domingo, 8 de janeiro de 2012

O EX-MARIDO

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Desculpe-me se a minha presença pode causar embaraços a sua felicidade. Não quero de modo algum constrangê-la num momento tão importante de sua vida. Longe de mim tal desejo. É até muito fácil explicar os motivos que me conduziram até aqui, neste momento.
Embora eu não tenha sido um pai muito presente na vida de nossa filha, não posso agora deixar de me preocupar com ela. E, também, com você. Com ela, porque desejo recuperar o meu lugar de pai junto a minha filha. Certo, eu entendo quando você reclama que dou mais atenção aos filhos do meu atual casamento, mas quero agora corrigir isto. Gostaria muito que a minha filha entendesse os meus motivos e baixasse a guarda. Quero muito ter o seu amor, digo, o amor da minha filha. Quero também mostrar a ela o quanto a amo, de verdade. Ainda não sei como conseguirei conquistar a confiança dela, mas é por isto mesmo que eu estou aqui. Penso que você pode ajudar-me.
Mas tem outra coisa que quero dizer, aliás, outras coisas. Primeiro, bom, não sei como dizer isto. Tem a ver com nós dois: eu e você. Nos separamos num momento em que poderíamos ter tentado superar as nossas dificuldades, rompemos uma relação de amor, sem muita resistência. Veja você que hoje já não bebo mais tanto, não sou mais aquela pessoa violenta que conviveu com você. Na verdade, eu nunca quis espancá-la, nunca. Nunca consegui entender porque acabava batendo na pessoa a quem mais amei na vida, mais am.. deixa quieto.
Você mesma conta para as suas amigas que passamos a ter os nossos melhores momentos depois que nos separamos. Eu posso dizer o mesmo. Nas vezes em que ficamos juntos depois de separados, foram os momentos mais felizes que experimentei na minha vida. E você sabe que nestes momentos eu jamais a ameacei, jamais encostei um dedo em você com intenção de machucá-la. Penso que estas coisas todas querem dizer algo de muito positivo. Eu mudei muito, e mudei para melhor.
Parece estranho que eu agora esteja aqui, sobre esta cama, na sua noite de lua de mel, dizendo isto. Mas, também, não me sentiria confortável se deixasse de vir, se deixasse de falar a você o que eu estou falando. Não imagino onde tudo isto vá parar, que conseqüências possa trazer para mim, para nós, mas confesso que me sinto melhor dizendo o que tinha para dizer a você hoje.
Eu entendo, sei que está pensando: que eu tenho outra família e que devo cuidar dela. Certo, tudo bem, você tem razão. Mas eu já tinha esta família quando saímos juntos tantas vezes. Aceito e entendo que você diga que agora é diferente, que agora está casada, que também tem o direito de constituir sua nova família. Não vejo problema, em nenhum dos seus namoros, nenhum dos casos, enfim, em nenhum de seus relacionamentos amorosos tivemos problema para nos entendermos, para sairmos e curtirmos o sentimento que temos em comum.
Você, mais do que ninguém, sabe que nos amamos, que a nossa separação é apenas um acidente de percurso. Uma destas peças que a vida nos prega e a respeito da qual nada podemos fazer. Fomos precipitados na separação, ao buscarmos novas companhias depois. Tudo foi ficando complexo demais e não soubemos resolver uma coisa tão simples e tão cristalina conversando, o fato de que precisamos um do outro.
Não adianta agora usar o meu casamento, o seu casamento para tentar nos livrar disto que nos tem unido todo este tempo e que nos unirá para sempre: o nosso amor. Dito isto, quero concluir dizendo que a minha presença aqui, nesta noite, é apenas o indicativo de que eu estarei presente em sua vida para sempre, não adianta tentar fugir. Você não conseguirá me esquecer, do mesmo modo que eu não conseguiria esquecer você.
Mesmo que esta minha insistência possa constituir uma dificuldade no desejo que eu tenho de reconquistar o afeto da minha filha, não posso simplesmente abrir mão de você. Tenho certeza que se eu contar com o seu empenho, poderemos ver outro meio de superar todos os empecilhos.
Mas hoje é a sua lua de mel e eu quero que você seja muito feliz.

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