domingo, 23 de janeiro de 2011

RIM TIM TIGRESA


Para falarmos de uma gata muito especial, recorremos ao poeta que, dizem, adorava os felinos: Eliot. E nos inspiramos num poema em que, a propósito de falar de um certo gato, cheio de manhas e manias, discorre sobre aquilo que lhe parece particular. Assim também faremos a respeito dessa gata. Quem não a conhece, por certo, estranhará que seja tão cheia de si e determinada, porque, a olho nu, sobressai-se uma ternura sem par, emoldurada por uma beleza igualmente ímpar.

Para começo de conversa, Rim Tim Tigresa usa três números diferentes de celular e a cada momento que buscamos localizar em um deles, está utilizando o outro. Deste modo, diverte-se, quando alguém lhe revela cheio de mágoas que não consegue encontrá-la ou falar-lhe ao telefone.
Combina de sair, deixa todos animados e, na última hora, quando dão por sua falta, ela liga avisando que está muito cansada, para sair de casa. Nem adiantam argumentos porque, naquele dia, se prostrará dentro de casa, como a deixar-se de manha, de olhos presos ao monitor que exibe um site a ser explorado, lentamente.
Numa mesa, quando percebe que alguém está muito eufórico, cheio de elogios a alguém ou a alguma coisa, põe-se a criticar a tal pessoa ou objeto elogiado. Faz cara de mau gosto e torce o nariz, para cada palavra pronunciada. E sempre que assim for, mesmo sob os protestos de outrem, ela repetirá tudo do mesmo modo. E não há nada que se possa fazer a respeito.
Rim Tim Tigresa arruma-se para sair como quem vai à caça, ninguém consegue ficar mais bela. E com tanta beleza, torna-se alvo de conquista, mas a ninguém permite entregar-se. Faz-se de desentendida ou foge acintosamente. Tudo é feito de maneira que o conquistador perceba-se ridículo.
Diz que adora shows de tudo quanto é banda: de rock a axé music, de reggae a mpb, mas quando sai com a sua turma, no auge do show, diz que vai e vai embora. Podem se encher de argumentos que não abre mão de sua decisão. Mas assim que outro show se anuncia, marca no calendário e azucrina suas amigas até que prometam que lhe farão companhia.
É leve, linda e meiga, mas tem um gênio que põe qualquer cabra valente para correr. Parece frágil, delicada como uma pétala de rosa, mas encara paradas que fariam tremer Dadá e Corisco. E não abre nem para um trem carregado de explosivos. Ai de quem se meter a besta com ela. E sempre que assim for, mesmo sob os protestos de outrem, ela repetirá tudo do mesmo modo. E não há nada que se possa fazer a respeito.
Rim Tim Tigresa é uma gata cheia de não-me-toques. Tem uma inteligência fora do comum. Antenada, dá conta de coisas atuais e de outras do arco da velha. Parece quietinha, mas não tem quem a segure quando dana-se a dançar. Dança qualquer ritmo, não sei se para si ou para chamar a atenção. Mas que é bonito vê-la dançar, isto é. Quando baixa a guarda, dá até vontade de pegá-la no colo.
Com sorriso atraente que tem, e com o humor refinado que destila, consegue encantar rapidinho a quem estiver por perto. Vez ou outra, porém, é comum ouvi-la ironizar acerca de atos e fatos com os quais não concorda. Envolta nessa aura de fada, ela vai longe em sua vassoura de magias. É uma feiticeira que vê coisas de outro mundo e não faz questão de esconder. Também não é para menos, tem uns olhos tão grandes e bonitos que quase sobram no seu rosto pequenino.
Rim Tim Tigresa parece cheia de dúvidas, mas se afirma em certezas absolutas. Ninguém, ao seu redor, fica desamparado, porque, além de tudo, é solidária, amiga fiel e leal. É, contudo, crudelíssima, com quem a desafia ou lhe pisa os calos. Não tem dó nem piedade. E sempre que assim for, mesmo sob protestos, ela repetirá tudo do mesmo modo. E não há nada que se possa fazer a respeito.
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domingo, 16 de janeiro de 2011

MEIO TERNO E MEIO


A dona da casa anda de um lado para o outro como a querer descobrir algo para fazer. Aproxima-se a hora de o esposo chegar do hospital; internado, após vários dias fora de casa, vítima de um aneurisma cerebral. Não é tão grave, mas suficientemente forte para deixá-lo com o lado direito da face meio insensível.
As filhas, os netos, todos estão empenhados em arrumar a casa para receber aquele que, apesar de ser um tanto ranzinza, é o dono da casa e tem um senso de humor muito refinado. Esperam um telefonema do hospital, comunicando a alta médica para irem buscá-lo. Enquanto isto, lavam e enceram o piso da casa inteira, trocam os panos e arrumam a cama em que há de se acomodar. Mudam um jarro, uma planta de lugar.
Todo mundo está voltado para as tarefas da arrumação, à espera do retorno.
A dona da casa acha por bem, na falta de outra coisa, passar a roupa do marido para diminuir a sua ânsia e o seu nervosismo. Esteve com ele todos os momentos durante sua estada no hospital, acompanhou de perto sua melhora e ficou muita angustiada nos piores momentos, mas naquele dia quis vir antes para arrumar tudo para recebê-lo.
À busca de qual roupa passar, vai separando em cima da cama, aquelas que mais carecem de um ferro quente. Cada peça de roupa com que se depara vai ativando a memória, como se aquele exercício tivesse a ver com alguém já ausente. A Memória involuntária provocada pelas peças conecta momentos de sua companhia e a afeta como uma saudade profunda. Percebendo isto, questiona-se se não estará atraindo para si coisas que não deseja. Tomada por este sentimento, pega as roupas já separadas e sai do quarto buscando pensar noutra coisa. A sensação é de medo e de angústia.
Arruma a tábua de passar, liga o ferro e a TV para tentar desviar a atenção daquele sentimento triste. Procura uma explicação consigo: a única coisa que lhe vem à mente é uma leve sensação de culpa, porque naquela noite de sábado, em que o marido teve o desmaio motivado pelo aneurisma, os dois haviam discutido. Mas, até agora, não havia sentido tal culpa. Neste momento, toca o telefone. Para de engomar e escuta a filha que confirma estar saindo para ir buscar o pai no hospital.
Volta à sua tarefa, de olho na televisão. Outra parte da família fica conferindo se está tudo conforme o planejado, se cada coisa está no lugar devido para a recepção. As faixas de rua desejando boas vindas, saúde, declarando amor eterno etc.
Já há vizinhos chegando e se oferecendo para ajudar na arrumação.
Pouco depois, o carro estaciona na calçada de casa e ele desce amparado pelos filhos. Palmas, vivas, sorrisos. Ele faz de conta que não é com ele. Está sisudo, com cara de poucos amigos. Ao entrar em casa, a esposa vem recebê-lo e o ajuda a sentar-se no sofá. Diz que não quer ir deitar-se porque esteve todo o tempo deitado em uma cama de hospital. Quer ficar ali, junto com a família. A esposa retorna ao seu serviço de engomar a roupa. No instante em que ele se senta, avista aquele trabalho dela, mas não comenta nada.
Aos poucos a casa vai se esvaziando de curiosos e logo só estão ele e a esposa na sala. Ela engoma o paletó dele. Ele pede a ela que lhe pegue um copo com água. Ela larga o que está fazendo e vai à geladeira para pegar a água. Quando retorna, e vai continuar a engomar o terno, percebe que a calça tem as duas pernas cortadas, um pouco acima da dobra do joelho. Ela fica boquiaberta, quem poderia ter feito aquilo em tão pouco tempo, pergunta-se. Aí, ela o escuta dizer, resmungando, com a boca meio torta: “se você estava pensando em me enterrar com este paletó, enganou-se. Ele agora não presta mais para nada”.

sábado, 8 de janeiro de 2011

MALVISTO, MAU-OLHADO


Zé Cabelão é um sujeito esquisito, é malvisto no bairro: esconde a cara sob a barba espessa e o cabelo desgrenhado. Mora na Rua do Fogo, a rua que fica por trás da minha. Dizem que a rua tem este nome porque vez por outra os vizinhos aprontam barracos. Sempre há umas intrigas, uns diz-que-diz-que. Como falavam os mais antigos: “uma verdadeira indústria de tecer fuxicos”.
Zé Cabelão tem tudo a ver com a Rua do Fogo, não que ele ande brigando ou discutindo. Não, é caladão. Ninguém, que eu saiba, ouviu sua voz até hoje. Entra em casa e se tranca. Ninguém dá notícia dele por longos dias. Mas falam que ele é esquentado, não leva desaforo para casa, que não dá carne a gato, dá sebo quente. Por conta deste seu comportamento fora dos padrões, muitas histórias são contadas sobre suas esquisitices. Dizem que ele só sai de casa à noite, de quinta para sexta-feira. Que tem unhas grandes, e faz ruídos estranhos. Estas coisas que costumam contar sobre quem vive sozinho e não permite que invadam seus espaços.
Dizem também que um sobrinho dele veio certa vez passar férias em sua casa, teve uma crise de sonambulismo, levantou da rede numa noite destas e deu a chutar a rede do tio, o Zé Cabelão, mandando que ele levantasse e fosse fazer alguma coisa. Dizem que Zé Cabelão não disse e nem fez nada. Mas o tal sobrinho, depois deste dia, nunca mais apareceu na Rua do Fogo. Também não sei como esta história apareceu no bairro, como estas coisas vazam. Só sei que contam.
Dias há em que a gente fica batendo bola, num campinho de terra, no final da rua e ele passa, sempre à tardinha, vem de dentro do terreno baldio, ao lado do campinho. Surge do nada. Não se sabe o que faz dentro daquele matagal. Quando ele aparece, a gente para o jogo e fica desviando o olhar como se não o percebesse, embora ele deva saber que o jogo para por sua causa. Atravessa o campo sem dizer coisa alguma, sem olhar para os lados, sem expressar qualquer reação. Passa, simplesmente.
Pode até ser que nenhuma das histórias que contam seja verdade, mas que ele é esquisito é, muito. Roupas escuras, sem cor definida, sem desenho certo. Não são sujas, não fedem, pelo menos à distância que mantemos dele. Mas não estão de acordo com o que as pessoas do bairro vestem. São muito sinistras.
Enquanto atravessa o campinho, ficamos como que virando as costas para ele, porque dizem que não é seguro ver os seus olhos. Dizem que ele tem mau-olhado. E que as pessoas que viram seus olhos morreram tísicas. Pior, poucos dias depois. Sabe aquela história do olhar que seca pimenteira? Pois é, dizem que é assim. Seca gente também.
Contam que ele ficou assim por causa de uma decepção amorosa. Pelo que dizem, ele morava em outro lugar, distante daqui. Parece que estava noivo, tinha preparado tudo para o casamento e, na véspera, a noiva fugiu com o padre da cidade. O cara era rico e tudo. Pegou um dinheirinho e com a roupa do corpo passou a perambular pelo mundo em busca da mulher. Não se sabe se ele a encontrou. O certo é que chegou por aqui há algum tempo e comprou a casa em que mora. Há até quem especule que a tal mulher mora no bairro, mas ninguém sabe quem é. Só ele.
Mas, também, ninguém sabe qual é a tal cidade de onde ele veio e nem se esta história é verdadeira, porque ele mesmo não deve tê-la contado para ninguém. Nunca soube de onde surgiu tal história. Só sei que contam. De todas as ameaças que dizem vir dele, a que mais o povo do bairro teme é a de ver os seus olhos. E as pessoas que experimentaram ver os seus olhos nunca souberam contar direito o que viram. O que se sabe é que tais pessoas definharam da noite para o dia e morreram tísicas. Zé Cabelão é malvisto, provoca mau-olhado.

sábado, 1 de janeiro de 2011

LUZ E SOMBRA


Diafragma da câmera em 16.0 e o obturador em 1/12.000, não apenas para fixar uma imagem em alta velocidade, mas para não permitir que sature a luminosidade. Que vele o filme. É assim que se desenham imagens na película, no filme fotográfico ASA 100. O sol imenso imerso no azul do céu de olho espichado no mundo e a luz intensa assombram as sombras que desanimam sob as árvores esbaforidas.

Tintas frescas de cinza e marrom matizam a superfície da terra entre vãos de asfalto e cimento aquecidos. Nada de pé em pele, nada de caminhar descalço. Ninguém se arrisca. Calor a pino desfaz em pasta o sorvete antes que alcance a língua jogada a esmo, em ondas de doce esperança.
O ar morno materializa-se na respiração e amorna as narinas canal adentro no meio do tempo, em todos os lugares. Torneiras abertas, mangueiras ligadas, chuveiros chovendo, só enquanto. A pele evapora logo após. A roupa resguarda um tiquinho do frescor da água embebida por mais um pouco.
Os olhos cerram para ver lá fora o mundo velho pegando fogo. A boca ressequida recupera a saliva e pigarreia no nada. Sertão, o verso contorcido feito marmeleiro finge que se embrisa, finge que descansa no varal. Cada um diz o seu como pode, conforme Deus lhe dá. Cada um é cada um, está dito.
Sertões são tantos, diversos. E o sertanejo em sua peleja não se dá conta de hoje, tudo é para amanhã. Agora é só hoje, um instante que passa logo. Não carece pressa. Planta, reza, canta, festeja batizados, casamentos, dias santos e outras datas. Vaqueiro, agricultor, carpinteiro, pintor etc. Ser tão diverso, sertão de versos.
Noite feita e a lua abarca cada cantinho do mundo. Luz posta em breu, noite profunda. No fogão, o sol definha a lenha sob panelas de barro. A conversa enche a boca e se espera o tempo de comer. A imagem fotográfica refaz texturas e outros enquadramentos. As luzes atormentam mais vagar.
Noite, ainda, e as pessoas se inquietam com o calor, espiam a lua e não entendem por que o tempo continua quente. Entabulam conversas sobre o derretimento das geleiras, o aquecimento da terra, o efeito estufa. Nenhum argumento tem explicação outra. É mais um necessário esperar passar o tempo. É mais um esperar passar o calor, em algum momento, nem que seja após muitos meses. É quase um não pensar, um pensar inútil.
Daqui a pouco é hora de tentar dormir, esperar o dia seguinte sem a ansiedade de quem vigia, de qualquer vigília. Dormir, simplesmente. Depois, na repetição das horas, a diversificação de cada um. O modo de perceber as coisas, de refazer sua rotina, de criar para si o interesse. É o modo de se deixar esquecido, que, embora aquecido, o dia é só mais um. A marcação no calendário deixa ver o ano inteiro enfileirado, um dia após outro. Melhor viver um de cada vez, frio ou quente. Viver.
Madrugada feita, o feirante rumo à feira, o pescador rema para onde imagina possa encontrar seu pescado, as mulheres cuidam de si e dos seus. As luzes vão-se aos poucos, dando forma ao mundo e às coisas. Um pouco do que foi frescor e carícia torna-se calor e abarca a terra inteira.
Após a alvorada o sol há de espichar seu olho e assim ficar em curva longa e lenta sobre nossas cabeças. Nem para pensar. É tanta gente em movimento que a energia que daí deriva torna tudo este forno. É tanta gente acendendo alguma coisa em algum momento, que ninguém se dá conta que está tocando fogo no tempo. É tanta gente tomando café quente em meio aos 40 graus do dia que parece até inverno pleno.
Observando deste lugar, dá para imaginar que deve ter sido assim que pensou o pintor, autor deste quadro na parede. O movimento do pincel parece descrever um açoite sobre o corpo da tela, misturando traços, figurando gente, separando luz e sombra.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

JORGE E BRUHMA


Jorge conheceu Bruhma em uma cidadezinha do Interior, por acaso. Ele andava por lá visitando uns parentes e a viu, de relance, passando no outro lado da rua. Acompanhou-a com os olhos até onde deu. Foi embora, lamentando não a ter visto mais de perto. Depois, por coincidência, Jorge a encontra na igreja, por ocasião de uma cerimônia de batizado. Os dois saem ao mesmo tempo e se encontram na calçada. Param, olham-se, sorriem e se vão para destinos diferentes. Mais uma vez, Jorge lamenta, naquela ocasião estava com a esposa, e Bruhma, também, acompanhada.
Depois de algum tempo, encontram-se na Capital e, por conta deste encontro, em lugar tão distante dos primeiros, iniciam uma conversa. Resolvem almoçar juntos e descobrem que são casados, que têm filhos e, que naquele momento, vivem uma crise conjugal. Ela alega que o marido a sufoca, não permite que tenha independência, que se manifeste livremente. Ele diz que a esposa tem umas manias, certos pensamentos fixos, não esclarece nada, mas acaba dizendo que isto vem atrapalhando o casamento.
Desde então, passam a se encontrar com mais constância, e cada um dos encontros é marcado com hora e lugar determinado. Percebem que se aproximam um do outro, mas não põem dificuldade. Pelo contrário, abreviam os intervalos cada vez mais. Depois de algum tempo, resolvem romper com o casamento para ficarem juntos. Mas ficar juntos não significa viverem sob o mesmo teto. Vão planejando e, ao mesmo tempo, conhecendo-se melhor.
A vida de Jorge e Bruhma transforma-se numa espécie de romance em que tudo é feliz. Passeios, aventuras, brincadeiras e muito amor. Juras e promessas de futuro encantador. Amam-se de modo intenso. A cada dia descobrem mais afinidades e a necessidade que sentem, mutuamente, um do outro. Têm certeza de que nasceram um para o outro e não entendem por que estiveram tanto tempo casados com pessoas tão diferentes. De repente, uma novidade: aqui e acolá um dos filhos obriga que um encontro seja desmarcado. Eles se aborrecem, mas compreendem a situação.
Depois surgem outras novidades ainda mais desagradáveis: Jorge descobre que sua namorada anda saindo com o ex-marido. Não gosta, mas não pede explicações. Diz que entende que os dois têm filho e que não há motivo para se preocupar. Depois é Bruhma quem descobre que Jorge, a pretexto de realizar negócios e de ver o filho, de vez em quando viaja para a cidade em que mora sua ex-mulher.
A situação vai ficando complicada e cada vez fica mais difícil explicar o retorno ao passado. Cada um entende que a sua situação é perfeitamente compreensível, mas nega ao outro a mesma facilidade de compreensão. O certo é que as coisas se encaminham para o impasse e, num dado momento, se torna insustentável. Ocorre, então, o rompimento. Apesar de várias tentativas de conciliação e de reconstrução da história de amor, a relação vai se esgarçando e, finalmente, decidem que cada um deve seguir seu caminho. Tristeza profunda, choro e ranger de dentes.
Ainda muito machucados vão se abrigar no conforto do passado. Ela volta a considerar a corte e os agrados do ex-marido e ele volta a ser gentil e agradável com a ex-esposa. Alegam que há, na decisão pessoal, o desejo de reagrupar a família e atender aos desejos do filho que sempre sofreu com a separação. O ex-esposo revela-se um homem apaixonado e disposto a não repetir os erros do passado. Jorge garante a ex-esposa que tudo será diferente doravante. As famílias se reconstituem e parecem experimentar novos tempos de felicidade.
Bruhma gasta seu tempo entre o trabalho e a internet, quando está em casa. É sempre a última a ir para a cama. Mas diz viver uma felicidade nunca experimentada. Some do círculo de amizade e das noitadas com as amigas, mas garante que nunca foi tão feliz na vida.
Jorge entrega-se ao trabalho mais do que antes, para pensar o mínimo possível na situação, e investe seriamente na sua “nova” condição: marido e pai de família, embora cheio de dúvidas sobre o que sente por sua esposa.
Bruhma conhece Marcos na Internet, na sua timeline do twitter.

domingo, 12 de dezembro de 2010

JOÃO, REGINA E O PÉ DE FEIJÃO


Regina chega ao seu apartamento naquele dia com certo brilho nos olhos, mais adaptada à cidade, descobriu uma livraria em seu caminho, e, passando por lá, teve a ideia de comprar um livro que pudesse ler, na companhia de Hermano, antes de dormir. Trouxe o livro de um autor desconhecido, chamado Raimundo Santana Lemos. Trata-se de uma recriação da história João e o Pé de Feijão.
Tudo pronto, Regina começa ler a história para Hermano.
João descobriu em meio à vegetação rasteira de uma capoeira em suas terras um enxu, uma espécie de abelha que produz mel em colmeia no subsolo. A quantidade de mel era tal que João teve que utilizar uma burra para transportá-lo em barris. E de tanto trabalho, utilizando cangalhas com cargas pesadas de mel, criou-se uma peladura no lombo da mula. Ensinaram para João que pó de feijão torrado ajuda a cicatrizar e evita varejeiras. João colocou o pó de feijão na bicheira e soltou a mula, lamentando não ter concluído o transporte do mel. Tanto ainda que ficou por engarrafar que o lugar tornou-se uma imensa lagoa de mel de enxu.
Passado o período chuvoso, João põe-se a procurar a burra no capoeiral. Soube, em sua busca, que um fenômeno vinha chamando a atenção de moradores da região em uma de suas capoeiras, um pé de feijão crescera tanto que ninguém conseguia ver o seu final, nem olhando de longe, porque o tal pé de feijão entrava nuvem adentro. João esqueceu, por momentos, sua busca e foi verificar a procedência de tal história.
Chegando ao lugar, viu que era verdade, e, de tanta admiração, foi logo entrando na moita. Surpreso, percebeu que aquele enorme pé de feijão crescera no lombo de sua burra. A coitada mantinha-se quieta, deitada, porque não conseguia levantar-se. João, então, foi à sua casa e trouxe alguns amigos para ajudá-lo a derrubar aquele pé de feijão e recuperar seu animal de carga. Retornando, deu de garra do machado e juntou a contar as ramas do pé de feijão, junto com seus auxiliares.
Foi derrubando vagens e subindo na ramagem. Percebe que começa a juntar gente com animais com cambitos e caçuás que enchiam de feijão, transformando-se numa enorme romaria, com filas imensas indo e voltando. Mas João não deu trela, estava preocupado em livrar sua burra de tamanha dificuldade e levá-la para casa, outros serviços dependiam dela.
Quando João deu por si estava em um lugar muito estranho, parecia fumaça ou nuvem. João deixou o pé de feijão e começou a caminhar sobre aquela superfície, fascinado. Era tão estranha a sensação esquisita sob seus pés. E, ao se afastar, não percebeu que seus amigos haviam conseguido, finalmente, derrubar pé de feijão. João ficou sem poder descer. Danou-se a caminhar, quando avistou uma casinha simples, de quintal, com cerca de pau-a-pique onde havia roupas de frades estendidas. João não contou pipoca, pegou os cordões que servem de cinto aos frades, amarrou uns aos outros, pendurou uma extremidade na cerca e deixou descer a outra.
Segurando-se devagarzinho, foi descendo com todo cuidado. Mas, ao chegar ao final, viu que ainda faltava muito para alcançar o chão. Com muito esforço, retornou a casa e ficou pensando no que fazer. Logo, apareceu São Francisco, o dono da casa que lamentou não poder fazer muito por João a não ser ceder seus cordões novamente já que João os havia retirado sem permissão. Enquanto pensava, João viu subir até ele uma coluna de fumaça com forte cheiro. Por este cheiro, João identificou tratar-se da fumaça do cachimbo que sua avó fumava sempre à tardinha. João teve, então, a ideia de trançar esta fumaça e emendar a trança com o cordão e descer novamente.
Ao final, João chegou a uns dois a três metros de distância do chão. Entendeu que não conseguiria subir outra vez, e decidiu pular, mesmo arriscando machucar-se seriamente. A sorte é que João caiu justo na parte rasa da lagoa de mel de enxu que se formara. Mas, por trama do destino, atolou-se, não conseguia sair do lugar. Gritou que ficou rouco, por alguém que o viesse puxar dali. Não vindo ninguém, João tomou uma decisão: foi a sua casa, trouxe uma enxada e desatolou-se.

sábado, 4 de dezembro de 2010

ITINERÁRIO DAS ÁGUAS


Foto do autor

Teresina acolhe por confiança os náufragos. Extenuados, sob a luz que encandeia solitários andarilhos, abrigam-se resguardados em marquises mais urgentes, em telhados ociosos, em latadas providenciais. A rigor não conduzem mais nada além da alma aflita ou do coração à espreita. E com vagar aguardam o tempo de seguir em frente. Aos poucos, penetram os rios e as amizades. Fincam pé e alguns fincam a vida no chão batido e petrificado do corpo árido da cidade.
O encanto das pessoas seduz e pretexta o ficar-se, como quem se justifica sem convencimento. O calor lá fora explica o desejo da sombra. As noites não contam como razão de ir-se porque, porque, bem... à noite correm-se riscos. Melhor não ocorrer.
A amizade, a vizinhança, um emprego à vista. As raízes vão penetrando a terra e os laços embaraçando-se num permanecer sem paradeiro. Difícil desalinhar.
Melhor pensar nos filhos a criar e na cerveja gelada em que se fartam os desejos e as conversas providas em mesa de bar. A música que flui de todos os lados e a alegria desmedida dos que estão à volta, por qualquer motivo. Melhor ficar por algum tempo. Partir é uma promessa no horizonte que se afasta à aproximação.
Aos poucos se perdem as diferenças, e os estranhamentos se confundem com sentimentos próprios. Eles se transmutam em nós. Não mais há fronteiras possíveis. Já quando tem que enunciar, a origem gagueja, duvida, mostra incertezas. Os traços físicos são a única pista que denuncia uma história longa e complicada de buscas. É o espelho que produz a adversidade, a alteridade.
As margens se fundem e os traços de contorno transformam-se em traços de união. As palavras se apropriam e os gestos mimetizam o ser e a paisagem. As passagens são pontes que conduzem ao ir e vir. Mas as possibilidades de retorno prometem, ou melhor, ameaçam ruir o tempo de outros lugares. Carece sejam arrancadas e retiradas as raízes com dor estúpida.
Teresina recicla os migrantes e seus anseios. Apaziguados, à luz que ilumina a vida, cada um é parte dos que habitam a cidade e sorvem seus sonhos. As ruas e as avenidas têm destino conhecido, nomes familiares e até são cenários de histórias pessoais. Os bairros são lembranças dos endereços e das comunidades de que se fez parte. Quem, por acaso, puxar um fio determinado da história da cidade terá, certamente, de mencionar nomes, pessoas que partilham há muito as experiências de vivenciar a cidade. É de alguém que se conhece de que se fala. É de um lugar comum a que se refere nas conversas do cotidiano. Pessoas que se perdem e se lamentam, outras que nascem e passam a conviver, dividindo tempo e espaço enquanto se fiam pavios nos interstícios dos nomes que povoam o círculo de amizades.
Endereço fixo, com Código de Endereçamento Postal e tudo. Colégio dos filhos, trabalho diário, entretenimento e consumo dos bens que a cidade oferta: cinema, supermercado, teatro, transporte etc. Teresina é um lugar para o qual se retorna sempre, mesmo que em viagens mais demoradas. A referência onde ancora destinos, necessariamente.
Convites e compromissos nos finais de semana. Presença certa em solenidades e testemunho de fatos inesquecíveis na vida de outras pessoas. Lembranças dos traços que a cidade já não apresenta e deslumbramento nos novos modos de se apresentar ao mundo. Divisão de planos para as vias prometidas e que devem conduzir todos ao futuro com mais conforto e segurança. Expectativa de comemorar as datas da família, da cidade, do país no decorrer do ano. Ano após ano. Atravessar as missões com o cuidado de quem preserva a promessa de retribuir à cidade o bem do acolhimento, em momento de dúvida e desejos insustentáveis.