segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

MÃE E SOGRA



Entre perturbada e divertida com aquela situação, a noiva procurou saber primeiro de sua mãe o que estava acontecendo ali. A mãe pegou as mãos da filha e com ar meio choroso, começou agradecendo a Deus porque, afinal, tudo estava bem. A filha não entendeu nada e perguntou novamente por que estavam ali? Ninguém dizia nada, olhavam-na como se não acreditassem no que viam.
Aquela cena confusa foi-se complicando mais e mais. Logo, a mãe, ainda com a voz embargada, disse que veio até ali porque preocupara-se por conta do modo como haviam tomado a estrada, saíram daquela maneira, ainda de madrugada, uma viagem longa. Com tantas notícias ruins que tem visto na TV: acidentes com vítimas, imprudência de motoristas, assaltos... enfim, se ficasse em casa não estaria tranqüila. Em seguida, abraçaram-se longamente.
A filha, embora considerasse tudo aquilo um absurdo, parecia entender as preocupações da mãe, tratava-a com delicadeza, acariciando seus cabelos e olhando-a com carinho. Ficaram assim por bastante tempo, enquanto as outras pessoas assistiam paralisadas àquela cena pouco esclarecedora, mas muito significativa.
Em certo momento, o noivo interferiu para reclamar e para protestar contra os motivos apresentados. Nada justificava aquela invasão na intimidade do casal. A sogra começa a chorar e a maldizer a hora em que havia concordado em deixar que a filha casasse com aquele homem sem coração. repete várias vezes que a filha sempre tivera o desejo de casar porque muito cedo o pai largara a família, e tal desejo fizera com que não pudesse ter percebido a pessoa de coração duro que era aquele homem...
A filha ficou sem saber se tomava as dores da mãe ou se preservava o seu casamento. Pedia ao marido que poupasse a sua mãe, alegava que se tratava de uma mulher sofrida que tivera de criar três filhos sozinha. Além de tudo, era uma mulher de idade avançada, que sofria de pressão alta e poderia a qualquer momento sofrer um ataque cardíaco ou até mesmo um aneurisma cerebral.
Mas, em seguida, pedia a mãe que compreendesse a situação, afinal, estava casada, havia de ter intimidade com o marido, que a mãe não devia invadir daquele modo a sua privacidade, era a sua lua de mel. Pedia que retornasse a sua casa, que não se preocupasse, estava tudo bem e continuaria assim. Mas a mãe continuava a chorar loucamente, rogando a Deus que a tirasse dali, que a fulminasse com um raio. Antes morrer ali, naquele momento, do que suportar a ingratidão de sua filha querida, que sofrer com as acusações daquele genro desalmado.
O mais absurdo era que todas as outras pessoas continuavam ali, caladas, observando como se cada uma aguardasse a sua vez de também ostentar o drama interior que experimentava. Apenas observavam. Nenhuma expressão esboçavam, como se estátuas fossem. Em meio a este cenário, a mãe chorando cada vez mais alto. De repente, para de chorar. Aproxima-se da filha, toma as suas mãos e, olhando fixamente no seu rosto, diz com raiva: “você sabe que não pode mais engravidar, sofreu um aborto há pouco tempo, teve hemorragia, sangrou muito, quase morreu. Uma gravidez neste momento é quase que uma sentença de morte. Eu estou aqui para impedir que você faça alguma besteira, que faça estripulias com este seu marido insensato”.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

LUA DE MEL


Foto do Autor

Um casamento simples, sem muitos convidados, sem grande festa, apenas um jantar com a família da noiva, já que a família do noivo é de outro estado e sequer foi convidada para a cerimônia. A alegação é a de que tudo foi decidido muito de repente. O namoro foi breve, o noivado ainda mais: do primeiro encontro ao enlace decorreram apenas três semanas. Mas nada é problema, tudo é só felicidade.
A música já se repete e a conversa rola já também a repetirem-se os assuntos, muito mais pelo estado etílico dos convidados do que mesmo por falta de novidades. No entanto, não se percebe que alguém tome a iniciativa de ir embora. Todos, de algum modo, fazem questão de ostentar a alegria que uma festa de casamento exige.
Curioso é que naquela festa, a família está reunida mas não há um grupo homogêneo. São pequenos grupos formados ao redor das diversas mesas. Uns falam de coisas do passado, recuperam acontecimentos saudosos ou bem humorados, outros discutem questões do cotidiano como o custo de vida ou a preferência por este ou aquele supermercado para as compras da semana.
Outros, os mais jovens, falam de músicas, de namoro ou de acontecimentos escolares ou, ainda, das últimas férias que, afinal não estão distantes, visto que ainda é setembro. À media que falam de coisas deste tipo, vão marcando encontros para novos encontros em shows, shoppings, cinema etc.
Enquanto a mesa dos adultos é servida com cervejas, whisky, cachaça etc., na mesa dos mais novos só refrigerante ou suco, nada de bebida alcoólica. Mesmo assim, não falta alegria e nem entusiasmo. A música é diversa e quando toca alguma coisa mais atual, arriscam-se até danças.
Enquanto isto, a noite avança. O casal roda de mesa em mesa e quando percebe algum demora no serviço de servir as mesas, toma a iniciativa conjuntamente. Não desgruda um do outro um só momento. Ninguém demonstra cansaço ou aborrecimento. Sabem que tem muito tempo para curtir a felicidade juntos e, um jantar que reúna toda a família é tão raro e tão agradável que ninguém tem motivo para reclamar.
Já é madrugada quando as primeiras pessoas começam a despedirem-se para ir embora. Mas, também, como estivesse combinado, todos se vão. Rapidinho já não há mais ninguém que precise ir embora. A família trata, então, de recolher pratos, talheres, toalhas de mesa, enfim, organizar as mesas e por cada coisa ao menos num lugar que facilite as tarefas da arrumação da casa quando amanhecer.
Desliga o som e logo todos estão prontos para a cama. Apenas o casal verifica as malas porque tem viagem marcada para a lua de mel numa cidade um pouco distante. A mãe da noiva demonstra preocupação por conta de estar já quase amanhecendo e adverte que dirigir com sono não é recomendável. O rapaz esclarece que procurou dormir durante o dia, que não há risco algum. Dirigir àquela hora, diz ele, é até melhor porque a tendência é que o dia vá clareando mais até que nasça o sol. Além disto, complementa, o clima está mais ameno e a estrada menos movimentada. Contra o gosto da sogra, o rapaz põe o carro para fora da garagem e dali a pouco estará na estrada.
Em pouco mais de 4 horas de viagem chegam ao hotel em que foram feitas as reservas. O rapaz retira a bagagem, o manobrista conduz o carro ao estacionamento enquanto um auxiliar de portaria conduz o casal até a porta do quarto. Um olha para o outro, sorriem, e o rapaz toma a iniciativa: põe a noiva nos braços, empurra a porta com o joelho e entram, embriagados de desejo.
Ao ligar a luz tomam um susto imenso: sobre a cama estão todos os parentes da noiva, o ex-marido, os últimos amantes, alguns médicos de especialidades diversas e uma cartomante vestida a caráter.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

LAVADEIRAS



Lavar e passar, dia após dia. Horas a fio na beira do rio, batendo roupa, literalmente, até que os braços não mais deem conta. Enquanto a roupa é batida, o sol açoita os corpos desnutridos e resseca a pele tal qual faz com o leito seco dos lagos: queima que racha. Um dia os panos são reclamados por uma família, noutros, por outras. Mas a rotina repete os gestos, repete as roupas e até mesmo os pensamentos que consomem o tempo.
À beira do rio, só as cantigas mal cantadas, os benditos murmurados desfiam o silêncio. Afora isto, o ruído das águas ou a algazarra dos pirralhos que se banham um pouco mais além, na água turva. A roupa batida contra a pedra solta um repique seco e ritmado e ecoa nos arredores como um fazer de costume, sem surpresa alguma.
A blusa que antes foi nova, recebeu recomendações para secar à sombra, agora, desbotada, parece ter perdido o seu sentido na espuma do sabão e no enxágue das tantas vezes que mergulhou nas águas do rio e de outras tantas que foi torcida até que pingasse a última gota, antes de ir-se ao varal para a secagem. O sol se entranha no tecido e sorve tudo o que é líquido. E o vento transpassa as malhas esmaecendo as cores e a resistência dos fios.
A roupa limpa e passada desfilará pelos dias, pelas ruas, pelas paragens inimagináveis ou, até mesmo, inconfessáveis. Vai adquirindo cheiros ou fedores dos perfumes e dos suores. Vai adquirindo estampas de coisas escorridas em ocasiões diversas: alimentos, bebidas, batons e outras intimidades. Depois retornará ao rio para o lavado e novas recomposições. No e vir se faz o seu desgaste e, ao mesmo tempo, desgasta o tempo e a vida no esforço repetido e nas horas somadas em que ficará estendida.
Por vezes surge um cerzido reunindo no pano puído as margens do que rompeu no uso e na batida contra a pedra. Por outras vezes, por descuido, um puxãozinho, o tecido preso à farpa do arame se esgarça. Quando não, o ferro mais aquecido, ou esquecido sobre a roupa, queima enrugando ou ou rompendo em pequenos furos. De qualquer modo, embora tudo isto faça parte deste rito, também faz parte ouvir queixas, lamentos e ameaças, cobranças: “era a minha melhor roupa”. Parece coisa feita, é sempre esta que se rasga.
Na hora da paga, os caraminguás, como bem se diz, mínguam. O bem calcular, cada batida na pedra vale pouco mais que a fração mínima. Mas também isto já está ajustado, não há novidade alguma. Como que por determinação da sequência, ou melhor, da consequência, aquelas poucas cédulas e as moedas adjunto vão se transformar em alimento, sustento para que no dia seguinte se possa lavar a roupa que está ajustada de muito antes com a família daquele dia.
O sono da noite vira sonho que gira em torno das águas do rio: uma roupa vestida sem consentimento e o flagrante da dona que reage aborrecida. Tudo o que foi desejo não realizado no decorrer do dia inventa de acontecer como experiência enquanto o corpo adormece, no instante da noite dormida. As festas, as brincadeiras, as cores estampadas nas melhores roupas. Até mesmo a companhia desejada. É no tempo dos sonhos que se materializam.
As mães passam o ofício de lavar e passar para as filhas numa história interminável, como um destino sem apelação. Uma ou outra menina foge deste determinismo, quando migra para outras paragens ou quando lhe falta mesmo a vontade e se dedica a fazer outras coisas. Por vezes, coisas tão repetitivas quanto, mas dá-se a buscar outros destinos para si.
As lavadeiras nem se dão conta de que os destinos das peças de roupa repetem de certa maneira os seus próprios destinos. Se por um lado, as roupas vão e voltam às suas mãos enquanto perdem a cor e se diluem no tempo, a vida de cada uma das mulheres que batem a roupa contra a pedra também vai-se desgastando no trabalho repetido, no esforço dos dias, dos anos, até que tenha que repassar às gerações mais novas a tarefa de lavar e passar.
As roupas em seus ritos de ir e vir, de bater contra a pedra e de consumir a força e a vida enquanto se consomem, desenham o destino das lavadeiras e das famílias a que servem, no mesmo diapasão. 

sábado, 3 de dezembro de 2011

O PRIMEIRO PORRE



Regina, apesar de ter resistido muito a ir ao aniversário de uma amiga do trabalho, diverte-se como nunca. Já não se sente uma estranha na casa da amiga. Conhece quase todo mundo que está ali e participa das conversas com muita desenvoltura. Tem tanta confiança que até arrisca-se a tomar uns goles de vinho, uma novidade para si e para as amigas. A música em nível razoável, deixa fluir a conversa agradável e tudo toma um sabor nunca antes experimentado.
Percebe, no entanto, que a casa vai tomando uma maior dimensão e que o número de pessoas está diminuindo. É chegado o momento de voltar para casa. Anuncia para a amiga aniversariante está na sua hora de ir embora. A amiga pede que ela aguarde um pouco e retorna com um rapaz que diz ser um primo que irá deixá-la em casa. Regina pensa, primeiramente, em não aceitar, não quer dar trabalho, mas considerando o adiantado da hora e por estar se sentindo meio tonta por causa do vinho, aceita e agradece a amiga, desculpando-se, em seguida, pelo incômodo.
Igor, o nome do rapaz é Igor. No carro, Regina adota a estratégia de puxar conversa, primeiro para não cochilar e depois para que Igor não perceba que ela está sob o efeito de bebida. Fala coisas variadas e os dois riem como se se conhecessem de algum tempo. O carro percorre as ruas em direção a Copacabana, onde Regina reside. O rapaz conhece bem a cidade e não demora muito, chegam ao destino.
Defronte ao prédio, Regina desce e, sem raciocinar, pergunta se Igor não quer subir ao seu apartamento. O rapaz agradece, pergunta se pode vir noutro dia mais cedo para uma visita ou, quem sabe, possam sair, talvez, ir a um cinema. Regina sorri como que concordando, agradece novamente e adentra ao prédio. Ao passar pela portaria, o porteiro diz alguma coisa que ela não entende direito, mas também não preocupa-se em saber o que seria. Cumprimenta-o com um bom dia, afinal, já passa das 2 horas da madrugada, e toma o elevador.
Demora um tempão procurando a chave do apartamento dentro da bolsa, quando imagina ter que pedir ao porteiro para chamar um chaveiro, encontra as chaves tateando em meio as coisas todas que a impediam de encontrar o que buscava.
Perde mais um tempinho para encaixar a chave na fechadura. Abre, em fim, a porta e caminha cambaleante até a sala. Joga-se inteira no sofá e sente o mundo girar a sua volta. De imediato, tenta se levantar imaginando que possa a vir a vomitar e ali não seria um bom lugar. Vai ao banheiro, encara o espelho perguntando-se por que estaria tão tonta se, afinal, bebera tão pouco? O espelho parece argumentar que na verdade é por conta da falta de costume. Acaba se convencendo que está mesmo ruim, como poderia conversar com o espelho se a imagem ali refletida é a sua?
Sem pensar mais nada, toma um banho rápido, vai para o seu quarto, veste uma roupa leve e deita-se com cuidado, por conta ainda da tontura. Ao rolar o corpo devagarzinho pro meio da cama topa com alguém, toma um susto e quando esboça um grito, a pessoa a abraça carinhosa e irresistivelmente a beija com volúpia.
O sol invade o apartamento. Regina incomoda-se com a luminosidade e, embora sob o efeito de sono pesado, lembra do momento exato em que topou com alguém em sua cama. Joga a coberta e ergue-se de supetão. A cabeça pesada dói um pouquinho, mas ainda está tonta e quase cai ao se por de pé. Estupefata, vê que está completamente nua, mas quem está deitado em sua cama é o boneco Hermano.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

MATAR O TEMPO



Esta noite passada, vivi belos momentos de alegria na companhia de colegas de faculdade. Uma festa e tanto. Cheguei à minha casa às altas horas e,  de tão cansado, cai na cama e dormi quase antes mesmo de deitar-me completamente. Agora, a cabeça me dói e a boca mistura uma porção de gostos onde o amaro se destaca com certa agonia.
Ultimamente, venho experimentando repetidamente e com maior frequência estas sensações. Enquanto os sentimentos incômodos se sobressaem às outros, prometo não repetir mais os momentos que tem culminado com tais sensações. Uma espécie de arrependimento de não sei o quê. Um suor frio percorre a alma e o desânimo parece esvanecer o corpo.
E como não tenho conseguido cumprir as minhas promessas, resta-me um medo apavorante de não ter mais domínio sobre as minhas vontades, de não saber mais como controlar os meus desejos. Não compreendo por que no dia seguinte, lá estarei novamente junto ao mesmo grupo de pessoas, frequentando os mesmos lugares e tomando todas. Ocorre que até mesmo este medo justifica que eu não queira ficar sozinho com meus pensamentos, que precise beber mais um gole de cerveja e ficar acordado madrugada adentro.  Cair na cama e dormir de imediato parece justificar todas as coisas que tenho feito, embora a ressaca do dia seguinte faça parecer tudo inconseqüente e sem justificativa.
Eis-me aqui a curtir o mal estar da noite anterior. Um comprimido destes contra a sensação de embiaguez para o mundo para mim e o alimento quente acaba por aliviar-me do enjôo.
No trabalho, o PC conectado, vou navegando pelas redes sociais e curtindo os comentários e fotografias deixados como registro da esbórnia. As imagens e as postagens são pouco recomendáveis apesar de quase que completamente desfocadas. Em meio a tudo, logo surgem os convites para marcar os encontros para a agenda de hoje à noite. Recuso todos e, quando dou por mim, percebo que não produzi nada do que tinha que produzir no trabalho e a manhã está no seu limite.
Todos os colegas estão saindo pro almoço e eu fico um pouquinho mais para dar uma ou outra resposta a quem me solicitou alguma opinião e quando saiu, resta-me pouco tempo para almoçar. Faço um lanche rápido na padaria da esquina e retorno ainda com o sanduiche na mão,  para não chegar atrasado.
Enquanto tarde avança volto aos contatos da manhã e os convites recusados vão sendo reconsiderados um a um, vou revendo-os e firmando compromisso para logo mais. Aos que já não estão conectados eu envio um sms e, caso seja mesmo alguma daquelas pessoas indispensáveis, ligo do celular. Tudo confirmado, ninguém é besta para recusar um bom papo e ótimas companhias. Deste modo foi ontem, antes de ontem e assim por diante...
As pilhas de papel se acumulam sobre a minha mesa e vou adiando ler os processos, os deixo sempre para o dia seguinte. Mas, amanhã eu quero chegar mais cedo e rapidinho ver os que forem mais urgentes, não há mesmo nenhum caso complicado. Tudo coisa de rotina, concluo. Saiu dali para a noite que me aguarda, os melhores amigos do mundo, uma noite inteira disponível e a cidade querendo ser descoberta. Vamos a um bar que está sendo inaugurado na periferia. Pelo que eu soube, bebida e comida mais em conta por causa da inauguração. Vou conferir, mas prometo que hoje volto cedo para casa. Não quero repetir a noite de ontem, aliás, as noites dos dias anteriores. O melhor de tudo é esta noite me engolindo sem paradeiro.

domingo, 20 de novembro de 2011

MERA COINCIDÊNCIA



Sexta-feira, tenho que levar um amigo a rodoviária, ele vai a Fortaleza. Trabalhamos na mesma empresa. Ele é programador visual e eu sou redator, fazemos uma dupla de trabalho. Na verdade, vou dirigindo o carro que a empresa nos cede para estas ocasiões. Chegando a rodoviária, ainda há algum tempo até que o ônibus chegue, vamos à lanchonete com o intuito de beliscar alguma coisa.
Na lanchonete, nos chama a atenção a TV ligada, transmitindo o programa de um partido. Ficamos ali, conversamos, lanchamos e assistimos ao programa político com algum interesse. Observo que ladeando o balcão, duas jovens conversam, atentas ao programa. Também elas vieram acompanhar uma amiga que viaja para o interior do estado.
Saimos dali praticamente juntos. Pergunto a uma das moças para onde estariam indo. Antes que responda, informo que vou ao centro da cidade, ofereço carona. Confirmam que vão indo no mesmo sentido e aceitam ir comigo. Até chegar ao local em que devem descer, pouca conversa, apenas sondagens de nomes e ocupações na cidade. Ficam na avenida principal. Ao descer, agradecem pela carona e esboçam um sorriso, como se sugerissem um até breve.
Alguns dias depois, o amigo que havia ido a Fortaleza me interroga sobre a possibilidade de sairmos para conversar. Diz que conheceu uma pessoa de Teresina em Fortaleza e que está combinado de saírem no final de semana próximo. Diz ele que esta pessoa tem uma amiga e que a tal amiga deseja me conhecer. Retira um papel do bolso e entrega-me. Neste papel estava anotado o número do telefone de contato. Naquele momento eu estava mesmo interessado em conhecer pessoas novas na cidade, morava sozinho e sair com alguém pra conversar seria mesmo estimulante. Gostei da ideia e fiquei de ligar.
Meu amigo conta que numa destas coincidências, a tal pessoa esbarrara nele quando entravam numa loja e, passado o susto, ela teria perguntado se ele poderia ensinar como chegar a outra loja. Ele se oferecera para ir com ela até lá, no percurso, enquanto conversavam e teriam descoberto que moram na mesma cidade, que estariam ali em trânsito. Desde então, nas conversas que dali foram acontecendo falaram sobre o trabalho, as amizades, os gostos pessoais. Dentre tantas coisas, teriam armado o meu encontro com esta amiga da nova amiga dele.
Passei a ligar para o tal número e sempre estava ocupado. Passados alguns dias sem sucesso cheguei a pensar que não conseguiria. Cheguei a falar com ele que me prometeu ver se havia algum problema com o número. Não havia. Continuei a insistir até que num determinado momento eu consegui. No início, fiquei um pouco sem saber o que dizer. Aos poucos, fui me sentindo mais seguro, falei do meu amigo, da amiga dela e de como havia tomado conhecimento do número do telefone. Demonstrei interesse em conhecê-la e a convidei para sairmos. Acertamos para sair, para irmos a um bar cultural que é moda na cidade.
Quando a vejo, reconheço-a de cara, é uma das jovens a quem dei carona da rodoviária até o centro da cidade. Tomo o destino do endereço do bar para onde combinamos ir. Como o bar está sem mesa desocupada, ficamos num restaurante, logo em frente. Na conversa, vai a noite tomando o seu jeito sedutor de sorrir e de como mexe com os cabelos, cada vez de um modo diferente. Cativo, prendo a  minha atenção. Ficamos atentos um ao outro dias e noites seguidos dai por longo tempo.

domingo, 13 de novembro de 2011

A PROVA




Satélites patrulham o espaço.
E eu me movo como passo:
entre a província e o mundo.
                              Elias Paz e Silva

          Confesso que não estou muito a fim de fazer a prova hoje. Vou à aula porque tenho que ir, não sei bem como estão as minhas faltas, não posso arriscar a ficar reprovado. Até que eu estudei o bastante para fazer uma boa prova, mas não gosto de fazer provas, esta é que é a verdade.
          Vou-me agora aproximando do Centro Acadêmico, vejo que todos os meus colegas de turma estão lá. De cara, noto que algo está errado: primeiro porque esta turma não anda junta assim e nem tampouco freqüenta em bloco o CA. Depois, está todo mundo de cara amarrada, como se alguém houvesse feito alguma ofensa séria. Pergunto o que está pegando, me falam que não vão fazer a prova, vão falar para o professor. Ninguém ali quer fazer a prova. Eu também não estou a fim, mas não falo nada, só escuto. Pergunto por que não vão fazer a prova? Dizem que não tem nada a ver o livro que o professor indicou como texto: o autor fica falando de suas experiências pessoais, e não existe conteúdo para avaliação, ninguém entendeu nada.
          Bom, este não é o meu motivo, até que eu achei o livro interessante. É verdade que os textos estão escritos na primeira pessoa e alguns são auto-elogiosos, mas, no geral, o assunto é interessante e o autor conhece bem, fala com propriedade. No entanto, continuo só ouvindo. Demonstro, com a cabeça, concordar com o que estão argumentando.
          Quando a turma inteira se levanta para dirigir-se a sala de aula, vou junto. Afinal, se houver uma reviravolta, estarei lá para cumprir com a minha obrigação. A turma elegeu uma garota para falar com o professor, uma espécie líder da turma de última hora. Ao chegarmos à sala, alguns minutos de atraso, o professor já está lá. Sobre a mesa, o Diário de Classe e alguns outros papéis que devem ser as folhas de questionário da prova. Sentamos todos em silêncio, a garota senta-se na primeira fila. Sento-me no fundo da sala, um lugar donde posso observar tudo.
          A garota pede ao professor para falar, ao que ele assente com a cabeça. Ela começa dizendo que ela e os seus colegas não estão preparados para fazer a prova. O professor a olha com espanto, e pergunta o que fizeram desde que o livro foi indicado e o texto disponibilizado para a leitura? A garota diz exatamente o que me haviam dito no Centro acadêmico: o autor fala de coisas pessoais, não há conteúdo que possa servir como tema de avaliação...
          O professor faz silêncio, olha a turma com perplexidade, como se esperasse que alguém ali manifestasse alguma opinião diferente ou, quem sabe, pudesse dar uma explicação mais plausível. Silêncio completo.
          O professor, então, toma a palavra e sorri com ironia, começa dizendo que não irá impor uma prova para a turma se esta turma se confessa incapaz de entender o livro que tentou a muito custo ler. Neste momento, a minha vontade foi a de protestar, de soltar os cachorros pra cima do professor. A verdade, é que não consigo. Estou me sentindo humilhado e co-responsável pela decisão da turma e, mais ainda, se não consigo esbravejar é porque também eu concordo, de alguma maneira, com o que diz o professor. Percebo que mais uns dois ou três colegas argumentam que não é assim, que o professor os está diminuindo, mas a conversa não prospera.
          Ficou pior ainda quando o professor pega seu material para se retirar e resolve tomar mais uma decisão. Diz ele que não haverá mais nenhuma prova, que as notas até ali atribuídas serão somadas com a nota do seminário que deverá ser apresentado em dias previamente marcados, donde será tirada a média para cada um. Outra coisa – completa o professor – ninguém mais precisa entregar o artigo que teríamos que produzir, que seria uma violência exigir que escrevêssemos um artigo científico. Disse isto e retirou-se.