sábado, 4 de dezembro de 2010

ITINERÁRIO DAS ÁGUAS


Foto do autor

Teresina acolhe por confiança os náufragos. Extenuados, sob a luz que encandeia solitários andarilhos, abrigam-se resguardados em marquises mais urgentes, em telhados ociosos, em latadas providenciais. A rigor não conduzem mais nada além da alma aflita ou do coração à espreita. E com vagar aguardam o tempo de seguir em frente. Aos poucos, penetram os rios e as amizades. Fincam pé e alguns fincam a vida no chão batido e petrificado do corpo árido da cidade.
O encanto das pessoas seduz e pretexta o ficar-se, como quem se justifica sem convencimento. O calor lá fora explica o desejo da sombra. As noites não contam como razão de ir-se porque, porque, bem... à noite correm-se riscos. Melhor não ocorrer.
A amizade, a vizinhança, um emprego à vista. As raízes vão penetrando a terra e os laços embaraçando-se num permanecer sem paradeiro. Difícil desalinhar.
Melhor pensar nos filhos a criar e na cerveja gelada em que se fartam os desejos e as conversas providas em mesa de bar. A música que flui de todos os lados e a alegria desmedida dos que estão à volta, por qualquer motivo. Melhor ficar por algum tempo. Partir é uma promessa no horizonte que se afasta à aproximação.
Aos poucos se perdem as diferenças, e os estranhamentos se confundem com sentimentos próprios. Eles se transmutam em nós. Não mais há fronteiras possíveis. Já quando tem que enunciar, a origem gagueja, duvida, mostra incertezas. Os traços físicos são a única pista que denuncia uma história longa e complicada de buscas. É o espelho que produz a adversidade, a alteridade.
As margens se fundem e os traços de contorno transformam-se em traços de união. As palavras se apropriam e os gestos mimetizam o ser e a paisagem. As passagens são pontes que conduzem ao ir e vir. Mas as possibilidades de retorno prometem, ou melhor, ameaçam ruir o tempo de outros lugares. Carece sejam arrancadas e retiradas as raízes com dor estúpida.
Teresina recicla os migrantes e seus anseios. Apaziguados, à luz que ilumina a vida, cada um é parte dos que habitam a cidade e sorvem seus sonhos. As ruas e as avenidas têm destino conhecido, nomes familiares e até são cenários de histórias pessoais. Os bairros são lembranças dos endereços e das comunidades de que se fez parte. Quem, por acaso, puxar um fio determinado da história da cidade terá, certamente, de mencionar nomes, pessoas que partilham há muito as experiências de vivenciar a cidade. É de alguém que se conhece de que se fala. É de um lugar comum a que se refere nas conversas do cotidiano. Pessoas que se perdem e se lamentam, outras que nascem e passam a conviver, dividindo tempo e espaço enquanto se fiam pavios nos interstícios dos nomes que povoam o círculo de amizades.
Endereço fixo, com Código de Endereçamento Postal e tudo. Colégio dos filhos, trabalho diário, entretenimento e consumo dos bens que a cidade oferta: cinema, supermercado, teatro, transporte etc. Teresina é um lugar para o qual se retorna sempre, mesmo que em viagens mais demoradas. A referência onde ancora destinos, necessariamente.
Convites e compromissos nos finais de semana. Presença certa em solenidades e testemunho de fatos inesquecíveis na vida de outras pessoas. Lembranças dos traços que a cidade já não apresenta e deslumbramento nos novos modos de se apresentar ao mundo. Divisão de planos para as vias prometidas e que devem conduzir todos ao futuro com mais conforto e segurança. Expectativa de comemorar as datas da família, da cidade, do país no decorrer do ano. Ano após ano. Atravessar as missões com o cuidado de quem preserva a promessa de retribuir à cidade o bem do acolhimento, em momento de dúvida e desejos insustentáveis.

domingo, 21 de novembro de 2010

IMERSO NUMA SAUDADE IMENSA


O tempo é curto. No entanto, se gasta o tempo contra si. Lembra-se de ontem? A urgência era aproveitar bem enquanto estávamos juntos. A gente não esperava que as palavras amadurecessem no calor das pronúncias, colhíamos diretamente da boca um do outro. Talvez, até, as tocássemos ainda no coração. Éramos de tal modo feito pressa que sequer notávamos a ciranda dos ponteiros do relógio sobreposto contra nós. Num momento, como por impulso, hora de nos separamos. Cada um em sua casa, repetias. Mesmo assim, ainda eternizávamos um beijo de despedida, de até loguinho. Até já. O sol haveria de ser breve, e a noite nos uniria novamente.
O que foi feito de nós, que o tempo inteiro agora ainda não se basta? E nos olhamos em torno e não nos vemos. O que foi feito das palavras sob este silêncio rochoso que não conseguimos mover? O que foi feito do ardor que nos cobria a pele ou, melhor, nos ardia a carne exposta. O que foi feito do futuro que nos prometemos tanto? Que boca é esta que nos engole e não nos deixa escapar neste espaço imensurável, nesse nada, tão largo e renitente?
Cada um seguiu sua vida. Este é o equivoco. Minha vida não há onde não é a tua. Tua vida não existe onde não existe de mim coisa alguma. Cada um é neste instante uma promessa para o outro, mas fora de propósito em outros tempos. Certo que foram poucos dias, um mês e meio ou um pouco mais. Mas o que é que há em explicação a esta saudade secular? Não se explica, simplesmente. É tudo falta. É tudo vazio. É tudo negação e incômodo. Sequer há o que seguir. Estamos, estou num ontem eterno. Hoje para quê? Amanhã para quê? Liames evanesceram e já não existem passagens de um a outro tempo ou lugar.
Trago a delicadeza da primeira vez de teu rosto em minhas mãos como uma marca forjada a ferro em brasa. O alvor de tua pele como uma luz que desfaz a noite para sempre. O teu cheiro, o aroma de teus beijos como uma lembrança que não se realiza nem some por completo. O teu sorriso é o refúgio com que me escudo e atravesso os desertos da insônia feroz. É sob os teus cabelos que eu escondo meus medos e a solidão.
Uma colagem de frases remonta a cenários e cenas altamente enredadas em emoções pessoais. Sussurros que me pedem para ter paciência, para acreditar em algo que não se esclarece. Escuto meu nome pronunciado como uma confissão de amor, um êxtase cheio de desejo e temores. Há pedidos repetidos, insistentemente, para que eu entenda, para que eu pare, como uma negação vacilante. Ao mesmo tempo, há um tom de súplica que me pede para insistir. Ou seria só a minha vontade de prosseguir que me faz ouvi-la suplicar de tal modo? A lua derrama-se em ti e seu néctar rola abundante sobre o teu corpo, feito mel. O sol crepuscular espalha em teus seios pétalas de rosas vermelhas. O céu inflama-se e sugamos o sumo sagrado de nossas vísceras que nos sacia corpo e alma.
Neste momento, porém, trago o vazio de tua ausência entre os meus braços e as mãos cheias de saudade de um breve tempo de intensos e singelos fulgores. E já absorto em meus caminhos e pensamentos desperto para uma flor que me diz seu nome. Aliás, tudo em minha volta fala de ti, mesmo o silêncio abissal.
Mas, ao mesmo tempo, falta-me chão sob os pés, ao ímpeto de rios que me impulsionam sem direção, arrebatam e arrebentam as cordas que prendem ao cais, lanço-me só em precipícios de corredeiras e quedas d’água mais e mais. Enchem-me os olhos miragens de cores que trançam as paisagens e deformam-se em correria, desfiando-se ao longo das margens. Por instante, lembro o poeta moço de outras paragens cuja poesia precipita-se em barco bêbado descendo rios impassíveis.
O tempo é pouco. E, no entanto, gasta-se o tempo contra si.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

FIM DA LINHA



Há tempo espero um ônibus que me conduza ao trabalho. Cheguei à parada às 7 horas em ponto. Todos os que me servem passam lotados e nem param. Vejo que se aproxima um ônibus que posso apanhar, mas que me deixa a três quadras do local em que trabalho. Vem com muita gente já em pé, mas não está lotado. Dou sinal, ele vai parar mais à frente. Corro e subo, topando nas pessoas que se alojaram nos degraus da porta de entrada. Reclamam. Eu também. O trocador está com a cabeça deitada sobre os braços, escorado na gaveta, parece que dorme. Toco-lhe os braços e digo que vou passar. Forço a roleta, mas as pernas do trocador emperram, não me deixam ir em frente.
Alguns passageiros observam a cena com ar de riso. Toco a cabeça do trocador com insistência. Ele se ergue, e me olha com indiferença, os olhos ainda apertados de sono. Para pagar uma passagem de um real e trinta e cinco centavos, entrego-lhe uma cédula de cinco reais. Ele me passa o troco de três reais e sessenta centavos. Digo que está errado, ele, sem olhar para mim, mete a mão na gaveta e entrega os cinco centavos que faltavam.
Vou adiante, topando nas pernas de outros passageiros. Alguém resmunga alguma coisa que não entendo, mas não paro: se eu não passar agora para a porta de saída, quando chegar onde vou descer não conseguirei. A tendência é o ônibus encher mais até lá.
Nas curvas vai todo mundo para o mesmo lado, apertando-se uns contra os outros. Um passageiro que cantava uma música desconhecida reclama com o motorista que este está correndo muito. Passa poste, passa pasto, passa boi, passa boiada... as coisas todas passam, velozes. Uma curva para o lado contrário, lá vamos nós, juntos. Uma senhora com criança nos braços reclama, porque um jovem que acaba de lhe espremer contra o banco não lhe cede o assento. Mal educado, grosseiro, xinga.
O jovem finge dormir, denuncia-lhe um sorriso mal disfarçado.
Uma moça apressa-se para descer e vai machucando quem estiver pela frente. Pede, aos berros, que o motorista pare no ponto seguinte. Ameaça denunciá-lo à empresa, se ele deixá-la passar de onde deseja descer.
Passa com os cotovelos abrindo caminho por entre corpos inermes. Respira ofegante como se tivesse corrido quilômetros. Raspa-me os ouvidos com sua angústia e aflição. Um senhor de chapéu de palha não dá notícia: dorme. A boca aberta resseca-se com o ar que se desloca da janela aberta. Fitos na paisagem acinzentada, pares de olhos apontam lados opostos com a mesma expressão: anestesiados pelo tempo em que esperam as referências no deslocamento do ônibus veloz. Acostumados estão com os fios dormentes, os meninos fardados que passam para a escola, os ciclistas que andam para trás, os postes ligeiros, as casas sem ninguém. Alheamento agudo, acostumado.
Desprego os olhos donde fitava o mundo e percebo que se aproxima o meu ponto de parada. Puxo o sinalizador e vou-me aproximando da porta de saída. O ônibus para bruscamente, arremessa-me para frente; sinto-me pressionado por outras pessoas que mal se seguram, dependurado no suporte de mão acima de suas cabeças. Xingam o motorista, avisam que não transporta gado, exigem que tenha cuidado. O motorista limpa as mãos na flanela ao mesmo tempo em que também limpa a direção com ela. Engata a marcha e arranca forte, jogando os passageiros que vão em pé para trás. O percurso ainda é longo e muitas outras paradas há até o ponto final.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

ESPIRAL DOS AMANTES


Estamos de algum modo conectados uns aos outros por um tecido que se articula nos interstícios de nossos corpos, uma teia invisível que não permite que nos isolemos. E, se nos ajustamos a esta condição, o espaço tensionado relaxa e não se deixa perceber. Porém, se prevalece a sensação de que algo não se ajusta ou, por outro lado, se ajusta, mas de modo incorreto ou a situações que não são adequadas, o tecido tende a ser distendido e tenso. Os fios vibram num frêmito indômito e reverberam ondas de tensão que alcançam cada um dos pontos que pontuam a malha de conexões.
O incômodo do desajuste aciona sentimentos de instabilidade e desequilibra as relações de troca amistosas, sobrepondo-se como dobra que se estende sobre si e interdita os acordos. Aí se instala a instabilidade. Percebamos que os desarranjos, como os tratados harmônicos, se efetivam no espaço exterior e repercutem no interior de cada um dos que se relacionam por meio de uma teia comum.
Podemos imaginar que tanto temos a condição de produzir ocorrências  com capacidade de mobilizar os outros, seja quem for que esteja vinculado aos fios que se conectam aos pontos visados, e, a partir destes pontos, colher respostas  quanto podemos repercutir questões e ações deslanchadas no exterior, advindas deste espaço intersticial.
Há entre os corpos um vazio que oculta e deslinda os atos polarizados, a partir dos acordos de sentido que se efetivam nas trocas, como resultado do que as singularidades, as individualidades ofertam: objetos de partilha, artifícios de sedução. Apresentam-se como aquilo que interpreta o desejo comum, território, ao mesmo tempo, de produção e consumo do corpo plural. Ou seja, um e outro simulam dar-se ao outro por um movimento de colher o efeito desejado.
Os movimentos ensaiam promessas e experimentam surpresas na direção da dádiva. Gestos desenham toques, numa dança, que ostenta a nudez e uma economia de oralidade. Os sentidos aguçam e aguardam interpretar de parte a parte o retorno de seus atos como consequência de investimentos aparentemente irracionais, emotivos, impensados.
Neste instante, o que circula no espaço dos interstícios são impressões de que as interioridades se manifestam regidas pela harmonia demarcada pelos movimentos exteriorizados do outro. O falseamento se inscreve onde o interior transparece como um misto do que é fonte de produção de intenções e lugar de consumo do que o exterior oferece como possibilidade de co-respondência. Os fios conectam pontos na rede de relações e transpõem os corpos, entrelaçando-se, num tecido de permanência que quase que se pode dizer que impõem comportamentos automatizados e irrefletidos, carregados de manhas, para além do tempo, a outros atores.
O cenário vislumbra corpos encurvados, encaixados em movimentos sincronizados. Encostam-se, adentram-se e deslizam: um sobre outro, um após o outro, ladeados um a um. Desde o princípio encenam coreografias marcadas no ritmo da volúpia naturalizada, apreendida nos rituais milenares das relações intimas. A originalidade e a novidade constituem valores neste tipo de trocas de afeto. Pesados, cansados, exaustos, mesmo, esgotam-se na impressão de darem-se.
Embora a superfície da pele vibrátil, no contato brusco e repetido, tensione as distâncias, confunda a quem observa, sob a impressão de corpos fusionados, resta o tempo e as diferenças do que cada um é em si, marcados na pragmática do desejo de cada um. O outro é apenas parte do exterior. É a denegação. É, enfim, a impossibilidade de realização do que é apenas simulação, quando muito. Senão mesmo, dissimulação nos jogos de constituição do ser.

domingo, 31 de outubro de 2010

FARINHADA




A mandioca arrancada no braço, uma a uma quebrada e atirada nos caçoas escanchados no lombo dos jumentos. O tangedor desvia o olhar para a terra e enfileira-se atrás das cargas que seguem em procissão pela picada. À porteira, posta-se um responsável pela abertura quando o comboio se aproxima.
A carga é arriada e refeito o monte que já parecia findar. Mulheres raspam a mandioca, sentadas ao redor do amontoado. Algumas raspam a metade (capotes) e repassam para outras que completam a raspagem. Olham-se e cantam e contam histórias horas a fio por todo o dia e à noite, enquanto houver mandioca para raspar.
Na bolandeira, tange-se o burro que, paciente, caminha o mesmo caminho em círculo, acossado pelo som do chiqueirador e, vez ou outra, pelo ardor de seu contato com a pele, seguido de um gemido longo de advertência. Encolhe-se, agita a calda e segue na mesma batida. A correia de tração da bolandeira move a tarisca dentada que tritura a mandioca raspada transformando-a numa massa grossa, úmida e branca.
Da massa prensada se extrai a manipueira, um líquido denso que depois de secar será transformado em goma. Uma parte que permanece úmida, a carimã ou puba, é utilizada para fazer bolo. Outra parte da massa é levada ao forno e mexida até que seque e alcance a consistência de farinha. A crueira, fragmentos que não foram completamente triturados, é utilizada para ração animal.
A casa de farinha é um lugar de rituais sertanejos. Desde a apanha da mandioca no roçado até a sua transformação em vários produtos que se destinam ao consumo dos donos da farinhada e a comercialização, encenam-se muitos ritos da convivência humana.
A conversa dá lugar a observações de detalhes sobre tarefas distintas, solicitações diversas e a comentários de toda sorte. Anima-se e/ou questiona-se. Afaga-se ou repele-se conforme o momento e o lugar. Vez por outra, canta-se ou resmunga-se cantigas como desalento. Em geral, uma farinhada vira dias e noites. O contato permanente, principalmente, entre jovens, estimula a paqueras e namoros que ajudam a passar o tempo de modo mais animado.
Luiz Gonzaga, em uma de suas músicas (composição de Zé Dantas) fala de um destes momentos. Diz a cantiga: “Eu tava na peneira, eu tava peneirando / eu tava no namoro, eu tava namorando. Na farinhada, lá da Serra do Teixeira / Namorei uma cabôca, nunca vi tão feiticeira / A mininada descascava macaxeira / Zé Migué no caititú e eu e ela na peneira...”
Ruídos diversos atravessam o espaço, a voz gemida do tangedor que alerta o burro na bolandeira, a tarisca que soa mais forte ou mais leve, conforme o contato com a mandioca que se desfaz em massa, o rodo que espalha a farinha no forno em vai-e-vem nervoso, o alarido das raspadeiras de mandioca em conversas íntimas e gargalhadas que estalam como fruto de mamona, sem que se saiba os motivos. Nesse ritmo passam-se dias inteiros.
Não há idade definida para os freqüentadores das farinhadas. Como se diz, é igual ao jogo de São Severino: joga homem, mulher, menino e os velhos viciados. À noite alta, poucos ficam na lida. Além dos torradores de farinha e prenseiros, casais de jovens que, a pretexto do trabalho, arquitetam paixões.
Tempo de farinhada é tempo de fartura de tudo. Beijus de massa, tapiocas, bolos de goma, farinha e gente que não acaba. A comunidade inteira se mobiliza e se encontra no mesmo lugar, empenhada em participar dos ritos de produção de derivados de mandioca. Em torno da raiz da maniva, a planta que produz a mandioca, os agricultores fazem suas farinhadas, plenas de todos os sentidos que as relações de produção propiciam.
Conta uma lenda indígena que uma indiazinha muito diferente, diferente das demais, nascida em uma aldeia, recebe o nome de Mani. Pequenina, frágil e branca, Mani um dia vem a falecer. No local em que ela é enterrada nasce uma planta que passou a ser conhecida como Mani-Oca, ou seja, casa de Mani. De acordo com esta lenda é que surge o nome mandioca.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A RAZÃO E O VAZIO


Regina estremece quando Armando pergunta-lhe se pode recompor o laço da sua manga da blusa. Ela olhou para o braço direito, na direção em que ele indica com o olhar e percebe que o laço está desfeito. Sorri, com timidez, e consente.
Desde sua chegada ao Rio de Janeiro, Regina não se interessara por namorar ninguém, ainda tem certo receio, mas Armando foi se aproximando devagarzinho, conquistou sua confiança e despertou sentimentos que Regina resguardava. Começaram a sair e àquela noite parecia que o namoro começaria a se firmar.
O gesto de pedir para recompor o laço da manga da blusa adquire para ela o sentido de firmar laços de amor. Parece bobagem, afinal, refazer um laço não tem nada demais, porém, é assim que Regina entende aquela pergunta. Várias vezes pensara contar a Armando da existência de Hermano, o boneco de pano que lhe faz companhia e para quem confia suas confidências. É bem verdade que Regina também não tivera coragem de confidenciar a Hermano os sentimentos que despertavam por conta dos repetidos encontros que vinha mantendo com Armando, mas aquela noite será decisiva, mas antes de aceitar o namoro precisa conversar primeiro com Hermano, não quer deixá-lo ressentido, conclui consigo.
Regina conhecera Armando pela Internet. Achava estranho que com tantos cuidados para não correr riscos com estranhos, tenha justo se aproximado de uma pessoa que conheccera no Twitter. Aparecera em sua timeline alguém com o perfil “ArmandoB” solicitando que fosse seguido, ela aceitou segui-lo e foi-lhe despertando a atenção o bom humor de Armando. Vez ou outra ela comentava ou correspondia a algum ponto de vista. Depois de alguns meses, Regina recebe uma Mensagem Direta (DM) de Armando informando seu e-mail pessoal e pedindo-lhe que informasse o e-mail dela. Ela, de imediato, respondeu por seu e-mail. Desde então, ficaram se falando também via MSN. Foram, um e outro, adicionando-se em Orkut, Facebook etc. e conhecendo-se melhor. Só recente marcaram para se encontrar, visto terem descoberto que moram na zona sul do Rio de Janeiro: ele em Botafogo e ela em Copacabana.
No início, Regina marcou num ponto do calçadão de Copacabana, no posto 3, próximo de sua casa. Ficou pouco tempo e, alegando ter que trabalhar cedinho, não demorou a retornar para casa. Aos poucos, os encontros foram–se sucedendo e ela já fica com ele até mais tarde. Ele vai deixá-la até o portão do prédio onde ela mora, mas nunca sobe. Regina não o convida para subir.
Além de viver em permanente estado de vigília por conta de morar sozinha, no Rio de Janeiro, Regina tem conhecimento dos casos freqüentes de pessoas que são vítimas de outras, conhecidas em redes sociais. Quer primeiro conhecer a família de Armando, tirar qualquer desconfiança e só, então, assumir o namoro firme.
Depois que ele recompôs o laço, ficam os dois olhando-se ternamente por alguns minutos. Daí, o inevitável, uma série de beijos e carinhos, mas sob a atenção de Regina que, vez ou outra, se afasta como a sinalizar seus limites. Armando manifesta, então, o desejo de que Regina vá com ele a sua casa e conheça os pais dele. Regina contrapõe outra possibilidade: organiza um almoço no final de semana e ele traz ao apartamento dela os pais para que ela os conheça. E ficam longamente argumentando e contra argumentando em meio a sorrisos e beijos.
Mas, aos poucos, armando demonstra descontentamento. Regina o envolve com carinho e pede compreensão. Em vão. A discussão ganha ares de rispidez. E, saem dali em direção ao apartamento de Regina. No portão, já meio desestimulados para prosseguir a discussão, Armando despede-se e, num gesto último, puxa as pontas do cordel e desfaz o laço que havia recomposto.

domingo, 10 de outubro de 2010

SOBRE VIVER, O JOGO DA VIDA


Na roda de amigos o assunto que predomina é o jogo que está sendo a mania do momento. Chama-se “Sobre Viver”, assim, separado. Diz-se que isto significa uma reflexão a respeito da vida, ou melhor, do viver. Não é uma destas teorias orientais e nem tem nada a ver com nenhuma delas. Ninguém sabe de onde veio e nem qual a corrente filosófica que o sustenta, o que se sabe é que diz respeito ao estímulo para que se responda de modo diferente às questões que o viver apresenta em cada situação do cotidiano. Ficam de fora as respostas fisiológicas como saciar a fome ou a sede que não teriam a ver com estados de consciência, num primeiro momento. Sim, porque, conforme o nível de compreensão de cada indivíduo até tais questões podem suscitar respostas inteligentes. Assim, a escolha de um caminho, as divergências políticas, religiosas etc., e as transações comerciais, de imediato, podem ser respondidas de diferentes modos. Não há indicação estável para nenhuma situação.
Quanto mais conhecimento o indivíduo detém, mais possibilidades ele pode oferecer para a mesma questão. Mas uma das grandes sensações do jogo é que as respostas não são apresentadas de pronto, mas cada um busca sua resposta através de pistas que um certo jogador vai ofertando a cada participante. Ou seja, o jogo é conduzido por uma espécie de jogador hábil que deixa seus enigmas e cobra de cada participante que os decifre, a moda do coringa, das histórias de Batman. O jogo não oferece prêmios e nem todas as regras estão definidas, joga-se pelo prazer de jogar e as recomendações mais particulares vão se implantando à medida em que se joga.
Outra coisa interessante é que uma vez entrando no jogo, não há um lugar determinado para se jogar, joga-se no viver cotidianamente. Em todas as situações da vida em sociedade. Isto faz com que algumas pessoas nem se dêem conta de que estão participando do jogo. Os jogadores vão formulando suas repostas e seus interlocutores, embora estranhe algumas vezes, certas situações de imprecisão nas situações, sentem-se estimulados a decifrarem os enigmas e já ingressam na condição de jogadores.
A principal indicação é de que as respostas prontas não satisfazem, tem-se que buscar repostas diferentes para as situações mais comuns. Uma situação como, por exemplo, a necessidade de lavar roupas pode ter como enigma trocar a sua roupa suja com alguém que tem roupa limpa propondo para esta pessoa questões que ela deve responder e se não conseguir chegar a tais respostas em tempo determinado e situações pré-estabelecidas, é obrigada realizar a troca. Não pode reclamar ou desistir porque isto não permitido pelas regras básicas do jogo.
O jogo estimula relações mais inteligentes e reações mais racionais diante das diversas situações do cotidiano, estabelecendo entre os jogadores estados de consciência e prazer nas relações e no cumprimento de tarefas mais simples que, em geral, se tornam rotinas enfadonhas e oferecem desgaste na sua realização. Porém, como todas as situações em que há exagero na busca de uma resposta mais inteligente, surgem certos níveis de estresse e até de frustração o que pode gerar desconforto. Nestes casos, é chamado o jogador que conduz o eixo do jogo e este propõe enigmas de recuperação do estado de tranqüilidade a profissionais da área de saúde que deverão dar respostas ao paciente dentro de certa exigüidade de tempo. É uma situação que pode conduzir a uma corrente de situações indesejáveis visto que os próprios profissionais de saúde também podem responder a isto produzindo para si condições estressantes o que vai requerer que sejam também observadas as suas respostas por outros profissionais e assim por diante.
A regra número um deste jogo é que ele não limita o número de seus participantes e ele pode ser recriado a cada necessidade de uma nova resposta, sempre estimulando a capacidade inteligente de seus jogadores, tomando como princípio fundamental cada possa viver melhor.