça do cachimbo que sua avó fumava sempre à tardinha. João teve, então, a ideia de trançar esta fumaça e emendar a trança com o cordão e descer novamente.
Ao final, João chegou a uns dois a três metros de distância do chão. Entendeu que não conseguiria subir outra vez, e decidiu pular, mesmo arriscando machucar-se seriamente. A sorte é que João caiu justo na parte rasa da lagoa de mel de enxu que se formara. Mas, por trama do destino, atolou-se, não conseguia sair do lugar. Gritou que ficou rouco, por alguém que o viesse puxar dali. Não vindo ninguém, João tomou uma decisão: foi a sua casa, trouxe uma enxada e desatolou-se.

sábado, 4 de dezembro de 2010

ITINERÁRIO DAS ÁGUAS


Foto do autor

Teresina acolhe por confiança os náufragos. Extenuados, sob a luz que encandeia solitários andarilhos, abrigam-se resguardados em marquises mais urgentes, em telhados ociosos, em latadas providenciais. A rigor não conduzem mais nada além da alma aflita ou do coração à espreita. E com vagar aguardam o tempo de seguir em frente. Aos poucos, penetram os rios e as amizades. Fincam pé e alguns fincam a vida no chão batido e petrificado do corpo árido da cidade.
O encanto das pessoas seduz e pretexta o ficar-se, como quem se justifica sem convencimento. O calor lá fora explica o desejo da sombra. As noites não contam como razão de ir-se porque, porque, bem... à noite correm-se riscos. Melhor não ocorrer.
A amizade, a vizinhança, um emprego à vista. As raízes vão penetrando a terra e os laços embaraçando-se num permanecer sem paradeiro. Difícil desalinhar.
Melhor pensar nos filhos a criar e na cerveja gelada em que se fartam os desejos e as conversas providas em mesa de bar. A música que flui de todos os lados e a alegria desmedida dos que estão à volta, por qualquer motivo. Melhor ficar por algum tempo. Partir é uma promessa no horizonte que se afasta à aproximação.
Aos poucos se perdem as diferenças, e os estranhamentos se confundem com sentimentos próprios. Eles se transmutam em nós. Não mais há fronteiras possíveis. Já quando tem que enunciar, a origem gagueja, duvida, mostra incertezas. Os traços físicos são a única pista que denuncia uma história longa e complicada de buscas. É o espelho que produz a adversidade, a alteridade.
As margens se fundem e os traços de contorno transformam-se em traços de união. As palavras se apropriam e os gestos mimetizam o ser e a paisagem. As passagens são pontes que conduzem ao ir e vir. Mas as possibilidades de retorno prometem, ou melhor, ameaçam ruir o tempo de outros lugares. Carece sejam arrancadas e retiradas as raízes com dor estúpida.
Teresina recicla os migrantes e seus anseios. Apaziguados, à luz que ilumina a vida, cada um é parte dos que habitam a cidade e sorvem seus sonhos. As ruas e as avenidas têm destino conhecido, nomes familiares e até são cenários de histórias pessoais. Os bairros são lembranças dos endereços e das comunidades de que se fez parte. Quem, por acaso, puxar um fio determinado da história da cidade terá, certamente, de mencionar nomes, pessoas que partilham há muito as experiências de vivenciar a cidade. É de alguém que se conhece de que se fala. É de um lugar comum a que se refere nas conversas do cotidiano. Pessoas que se perdem e se lamentam, outras que nascem e passam a conviver, dividindo tempo e espaço enquanto se fiam pavios nos interstícios dos nomes que povoam o círculo de amizades.
Endereço fixo, com Código de Endereçamento Postal e tudo. Colégio dos filhos, trabalho diário, entretenimento e consumo dos bens que a cidade oferta: cinema, supermercado, teatro, transporte etc. Teresina é um lugar para o qual se retorna sempre, mesmo que em viagens mais demoradas. A referência onde ancora destinos, necessariamente.
Convites e compromissos nos finais de semana. Presença certa em solenidades e testemunho de fatos inesquecíveis na vida de outras pessoas. Lembranças dos traços que a cidade já não apresenta e deslumbramento nos novos modos de se apresentar ao mundo. Divisão de planos para as vias prometidas e que devem conduzir todos ao futuro com mais conforto e segurança. Expectativa de comemorar as datas da família, da cidade, do país no decorrer do ano. Ano após ano. Atravessar as missões com o cuidado de quem preserva a promessa de retribuir à cidade o bem do acolhimento, em momento de dúvida e desejos insustentáveis.

domingo, 21 de novembro de 2010

IMERSO NUMA SAUDADE IMENSA


O tempo é curto. No entanto, se gasta o tempo contra si. Lembra-se de ontem? A urgência era aproveitar bem enquanto estávamos juntos. A gente não esperava que as palavras amadurecessem no calor das pronúncias, colhíamos diretamente da boca um do outro. Talvez, até, as tocássemos ainda no coração. Éramos de tal modo feito pressa que sequer notávamos a ciranda dos ponteiros do relógio sobreposto contra nós. Num momento, como por impulso, hora de nos separamos. Cada um em sua casa, repetias. Mesmo assim, ainda eternizávamos um beijo de despedida, de até loguinho. Até já. O sol haveria de ser breve, e a noite nos uniria novamente.
O que foi feito de nós, que o tempo inteiro agora ainda não se basta? E nos olhamos em torno e não nos vemos. O que foi feito das palavras sob este silêncio rochoso que não conseguimos mover? O que foi feito do ardor que nos cobria a pele ou, melhor, nos ardia a carne exposta. O que foi feito do futuro que nos prometemos tanto? Que boca é esta que nos engole e não nos deixa escapar neste espaço imensurável, nesse nada, tão largo e renitente?
Cada um seguiu sua vida. Este é o equivoco. Minha vida não há onde não é a tua. Tua vida não existe onde não existe de mim coisa alguma. Cada um é neste instante uma promessa para o outro, mas fora de propósito em outros tempos. Certo que foram poucos dias, um mês e meio ou um pouco mais. Mas o que é que há em explicação a esta saudade secular? Não se explica, simplesmente. É tudo falta. É tudo vazio. É tudo negação e incômodo. Sequer há o que seguir. Estamos, estou num ontem eterno. Hoje para quê? Amanhã para quê? Liames evanesceram e já não existem passagens de um a outro tempo ou lugar.
Trago a delicadeza da primeira vez de teu rosto em minhas mãos como uma marca forjada a ferro em brasa. O alvor de tua pele como uma luz que desfaz a noite para sempre. O teu cheiro, o aroma de teus beijos como uma lembrança que não se realiza nem some por completo. O teu sorriso é o refúgio com que me escudo e atravesso os desertos da insônia feroz. É sob os teus cabelos que eu escondo meus medos e a solidão.
Uma colagem de frases remonta a cenários e cenas altamente enredadas em emoções pessoais. Sussurros que me pedem para ter paciência, para acreditar em algo que não se esclarece. Escuto meu nome pronunciado como uma confissão de amor, um êxtase cheio de desejo e temores. Há pedidos repetidos, insistentemente, para que eu entenda, para que eu pare, como uma negação vacilante. Ao mesmo tempo, há um tom de súplica que me pede para insistir. Ou seria só a minha vontade de prosseguir que me faz ouvi-la suplicar de tal modo? A lua derrama-se em ti e seu néctar rola abundante sobre o teu corpo, feito mel. O sol crepuscular espalha em teus seios pétalas de rosas vermelhas. O céu inflama-se e sugamos o sumo sagrado de nossas vísceras que nos sacia corpo e alma.
Neste momento, porém, trago o vazio de tua ausência entre os meus braços e as mãos cheias de saudade de um breve tempo de intensos e singelos fulgores. E já absorto em meus caminhos e pensamentos desperto para uma flor que me diz seu nome. Aliás, tudo em minha volta fala de ti, mesmo o silêncio abissal.
Mas, ao mesmo tempo, falta-me chão sob os pés, ao ímpeto de rios que me impulsionam sem direção, arrebatam e arrebentam as cordas que prendem ao cais, lanço-me só em precipícios de corredeiras e quedas d’água mais e mais. Enchem-me os olhos miragens de cores que trançam as paisagens e deformam-se em correria, desfiando-se ao longo das margens. Por instante, lembro o poeta moço de outras paragens cuja poesia precipita-se em barco bêbado descendo rios impassíveis.
O tempo é pouco. E, no entanto, gasta-se o tempo contra si.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

FIM DA LINHA



Há tempo espero um ônibus que me conduza ao trabalho. Cheguei à parada às 7 horas em ponto. Todos os que me servem passam lotados e nem param. Vejo que se aproxima um ônibus que posso apanhar, mas que me deixa a três quadras do local em que trabalho. Vem com muita gente já em pé, mas não está lotado. Dou sinal, ele vai parar mais à frente. Corro e subo, topando nas pessoas que se alojaram nos degraus da porta de entrada. Reclamam. Eu também. O trocador está com a cabeça deitada sobre os braços, escorado na gaveta, parece que dorme. Toco-lhe os braços e digo que vou passar. Forço a roleta, mas as pernas do trocador emperram, não me deixam ir em frente.
Alguns passageiros observam a cena com ar de riso. Toco a cabeça do trocador com insistência. Ele se ergue, e me olha com indiferença, os olhos ainda apertados de sono. Para pagar uma passagem de um real e trinta e cinco centavos, entrego-lhe uma cédula de cinco reais. Ele me passa o troco de três reais e sessenta centavos. Digo que está errado, ele, sem olhar para mim, mete a mão na gaveta e entrega os cinco centavos que faltavam.
Vou adiante, topando nas pernas de outros passageiros. Alguém resmunga alguma coisa que não entendo, mas não paro: se eu não passar agora para a porta de saída, quando chegar onde vou descer não conseguirei. A tendência é o ônibus encher mais até lá.
Nas curvas vai todo mundo para o mesmo lado, apertando-se uns contra os outros. Um passageiro que cantava uma música desconhecida reclama com o motorista que este está correndo muito. Passa poste, passa pasto, passa boi, passa boiada... as coisas todas passam, velozes. Uma curva para o lado contrário, lá vamos nós, juntos. Uma senhora com criança nos braços reclama, porque um jovem que acaba de lhe espremer contra o banco não lhe cede o assento. Mal educado, grosseiro, xinga.
O jovem finge dormir, denuncia-lhe um sorriso mal disfarçado.
Uma moça apressa-se para descer e vai machucando quem estiver pela frente. Pede, aos berros, que o motorista pare no ponto seguinte. Ameaça denunciá-lo à empresa, se ele deixá-la passar de onde deseja descer.
Passa com os cotovelos abrindo caminho por entre corpos inermes. Respira ofegante como se tivesse corrido quilômetros. Raspa-me os ouvidos com sua angústia e aflição. Um senhor de chapéu de palha não dá notícia: dorme. A boca aberta resseca-se com o ar que se desloca da janela aberta. Fitos na paisagem acinzentada, pares de olhos apontam lados opostos com a mesma expressão: anestesiados pelo tempo em que esperam as referências no deslocamento do ônibus veloz. Acostumados estão com os fios dormentes, os meninos fardados que passam para a escola, os ciclistas que andam para trás, os postes ligeiros, as casas sem ninguém. Alheamento agudo, acostumado.
Desprego os olhos donde fitava o mundo e percebo que se aproxima o meu ponto de parada. Puxo o sinalizador e vou-me aproximando da porta de saída. O ônibus para bruscamente, arremessa-me para frente; sinto-me pressionado por outras pessoas que mal se seguram, dependurado no suporte de mão acima de suas cabeças. Xingam o motorista, avisam que não transporta gado, exigem que tenha cuidado. O motorista limpa as mãos na flanela ao mesmo tempo em que também limpa a direção com ela. Engata a marcha e arranca forte, jogando os passageiros que vão em pé para trás. O percurso ainda é longo e muitas outras paradas há até o ponto final.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

ESPIRAL DOS AMANTES


Estamos de algum modo conectados uns aos outros por um tecido que se articula nos interstícios de nossos corpos, uma teia invisível que não permite que nos isolemos. E, se nos ajustamos a esta condição, o espaço tensionado relaxa e não se deixa perceber. Porém, se prevalece a sensação de que algo não se ajusta ou, por outro lado, se ajusta, mas de modo incorreto ou a situações que não são adequadas, o tecido tende a ser distendido e tenso. Os fios vibram num frêmito indômito e reverberam ondas de tensão que alcançam cada um dos pontos que pontuam a malha de conexões.
O incômodo do desajuste aciona sentimentos de instabilidade e desequilibra as relações de troca amistosas, sobrepondo-se como dobra que se estende sobre si e interdita os acordos. Aí se instala a instabilidade. Percebamos que os desarranjos, como os tratados harmônicos, se efetivam no espaço exterior e repercutem no interior de cada um dos que se relacionam por meio de uma teia comum.
Podemos imaginar que tanto temos a condição de produzir ocorrências  com capacidade de mobilizar os outros, seja quem for que esteja vinculado aos fios que se conectam aos pontos visados, e, a partir destes pontos, colher respostas  quanto podemos repercutir questões e ações deslanchadas no exterior, advindas deste espaço intersticial.
Há entre os corpos um vazio que oculta e deslinda os atos polarizados, a partir dos acordos de sentido que se efetivam nas trocas, como resultado do que as singularidades, as individualidades ofertam: objetos de partilha, artifícios de sedução. Apresentam-se como aquilo que interpreta o desejo comum, território, ao mesmo tempo, de produção e consumo do corpo plural. Ou seja, um e outro simulam dar-se ao outro por um movimento de colher o efeito desejado.
Os movimentos ensaiam promessas e experimentam surpresas na direção da dádiva. Gestos desenham toques, numa dança, que ostenta a nudez e uma economia de oralidade. Os sentidos aguçam e aguardam interpretar de parte a parte o retorno de seus atos como consequência de investimentos aparentemente irracionais, emotivos, impensados.
Neste instante, o que circula no espaço dos interstícios são impressões de que as interioridades se manifestam regidas pela harmonia demarcada pelos movimentos exteriorizados do outro. O falseamento se inscreve onde o interior transparece como um misto do que é fonte de produção de intenções e lugar de consumo do que o exterior oferece como possibilidade de co-respondência. Os fios conectam pontos na rede de relações e transpõem os corpos, entrelaçando-se, num tecido de permanência que quase que se pode dizer que impõem comportamentos automatizados e irrefletidos, carregados de manhas, para além do tempo, a outros atores.
O cenário vislumbra corpos encurvados, encaixados em movimentos sincronizados. Encostam-se, adentram-se e deslizam: um sobre outro, um após o outro, ladeados um a um. Desde o princípio encenam coreografias marcadas no ritmo da volúpia naturalizada, apreendida nos rituais milenares das relações intimas. A originalidade e a novidade constituem valores neste tipo de trocas de afeto. Pesados, cansados, exaustos, mesmo, esgotam-se na impressão de darem-se.
Embora a superfície da pele vibrátil, no contato brusco e repetido, tensione as distâncias, confunda a quem observa, sob a impressão de corpos fusionados, resta o tempo e as diferenças do que cada um é em si, marcados na pragmática do desejo de cada um. O outro é apenas parte do exterior. É a denegação. É, enfim, a impossibilidade de realização do que é apenas simulação, quando muito. Senão mesmo, dissimulação nos jogos de constituição do ser.